A escola da média — quando Portugal confunde inclusão com falta de exigência
A escola da média
Quando Portugal confunde inclusão com falta de exigência — e China e Singapura mostram que reduzir pressão não obriga a reduzir conhecimento.
A comparação que incomoda
Há comparações que são injustas.
E há comparações que são incómodas precisamente porque obrigam a fazer perguntas que preferíamos evitar.
China e Singapura não são Portugal.
Possuem culturas diferentes, sistemas políticos diferentes, estruturas familiares diferentes, escalas diferentes e histórias educativas diferentes.
Mas quando dois sistemas conseguem colocar uma percentagem muito elevada dos seus alunos nos níveis superiores de Matemática, Ciências e Leitura, enquanto Portugal regressa praticamente aos níveis de desempenho de 2006, há pelo menos uma pergunta legítima:
o que é que eles continuam a exigir aos alunos que nós deixámos de exigir?
Os números não precisam de adjectivos
No PISA 2025, Portugal obteve resultados próximos da média da OCDE, mas muito distantes dos sistemas asiáticos de topo.
Em Matemática, Portugal ficou nos 460 pontos, Singapura nos 563 e B-S-J-Z (China) nos 612.
Em Leitura, Portugal obteve 462, Singapura 535 e B-S-J-Z 527.
Em Ciências, Portugal ficou nos 482, enquanto Singapura atingiu 560 e B-S-J-Z 597.[1][2][4]
Mais importante ainda: apenas 6% dos alunos portugueses atingiram os níveis superiores em Matemática, contra 37% em Singapura e 54% em B-S-J-Z (China).[1][2]
Não é uma pequena diferença.
É uma diferença de sistema.
PISA 2025 — TRÊS SISTEMAS, TRÊS ESCALAS DE EXIGÊNCIA
- Portugal: 460 Matemática, 462 Leitura, 482 Ciências; 6% de alunos de topo em Matemática.[1]
- Singapura: 563 Matemática, 535 Leitura, 560 Ciências; 37% de alunos de topo em Matemática e 22% em Leitura.[2]
- B-S-J-Z (China): 612 Matemática, 527 Leitura, 597 Ciências; 54% de alunos de topo em Matemática.[3]
- A OCDE identifica B-S-J-Z e Singapura como os dois sistemas com melhor desempenho global nas três áreas principais do PISA 2025.[4]
- Portugal regressou, nas três áreas, para perto dos níveis observados em 2006, revertendo os progressos anteriores.[1]
- Singapura reduziu carga avaliativa e aboliu exames intercalares sem abandonar diferenciação por níveis e avaliação externa.[6][9]
China: aprender continua a ser uma coisa séria
O sistema chinês mantém uma ideia que o Ocidente começou a tratar com alguma desconfiança:
o conhecimento é acumulativo.
Antes de pensamento crítico existe matéria sobre a qual pensar.
Antes de criatividade matemática existem números, álgebra, geometria, cálculo e resolução de problemas.
Antes de inovação científica existem conceitos, método, disciplina e treino.
Isto não significa que o sistema chinês seja exemplar em tudo.
Está associado a forte pressão académica, competição intensa e grande peso de exames.
A própria China reconheceu os excessos e lançou a política Double Reduction, destinada a reduzir trabalho de casa excessivo e a dependência de explicações privadas.[10]
Mas há aqui uma distinção que Portugal deveria estudar:
Reduzir sofrimento não é reduzir conhecimento
O Ministério da Educação chinês tem vindo a limitar exames desnecessários, controlar a dificuldade dentro dos padrões curriculares, reduzir carga excessiva e proteger sono e descanso.
Ao mesmo tempo, reforça ciência, tecnologia, educação digital e desenvolvimento de talento de topo.[11][12]
Isto desmonta uma confusão frequente.
Há duas formas de reduzir pressão.
Uma é eliminar repetição inútil, excesso de trabalhos, ansiedade artificial e competição absurda.
A outra é baixar o padrão.
Não são a mesma coisa.
Um sistema pode exigir muito e organizar melhor essa exigência.
Singapura é a comparação mais interessante
Singapura talvez seja ainda mais útil para Portugal.
Porque também percebeu que um sistema demasiado competitivo podia produzir problemas.
Começou então a reduzir exames e diferenciação excessivamente precoce.
Eliminou avaliações classificativas nos primeiros anos e retirou exames intercalares em todos os níveis a partir de 2025.[6]
Mas não confundiu menos exames com menos rigor.
Essa diferença é fundamental.
Diferenciar sem humilhar
Com o Full Subject-Based Banding, Singapura abandonou a velha separação rígida entre percursos inteiros e passou a permitir que cada aluno frequente disciplinas em níveis diferentes.
Um aluno pode estar num nível avançado em Matemática e noutro nível numa disciplina diferente.
O sistema reconhece assim uma realidade evidente:
as pessoas não possuem exactamente as mesmas capacidades em tudo.
Desde 2024, o modelo foi plenamente implementado no secundário, permitindo ajustar níveis de disciplina de acordo com forças e necessidades individuais.[7]
E a partir de 2027, o novo certificado secundário comum manterá exames por níveis G1, G2 e G3.[9]
Ou seja:
Menos exames. O mesmo padrão.
Talvez seja uma das lições mais importantes de Singapura.
É possível reduzir a obsessão pela classificação permanente e manter padrões elevados.
É possível aliviar pressão sem fingir que domínio e desempenho deixaram de importar.
É possível reconhecer diferenças sem transformar alunos em castas.
É possível ter uma escola mais humana sem a tornar intelectualmente menos séria.
E até os melhores precisam de escola
Em 2026, Singapura anunciou que aumentaria o acesso a programas destinados a alunos com capacidades académicas elevadas.
Cerca de 10% da coorte poderá beneficiar de extensões curriculares e módulos avançados, contra cerca de 7% anteriormente.[8]
Esta decisão encerra uma ideia que em Portugal ainda provoca desconforto:
os alunos mais fortes também têm necessidades educativas.
Deixá-los passar anos a trabalhar abaixo da sua capacidade não é igualdade.
É desperdício.
Portugal: o problema não é o material humano
Seria fácil concluir que os alunos portugueses simplesmente não querem trabalhar.
Os dados não permitem essa caricatura.
Os alunos portugueses mostram níveis relevantes de motivação para aprender, e a maioria declara receber apoio dos professores.
O problema parece, portanto, mais estrutural do que moral.
Temos alunos capazes.
Temos professores que, em muitos casos, tentam ensinar.
Mas os resultados deterioraram-se.
Segundo a OCDE, desde 2015 a proporção de alunos abaixo do nível mínimo aumentou 11 pontos percentuais em Matemática, 11 em Leitura e 7 em Ciências; os resultados de 2025 regressaram perto dos níveis de 2006.[1]
Onde desapareceu a exigência
Não acredito que a falta de exigência portuguesa se explique apenas por menos testes.
Ela está sobretudo na definição de sucesso.
Durante anos fomos progressivamente deslocando a pergunta:
«O aluno sabe?»
para:
«O aluno transitou?»
Uma escola pode aumentar taxas de conclusão e simultaneamente reduzir domínio efectivo.
A estatística administrativa melhora.
O conhecimento não necessariamente.
E quando o sistema começa a premiar mais a progressão do que a aprendizagem, o incentivo torna-se evidente:
é mais fácil adaptar a fasquia ao aluno do que levar o aluno até à fasquia.
A escola não serve apenas para impedir o fracasso
Uma política educativa decente deve evitar abandono, exclusão e desigualdade.
Mas esse é apenas metade do trabalho.
A outra metade consiste em descobrir talento e levá-lo tão longe quanto possível.
Portugal tem apenas 6% de alunos nos níveis superiores de Matemática.
Singapura tem 37%.
Quando discutimos educação quase exclusivamente em torno dos que ficam para trás, esquecemos uma pergunta igualmente importante:
quantos estamos a impedir de chegar mais longe?
A falsa igualdade
Existe uma ideia sedutora:
se todos receberem exactamente a mesma coisa, todos foram tratados de forma justa.
Não é verdade.
Um aluno com dificuldades precisa de mais apoio.
Um aluno excepcional precisa de mais desafio.
Dar exactamente o mesmo a ambos pode ser administrativamente igual.
Educativamente é absurdo.
A igualdade de oportunidades não exige igualdade de percurso.
Exige que cada aluno tenha condições reais para desenvolver o seu potencial.
O paradoxo social
Há um aspecto ainda mais perverso na escola nivelada pela média.
As famílias com recursos conseguem comprar diferenciação.
Explicadores.
Escolas privadas.
Programas internacionais.
Olimpíadas.
Cursos.
Experiências no estrangeiro.
Quem depende exclusivamente da escola pública depende daquilo que ela decidir exigir.
Se a escola pública baixar o padrão em nome da inclusão, quem mais perde pode ser precisamente o aluno brilhante de uma família pobre.
Talvez ninguém descubra que ele poderia ter sido matemático, cientista ou engenheiro.
Isso não é inclusão.
É uma forma discreta de reprodução social.
Exigência não é autoritarismo
Há ainda um erro conceptual importante.
Exigir não significa humilhar.
Não significa gritar.
Não significa reprovar por prazer.
Não significa transformar a escola num quartel.
Exigência significa:
existem conhecimentos e competências que tens de dominar.
Se ainda não os dominas, ajudamos-te.
Mas não fingimos que já sabes.
Esta diferença parece pequena.
É toda a diferença entre educação e certificação.
A palavra quase proibida
Há uma palavra que deveríamos recuperar:
falhar.
Falhar um teste não deveria ser uma tragédia.
Pode simplesmente significar:
ainda não sabes isto suficientemente bem.
Estuda.
Corrige.
Tenta novamente.
É precisamente assim que funciona ciência, engenharia, programação e quase toda a actividade humana séria.
Um sistema que tenta eliminar todas as pequenas derrotas pode estar a impedir a aprendizagem da capacidade mais importante:
recuperar de uma derrota.
A IA torna o problema mais urgente
Em Portugal, 48% dos alunos de 15 anos disseram usar semanalmente chatbots de IA para aprender; 34% usam-nos para redigir trabalhos.[1]
Isto altera radicalmente o problema.
Quando uma máquina consegue produzir um texto aceitável em segundos, uma escola pouco exigente pode começar a certificar alunos que aprenderam sobretudo a pedir respostas.
Mas avaliar uma resposta produzida por IA exige conhecimento.
Perceber uma alucinação exige conhecimento.
Questionar uma conclusão exige conhecimento.
A IA não reduz a importância da aprendizagem.
Aumenta-a.
O modelo que Portugal deveria estudar
Não copiaria a China.
Nem copiaria Singapura.
Copiar sistemas educativos é uma das formas mais rápidas de importar soluções sem importar o contexto que as tornou possíveis.
Mas retiraria princípios.
Currículos claros.
Conhecimentos fundamentais sólidos.
Leitura séria.
Escrita.
Matemática.
Ciências.
História.
Línguas.
Programação e literacia digital.
Depois:
pensamento crítico.
criatividade.
IA.
interdisciplinaridade.
Porque pensamento crítico sem conhecimento prévio é apenas opinião bem apresentada.
A escola exigente que eu defenderia
Seria uma escola exigente e simultaneamente inclusiva.
O aluno com dificuldades receberia apoio intensivo.
O aluno médio teria objectivos claros.
O aluno excepcional teria conteúdos mais avançados.
O professor recuperaria autoridade pedagógica.
A avaliação serviria para descobrir o que foi aprendido, não para produzir tranquilidade estatística.
A reprovação seria último recurso, mas a passagem automática também deixaria de ser solução.
E o currículo teria estabilidade suficiente para permitir aos professores ensinar em vez de sobreviver a sucessivas reformas.
Ninguém abandonado. Ninguém limitado.
Talvez esta seja a fórmula mais simples.
Ninguém limitado em cima.
Isso é inclusão.
O resto pode ser apenas nivelamento.
O exame ao futuro
China e Singapura não educam para o mesmo tipo de sociedade.
Nem Portugal deveria querer imitá-las integralmente.
Mas existe algo que ambos os sistemas compreenderam:
educação é infra-estrutura estratégica.
Não é apenas política social.
É produtividade.
Ciência.
Tecnologia.
Defesa.
Indústria.
Capacidade de adaptação.
Autonomia nacional.
Quando um país reduz a exigência escolar, a factura não chega imediatamente.
Chega vinte anos depois.
Na produtividade.
Nos salários.
Na inovação.
Na qualidade das instituições.
Na capacidade de distinguir informação de propaganda.
E já não pode ser corrigida com um novo despacho ministerial.
Portugal educa para passar?
Seria injusto afirmar que todo o sistema português educa apenas para passar.
Há excelentes escolas.
Excelentes professores.
Excelentes alunos.
Projectos extraordinários.
Mas a orientação política das últimas décadas criou demasiadas vezes a sensação de que o principal indicador de sucesso é a redução do insucesso administrativo.
Quando o aluno passa, o problema desaparece da estatística.
Não necessariamente da cabeça do aluno.
A diferença
China parece dizer:
«Aprende porque tens de dominar isto.»
Singapura está a aproximar-se de:
«Domina isto, mas podemos encontrar o percurso adequado às tuas capacidades.»
Portugal corre o risco de dizer:
«O importante é não ficares para trás.»
Eu preferiria outra frase:
«O importante é descobrirmos até onde consegues chegar — e exigirmos de ti o esforço necessário para lá chegares.»
A escola que não tem medo da excelência
Inclusão sem exigência pode produzir mediocridade.
Exigência sem apoio pode produzir exclusão.
A boa escola recusa ambas.
Apoia quem precisa.
Exige de quem pode.
Descobre talento.
Ensina conhecimento.
Permite falhar.
Obriga a corrigir.
E não tem vergonha da palavra excelência.
Porque Portugal pode continuar a discutir taxas de sucesso escolar.
China e Singapura estão a discutir outra coisa:
quem estará preparado para competir pelo futuro.
Nota Editorial
Referências credíveis
- OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Portugal
- OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Singapore
- OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): B-S-J-Z (China)
- OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Student performance
- OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Executive Summary
- Singapore Ministry of Education — Education Conversations: Nurturing the Joy of Learning
- Singapore Ministry of Education — Education Statistics Digest 2024
- Singapore Ministry of Education — Committee of Supply 2026 announcements
- Singapore Ministry of Education — Committee of Supply 2024: Full Subject-Based Banding and SEC
- China Ministry of Education — National meeting on implementation of the Double Reduction policy
- China Ministry of Education — National conference on science education in primary and secondary schools
- China Ministry of Education — Conference on key basic education tasks for 2025
- China Ministry of Education — New requirements in compulsory education and examination management


