Crónicas,  Economia

Portugal e a Liga dos Últimos

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Portugal e a Liga dos Últimos

O país que partiu primeiro, recebeu mais tempo e continua a ver os outros passar.

Há derrotas que acontecem porque o adversário é melhor.

Há outras porque começámos demasiado atrás.

E depois existe uma categoria particularmente dolorosa: as derrotas de quem teve vantagem, teve tempo, teve dinheiro, teve oportunidades e conseguiu mesmo assim ficar para trás.

Portugal começa perigosamente a especializar-se nesta última modalidade.

Em 1986 entrámos na então Comunidade Económica Europeia.

Foi uma mudança histórica.

Entraram fundos. Construíram-se estradas. Modernizaram-se cidades. Chegaram infra-estruturas de água e saneamento. Expandiu-se o ensino superior. Desenvolveram-se telecomunicações. Modernizaram-se empresas. Criaram-se centros de investigação.

Vieram sucessivos quadros comunitários de apoio, fundos de coesão, programas estruturais, fundos agrícolas e, mais recentemente, milhares de milhões do PRR.

Quarenta anos depois seria razoável esperar encontrar Portugal confortavelmente instalado no grupo dos países europeus mais desenvolvidos.

Não necessariamente no topo.

Mas certamente longe da cauda.

A realidade resolveu estragar a cerimónia.

Em 2025, o PIB português por habitante, corrigido pelas diferenças de preços, ficou em apenas 81% da média da União Europeia.

Portugal tinha o nono valor mais baixo dos 27 Estados-Membros.

Não somos os últimos.

É verdade.

Mas talvez essa seja uma consolação demasiado modesta para um país que está há quatro décadas dentro do clube.

A ultrapassagem que devia envergonhar-nos

Existe uma comparação particularmente incómoda.

Olhemos para Leste.

No início da década de 1990, a Lituânia saía da União Soviética e reconstruía instituições, mercados e uma economia profundamente transformada pela transição.

Só entrou na União Europeia em 2004.

Dezoito anos depois de Portugal.

Em 2025, a Lituânia estava em 88% da média europeia de PIB por habitante.

Portugal estava em 81%.

A Chéquia estava em 92%.

A Eslovénia em 91%.

A Polónia já nos tinha alcançado, também nos 81%.

A Estónia estava nos 79%, praticamente à nossa porta.

Não vale a pena procurar refúgio numa interpretação errada: nem todos os antigos países comunistas ultrapassaram Portugal.

Mas alguns já o fizeram.

Outros aproximaram-se perigosamente.

E muitos partiram de condições económicas e institucionais muito mais difíceis.

Essa é a parte que deveria provocar uma discussão nacional profunda.

Mas nós somos extraordinariamente competentes a evitar discussões nacionais profundas.

Preferimos discutir declarações. Polémicas. Casos do dia. Quem insultou quem. Quem se demitiu. Quem devia demitir-se. Quem escreveu uma mensagem há quatro anos.

Enquanto discutimos o ruído, outros países discutem produtividade.

E depois ultrapassam-nos pela direita.

Não faltou dinheiro

Durante décadas habituámo-nos a explicar o atraso português através da pobreza histórica.

Era verdade.

Portugal saiu de uma ditadura pobre, rural, pouco escolarizada e industrialmente atrasada.

Mas uma explicação histórica tem prazo de validade.

Não podemos continuar eternamente a governar em 2026 invocando aquilo que encontrámos em 1974.

Nem podemos culpar Bruxelas.

Portugal foi um beneficiário líquido da integração europeia e recebeu sucessivas vagas de financiamento comunitário.

Quando terminou um programa, apareceu outro.

Quando acabaram determinados fundos estruturais, chegaram novos mecanismos.

Quando surgiu a pandemia, apareceu o PRR.

E quando o dinheiro chegar ao fim, provavelmente criaremos uma comissão para estudar porque não conseguimos desenvolver-nos suficientemente enquanto ele existia.

O problema português nunca foi apenas falta de capital.

Foi demasiadas vezes a qualidade da transformação desse capital.

Construímos.

Mas nem sempre transformámos.

Gastámos.

Mas nem sempre investimos.

Formámos.

Mas nem sempre qualificámos para aquilo de que a economia precisava.

Digitalizámos.

Mas nem sempre simplificámos.

A produtividade, essa criatura desagradável

A palavra que os governos portugueses adoram pronunciar e detestam enfrentar chama-se produtividade.

A OCDE estima que a produtividade laboral portuguesa continua cerca de 17% abaixo da média da organização.

Cerca de 39% do emprego da economia empresarial está concentrado em microempresas, muitas com menor capacidade de gestão profissional, investimento tecnológico e inovação.

E aqui começa o nosso círculo vicioso.

Empresas pequenas têm baixa produtividade.

Baixa produtividade produz salários baixos.

Salários baixos dificultam a atracção de talento.

Pouco talento limita inovação.

Pouca inovação mantém baixa produtividade.

E então aparece o Estado para ajudar.

Cria um programa.

O programa exige candidatura.

A candidatura exige consultoria.

A consultoria exige documentação.

A documentação exige validações.

As validações exigem uma plataforma.

A plataforma não aceita o certificado porque foi emitido numa versão anterior do portal.

Quando finalmente conseguimos apresentar tudo, a empresa que queria inovar já contratou alguém para tratar da burocracia.

É uma forma muito portuguesa de criação de emprego.

Digitalizámos a burocracia

Portugal tem, curiosamente, bons serviços públicos digitais.

A Comissão Europeia reconhece isso.

Temos boa conectividade, serviços públicos digitais amplamente utilizados e uma proporção de especialistas em tecnologias de informação acima da média europeia.

Parece excelente.

Até olharmos para as empresas.

A mesma Comissão diz que Portugal continua atrás dos seus pares europeus na adopção empresarial de tecnologias como inteligência artificial e computação em nuvem e identifica a baixa digitalização das empresas como um problema.

Não destruímos necessariamente a burocracia.

Colocámos-lhe uma password.

O país dos diplomas

Também decidimos que desenvolvimento significava mandar cada vez mais jovens para a universidade.

Era necessário aumentar dramaticamente a escolarização.

E foi uma extraordinária conquista nacional.

Mas cometemos outro erro tipicamente português: transformámos uma boa política numa religião.

Durante décadas insinuámos às novas gerações que sucesso significava licenciatura.

Ensino profissional tornou-se frequentemente uma segunda escolha.

Trabalho técnico passou a parecer socialmente inferior.

E agora descobrimos, profundamente surpreendidos, que faltam electricistas, técnicos de manutenção, soldadores, mecânicos especializados, instaladores, profissionais da construção e inúmeros outros trabalhadores altamente qualificados.

Temos licenciados à procura de emprego compatível com o diploma.

E empresas à procura de técnicos que não existem.

Algures no meio, o sistema educativo apresenta excelentes estatísticas de escolarização.

A economia, ingrata criatura, continua a perguntar:

Governar um país visto de uma secretária

E chegamos ao problema de que falávamos.

Uma parte significativa das nossas elites dirigentes circula dentro de universos institucionais.

Universidade. Assessoria. Partido. Gabinete. Administração Pública. Instituto. Parlamento. Governo. Regulador. Conselho. Comissão.

São frequentemente pessoas inteligentes e qualificadas.

O problema não é falta de inteligência.

É falta de diversidade de experiência.

Poucos passaram vinte anos a gerir uma PME.

Poucos tiveram de encontrar clientes.

Poucos tiveram de pagar salários numa sexta-feira sem saber se o cliente liquidaria a factura na segunda.

Poucos tiveram uma máquina industrial parada.

Poucos dependeram da exportação de um produto.

Poucos passaram anos numa oficina.

Poucos tiveram de competir realmente num mercado internacional.

E então acontece aquilo que seria previsível.

Governam aquilo que estudaram.

Mas nem sempre compreendem profundamente aquilo que governam.

Os países de Leste não tinham escolha

Há uma razão adicional para o sucesso relativo de vários países que emergiram do antigo bloco soviético.

Eles não tinham o luxo da continuidade.

Quando recuperaram independência ou abandonaram economias planificadas, muitas instituições tiveram de ser reconstruídas.

Era brutal.

Mas permitiu-lhes perguntar:

Portugal fez demasiadas vezes outra pergunta:

“Como conseguimos informatizar aquilo que já fazemos?”

A Estónia construiu um Estado digital e continua hoje a apresentar serviços públicos digitais de excelência e elevada adopção de tecnologias avançadas.

Portugal digitalizou partes importantes de um Estado cuja arquitectura administrativa nasceu antes da era digital.

Parecem frases semelhantes.

Não são.

Um sistema criado de raiz para funcionar digitalmente pode eliminar processos.

Um sistema antigo digitalizado pode simplesmente obrigar-nos a preencher exactamente o mesmo absurdo, agora através de um browser.

E, no entanto, Portugal não está a falir

Esta distinção é importante.

Portugal não é um desastre económico.

Tem crescido acima da média da área do euro desde 2022.

Reduziu significativamente a dívida pública.

Tem desemprego relativamente baixo.

Possui boas infra-estruturas.

Exporta mais do que há algumas décadas.

Tem empresas extraordinárias em sectores tecnológicos e industriais.

Produz investigação de qualidade.

A própria OCDE reconhece progressos económicos recentes.

E isso torna a situação mais frustrante, não menos.

Porque significa que temos os ingredientes.

O problema está na dificuldade crónica de os transformar numa economia de elevada produtividade, salários elevados e empresas capazes de ganhar escala.

Não somos um país incapaz.

Somos um país persistentemente abaixo das próprias possibilidades.

É muito diferente.

E talvez muito mais imperdoável.

A Liga dos Últimos

Portugal não está actualmente em último lugar na União Europeia.

Nem sequer está entre os três últimos.

Mas permanece demasiado próximo deles para o tempo, dinheiro e oportunidades de que dispôs.

Essa é a nossa verdadeira Liga dos Últimos.

Não é uma classificação exacta.

É uma condição mental.

É habituarmo-nos ao 81%.

É festejar quando subimos dois lugares.

É comparar-nos sempre com quem está pior.

É explicar porque não podíamos fazer melhor.

É olhar para a Bulgária e dizer:

“Vejam, não somos os últimos.”

Quando devíamos olhar para a Chéquia, a Lituânia, a Eslovénia ou a Estónia e perguntar:

Um país ambicioso compara-se com quem quer alcançar.

Um país resignado compara-se com quem ainda não o ultrapassou.

O problema já não é falta de tempo

Portugal teve mais de cinquenta anos de democracia.

Quarenta anos de integração europeia.

Milhares de milhões de euros de fundos.

Paz.

Fronteiras abertas.

Mercado único.

Euro.

Universidades.

Infra-estruturas.

Tecnologia.

Acesso aos maiores mercados do planeta.

Já não podemos continuar a dizer que precisamos apenas de mais tempo.

Tivemos tempo.

Também não podemos continuar a pedir eternamente mais dinheiro.

Tivemos dinheiro.

O que precisamos agora é algo que nenhum fundo europeu consegue comprar:

Capacidade de execução.

Responsabilização.

Menos burocracia.

Mais concorrência.

Ensino profissional prestigiado.

Ciência ligada à economia.

Empresas capazes de crescer.

Capital produtivo.

Tecnologia aplicada.

Gestores competentes.

Estado eficiente.

E governantes que conheçam Portugal não apenas através de relatórios, mas também através do contacto prolongado com a sociedade que pretendem transformar.

Porque existe uma verdade particularmente desconfortável.

E talvez a maior reforma de todas não esteja num ministério, num orçamento ou num novo programa europeu.

Está em recuperar uma ambição que parece ter desaparecido lentamente:

deixar de perguntar como evitar ficar para trás e começar finalmente a perguntar o que é necessário fazer para chegar à frente.

Porque países muito mais pobres já demonstraram que é possível.

Alguns começaram décadas depois de nós.

E passaram por nós.

O resto já não é História.

É responsabilidade.

Nota Editorial

Referências e publicações internacionais

Aletheia Veritas
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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