📷 A televisão portuguesa: um atentado à inteligência, um insulto à dignidade
📷 A televisão portuguesa: um atentado à inteligência, um insulto à dignidade.
O deserto da dignidade: como a televisão portuguesa nos trata como menores de idade
Ensaio sobre a degradação dos conteúdos televisivos, a ausência de investigação e o papel da televisão pública na anestesia colectiva
As televisões portuguesas, públicas e privadas, transformaram-se num autêntico atentado à inteligência. Os conteúdos são degradantes, repetitivos e desprovidos de qualquer valor cultural, informativo ou estético. A programação é uma sucessão de programas de entretenimento rasteiro, talk-shows de baixo clero, novelas intermináveis, debates fabricados e noticiários que se confundem com publicidade. Não há profundidade, não há investigação, não há dignidade.
Os canais públicos, que deviam ser um serviço público de referência, são hoje uma extensão do poder político e uma máquina de entretenimento barato. As suas grelhas são ocupadas por programas de baixa qualidade, que privilegiam o sensacionalismo e a audiência fácil em detrimento da informação rigorosa e do debate de ideias. Os canais privados, por sua vez, competem entre si para ver quem desce mais o nível. O resultado é um empobrecimento cultural e cívico de uma nação que merecia mais.
🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto é irmã gémea da farsa televisiva — onde o vazio se vende como entretenimento e a ignorância como opinião.
A televisão pública: uma missão falhada
📺 O serviço público que se tornou um serviço do poder
A RTP foi criada para ser a voz do país, um espaço de informação isenta, cultura e cidadania. Hoje, é uma sombra do que devia ser. A sua programação é uma mistura de novelas, concursos de entretenimento e noticiários que mais parecem boletins ministeriais. A direcção da RTP é, há anos, uma nomeação política. Quem lá está não serve o país — serve o partido que o colocou no cargo. E isso nota-se. As notícias são moldadas para agradar ao poder, as críticas são suavizadas, os assuntos incómodos são colocados em segundo plano. A televisão pública deixou de ser um serviço público para ser uma arma de propaganda consentida.
📉 O império do sensacionalismo
Se a RTP serve o poder, os canais privados servem o mercado — e o mercado quer audiência, não qualidade. Os canais privados competem entre si para ver quem apresenta o conteúdo mais degradante, mais apelativo, mais vazio. A televisão portuguesa trata o espectador como um adulto com necessidades infantis. O que conta é o escândalo, a polémica, o choro, o grito. As notícias são curtas, superficiais, repetidas em loop. Os comentadores são escolhidos pela sua capacidade de gritar, não de argumentar. As entrevistas são encenações em que o jornalista faz perguntas ensaiadas e o entrevistado responde com frases-feitas.
• 70% da programação da RTP1 é entretenimento de baixa qualidade.
• 0 programas de investigação jornalística semanal na televisão portuguesa.
• 20% do tempo de antena é ocupado por publicidade ou autopromoção.
• 5 minutos — duração média de uma peça jornalística sobre um tema complexo.
• 90% dos entrevistados em talk-shows são figuras públicas conhecidas, não especialistas.
A investigação que não existe
A investigação jornalística é uma raridade na televisão portuguesa. O que se vê são “exclusivos” que não passam de comunicados de imprensa. As grandes reportagens desapareceram. O jornalismo de profundidade foi substituído pelo jornalismo de reacção. A cultura é marginalizada, a ciência é ignorada, o pensamento crítico é excluído. A televisão portuguesa não informa — desinforma. Não educa — entorpece. Não questiona — confirma.
A cumplicidade do espectador e do regulador
A culpa não é apenas dos canais. É também do público que aceita, do regulador que se cala e dos políticos que se servem da televisão em vez de a servirem. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) raramente intervém. As queixas dos espectadores são ignoradas. Os políticos, que deviam defender a qualidade do serviço público, usam a RTP como arma de arremesso partidário. A televisão é um negócio — e o negócio não quer qualidade, quer lucro.
O que fazer (para recuperar a dignidade do ecrã)
Conclusão: a televisão que queremos — ou a que merecemos
A televisão portuguesa está doente. Os canais públicos são arautos do poder, os canais privados são máquinas de entretenimento vazio, os jornalistas são cronistas da superfície, e os espectadores, resignados, aceitam o que lhes dão. Mas a televisão não tem de ser assim. Pode ser um espaço de informação rigorosa, debate de ideias, cultura e cidadania. Só que isso exige vontade política, exigência cívica e uma audiência que não se contente com as migalhas do sensacionalismo.
Até quando vamos tolerar que nos tratem como um público menor de idade, incapaz de exigir melhor? Até quando vamos aceitar que a televisão pública seja uma arma do governo e a privada um fast-food de opiniões? O deserto da dignidade não é eterno — mas é preciso querer sair dele.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (anterior ao AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


