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O Nobel da Maldicência

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O Nobel da Maldicência

Quando até um Nobel aponta o atraso, começa a ficar difícil culpar o mensageiro.

Nota de abertura:
James A. Robinson veio a Portugal dizer uma coisa politicamente inconveniente: o país tem talento, qualificação e capacidade empresarial, mas continua aquém do potencial que esses recursos deveriam permitir. Pouco depois, Luís Montenegro pediu no Pontal «menos maledicência». A coincidência oferece uma pequena experiência mental: quantos diplomas, estudos ou Prémios Nobel são necessários antes de uma crítica deixar de ser maledicência e passar a chamar-se diagnóstico?

Há países onde os Prémios Nobel são recebidos com curiosidade.

Noutros, são recebidos com respeito.

Em Portugal, dependendo do que digam, talvez seja prudente recebê-los com um formulário para inscrição na recém-criada categoria nacional de maldizentes certificados.

James A. Robinson, laureado em 2024 com o Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, teve a deselegância de vir dizer uma coisa profundamente desagradável:

Portugal está cheio de pessoas talentosas, empreendedoras e qualificadas, mas há cerca de três décadas que perde terreno face à média europeia.

Que falta de espírito positivo.

Que ausência de entusiasmo patriótico.

Que terrível incapacidade para apreciar as pequenas grandes coisas que correm maravilhosamente bem.

O homem podia ter chegado a Lisboa, elogiado o sol, comido um pastel de nata e declarado que Portugal tem uma localização estratégica extraordinária.

Toda a gente ficaria satisfeita.

Mas não.

Foi falar de economia.

Um estrangeiro que não percebe Portugal

James Robinson estuda há décadas uma coisa bastante incómoda chamada instituições.

Juntamente com Daron Acemoglu e Simon Johnson, recebeu o galardão de 2024 pelos estudos sobre a forma como as instituições são formadas e afectam a prosperidade.

É um tema perigoso.

Porque permite fazer perguntas desagradáveis como:

— Porque é que alguns países prosperam?

— Porque é que outros permanecem estagnados?

— Porque é que sociedades com pessoas inteligentes, qualificadas e trabalhadoras não conseguem transformar esse capital humano em prosperidade?

São perguntas intelectualmente interessantes.

Politicamente são uma chatice.

Robinson olha para Portugal e encontra precisamente esse paradoxo.

O país tem pessoas qualificadas.

Tem empresários.

Tem universidades.

Tem acesso ao mercado europeu.

Recebe fundos comunitários há décadas.

Pertence à União Europeia.

Pertence ao euro.

Tem infra-estruturas modernas.

Tem estabilidade política.

E, apesar disso, continua longe dos níveis de rendimento e produtividade das economias europeias mais avançadas.

Normalmente, quando uma equação apresenta tantas variáveis favoráveis e o resultado continua medíocre, convém investigar o sistema.

Portugal prefere investigar o mensageiro.

Talvez o Nobel não tenha visto o PowerPoint

Existe, contudo, uma explicação simples.

James Robinson provavelmente não assistiu às apresentações oficiais.

Se tivesse assistido, saberia que Portugal está permanentemente:

«a crescer acima das expectativas»,

«a criar emprego»,

«a atrair investimento»,

«a transformar a economia»,

«a liderar a transição digital»,

«a construir o futuro».

O futuro português é particularmente interessante porque está sempre prestes a chegar.

Há quarenta anos.

O Nobel cometeu portanto um erro metodológico grave.

Consultou séries económicas.

Deveria ter consultado discursos políticos.

Os números têm o desagradável defeito de não conhecerem disciplina partidária.

Trinta anos a perder terreno

A parte verdadeiramente inconveniente da declaração de Robinson não é dizer que Portugal tem problemas.

Isso toda a gente sabe.

A parte perigosa é dizer:

há três décadas que Portugal perde terreno face à média europeia.

Trinta anos.

Isto já não é propriamente uma crise conjuntural.

Não foi a pandemia.

Não foi a guerra da Ucrânia.

Não foi Trump.

Não foi o BCE.

Não foi a inflação.

Não foi a inteligência artificial.

Não foi sequer culpa do árbitro.

Trinta anos começam a formar aquilo a que os historiadores chamam, com alguma imprudência:

um padrão.

E padrões obrigam-nos a pensar.

É profundamente inconveniente.

O problema não são os portugueses

Mas Robinson faz algo ainda mais subversivo.

Retira-nos uma das desculpas favoritas.

Não diz que os portugueses são incapazes.

Pelo contrário.

Diz que existem pessoas talentosas, empreendedoras e qualificadas.

Ora isto é gravíssimo.

Porque se o capital humano existe e os resultados continuam medíocres, talvez o problema esteja noutro lugar.

Nas instituições.

No Estado.

Na Justiça.

Na administração.

Na qualidade das decisões.

Na incapacidade de executar reformas.

Nos interesses instalados.

Na baixa produtividade organizacional.

Na cultura de governação.

Nesse momento começam a surgir sintomas de maledicência aguda.

Portugal sabe o que precisa de fazer

Há ainda uma afirmação particularmente cruel.

Portugal conhece muitos dos seus problemas há décadas.

Não precisamos exactamente de uma comissão internacional para descobrir que a Justiça é lenta.

Ou que a administração pública é burocrática.

Ou que existem problemas de produtividade.

Ou que os salários são baixos.

Ou que há dificuldade em reter talento.

Ou que muitas empresas continuam pouco capitalizadas.

Ou que uma parte substancial da economia vive de sectores de baixo valor acrescentado.

Fizemos estudos.

Relatórios.

Livros brancos.

Planos estratégicos.

Conselhos nacionais.

Comissões de especialistas.

Grupos de trabalho.

Observatórios.

Conferências.

Seminários.

PowerPoints.

Portugal provavelmente possui o maior rácio europeu de diagnósticos por reforma executada.

Sabemos aproximadamente o que fazer.

Depois começa a política.

A reforma é óptima desde que não incomode ninguém

Reformar Portugal tem uma condição fundamental:

não prejudicar ninguém.

É preciso reformar a Administração Pública.

Mas sem alterar os interesses existentes.

Reformar a Justiça.

Mas sem incomodar corporações.

Reformar a saúde.

Mas garantindo que todos os grupos envolvidos ficam satisfeitos.

Reformar a educação.

Desde que ninguém perca privilégios.

Reformar a economia.

Mas evitando mudanças excessivamente económicas.

Assim conseguimos uma modalidade extraordinária de reforma:

a reforma sem reforma.

É anunciada numa conferência de imprensa.

É apresentada num PowerPoint.

Recebe um nome em inglês.

Tem um logótipo.

É financiada por Bruxelas.

E cinco anos depois cria-se outro programa para resolver exactamente o mesmo problema.

É um ecossistema sustentável.

Sobretudo para consultoras.

O contrato social

Robinson também falou do contrato social.

Disse que não está a ser cumprido como deveria.

Outra expressão infeliz.

Em Portugal preferimos falar de «desafios».

Um contrato social que falha parece grave.

Um desafio parece uma coisa que podemos colocar num slide.

Por exemplo:

Desafio: acesso à habitação.

Muito melhor do que:

Os jovens não conseguem comprar casa.

Outro:

Desafio: sustentabilidade demográfica.

Muito mais elegante do que:

Os jovens foram embora porque recebem 1.200 euros.

A linguagem política moderna descobriu uma propriedade fascinante:

quanto pior é o problema, mais suave deve ser o substantivo.

Depois apareceu Montenegro

E foi então que, por coincidência quase literária, Luís Montenegro apareceu no Pontal a pedir menos maledicência.

O primeiro-ministro explicou que se fala demasiado das coisas pequenas que correm mal e pouco das grandes coisas que o Governo faz bem.

É uma tese interessante.

Sobretudo porque coloca uma questão epistemológica de enorme profundidade:

quem decide quais são as coisas pequenas?

O primeiro-ministro?

Um doente à espera horas numa urgência?

Um jovem que não consegue comprar casa?

Um trabalhador que recebe pouco mais de mil euros?

Um empresário que espera anos por uma decisão judicial?

Um emigrante altamente qualificado que ganha no estrangeiro o dobro?

Talvez seja tudo pequeno.

Depende do ponto de observação.

De São Bento, Portugal deve parecer extraordinariamente compacto.

O Nobel entra no clube

E assim chegamos ao pobre James Robinson.

Um laureado com o Prémio de Ciências Económicas de 2024.

Professor universitário.

Especialista internacional em desenvolvimento económico e instituições.

Décadas de investigação.

Uma carreira dedicada a compreender por que razão alguns países prosperam e outros ficam para trás.

Tudo isso para chegar a Portugal e descobrir que talvez esteja apenas a praticar:

maledicência.

É reconfortante.

Portugal conseguiu finalmente democratizar o descrédito.

Aqui ninguém está acima de suspeita.

Nem sequer um Nobel.

Se diz que estamos óptimos, é especialista.

Se diz que estamos a perder terreno, está a criar uma narrativa negativa.

Talvez os números também sejam maledicentes

O problema é que existe uma conspiração ainda maior.

Os números.

Esses perigosos extremistas.

O PIB per capita.

A produtividade.

Os salários.

O investimento.

A convergência europeia.

Os indicadores de inovação.

A eficiência administrativa.

A justiça económica.

Todos parecem ter desenvolvido uma inquietante tendência para a maledicência.

Podíamos criar uma nova entidade pública:

Comissão Nacional para a Avaliação do Optimismo Estatístico.

Cada indicador seria previamente analisado.

Se fosse positivo:

«Dado oficial.»

Se fosse negativo:

«Percepção conjuntural.»

Seria uma enorme contribuição portuguesa para a ciência económica.

A verdadeira boa notícia

Mas talvez exista uma forma diferente de olhar para aquilo que James Robinson disse.

Se Portugal está cheio de pessoas talentosas, empreendedoras e qualificadas, então a mensagem não é pessimista.

É exactamente o contrário.

Significa que o país tem potencial para estar muito melhor.

O problema não está no povo.

Não está numa qualquer inferioridade genética.

Não está numa fatalidade histórica.

Está em coisas que podem ser mudadas.

Instituições.

Regras.

Incentivos.

Governação.

Qualidade do Estado.

Coragem política.

Capacidade de executar.

Nesse sentido, Robinson não veio insultar Portugal.

Veio fazer-nos um elogio particularmente incómodo:

vocês conseguem fazer melhor.

Talvez seja precisamente essa a frase que mais perturba.

Porque dizer que somos condenados à mediocridade permite descansar.

Dizer que poderíamos ser muito melhores obriga-nos a perguntar por que razão não somos.

E essa pergunta conduz inevitavelmente aos governos.

Não matem o Nobel

Por isso talvez devêssemos resistir à tentação de acrescentar James Robinson à lista nacional dos maldizentes.

Podemos discordar dele.

Podemos contestar os dados.

Podemos demonstrar que Portugal convergiu em determinados períodos.

Podemos discutir metodologia.

É assim que funciona o debate sério.

Mas há uma resposta que não serve:

— Ele está a falar mal de Portugal.

Porque isso seria novamente confundir a mensagem com o mensageiro.

E acabámos de perceber como termina essa história.

Primeiro culpamos o jornalista.

Depois o economista.

Depois o académico.

Depois o Nobel.

Até chegar o dia em que já não sobra ninguém para nos explicar porque continuamos para trás.

Nesse momento talvez possamos finalmente declarar vitória.

Não haverá maledicência.

Não haverá críticas.

Não haverá más notícias.

Portugal estará absolutamente silencioso.

E continuaremos exactamente no mesmo lugar.

Só que muito mais satisfeitos.

Quando um cidadão denuncia o atraso, é maledicência. Quando um jornalista o noticia, é negativismo. Quando um Nobel o demonstra, começa a ficar difícil culpar o mensageiro.

DADOS ESSENCIAIS

  • James A. Robinson recebeu, com Daron Acemoglu e Simon Johnson, o Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel de 2024, «por estudos sobre a forma como as instituições são formadas e afectam a prosperidade».
  • Na entrevista ao ECO de 31 de Julho de 2026, Robinson afirmou que Portugal está «cheio de pessoas talentosas, empreendedoras e qualificadas», mas que há três décadas perde terreno face à média europeia.
  • Robinson sustentou que Portugal conhece muitos dos problemas estruturais que enfrenta, mas tem dificuldade em executar reformas e vencer interesses instalados.
  • Na apresentação do estudo «Desbloquear o crescimento de Portugal», afirmou também que o contrato social português não está a ser cumprido como deveria e relacionou o problema com o funcionamento das instituições e do Estado.
  • A OCDE, no Economic Survey of Portugal 2026, conclui que a convergência de longo prazo dos níveis de vida estagnou e associa o diferencial persistente de rendimento a fraca produtividade do trabalho e investimento limitado.
  • As estimativas preliminares do Eurostat para 2025 colocam o PIB per capita português, em paridades de poder de compra, entre 10% e 20% abaixo da média da União Europeia.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto humorístico e de opinião. A designação corrente «Prémio Nobel da Economia» é usada no título e no corpo por ser a expressão universalmente reconhecida; a designação oficial do galardão atribuído a James A. Robinson, Daron Acemoglu e Simon Johnson em 2024 é Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel.

A afirmação de que Portugal vem perdendo terreno face à média europeia há cerca de três décadas é apresentada como posição de James A. Robinson na entrevista publicada pelo ECO em 31 de Julho de 2026. Não é convertida editorialmente numa conclusão estatística independente. Como contraponto, a OCDE afirma no seu Economic Survey of Portugal 2026 que a convergência de longo prazo dos níveis de vida estagnou nas últimas duas décadas, apontando a fraca produtividade do trabalho e o investimento limitado como factores relevantes.

Os dados internacionais sustentam a existência de um diferencial estrutural sem apagar progressos recentes. A própria OCDE nota que a economia portuguesa tem crescido acima da média da área do euro desde 2022 e que a dívida pública diminuiu, ao mesmo tempo que sublinha a persistência de um défice de produtividade e rendimento por habitante relativamente às economias mais avançadas.

As referências à «maledicência» são sátira política inspirada no discurso de Luís Montenegro na Festa do Pontal de Agosto de 2026. Não se afirma que o primeiro-ministro tenha dirigido essa expressão a James Robinson. A graça, para desgosto habitual da realidade, nasce precisamente da justaposição entre o apelo político a «menos maledicência» e um diagnóstico económico externo particularmente incómodo.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Com suporte editorial de Augustus Veritas, um assistente da OpenAI.
Fragmentos do Caos
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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