A Justiça Vai a Julgamento
A Justiça Vai a Julgamento
Tragicomédia democrática em vários recursos, com intervalo para prescrição
Portugal é uma democracia onde todos são iguais perante a lei.
Uns são apenas mais iguais durante mais tempo.
A Constituição garante direitos, liberdades e garantias com uma elegância literária admirável. É um texto luminoso, digno, quase comovente. Depois chega a realidade, limpa os óculos, pede uma senha e manda o cidadão aguardar sentado.
A Justiça portuguesa representa-se tradicionalmente como uma senhora vendada, segurando uma balança e uma espada.
A venda simboliza a imparcialidade.
A balança simboliza o equilíbrio.
A espada, ao que tudo indica, está à espera de autorização administrativa para ser utilizada.
Quanto à senhora, permanece imóvel há tantos anos que já deveria beneficiar de suplemento por condições penosas de trabalho.
O tribunal do tempo
Em Portugal, um processo judicial não começa.
Germina.
É depositado cuidadosamente num tribunal, recebe um número, uma capa e um conjunto promissor de carimbos. Depois entra num ciclo de crescimento orgânico: requerimentos, despachos, recursos, incidentes, perícias, contraditórios, aclarações e outras formas jurídicas de fotossíntese.
Ao fim de alguns anos, o processo adquire volume, densidade e personalidade própria.
Os cidadãos envelhecem.
Os advogados mudam de escritório.
Os juízes são transferidos.
As testemunhas esquecem-se.
Os documentos amarelecem.
E o processo continua jovem, porque o tempo judicial não se rege pelo calendário humano.
Rege-se por uma dimensão paralela onde cinco anos correspondem a “brevemente” e quinze anos ainda podem ser considerados uma tramitação complexa, mas perfeitamente normal.
A Justiça portuguesa não é lenta.
É contemplativa.
Gosta de examinar os factos com profundidade. Tanta profundidade que, por vezes, os factos acabam soterrados.
Quando finalmente surge uma sentença, já ninguém se lembra exatamente de como começou o caso. O autor morreu, o réu reformou-se, a testemunha principal emigrou e o prédio em disputa foi transformado em alojamento local.
Mas a Justiça chegou.
Chegou tarde, cansada e com um despacho de duzentas páginas explicando por que motivo não poderia ter chegado mais cedo.
O cidadão e o balcão
O cidadão comum entra num tribunal com a ingénua convicção de que vai procurar justiça.
Rapidamente percebe que deveria ter trazido um mapa, uma pós-graduação em procedimentos administrativos e uma reserva financeira para vários anos.
No balcão, pergunta:
“Quanto tempo poderá demorar?”
O funcionário olha para ele com a ternura reservada aos inocentes.
“Depende.”
“Depende de quê?”
“Do processo.”
“E o processo depende de quê?”
“Do tempo que demorar.”
É uma lógica circular, perfeita e inexpugnável. Se fosse aplicada à engenharia, as pontes nunca cairiam porque nunca chegariam a ser construídas.
O cidadão entrega papéis, certidões, comprovativos, declarações e cópias autenticadas. Quando acredita ter concluído, descobre que falta o documento destinado a provar que os documentos já entregues são verdadeiramente documentos.
Regressa dias depois.
A plataforma informática está indisponível.
O sistema foi modernizado.
A justiça para cima e para baixo
A lei portuguesa possui uma característica notável: adapta a velocidade ao peso social do destinatário.
Quando se trata de um cidadão com uma pequena dívida, uma multa de estacionamento ou uma prestação fiscal em atraso, o Estado adquire a agilidade de um predador.
Chegam notificações, juros, custas, penhoras e advertências numa sequência de eficiência quase militar.
A máquina pública sabe onde o cidadão mora, onde trabalha, quanto recebe e em que conta bancária guarda os últimos euros antes do fim do mês.
Mas quando o processo envolve poder, dinheiro, influência e dezenas de advogados, a máquina transforma-se subitamente numa peça de arqueologia industrial.
Range.
Aquece.
Pede manutenção.
Ninguém sabe ao certo onde está o manual.
Os processos mais importantes tornam-se épicos nacionais. São divididos em volumes, fases, apensos e episódios. A comunicação social acompanha-os durante anos, apresenta cronologias, reconstituições e painéis de comentadores.
O público envelhece diante da televisão.
Os protagonistas aprendem a dizer “confio na Justiça” com uma serenidade exemplar, sobretudo quando conhecem profundamente a velocidade dela.
Confiar na Justiça é muito mais fácil quando se dispõe de tempo, património e uma equipa jurídica capaz de recorrer até da pontuação da sentença.
O pobre teme a Justiça.
O rico gere-a.
A gloriosa instituição do recurso
Portugal é um Estado de direito, mas sobretudo um Estado de recurso.
Recorre-se da sentença, do despacho, da decisão, da interpretação da decisão e, se necessário, da existência do próprio processo.
O recurso é uma das grandes realizações da cultura jurídica nacional. Permite que nenhuma conclusão seja verdadeiramente conclusiva e que nenhuma responsabilidade chegue desacompanhada de uma segunda, terceira ou quarta oportunidade.
A Democracia agradece.
Sem recursos, alguns processos poderiam acabar ainda durante a vida dos envolvidos, criando um perigoso precedente de eficácia.
Há recursos para tribunais superiores, reclamações, nulidades, incidentes e pedidos de esclarecimento. Em casos especialmente sofisticados, pode pedir-se ao tribunal que esclareça o esclarecimento anterior.
É o infinito aplicado ao Direito.
Os matemáticos chamariam série divergente.
Os juristas chamam garantias processuais.
O cidadão chama terça-feira.
A prescrição, essa libertadora
Por vezes, a Justiça trabalha tanto tempo sobre um caso que acaba por descobrir a solução mais portuguesa de todas: já não é necessário decidir.
Prescreveu.
A prescrição é o momento em que o relógio absolve aquilo que o tribunal não conseguiu julgar.
Não declara inocência.
Não prova culpa.
Limita-se a anunciar que o tempo venceu.
É uma espécie de indulto concedido pelo calendário.
Depois de anos de investigação, milhares de páginas, buscas, perícias e conferências de imprensa, chega-se à conclusão de que já passou demasiado tempo para chegar a qualquer conclusão.
Todos lamentam.
Os responsáveis garantem que foram respeitadas as regras.
Os comentadores explicam a complexidade.
O cidadão paga as custas coletivas e regressa à vida com aquela sensação reconfortante de que o sistema funcionou exatamente como estava desenhado.
Talvez esse seja o problema.
A Democracia entra em cena
A Democracia portuguesa aparece no segundo ato.
Veste uma faixa com as cores nacionais, traz um boletim de voto numa mão e um livro de promessas na outra. Sorri para a plateia e garante que o poder pertence ao povo.
O povo olha em redor para perceber quem o está a usar.
De quatro em quatro anos, os cidadãos são chamados a escolher os administradores do seu descontentamento.
Durante a campanha eleitoral, todos os partidos descobrem a Justiça.
Prometem tribunais mais rápidos, magistrados em número suficiente, sistemas informáticos funcionais, combate à corrupção, transparência, responsabilidade e respeito pelas instituições.
Depois das eleições, a reforma da Justiça é enviada para uma comissão.
A comissão consulta especialistas.
Os especialistas produzem um relatório.
O relatório propõe um grupo de trabalho.
O grupo de trabalho recomenda uma estratégia.
A estratégia estabelece prioridades.
As prioridades aguardam cabimento orçamental.
E a Justiça continua a contemplar o horizonte, vendada, mas já não surpreendida.
A independência muito acompanhada
Os políticos repetem solenemente que a Justiça é independente.
Repetem-no tantas vezes que o cidadão começa a suspeitar que alguém anda a tentar convencê-la.
A independência das instituições é celebrada em discursos, cerimónias e entrevistas. Todos respeitam a separação de poderes, sobretudo quando o poder separado toma decisões convenientes.
Quando não toma, surgem dúvidas institucionais, preocupações democráticas e interpretações alternativas do princípio constitucional.
O poder político nunca interfere na Justiça.
Limita-se a nomear, comentar, reformar, reorganizar, orçamentar e manifestar surpresa.
É uma distância respeitosa, semelhante à de alguém que não toca no tabuleiro, mas escolhe as peças e apaga a luz da sala.
Também a Justiça evita interferir na política.
Por isso, quando um processo ameaça aproximar-se perigosamente de um calendário eleitoral, todos garantem que os timings são puramente processuais.
A coincidência é uma instituição nacional sem estatuto jurídico, mas com presença constante.
A transparência opaca
Numa democracia madura, as instituições devem ser transparentes.
Em Portugal, são translúcidas.
Vê-se que há alguma coisa do outro lado, mas nunca com nitidez suficiente para identificar responsáveis.
Quando surge um escândalo, abre-se um inquérito.
O inquérito é interno.
As conclusões são reservadas.
As responsabilidades são difusas.
As recomendações são genéricas.
E as medidas corretivas serão implementadas oportunamente.
“Apurar responsabilidades” é uma expressão muito utilizada porque permite demonstrar firmeza sem cometer o erro precipitado de encontrar um responsável.
A responsabilidade em Portugal funciona como uma conta de restaurante entre quinze pessoas: todos participaram, ninguém sabe exatamente o que consumiu e, no fim, paga o contribuinte.
O julgamento da Democracia
Chega então o ato final.
A própria Democracia é chamada ao banco dos réus.
O juiz pergunta:
“É verdade que prometeu igualdade perante a lei?”
“É verdade.”
“É verdade que permitiu processos intermináveis, prescrições, desigualdade de recursos e impunidade aparente?”
A Democracia baixa os olhos.
“Fui mal executada.”
O Ministério Público levanta-se:
“A arguida deseja identificar os responsáveis?”
A Democracia consulta os partidos, os reguladores, os governos, os conselhos superiores e as comissões parlamentares.
Todos olham para o teto.
A defesa pede a palavra:
“A responsabilidade é sistémica.”
A sala suspira de alívio.
Quando a responsabilidade é sistémica, ninguém precisa de arrumar a secretária.
O juiz decide ordenar uma reforma estrutural urgente.
Para o efeito, será criado um grupo de trabalho multidisciplinar, encarregado de apresentar conclusões preliminares no prazo de dezoito meses.
A sentença é recebida com aplausos.
Lá fora, um cidadão aguarda há doze anos por uma decisão.
Pergunta ao advogado:
“E agora?”
O advogado fecha a pasta e responde:
“Agora esperamos.”
Epílogo para uma República paciente
Portugal continua a ser uma democracia.
Há eleições, parlamento, tribunais, imprensa, partidos, direitos e liberdade de expressão. Tudo existe.
O problema é a distância entre existir e funcionar.
Uma democracia não morre apenas quando desaparecem as urnas. Também adoece quando a lei deixa de inspirar confiança, quando a responsabilidade se dissolve, quando a justiça tarda até perder sentido e quando o cidadão conclui que o sistema é severo com os frágeis e cerimonioso com os poderosos.
A Justiça tardia não é apenas lenta.
É outra coisa.
É uma promessa que chega depois de já não poder reparar o dano.
É uma porta que se abre quando a casa já ardeu.
É uma absolvição para quem resistiu financeiramente e uma condenação para quem não conseguiu esperar.
Ainda assim, o país prossegue.
Os tribunais acumulam processos.
Os políticos acumulam reformas.
As comissões acumulam relatórios.
E os cidadãos acumulam aquela forma muito portuguesa de sabedoria amarga que consiste em já esperar pouco para sofrer menos.
No alto da escadaria do tribunal, a estátua da Justiça continua vendada.
Talvez não seja para garantir imparcialidade.
Talvez seja apenas para não assistir ao espetáculo.
Ao lado, a Democracia segura a urna e pergunta:
“Confiam em nós?”
Do fundo da fila, alguém responde:
“Depende.”
“Depende de quê?”
“Do tempo que demorar.”
E a cortina fecha lentamente.
Por atraso processual.


