Aos 70 anos, o cérebro fecha para balanço
Aos 70 anos, o cérebro fecha para balanço
Quando uma sociedade deixa de avaliar pessoas pelo que sabem e passa a avaliá-las pela data em que nasceram, o problema talvez não esteja na idade delas.
Nota de abertura:
Portugal fala constantemente de mérito, competência e modernização. Mas basta surgir a palavra “reformado” ou ultrapassar-se uma determinada idade para que, demasiadas vezes, a avaliação individual seja substituída por uma categoria administrativa. É mais simples. Também é intelectualmente mais pobre.
Portugal gosta muito de falar de mérito.
Meritocracia na Administração Pública.
Mérito na televisão.
Mérito nas empresas.
Mérito na política.
Mérito em tudo.
Depois chega uma pessoa aos 70 anos e, aparentemente, todo esse discurso pode ser substituído por uma certidão de nascimento.
É uma economia extraordinária de avaliação.
Não interessa tanto o que a pessoa sabe, aquilo que ainda consegue fazer, a inteligência que conserva, a experiência que acumulou, o público que mobiliza ou o valor que continua a entregar.
Há uma data.
E a data decide.
A idade como preguiça intelectual
A discussão sobre limitar a contratação de reformados com mais de 70 anos na televisão pública revela um problema muito mais antigo e mais profundo do que qualquer decisão administrativa da RTP.
É a tendência portuguesa para substituir avaliação por categoria.
Em vez de avaliarmos pessoas, classificamo-las.
Novo.
Velho.
Sénior.
Reformado.
Activo.
Quadro.
Precário.
Especialista.
Consultor.
Depois colocamos cada ser humano na gaveta administrativa correspondente e ficamos satisfeitos por termos organizado o mundo.
É muito mais simples do que avaliar competência.
Porque avaliar competência dá trabalho.
Obriga a perguntar:
Esta pessoa ainda acrescenta valor?
Tem conhecimento?
Comunica bem?
Possui credibilidade?
Tem independência?
Produz qualidade?
É relevante?
O custo da sua contratação é proporcional ao que entrega?
Tudo perguntas incómodas.
Muito mais fácil perguntar:
Que idade tem?
Aos 69, competente. Aos 70, problema.
Existe algo de deliciosamente absurdo em transformar uma idade num critério de valor profissional.
Imaginemos um jornalista brilhante com 69 anos, 11 meses e 30 dias.
Conhece profundamente política internacional, tem memória histórica, fontes, capacidade de análise e décadas de experiência.
À meia-noite faz 70 anos.
Nada aconteceu ao cérebro.
Não desapareceu nenhum neurónio particularmente importante.
Não se evaporou o conhecimento acumulado.
Não perdeu subitamente capacidade de raciocínio.
Mas administrativamente pode ter atravessado uma fronteira invisível.
Ontem era experiência.
Hoje é velhice.
É uma forma curiosa de metafísica burocrática.
A competência não sofre uma actualização automática de estado à meia-noite do septuagésimo aniversário.
A juventude também merece espaço
Naturalmente, uma sociedade precisa de renovação geracional.
É indispensável.
Os jovens precisam de oportunidades.
Precisam de entrar nas redacções, nas universidades, nas empresas, na investigação e nas instituições públicas.
Precisam de poder construir carreira sem encontrar eternamente os mesmos nomes sentados nos mesmos lugares.
Mas isto não implica transformar os mais velhos em excedentes humanos.
Renovação não significa expulsão.
Significa coexistência.
Uma instituição inteligente junta pessoas novas com pessoas experientes.
Uma geração traz linguagens novas, novas tecnologias, novas referências culturais e novas formas de interpretar o mundo.
A outra traz memória institucional, contexto, experiência e conhecimento acumulado.
O resultado deveria ser complementaridade.
Não guerra geracional.
Mas as organizações modernas têm uma curiosa tendência para transformar quase tudo numa substituição.
Sai o velho.
Entra o novo.
Depois, cinco anos mais tarde, contrata-se um consultor para explicar aquilo que a organização esqueceu quando despediu quem sabia.
O capitalismo administrativo tem destas pequenas obras-primas.
Experiência é conhecimento comprimido
Há competências que se aprendem em cursos.
Outras aprendem-se com tempo.
Um jornalista que acompanhou quarenta anos de política não possui apenas informação.
Possui comparação.
Sabe reconhecer padrões.
Lembra-se de discursos semelhantes.
Recorda promessas repetidas.
Conhece personagens, instituições e contextos.
Essa memória permite perceber quando algo verdadeiramente novo está a acontecer e quando estamos apenas perante uma velha história com embalagem diferente.
Uma sociedade que despreza os seus mais velhos perde exactamente isso:
contexto.
E sem contexto todas as notícias parecem inéditas.
Todas as crises parecem sem precedentes.
Todos os políticos parecem originais.
Todos os erros parecem novos.
Não são.
Falta apenas alguém na sala que se lembre deles.
O preconceito elegante
Existe hoje uma forma socialmente aceitável de preconceito chamada idadismo.
Raramente aparece com insultos.
Surge em expressões muito mais delicadas.
“Renovação.”
“Rejuvenescimento.”
“Nova geração.”
“Nova imagem.”
“Dinamização.”
Tudo palavras respeitáveis.
Mas por vezes significam simplesmente:
já és velho demais.
Imagine-se substituir idade por outra característica pessoal.
Seria imediatamente reconhecido como absurdo.
Com idade ainda existe uma estranha tolerância cultural.
Talvez porque quase todos imaginamos que velhos são sempre os outros.
Até ao dia em que descobrimos a extraordinária velocidade do calendário.
ELEMENTOS CENTRAIS
- A Organização Mundial da Saúde define o idadismo como estereótipos, preconceitos e discriminação baseados na idade.
- A OCDE assinala que candidatos mais velhos recebem frequentemente menos convites para entrevistas do que candidatos mais jovens com qualificações equivalentes.
- A Organização Internacional do Trabalho recomenda igualdade de oportunidade e tratamento dos trabalhadores independentemente da idade.
- A União Europeia dispõe, desde 2000, de um quadro jurídico contra a discriminação por idade no emprego e na actividade profissional, admitindo diferenças apenas em condições justificadas pelo direito aplicável.
O paradoxo português
Há aqui uma contradição ainda maior.
Portugal envelhece.
Vivemos mais anos.
Trabalhamos durante mais tempo.
As reformas tornam-se progressivamente mais tardias.
Os sistemas públicos preocupam-se com sustentabilidade demográfica.
Governos incentivam vidas profissionais mais longas.
A medicina prolonga a esperança de vida.
A tecnologia reduz esforço físico.
E simultaneamente muitas organizações continuam a comportar-se como se a utilidade profissional terminasse algures entre os 60 e os 70 anos.
É difícil desenhar um sistema mais incoerente.
Pedimos às pessoas que vivam mais.
Que trabalhem mais.
Que contribuam mais.
Mas também sugerimos que deixem discretamente de aparecer.
A televisão pública deveria saber melhor
Numa televisão pública o problema é ainda mais evidente.
A RTP não deve representar apenas jovens urbanos de 25 ou 35 anos.
Deve representar um país.
E Portugal tem várias gerações.
Uma televisão pública deveria ser precisamente um lugar onde diferentes idades coexistissem.
Um jornalista de 30 anos pode compreender extraordinariamente bem tecnologia, novas linguagens digitais ou cultura emergente.
Um jornalista de 75 pode compreender profundamente política, diplomacia ou história contemporânea.
Nenhum substitui necessariamente o outro.
São perspectivas diferentes.
A diversidade geracional também é diversidade.
Curiosamente, fala-se muito de diversidade moderna.
Mas às vezes parece haver uma pequena nota em letra minúscula:
excepto quando aparecem rugas.
O problema não é contratar reformados
Também não faz sentido cair no extremo contrário.
Ser reformado não deve criar direito automático a contratos públicos.
Nem a idade deve servir de escudo para manter eternamente figuras mediáticas que já nada acrescentam.
Há pessoas de 45 anos que deveriam ter sido afastadas aos 35.
E há pessoas de 80 que continuam intelectualmente extraordinárias.
É precisamente por isso que precisamos de avaliação.
Não de calendários.
Uma televisão pública deve contratar alguém porque essa pessoa acrescenta valor ao serviço público.
Se deixa de acrescentar, termina-se a relação profissional.
Simples.
É assim que deveria funcionar uma sociedade adulta.
Competência entra.
Incompetência sai.
Independentemente da data impressa no Cartão de Cidadão.
A obsessão pelas gavetas
Talvez este seja um dos problemas culturais portugueses mais persistentes.
Gostamos profundamente de títulos, categorias e estatutos.
Professor.
Doutor.
Engenheiro.
Reformado.
Funcionário.
Sénior.
Júnior.
Tudo devidamente etiquetado.
Depois esquecemo-nos de fazer a pergunta mais importante:
Esta pessoa é boa naquilo que faz?
Porque uma sociedade orientada para mérito deveria conseguir avaliar indivíduos.
Uma sociedade orientada para burocracia avalia categorias.
E nós continuamos frequentemente algures entre as duas.
Aos 70 anos começa outra coisa
Há pessoas que aos 70 anos já não querem trabalhar.
Perfeitamente legítimo.
Ganharam o direito ao descanso.
Outras querem continuar activas.
Algumas porque precisam financeiramente.
Outras porque gostam da profissão.
Outras porque o trabalho dá estrutura, propósito e contacto humano.
Outras porque simplesmente continuam excelentes no que fazem.
Uma sociedade inteligente deveria conseguir aproveitar esse potencial.
Não obrigatoriamente em cargos permanentes.
Podem existir colaborações.
Mentoria.
Projectos.
Consultoria.
Formação.
Participação editorial.
Trabalho parcial.
Existem dezenas de formas de aproveitar conhecimento sem bloquear oportunidades aos mais jovens.
Mas isso exige imaginação.
E imaginação é uma matéria-prima que a burocracia nunca conseguiu colocar numa folha Excel.
O verdadeiro desperdício
Falamos muito de desperdício de dinheiro público.
Falamos menos de desperdício de conhecimento.
Mas conhecimento perdido também tem custo.
Quando alguém passa quarenta ou cinquenta anos numa profissão, acumula algo que nenhum manual consegue reproduzir.
Experiência.
Não é infalível.
Não é automaticamente superior.
Mas é um activo.
Desprezá-lo apenas por causa da idade é economicamente absurdo e culturalmente pobre.
É como deitar fora uma biblioteca porque os livros têm capas antigas.
Uma democracia madura
Portugal democrático aproxima-se de seis décadas.
Talvez esteja na altura de atingir uma pequena maturidade adicional.
Avaliar pessoas pelo que fazem.
Não pelo ano em que nasceram.
O princípio deveria ser brutalmente simples:
Se alguém acrescenta valor, aproveite-se esse valor.
Se não acrescenta, substitua-se.
Pode ter 28 anos.
Pode ter 48.
Pode ter 78.
A competência não vem com prazo de validade impresso.
E talvez uma sociedade verdadeiramente moderna seja exactamente aquela que consegue olhar para uma pessoa de 75 anos e não ver primeiro “um velho”.
Vê um cidadão.
Com capacidades.
Limitações.
Conhecimento.
Experiência.
Talento.
Exactamente como qualquer outro.
Porque aos 70 anos o cérebro não fecha para balanço.
Quem muitas vezes fecha é a sociedade.
E depois ainda tem a extraordinária lata de chamar a isso modernização.
Nota Editorial
Esta crónica parte do debate público sobre critérios etários na contratação de reformados e profissionais mais velhos por entidades de serviço público. O texto não afirma a existência de uma proibição formal e geral já adoptada pela RTP para pessoas com mais de 70 anos; discute criticamente o princípio de utilizar a idade cronológica como substituto da avaliação individual de competência, mérito, adequação e valor entregue.
O idadismo não exige que toda a diferença de tratamento baseada na idade seja automaticamente ilegítima. Existem actividades e circunstâncias em que critérios etários podem ter justificação objectiva e proporcional. A crítica aqui formulada dirige-se à utilização automática ou preguiçosa da idade quando seria possível avaliar directamente a capacidade efectiva da pessoa.
Uma política verdadeiramente intergeracional não opõe jovens a velhos. Cria condições para que juventude, experiência e mérito coexistam. O objectivo não deve ser conservar lugares por antiguidade nem expulsar pessoas por calendário, mas escolher quem melhor serve o interesse público em cada função.
Referências credíveis
- Organização Mundial da Saúde (WHO) — Ageing: Ageism
- Organização Mundial da Saúde (WHO) — Global report on ageism
- OCDE — OECD Employment Outlook 2025: Making the labour market work for older workers
- Organização Internacional do Trabalho (ILO) — Older Workers Recommendation, 1980 (No. 162)
- Organização Internacional do Trabalho (ILO) — Discrimination and equality: questions and answers
- Comissão Europeia — Age discrimination
- EUR-Lex — Directiva 2000/78/CE: igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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