Política Internacional

Gaza: reconstruir antes de desarmar?

Spread the love

CRÓNICA | POLÍTICA INTERNACIONAL

Gaza: reconstruir antes de desarmar?

Portugal anunciou 250 mil euros para o Horizon Fund. A intenção humanitária é compreensível. A pergunta difícil é outra: quem consegue garantir que a ajuda chega efetivamente aos palestinianos num território onde o Hamas continua armado?

Portugal anunciou uma contribuição de 250 mil euros para o Horizon Fund, mecanismo lançado pelas Nações Unidas e pela Autoridade Palestiniana para apoiar a recuperação dos territórios palestinianos, com prioridade para Gaza.

A intenção humanitária é compreensível. Gaza está devastada e a população civil necessita de habitação, água, saneamento, cuidados de saúde e condições mínimas para reconstruir a vida.

Mas existe uma pergunta que não pode desaparecer atrás da linguagem diplomática:

Quem consegue garantir que a ajuda chega efetivamente aos palestinianos num território onde o Hamas continua armado?

Há anos que a comunidade internacional fala em desarmamento, desmilitarização, novas autoridades palestinianas, fiscalização internacional e reconstrução segura.

Mas o problema fundamental permanece. O relatório internacional sobre a implementação da Resolução 2803 reconhece que o desarmamento completo das fações armadas ainda não foi concluído e estabelece que a reconstrução deverá avançar em áreas certificadas como desmilitarizadas. O mesmo relatório considera a desmilitarização uma condição básica para a confiança dos doadores e para uma reconstrução duradoura.

Então perguntemos ao Governo português aquilo que interessa ao contribuinte:

Quem controla os recursos quando chegam ao terreno?

Quem garante que dinheiro, materiais, combustível, equipamentos ou contratos não ficam sujeitos à interferência de uma organização armada?

Que organização internacional possui capacidade real — não apenas administrativa — para impedir essa interferência?

E se a comunidade internacional ainda não conseguiu concretizar plenamente o desarmamento do Hamas, com que grau de certeza pode garantir aquilo que acontecerá aos recursos destinados à reconstrução?

O próprio Horizon Fund reconhece, nos seus termos de referência, que a sua teoria de mudança depende da manutenção do cessar-fogo, do compromisso do Hamas e de outros grupos armados e da existência das condições de segurança e acesso necessárias à execução dos projetos. Ou seja: o mecanismo internacional possui regras de governação, gestão de risco e fiscalização, mas a sua própria documentação reconhece que a segurança no terreno é uma condição externa essencial.

Isto não é um argumento contra ajudar os palestinianos. Pelo contrário. Se a ajuda é destinada aos civis, temos a obrigação de fazer tudo para que sejam os civis a recebê-la.

Também não é legítimo concluir, sem provas, que todo o dinheiro acabará no Hamas. Há ajuda internacional que chega efetivamente à população. O relatório internacional de 2026 refere mesmo uma forte redução estimada do desvio da ajuda em espécie facilitada pelas Nações Unidas desde novembro de 2025. Mas o próprio relatório mantém alertas relativos a tributação ilegal e desvio por grupos armados.

E os riscos não são apenas teóricos. Em julho de 2026, um responsável das Nações Unidas acusou elementos ligados ao Hamas de interferirem numa operação do Programa Alimentar Mundial; o Hamas contestou essa caracterização. O episódio ilustra precisamente a dificuldade: entre a decisão financeira tomada numa capital europeia e o beneficiário final existe uma cadeia logística a operar num território profundamente militarizado.

Por isso, responder aos contribuintes com duas palavras — “organizações internacionais” — não chega.

As organizações internacionais podem fiscalizar, auditar, contratar e distribuir. Podem reduzir riscos. O que não podem fazer por simples decisão administrativa é eliminar um poder armado que continua presente no terreno.

E chegamos à pergunta politicamente incómoda:

Se durante anos a comunidade internacional não conseguiu resolver o problema do desarmamento do Hamas, com que fundamento pode o Governo português assegurar aos cidadãos que o dinheiro público destinado à recuperação ficará protegido da interferência de estruturas armadas?

Talvez exista uma resposta tecnicamente convincente.

Nesse caso, apresente-se: quais os projetos financiados, em que zonas, por que entidades executoras, segundo que critérios de segurança, com que auditoria e com que mecanismo de suspensão caso seja detetado desvio ou interferência?

Porque solidariedade é necessária.

Ingenuidade não é.

Referências

  1. Nações Unidas — Horizon Fund: Building a bridge to recovery and reconstruction, 28 abril 2026.
  2. Nações Unidas — Implementation of UN Security Council Resolution 2803 (2025): Report of the Board of Peace through the Office of the High Representative for Gaza (S/2026/418), 2026.
  3. Nações Unidas / União Europeia / Banco Mundial — Final Gaza Rapid Damage and Needs Assessment, 20 abril 2026.
  4. Reuters — UN official says Hamas obstructing aid in Gaza, 13 julho 2026.
  5. Reuters — US provides $206 million for Gaza force despite deadlocked peace plan, 19 agosto 2026.
  6. Renascença — Portugal e Palestina vão criar comissão conjunta para aprofundar cooperação, 14 setembro 2026.

Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos