Jorge de Sena e o Portugal que Ainda Não Mudou
Jorge de Sena e o Portugal que Ainda Não Mudou
O poeta que percebeu que uma revolução pode mudar o regime sem conseguir mudar os costumes
Nota de abertura:
Esta crónica não pretende reduzir Jorge de Sena a uma profecia política nem atribuir-lhe, palavra por palavra, expressões contemporâneas como “nepotismo” ou “política como modo de vida”. Parte da sua crítica ao provincianismo, ao conformismo, ao compadrio e à promoção da mediocridade para observar as continuidades de um Portugal que mudou profundamente nas instituições, mas nem sempre nos hábitos.
Jorge de Sena pertence àquela rara espécie de portugueses que o país prefere admirar depois de mortos.
Em vida, foi incómodo, impaciente, ferozmente culto e incapaz de fingir respeito por aquilo que não o merecia. Não possuía o talento nacional para a reverência estratégica, para o elogio oportuno ou para o silêncio cuidadosamente administrado. Pensava demasiado, escrevia com excessiva liberdade e tinha o péssimo hábito de reconhecer a mediocridade mesmo quando esta se apresentava de fato escuro, título académico e lugar reservado na primeira fila.
Portugal nunca soube muito bem o que fazer com homens assim.
Quando não os consegue domesticar, empurra-os para a margem. Quando partem, acusa-os de ressentimento. Quando morrem, inaugura-lhes uma rua.
Sena viveu grande parte da sua vida no exílio, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Não porque lhe faltasse ligação a Portugal, mas porque Portugal lhe faltava como país intelectual, político e moral. Amava-o com a fúria de quem conhece aquilo que ele poderia ter sido e não perdoa aquilo que escolheu ser.
A sua crítica não era a do estrangeiro indiferente.
Era a do português que sabia demasiado.
Sabia que a mediocridade nacional não era apenas falta de talento. Era um sistema de protecção. Uma máquina de seleccionar os dóceis, recompensar os discretos, promover os convenientes e expulsar os que não aceitavam baixar a cabeça perante a hierarquia do momento.
Mudavam os governos. Ficavam os hábitos. Mudavam os ministros. Permaneciam os corredores. Mudavam as bandeiras. Sobreviviam os compadres.
Abril e a ilusão da transformação imediata
Jorge de Sena recebeu o 25 de Abril com esperança.
Como tantos portugueses, viu na queda da ditadura a possibilidade de um país finalmente livre, educado, responsável e capaz de se olhar ao espelho sem recorrer à censura, à polícia política ou ao velho nevoeiro imperial.
Mas Sena não era homem para confundir esperança com ingenuidade.
Percebeu rapidamente que uma revolução pode derrubar um regime numa madrugada, mas não consegue substituir, por decreto, a cultura acumulada durante séculos.
A liberdade chegou às ruas.
A maturidade não veio no mesmo avião.
Portugal descobriu os partidos, as eleições, os comícios, os sindicatos, as palavras de ordem e a extraordinária possibilidade de cada cidadão se considerar representante exclusivo da vontade popular.
O país que durante décadas fora proibido de falar começou subitamente a gritar.
Nem sempre começou a pensar.
O 25 de Abril abriu as portas do futuro, mas por essas portas entraram também velhos vícios com novos cartões partidários. O compadrio mudou de vocabulário. O favor passou a chamar-se confiança política. A fidelidade pessoal tornou-se lealdade institucional. A ocupação do Estado ganhou a dignidade burocrática de nomeação.
A mediocridade não desapareceu. Democratizou-se.
A política como profissão e refúgio
Sena percebeu que a democracia portuguesa corria o risco de produzir uma nova classe social: a dos profissionais permanentes da política.
Homens e mulheres que não entrariam na política para servir temporariamente a comunidade, mas para nela construir uma carreira, uma identidade, uma rede de influência e, sempre que possível, uma aposentação confortável.
A política deixaria de ser missão.
Passaria a ser modo de vida.
O deputado tornar-se-ia secretário de Estado. O secretário de Estado passaria a ministro. O ministro regressaria ao Parlamento. Depois seguiria para uma empresa pública, uma entidade reguladora, uma fundação, uma administração ou uma consultora que, por coincidência constitucional, teria contratos com o Estado.
Chamaram-lhe experiência.
Por vezes, era apenas circulação interna.
Criou-se uma espécie de metro político nacional, com estações no Parlamento, no Governo, nas empresas públicas, nas autarquias, nas universidades, nas fundações e nos grandes escritórios de interesses.
Os passageiros raramente abandonavam a rede.
Mudavam apenas de linha.
O cidadão comum, esse, permanecia à superfície, esperando um autocarro que chegava atrasado.
A mediocridade bem relacionada
Jorge de Sena não combatia apenas a ignorância.
Combatia a ignorância convencida de que era competência.
Essa é uma forma muito mais resistente de mediocridade.
O medíocre comum pode aprender. O medíocre protegido considera-se já uma referência nacional. Possui amigos, cargos, convites, medalhas e fotografias em cerimónias suficientes para confundir visibilidade com mérito.
Portugal aperfeiçoou esta figura.
É o especialista em tudo sem obra conhecida.
É o dirigente que nunca responde por resultado algum.
É o administrador cuja principal competência consiste em ter sido anteriormente administrador.
É o comentador que explica o país há vinte anos sem nunca ter previsto correctamente uma terça-feira.
É o político que atravessa todas as crises com a solidez de uma peça de mobiliário pertencente ao Estado.
Sena reconhecia neste mecanismo uma tragédia cultural.
Um país que não distingue mérito de proximidade acaba por expulsar os melhores e promover os disponíveis. Depois lamenta a fuga de cérebros, como se os cérebros tivessem abandonado Portugal por uma inexplicável tendência migratória e não por exaustão moral.
O país envia os competentes para o estrangeiro.
Depois organiza conferências sobre talento nacional.
O nepotismo como tradição discreta
Portugal raramente pratica o nepotismo de forma grosseira.
Prefere a elegância institucional.
Não se nomeia um familiar por ser familiar. Nomeia-se porque possui um perfil adequado, uma experiência relevante e, por acaso, almoça todos os domingos com quem tomou a decisão.
Não se favorece um amigo.
Reconhece-se o seu mérito numa análise rigorosamente independente, realizada por pessoas que também são amigas.
Não se entrega um cargo a alguém do partido.
Escolhe-se uma personalidade de confiança, sendo naturalmente impossível confiar em quem nunca distribuiu cartazes, frequentou congressos ou partilhou derrotas eleitorais.
O resultado é um Estado atravessado por famílias políticas, círculos profissionais e redes de influência que se reproduzem com admirável eficiência.
Há filhos de antigos dirigentes que descobrem precocemente vocação para a vida pública.
Há cônjuges que revelam extraordinária competência para cargos próximos do poder.
Há assessores que se tornam deputados, deputados que se tornam governantes e governantes que nomeiam antigos assessores.
Jorge de Sena não precisaria de grande adaptação para reconhecer este Portugal.
Talvez apenas actualizasse alguns nomes.
A democracia portuguesa transformou a mobilidade social numa árvore genealógica.
O país que prefere cerimónias a consequências
Um dos traços mais persistentes de Portugal é a capacidade para transformar a responsabilidade numa cerimónia.
Quando algo corre mal, anuncia-se uma comissão.
Quando a comissão termina, produz-se um relatório.
Quando o relatório identifica falhas, emitem-se recomendações.
Quando as recomendações não são cumpridas, cria-se um grupo de acompanhamento.
Quando o grupo falha, muda-se o nome do organismo.
Ninguém é responsável.
Todos participaram.
O sistema absorve o erro, distribui-o por várias páginas e devolve-o à sociedade em formato PDF.
Jorge de Sena compreenderia perfeitamente esta engenharia moral. Ele conhecia a velha arte portuguesa de dissolver a culpa no colectivo até que cada interveniente ficasse apenas com uma fracção insuficiente para provocar vergonha.
Um país sem consequências torna-se um país sem aprendizagem.
A impunidade não precisa de corrupção generalizada.
Basta a certeza de que o fracasso raramente interrompe uma carreira.
A cultura tratada como decoração
Sena foi poeta, ensaísta, ficcionista, crítico, tradutor e professor.
Para Portugal, isto constituía quase uma provocação.
O país sempre declarou enorme respeito pela cultura, desde que a cultura se mantivesse decorativa, grata e suficientemente distante do poder.
A cultura pode abrir congressos.
Pode acompanhar recepções oficiais.
Pode fornecer citações para discursos de ministros que nunca leram o autor citado.
O que não deve fazer é incomodar.
Jorge de Sena incomodava.
Não aceitava que a literatura fosse um ramo ornamental do patriotismo. Não escrevia para confirmar a grandeza nacional nem para oferecer consolo às elites. Escrevia para rasgar os tecidos respeitáveis que cobriam o provincianismo, a cobardia, a hipocrisia e o conformismo.
Portugal, como qualquer país pequeno com imaginação imperial, aprecia muito os escritores que lhe dizem que é grandioso.
Sena dizia-lhe que podia ser melhor.
É uma mensagem muito menos popular.
Celebrar Sena sem o escutar
Hoje, Jorge de Sena é estudado, homenageado, publicado e citado.
Há colóquios, teses, exposições e cerimónias.
O país reconheceu finalmente a sua grandeza, depois de ter garantido que o reconhecimento já não teria consequências práticas para a vida do autor.
É uma tradição nacional.
Camões morreu pobre.
Pessoa morreu quase anónimo.
Sena morreu longe.
Depois, Portugal apropriou-se deles como prova de uma grandeza cultural que tantas vezes recusou apoiar enquanto estava viva.
Celebrar Sena sem escutar a sua crítica é a última forma de o neutralizar.
Transformá-lo num nome respeitável, numa fotografia em sépia, numa frase académica e numa data comemorativa permite evitar a parte desagradável: ele falava de nós.
Não apenas do Estado Novo.
Não apenas da censura.
Não apenas da sociedade portuguesa do seu tempo.
Falava da nossa disposição permanente para aceitar a mediocridade desde que venha acompanhada de autoridade.
Falava da nossa tolerância perante o compadrio.
Falava da nossa reverência pelos cargos.
Falava da facilidade com que confundimos estabilidade com imobilismo e moderação com cobardia.
O Portugal que ainda não mudou
Portugal mudou muito desde a morte de Jorge de Sena.
É uma democracia europeia, alfabetizada, aberta ao mundo, tecnologicamente transformada e socialmente muito diferente.
Mas algumas estruturas profundas continuam intactas.
O mérito ainda perde frequentemente para a proximidade.
A responsabilidade continua a evaporar-se nos corredores.
A administração pública permanece vulnerável à ocupação partidária.
A política continua a funcionar como profissão vitalícia para demasiadas pessoas.
As elites protegem-se enquanto explicam ao povo a importância do rigor.
A mediocridade mantém uma capacidade surpreendente para se organizar.
Não devemos fingir que nada mudou.
Mas também não devemos aceitar que a mudança formal nos dispense de observar as continuidades morais.
O país que Jorge de Sena criticou já não é o mesmo.
E, no entanto, reconhecemo-lo.
Reconhecemo-lo quando um cargo vale mais do que uma obra.
Quando uma amizade pesa mais do que um currículo.
Quando um fracasso produz uma promoção lateral.
Quando uma auditoria termina sem responsáveis.
Quando um governante abandona o cargo e reaparece noutra instituição antes de o cidadão terminar de compreender por que saiu.
Reconhecemo-lo quando a competência precisa de emigrar e a mediocridade possui lugar de estacionamento reservado.
A pátria possível
Apesar de toda a violência verbal da sua crítica, Jorge de Sena não era um inimigo de Portugal.
Era inimigo da resignação portuguesa.
A sua dureza nascia de uma exigência moral: um país não deve ser avaliado apenas pelo que foi, mas pelo que poderia tornar-se.
Sena recusava a ideia de que o atraso, a pequenez e o compadrio fossem características inevitáveis da alma nacional. Sabia que chamar tradição ao vício é uma forma de desistência.
Portugal não está condenado à mediocridade.
Mas precisa de deixar de a premiar.
Não está condenado ao nepotismo.
Mas precisa de deixar de o justificar.
Não está condenado a transformar a política numa profissão hereditária.
Mas precisa de exigir que o poder seja temporário, transparente e responsável.
Não está condenado a expulsar os melhores.
Mas precisa de criar um país onde os melhores não tenham de pedir desculpa pela sua excelência.
Jorge de Sena percebeu que a liberdade não se completa quando cai uma ditadura.
Completa-se quando uma sociedade aprende a não se ajoelhar perante os novos donos da normalidade.
Passaram quase cinco décadas desde a sua morte.
Portugal continua democrático.
Continua europeu.
Continua livre.
Mas ainda precisa de se libertar de si próprio.
Talvez seja essa a grande actualidade de Jorge de Sena: não nos deixou apenas uma obra.
Deixou-nos um espelho.
E o que mais incomoda não é que o espelho seja antigo. É que o rosto continue reconhecível.
O QUE DEVE SER RETIDO
- O exílio de Jorge de Sena não diminuiu a sua ligação a Portugal; tornou mais aguda a distância crítica.
- A mudança de regime não eliminou automaticamente o compadrio, o provincianismo ou a promoção dos obedientes.
- A profissionalização excessiva da política favoreceu circuitos fechados entre partidos, Governo, Parlamento e empresas públicas.
- A cultura portuguesa continua muitas vezes a homenagear os criadores depois de neutralizar a força incómoda da sua obra.
- Portugal mudou profundamente desde 1974, mas conserva continuidades morais que exigem escrutínio e reforma.
- A actualidade de Sena reside menos em ter previsto nomes concretos e mais em ter reconhecido mecanismos duradouros.
Nota Editorial
Esta crónica não pretende apropriar-se de Jorge de Sena como selo de confirmação para todas as críticas contemporâneas ao sistema político português. Sena foi um escritor demasiado vasto, complexo e intelectualmente livre para caber numa palavra de ordem.
A aproximação aqui feita é interpretativa. Parte da sua denúncia do provincianismo, do conformismo cultural, da reverência perante as hierarquias e da promoção da mediocridade para observar problemas que continuam reconhecíveis no Portugal democrático.
Não se afirma que nada tenha mudado desde o 25 de Abril. Portugal conquistou liberdade política, direitos sociais, educação, abertura europeia e uma transformação profunda das condições de vida. Negá-lo seria tão intelectualmente pobre como fingir que a democracia eliminou automaticamente o compadrio, a irresponsabilidade e a ocupação do Estado por redes de influência.
Celebrar Jorge de Sena exige mais do que citar poemas, organizar colóquios ou colocar o seu nome numa rua. Exige suportar a pergunta incómoda que atravessa a sua obra: que país estamos a construir quando o mérito continua a pedir licença e a mediocridade entra pela porta reservada?
Sena não nos deixou uma desculpa para desprezar Portugal. Deixou-nos uma obrigação de o exigir melhor. O seu espelho continua diante de nós. Partir o espelho seria fácil; difícil é corrigir o rosto.
Referências credíveis
- Camões — Instituto da Cooperação e da Língua: Jorge de Sena
- Imprensa Nacional — O Essencial sobre Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço
- Biblioteca Nacional de Portugal — Espólio Jorge de Sena
- Biblioteca Nacional de Portugal — Jorge de Sena: As Máscaras do Poeta
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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