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A Culpa é Sempre do Mensageiro

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A Culpa é Sempre do Mensageiro

Quando a realidade incomoda, há sempre a tentação de despedir o termómetro.

Nota de abertura:
Há uma regra antiga do poder que atravessou impérios, ditaduras, monarquias, democracias imperfeitas, empresas e administrações públicas: quando a realidade traz más notícias, o culpado raramente é quem criou o problema. É quem o anunciou. O afastamento do economista russo Andrei Klepach da VEB.RF, depois de um discurso particularmente incómodo sobre a economia russa e a guerra de desgaste, oferece apenas o episódio mais recente de uma tradição que a humanidade insiste em conservar.

Há uma regra antiga do poder que atravessou impérios, ditaduras, monarquias, democracias imperfeitas, empresas, administrações públicas e até algumas reuniões de condomínio particularmente ambiciosas: quando a realidade traz más notícias, o culpado raramente é quem criou o problema.

É quem o anunciou.

O mensageiro tem, desde a Antiguidade, uma profissão perigosa. Chega cansado, atravessa a porta do palácio, inclina-se perante o soberano e pronuncia aquilo que ninguém quer ouvir:

— Majestade, perdemos a batalha.
— Matem-no.

A batalha continua perdida, naturalmente.

Mas durante alguns minutos o ambiente na sala melhora.

Milhares de anos depois, sofisticámos extraordinariamente os instrumentos, inventámos computadores, inteligência artificial, estatísticas, econometria, satélites, modelos matemáticos e bancos centrais.

O método político, porém, conserva uma admirável estabilidade tecnológica.

O problema nunca é o problema

Quando os números dizem aquilo que o poder não quer ouvir, começa a procura do culpado.

Não é a política que falhou.

É o economista pessimista.

Não é a empresa que está mal gerida.

É o director financeiro que apresentou as contas.

Não é o hospital que está sem recursos.

É o médico que denunciou a situação.

Não é a ponte que ameaça cair.

É o engenheiro alarmista.

Não existe corrupção.

Existe um jornalista inconveniente.

Não existe incompetência.

Existe alguém com uma perturbadora tendência para apresentar factos.

O caso Klepach

O episódio recente envolvendo o economista russo Andrei Klepach oferece uma ilustração quase didáctica deste mecanismo.

Klepach, economista-chefe da VEB.RF desde 2014 e antigo vice-ministro russo do Desenvolvimento Económico, fez em Maio uma intervenção pública em que afirmou que a Rússia estava a perder terreno na competição económica e tecnológica internacional, rejeitou a ideia de que a economia ucraniana estivesse prestes a colapsar e alertou para os custos crescentes de uma guerra prolongada.

Advertiu também para a possibilidade de uma crise social futura e criticou a degradação da qualidade da governação económica.

Em Agosto, depois de essas declarações ganharem ampla circulação pública, deixou o cargo.

A VEB.RF confirmou a saída, mas não apresentou oficialmente uma causa. A Reuters relatou, citando duas fontes conhecedoras do caso, que o afastamento esteve relacionado com as declarações. Outros órgãos de comunicação independentes russos e internacionais relataram igualmente essa associação.

Quando um economista integrado no próprio sistema afirma que uma guerra prolongada pode produzir consequências económicas e sociais graves, existem essencialmente duas possibilidades racionais.

A primeira é demonstrar que a análise está errada.

A segunda é admitir que talvez esteja certa e corrigir o rumo.

Existe, naturalmente, uma terceira possibilidade, muito apreciada pelo poder desde que alguém inventou os palácios:

despedir o economista.

É uma solução extraordinariamente eficiente.

De manhã existe um problema económico.

À tarde desaparece o economista.

O problema económico, criatura obstinada e com pouca sensibilidade institucional, permanece.

O termómetro é sempre suspeito

É aqui que começa a diferença fundamental entre sociedades maduras e sociedades dominadas pelo medo.

Numa sociedade intelectualmente saudável, quem traz más notícias é escutado com atenção precisamente porque traz más notícias.

Num sistema inseguro, quem traz más notícias transforma-se automaticamente numa ameaça.

Porque o poder frágil não procura compreender a realidade.

Procura controlar a narrativa sobre a realidade.

E são coisas profundamente diferentes.

A realidade não necessita de aprovação política.

A inflação não lê comunicados governamentais.

A dívida pública não assiste a conferências de imprensa.

A produtividade não melhora por decreto.

Um exército não vence porque os comentadores televisivos garantem que está a vencer.

E uma economia não se torna competitiva porque alguém proibiu os economistas de dizer que está a perder competitividade.

Existe uma velha metáfora que continua insuperável.

Se o termómetro marca quarenta graus de febre, existem duas soluções.

Tratar o doente.

Ou partir o termómetro.

A humanidade tem uma surpreendente tendência para experimentar primeiro a segunda.

Porque tratar o doente implica reconhecer erros, mudar decisões, enfrentar interesses instalados e, horror dos horrores, admitir que talvez alguém estivesse errado.

Partir o termómetro é muito mais simples.

E faz um barulho satisfatório.

A organização aprende a mentir ao chefe

O problema é que há sistemas políticos e organizações inteiras construídas sobre esta lógica.

Os subordinados aprendem rapidamente que existem verdades convenientes e verdades perigosas.

Começa então um processo silencioso de selecção.

Quem diz aquilo que o chefe quer ouvir progride.

Quem apresenta problemas é afastado.

Quem questiona decisões torna-se «difícil».

Quem concorda com tudo transforma-se em «pessoa de confiança».

Ao fim de alguns anos, o dirigente encontra-se finalmente rodeado pelas pessoas ideais.

Todas concordam com ele.

É precisamente nesse momento que deveria começar a preocupar-se.

Porque os sistemas complexos não entram normalmente em colapso por falta de informação.

Entram em colapso porque a informação existia e ninguém teve coragem de a transmitir.

Ou porque alguém a transmitiu e foi punido por isso.

É assim que organizações aparentemente poderosas se tornam intelectualmente cegas.

Os números continuam a chegar.

Os relatórios continuam a ser produzidos.

As reuniões continuam a acontecer.

Mas a informação começa a ser filtrada à medida que sobe na hierarquia.

Um problema grave transforma-se num «desafio».

Uma crise transforma-se numa «situação exigente».

Uma catástrofe iminente transforma-se numa «oportunidade de melhoria».

E quando finalmente tudo desaba, alguém pergunta solenemente:

— Como foi possível ninguém ter previsto isto?

Muitas vezes alguém previu.

Só já não trabalhava lá.

O mensageiro incómodo é frequentemente o melhor aliado

A ironia maior é que os mensageiros incómodos são frequentemente os aliados mais valiosos de quem governa.

O conselheiro que discorda pode evitar um desastre.

O técnico que detecta uma falha pode impedir um acidente.

O economista pessimista pode identificar uma tendência antes de ela se tornar irreversível.

O jornalista insistente pode revelar uma corrupção antes de ela destruir uma instituição.

Mas reconhecer isso exige uma qualidade rara no poder:

segurança intelectual.

Quem está seguro das suas convicções não teme perguntas.

Quem domina realmente um assunto não teme contraditório.

Quem procura resolver problemas quer precisamente conhecer aquilo que está a correr mal.

Só quem depende da aparência de infalibilidade precisa de silenciar o mensageiro.

E talvez seja essa a verdadeira fragilidade dos regimes que perseguem quem apresenta más notícias.

Não é força.

É medo.

Medo de que uma dúvida provoque outra dúvida.

Medo de que um número contradiga um discurso.

Medo de que alguém descubra que o imperador, afinal, não está tão bem vestido como disseram os assessores.

A realidade não aceita ordens

A História está cheia desses momentos.

Reis que castigaram generais por derrotas que eles próprios provocaram.

Governos que censuraram relatórios económicos.

Empresas que despediram engenheiros que alertavam para riscos.

Instituições que atacaram denunciantes em vez de investigar as denúncias.

O padrão repete-se porque psicologicamente é confortável.

Se o mensageiro for culpado, quem governa permanece inocente.

A realidade torna-se uma questão de relações públicas.

Mas há uma pequena dificuldade.

A realidade tem uma desagradável independência editorial.

Podemos prender jornalistas.

Podemos despedir economistas.

Podemos afastar cientistas.

Podemos esconder relatórios.

Podemos controlar televisões.

Podemos até convencer milhões de pessoas durante algum tempo de que tudo corre magnificamente.

Mas não podemos negociar com as consequências.

Elas chegam sempre.

E geralmente trazem outro mensageiro.

Talvez por isso uma sociedade verdadeiramente inteligente devesse inverter a velha tradição.

Quando alguém entra na sala e anuncia que existe um problema grave, em vez de perguntar:

— Quem deixou este homem falar?

deveríamos perguntar:

— E se ele tiver razão?

É uma pergunta muito menos confortável.

Mas costuma sair extraordinariamente mais barata.

Porque matar o mensageiro nunca mudou a mensagem. Apenas atrasou o momento em que já ninguém consegue ignorá-la.

DADOS ESSENCIAIS

  • Andrei Klepach foi economista-chefe da VEB.RF desde 2014 e teve anteriormente funções no Ministério do Desenvolvimento Económico russo.
  • Num discurso realizado em Maio de 2026, afirmou que a Rússia estava a perder terreno económico e tecnológico e que não venceria uma prolongada «guerra de desgaste» nas condições descritas.
  • Klepach alertou também para a possibilidade de uma futura crise social e criticou a qualidade da governação económica.
  • A VEB.RF confirmou em Agosto de 2026 que Klepach já não era o seu economista-chefe, mas não indicou publicamente a razão.
  • A Reuters, citando duas fontes conhecedoras do caso, relacionou o afastamento com as declarações públicas do economista.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e reflexão sobre a velha tendência política e organizacional de responsabilizar quem transmite uma notícia incómoda em vez de enfrentar a realidade que essa notícia descreve. O episódio de Andrei Klepach funciona como ponto de partida contemporâneo para uma reflexão mais ampla sobre censura, conformismo institucional, qualidade da decisão e cultura de poder.

No plano factual, a VEB.RF confirmou que Klepach deixou o cargo de economista-chefe, mas não apresentou uma explicação oficial para a decisão. A Reuters noticiou, com base em duas fontes conhecedoras do caso, que o afastamento esteve relacionado com as declarações feitas pelo economista num fórum em Maio de 2026. The Moscow Times, The Guardian e Novaya Gazeta Europe publicaram igualmente relatos sobre o conteúdo do discurso e a subsequente saída.

A crónica não apresenta como facto demonstrado qualquer ordem pessoal do Presidente russo ou do Kremlin para despedir Klepach. As referências a «silenciar o mensageiro» e «partir o termómetro» são metáforas editoriais usadas para discutir um mecanismo recorrente de poder e não uma descrição literal de acontecimentos não comprovados.

A distinção entre factos verificados, relatos atribuídos a fontes e interpretação editorial é deliberada. Uma crítica ao controlo da narrativa perde bastante da sua graça se, para a fazer, começarmos nós próprios a fabricar uma narrativa.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Com suporte editorial de Augustus Veritas, um assistente da OpenAI.
Fragmentos do Caos
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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