O Teatro da Realidade Paralela
O Teatro da Realidade Paralela
Quando a política fala para si própria e chama a isso país
Nota de abertura:
Esta crónica usa sátira e generalização literária para discutir um fenómeno real da comunicação política digital: a tendência para redes profissionais e políticas formarem circuitos relativamente homogéneos de interacção, reputação e validação. Não pretende afirmar que os likes ou comentários de qualquer pessoa concreta provenham de amigos, familiares ou interesses coordenados, nem que toda a comunicação política no LinkedIn seja fechada ou irrelevante.
Há uma espécie de país que existe sobretudo no LinkedIn.
Nesse país, Portugal está sempre “a transformar-se”.
A economia está “a consolidar trajectórias”.
A Administração Pública está “a modernizar-se”.
As cidades estão “mais resilientes”.
As empresas estão “mais competitivas”.
Os cidadãos estão “no centro das políticas”.
E os antigos ministros, secretários de Estado, presidentes de câmara, administradores públicos, assessores e dirigentes partidários publicam longas reflexões sobre o futuro, acompanhadas de fotografias sorridentes, conferências bem iluminadas e frases cuidadosamente polidas.
Por vezes lê-se aquilo e fica-se com a sensação de que Portugal resolveu quase tudo.
Só falta avisar os portugueses.
O QUE DEVE SER RETIDO
- Redes sociais tendem a aproximar utilizadores com características, interesses ou opiniões semelhantes, fenómeno conhecido como homofilia.
- Estudos sobre comunicação política mostram que pequenos grupos muito activos podem amplificar fortemente a visibilidade de actores políticos.
- Investigação comparativa em 15 países europeus encontrou associação entre o alinhamento ideológico de políticos e as audiências das fontes noticiosas que partilham.
- O LinkedIn tem sido estudado academicamente como plataforma de comunicação política e construção de liderança.
- Likes, comentários e partilhas medem interacção, mas não constituem, por si só, uma amostra representativa da opinião pública.
I. O PALCO DIGITAL
O LinkedIn nasceu como rede profissional.
Transformou-se entretanto em muita coisa.
Currículo permanente.
Montra empresarial.
Feira de vaidades.
Agência de emprego.
Sala de conferências.
E, inevitavelmente, palco político.
Antigos governantes descobriram ali uma forma extraordinariamente confortável de permanecer no espaço público.
Não precisam de eleições.
Não precisam de entrevistas incómodas.
Não precisam de jornalistas a interromper raciocínios preparados.
Publicam.
E esperam.
Pouco depois chegam os aplausos.
“Excelente reflexão.”
“Muito pertinente.”
“Subscrevo inteiramente.”
“Visão fundamental para o futuro do país.”
É uma liturgia.
Mudam os nomes.
O ritual permanece.
II. A COOPERATIVA DO APLAUSO
Existe uma curiosa reciprocidade nestes círculos.
Hoje um antigo ministro publica uma reflexão.
Amanhã outro antigo governante comenta.
Depois o primeiro comenta a publicação do segundo.
Um presidente de instituição aparece para felicitar ambos.
Um antigo assessor acrescenta que a reflexão “merece ser lida”.
Outro político partilha.
Outro agradece.
E assim se cria um circuito quase perfeito.
Todos legitimam todos.
Todos citam todos.
Todos elogiam todos.
E lentamente aparece uma ilusão perigosa: a sensação de relevância social produzida pela validação interna.
O problema não é que essas pessoas sejam amigas.
Nem sequer que pertençam aos mesmos círculos profissionais.
O problema surge quando o círculo começa a confundir-se com a sociedade.
III. QUANDO O ECO COMEÇA A PARECER OPINIÃO PÚBLICA
As redes sociais têm uma característica antiga com roupagem tecnológica.
Aproximam semelhantes.
Políticos seguem políticos.
Consultores seguem consultores.
Administradores seguem administradores.
Jornalistas seguem jornalistas.
Académicos seguem académicos.
Ao fim de algum tempo, uma pessoa pode viver rodeada por centenas de opiniões e, ainda assim, praticamente nunca ouvir alguém verdadeiramente diferente.
É a velha aldeia.
Só que agora tem fibra óptica.
Quando um antigo governante publica que Portugal “deu passos históricos na modernização do Estado” e recebe dezenas de comentários concordantes, pode começar sinceramente a acreditar nisso.
O algoritmo ajuda.
Mostra-lhe sobretudo pessoas e conteúdos próximos das suas redes, interesses e padrões de interacção.
A política ajuda.
Os antigos colegas confirmam.
Os assessores validam.
Os amigos felicitam.
E o resultado é uma espécie de realidade aumentada institucional.
IV. EXISTEM DOIS PORTUGAIS
Num deles, apresentado nas redes profissionais, Portugal está permanentemente a avançar.
No outro, alguém espera meses por uma consulta.
Alguém tenta perceber por que razão uma licença demora uma eternidade.
Alguém procura casa e não consegue pagar a renda.
Alguém tem formação superior e recebe pouco mais de mil euros.
Uma pequena empresa perde horas tentando compreender procedimentos públicos.
Um empresário desiste de um investimento perante uma sucessão de autorizações.
Um reformado tenta falar com um serviço público que responde através de outro portal que remete para outro formulário.
São dois países.
Um produz apresentações.
O outro tenta sobreviver às consequências.
V. A LINGUAGEM DA REALIDADE PARALELA
O teatro necessita de linguagem própria.
E a política moderna aperfeiçoou-a.
Não existem falhanços.
Existem “desafios”.
Não existem atrasos.
Existem “processos em curso”.
Não existem burocracias absurdas.
Existem “mecanismos de articulação”.
Não existem políticas fracassadas.
Existem “áreas que exigem aprofundamento”.
Não existem serviços públicos degradados.
Existem “constrangimentos operacionais”.
Não existem cidadãos zangados.
Existem “percepções que importa compreender”.
A língua portuguesa tornou-se suficientemente flexível para permitir governar até sobre ruínas sem utilizar a palavra ruína.
VI. A MARAVILHOSA CLAREZA DOS EX-GOVERNANTES
Existe depois um fenómeno particularmente fascinante.
A lucidez que aparece quando alguém deixa o Governo.
Um antigo ministro escreve: “Portugal precisa urgentemente de reduzir a burocracia.”
Excelente.
Alguém poderia perguntar: E enquanto foi ministro?
Outro afirma: “Precisamos de uma Administração Pública mais ágil.”
Magnífico.
Talvez pudesse ter mencionado isso ao Governo onde esteve.
Outro descobre: “O país precisa de melhorar a produtividade.”
Revelação histórica.
Outro explica: “Temos de criar condições para fixar talento jovem.”
Curiosamente, muitos desses jovens emigraram enquanto ele exercia funções.
É quase uma lei física da política.
A distância do poder aumenta dramaticamente a capacidade de diagnosticar aquilo que não foi resolvido quando se estava no poder.
VII. O ANTIGO GOVERNANTE COMO COMENTADOR DO PRÓPRIO LEGADO
Há algo ainda mais extraordinário.
Alguns antigos responsáveis analisam os problemas nacionais como se tivessem chegado ontem ao país.
Escrevem sobre habitação.
Saúde.
Educação.
Justiça.
Administração Pública.
Produtividade.
Demografia.
Falta de planeamento.
E fazem-no como observadores externos.
Quase antropólogos.
“Portugal apresenta dificuldades estruturais…”
Sim.
E quem governou Portugal durante as últimas décadas?
Os fenícios?
Os visigodos?
Uma delegação secreta da Mongólia?
Existe uma conveniente amnésia biográfica na análise política portuguesa.
VIII. O PALCO E A PLATEIA
No teatro tradicional existe uma separação clara.
Actores de um lado.
Público do outro.
Na realidade paralela digital, essa divisão desapareceu.
Os actores tornaram-se também audiência.
Um político publica.
Outro político aplaude.
Um consultor elogia.
Um dirigente associa-se.
Um antigo secretário de Estado comenta.
Um administrador republica.
E todos concluem que houve “grande impacto”.
Talvez tenha havido.
Mas impacto dentro de quê?
É possível ter enorme influência numa sala onde estão apenas vinte pessoas.
O problema começa quando as vinte acreditam representar dez milhões.
IX. O LIKE COMO UNIDADE DE LEGITIMIDADE
As redes criaram uma métrica irresistível.
O like.
É simples.
Visível.
Imediato.
E quase completamente desprovido de contexto.
Um antigo governante publica uma reflexão e recebe cem likes.
Parece relevante.
Mas a contagem, por si só, não nos diz quem compõe aquela audiência, quão diversa ela é ou se representa minimamente o país.
Pode incluir antigos colegas, assessores, dirigentes partidários, empresários conhecidos, consultores, familiares, amigos ou simplesmente seguidores genuinamente interessados.
Nada disso retira legitimidade à publicação.
Mas também não a transforma automaticamente numa amostra representativa da sociedade portuguesa.
Cem aplausos numa sala de conhecidos continuam a ser cem aplausos.
Só não são um referendo.
X. A POLÍTICA COMO PROFISSÃO DE CIRCUITO FECHADO
Existe uma consequência mais profunda.
Quando o universo político se fecha sobre si próprio, as relações começam a substituir a realidade.
Os mesmos nomes circulam entre Governo, empresas públicas, autarquias, universidades, fundações, consultoras, associações, conselhos de administração, televisões, comissões e conferências.
Depois reencontram-se no LinkedIn.
É quase impossível abandonar verdadeiramente o palco.
Mudam apenas de cadeira.
XI. PORQUE É QUE ISTO IMPORTA?
Seria fácil reduzir tudo isto a vaidade.
Mas seria insuficiente.
O problema é político.
Uma democracia precisa de mecanismos de correcção.
Precisa de ouvir desconforto.
Precisa de escutar pessoas que não pertencem ao circuito.
Precisa de conflito.
Precisa de crítica.
Precisa de contacto com aquilo que não aparece numa conferência.
Quando uma elite recebe predominantemente validação de outras elites, perde informação.
E quando perde informação, começa a tomar decisões sobre um país que existe apenas parcialmente.
É assim que surgem os grandes espantos eleitorais.
“Como é possível este resultado?”
“Como cresceu tanto o protesto?”
“Porque estão os cidadãos tão zangados?”
Talvez porque durante anos os cidadãos estiveram a falar.
Só não estavam na lista de contactos certa.
XII. O MOMENTO EM QUE A BOLHA REBENTA
Há sempre um momento desagradável em que a realidade entra em palco sem convite.
Uma eleição.
Uma crise.
Uma manifestação.
Uma sondagem.
Uma taxa de abstenção.
Uma vaga de emigração.
Um colapso de serviço público.
Uma revolta social.
Nesse momento, o discurso cuidadosamente preparado deixa de funcionar.
Porque a realidade não lê posts.
Não participa em webinars.
Não conhece o moderador da conferência.
Não recebeu convite para o jantar institucional.
A realidade simplesmente aparece.
E geralmente traz contas.
XIII. NÃO É UM PROBLEMA DO LINKEDIN
Convém dizê-lo.
O LinkedIn não criou isto.
Apenas tornou o fenómeno mais visível.
Os círculos políticos sempre existiram.
Clubes.
Salões.
Gabinetes.
Jantares.
Fundações.
Associações.
Conselhos.
O que as redes fizeram foi colocar o vidro na parede.
Agora conseguimos observar mecanismos de validação mútua em tempo quase real.
É quase um laboratório sociológico.
XIV. O TEATRO DA REALIDADE PARALELA
Imagine-se a cena.
Um palco magnífico.
Luzes.
Bandeiras.
Um púlpito.
No ecrã aparece: PORTUGAL 2035 — CONSTRUIR O FUTURO.
Um antigo ministro fala sobre inovação.
Outro sobre modernização.
Um terceiro sobre talento.
Na primeira fila estão antigos ministros, secretários de Estado, administradores, consultores e presidentes de instituições.
Todos acenam.
Todos concordam.
Todos aplaudem.
No final tiram uma fotografia.
Publicam-na no LinkedIn.
Legenda: “Um debate fundamental sobre o futuro do país.”
Em poucas horas aparecem os comentários.
“Excelente iniciativa.”
“Portugal precisa destes debates.”
“Parabéns pela visão.”
“Um contributo essencial.”
E talvez tenha sido realmente uma boa conferência.
Mas há uma pergunta inconveniente.
Onde estava o país?
O palco pode estar cheio, as luzes acesas e os aplausos garantidos. Ainda assim, a primeira fila nunca é o país inteiro.
XV. A POLÍTICA QUE PRECISAMOS
Uma elite política saudável não precisa de deixar de falar consigo própria.
Precisa de deixar de falar apenas consigo própria.
Precisa de ouvir quem constrói.
Quem programa.
Quem fabrica.
Quem ensina.
Quem cura.
Quem vende.
Quem transporta.
Quem repara.
Quem investiga.
Quem cuida.
Quem paga impostos.
Quem tenta abrir uma empresa.
Quem espera num hospital.
Quem procura emprego.
Quem vive fora dos circuitos institucionais.
É aí que está o país.
Não apenas nas conferências.
Não apenas nos gabinetes.
Não apenas nas redes.
XVI. QUANDO TERMINA A REPRESENTAÇÃO
Talvez o maior perigo para uma democracia não seja um político mentir deliberadamente sobre a realidade.
É algo mais subtil.
É acreditar sinceramente na realidade que o seu próprio círculo lhe devolve.
Porque nesse momento a propaganda deixa de ser estratégia.
Transforma-se em percepção.
E torna-se muito mais difícil corrigir.
O político publica: “Portugal está no caminho certo.”
Os amigos aplaudem.
Os colegas concordam.
Os antigos assessores partilham.
O algoritmo confirma.
E durante alguns minutos parece realmente verdade.
Lá fora, alguém fecha uma empresa.
Outro compra um bilhete de avião para emigrar.
Outro espera por uma consulta.
Outro tenta falar com um serviço público.
Mas esses não carregaram no botão.
Talvez seja essa a grande ironia do nosso tempo.
Nunca tivemos tantos meios para comunicar com toda a sociedade.
E nunca foi tão fácil construir pequenos mundos onde apenas ouvimos aqueles que já concordavam connosco.
O palco continua iluminado.
Os actores continuam a representar.
A primeira fila continua a aplaudir.
Só existe um pequeno detalhe que talvez um dia alguém tenha de explicar aos actores:
a primeira fila não é Portugal.
E o aplauso de quem está no palco nunca poderá substituir o silêncio de quem ficou lá fora.
Nota Editorial
Esta crónica é uma peça de opinião satírica sobre cultura política, redes profissionais e mecanismos de auto-validação. As personagens e situações descritas são tipos sociais e construções literárias; não correspondem a uma acusação dirigida a qualquer antigo ministro, secretário de Estado, autarca, assessor ou outro titular concreto.
A literatura científica utilizada como enquadramento sustenta a existência de homofilia, comunidades relativamente homogéneas, exposição selectiva e mecanismos de amplificação nas redes sociais. Não sustenta, porém, a afirmação de que todas as redes políticas sejam câmaras de eco, de que cada audiência seja ideologicamente fechada ou de que os likes numa publicação política provenham necessariamente de relações pessoais.
O ponto editorial é mais simples: métricas de interacção digital podem gerar uma percepção de relevância superior ao seu alcance social real, sobretudo quando a audiência pertence ao mesmo ecossistema profissional, institucional ou político. Numa democracia saudável, comunicação entre elites é legítima; torna-se problemática apenas quando substitui a escuta efectiva da sociedade.
Referências credíveis
- Communications Physics / Nature — Quantifying opinion homophily in online social networks from a bounded confidence perspective (2026)
- Political Communication — The Same Views, the Same News? A 15-Country Study on News Sharing on Social Media by European Politicians (2025)
- University of Edinburgh — investigação sobre partilha de notícias por políticos europeus
- Political Research Quarterly — Echo Chambers or Doom Scrolling? Homophily, Intensity, and Exposure to Elite Social Media Messages
- New Media & Society — Few voices, strong echo: Measuring follower homogeneity of politicians’ Twitter accounts
- Social Science Computer Review — How Centralized is Party Communication on Social Media? (2025)
- Universidad de La Laguna — LinkedIn como plataforma de comunicación política (2024)
- Nature Communications — Patterns of partisan toxicity and engagement reveal the common structure of online political communication across countries
- Humanities and Social Sciences Communications / Nature — Community dynamics and echo chambers: a longitudinal study
- European Journal of Communication — To polarize or not to polarize? Unveiling 2024 European election communication strategies
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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