A escola onde ninguém precisa de derrotar ninguém
A escola onde ninguém precisa de derrotar ninguém
Agostinho da Silva como luz de fundo
Nota de abertura:
Há ideias que envelhecem mal porque pertencem ao seu tempo. E há outras que envelhecem tão bem que acabam por denunciar o nosso. Partindo de uma reflexão de Agostinho da Silva sobre os malefícios da rivalidade na escola, esta crónica propõe uma educação em que o verdadeiro desafio de cada aluno seja superar-se a si próprio, e não derrotar o colega sentado ao lado.
Há ideias que envelhecem mal porque pertencem ao seu tempo. E há outras que envelhecem tão bem que acabam por denunciar o nosso.
Agostinho da Silva escreveu sobre os malefícios da rivalidade na escola, mostrando como uma educação construída sobre a comparação transforma os colegas em adversários e o conhecimento numa corrida. Passaram décadas, mudaram os edifícios, chegaram computadores, quadros interactivos, plataformas digitais e aplicações capazes de calcular tudo, excepto o valor de uma criança.
A escola continua, demasiadas vezes, a perguntar quem ficou à frente.
Poucas vezes pergunta quem avançou.
Parece a mesma coisa, mas não é.
Ficar à frente exige que alguém fique atrás. Avançar exige apenas que hoje sejamos um pouco melhores do que ontem.
É nesta diferença que cabe toda uma filosofia da educação.
A escola como pista de corrida
Desde cedo, a criança aprende a olhar para a classificação.
Quem teve a melhor nota?
Quem ficou em primeiro lugar?
Quem entrou no quadro de honra?
Quem recebeu o elogio?
Quem terminou o exercício mais depressa?
A escola organiza os alunos em filas, turmas, níveis, médias, percentagens e rankings. A infância, esse território que deveria pertencer à curiosidade, começa rapidamente a parecer uma repartição estatística.
Os professores, muitas vezes pressionados por programas, avaliações, metas e burocracias produzidas por pessoas que raramente entram numa sala de aula, acabam por recorrer à competição como estímulo.
«Vê como o teu colega conseguiu.»
«Deves esforçar-te para chegar ao nível dos melhores.»
«Quem terminar primeiro pode sair.»
A intenção poderá ser boa. O efeito nem sempre é.
O aluno aprende que o seu valor depende da distância que o separa dos outros.
Se está acima, sente-se superior.
Se está abaixo, sente-se incapaz.
Se está no meio, vive com receio de cair.
Nenhuma destas posições é particularmente saudável, embora todas produzam gráficos muito apresentáveis nas reuniões escolares.
O colega transformado em ameaça
Quando a educação é organizada como uma disputa, o colega deixa de ser companheiro de aprendizagem.
Passa a ser obstáculo.
Se ele tem uma boa nota, a minha posição piora.
Se responde correctamente, eu pareço saber menos.
Se recebe um prémio, sinto que perdi alguma coisa.
Se fracassa, talvez eu suba.
É assim que a escola pode começar a cultivar sentimentos que depois afirma querer combater: inveja, vaidade, despeito, ressentimento e prazer secreto pelo insucesso alheio.
A criança não nasce a desejar que o colega falhe. Aprende isso quando percebe que o sucesso é distribuído como se fosse uma quantidade limitada.
Há um primeiro lugar.
Há um prémio.
Há uma distinção.
Há um vencedor.
E onde há um vencedor obrigatório, alguém terá de desempenhar o papel de vencido. A instituição chama-lhe incentivo. A criança poderá chamar-lhe humilhação, embora talvez ainda não conheça a palavra.
Agostinho da Silva percebeu que esta rivalidade não prejudica apenas os alunos que ficam para trás. Também empobrece aqueles que chegam à frente.
O primeiro aluno da turma pode tornar-se prisioneiro do medo de deixar de o ser.
Estuda não por amor ao conhecimento, mas para conservar o lugar.
Esconde dúvidas porque teme parecer fraco.
Evita experiências novas porque pode falhar.
Não partilha estratégias porque outro poderá aproximar-se.
Recebe elogios, mas perde liberdade.
A competição consegue, assim, uma proeza notável: torna infeliz quem perde e ansioso quem vence.
O verdadeiro adversário de cada aluno deveria ser a versão de si próprio de ontem, não o colega sentado ao lado.
A única comparação que importa
A escola deveria ensinar outra forma de medir o progresso.
A comparação não deveria ser entre o aluno e o colega, mas entre o aluno de hoje e aquilo que ele próprio era ontem.
Hoje consegue ler melhor?
Hoje compreende uma ideia que antes lhe parecia impossível?
Hoje faz uma pergunta mais profunda?
Hoje aceita um erro sem o confundir com fracasso?
Hoje consegue explicar a alguém aquilo que aprendeu?
Hoje trabalha com mais disciplina, mais curiosidade e mais confiança?
É esta a avaliação que realmente importa.
Um aluno que passa de oito para doze valores poderá ter realizado um percurso extraordinário. Outro que permanece nos dezoito poderá ter deixado de crescer. O boletim mostra números, mas não mostra sempre o caminho.
A educação deveria celebrar o progresso, não apenas a posição.
Superar-se a si próprio é uma competição sem derrotados.
Ninguém precisa de perder para que outro avance.
O sucesso do colega não diminui o meu.
Pelo contrário, pode ensinar-me, inspirar-me e até ajudar-me a descobrir capacidades que ainda não conhecia.
Num ambiente saudável, o aluno mais avançado não é colocado num pedestal. É convidado a colaborar.
O aluno com dificuldades não é marcado como inferior. Recebe tempo, apoio e métodos diferentes.
Todos aprendem que possuem ritmos próprios, talentos distintos e obstáculos que não podem ser comparados por uma simples linha numa tabela.
Porque tratar igualmente pessoas diferentes nem sempre é justiça. Por vezes é apenas preguiça administrativa com vocabulário moral.
O QUE DEVE SER RETIDO
- A cooperação entre alunos está associada, em muitos sistemas educativos, a melhores resultados e a um ambiente escolar mais positivo.
- A competição não afecta todos os alunos da mesma forma e pode aumentar o medo de falhar, sobretudo entre os menos inclinados para ambientes competitivos.
- A aprendizagem colaborativa estruturada apresenta, em média, efeitos positivos no aproveitamento e no desenvolvimento do pensamento de ordem superior.
- A avaliação formativa deve acompanhar a compreensão, as necessidades e o progresso individual durante o processo de aprendizagem.
- Uma cultura escolar saudável deve valorizar o domínio do conhecimento, a curiosidade, a cooperação e a superação pessoal, sem transformar o êxito do colega numa ameaça.
Aprender por amor ao que se aprende
A rivalidade altera a própria relação com o conhecimento.
A matemática deixa de ser uma linguagem para compreender padrões e transforma-se numa colecção de exercícios destinados a obter pontos.
A literatura deixa de ser encontro com outras vidas e converte-se em matéria para decorar.
A ciência deixa de nascer do espanto e passa a servir para responder correctamente num teste.
A História deixa de ajudar a compreender o presente e transforma-se numa lista de datas que desaparecem da memória depois da avaliação.
Quando o objectivo principal é ultrapassar os outros, aprender deixa de ter valor em si mesmo.
O conhecimento passa a ser uma moeda.
Estuda-se para receber notas.
Lê-se para passar.
Memoriza-se para obter uma classificação.
E esquece-se com espantosa eficiência logo depois, como se o cérebro também soubesse distinguir entre aquilo que alimenta a vida e aquilo que apenas alimenta a pauta.
A escola deveria proteger o prazer de compreender.
A criança começa a vida a fazer perguntas extraordinárias.
Por que razão existe o céu?
Como sabe uma ave para onde deve voar?
De onde vem o pensamento?
O Universo acaba?
Por que sonhamos?
Depois entra na escola e, alguns anos mais tarde, começa a perguntar:
«Isto sai no teste?»
É uma derrota pedagógica colossal, mas aparece raramente nos relatórios.
Exigência sem crueldade
Recusar a rivalidade não significa defender uma escola sem exigência.
Pelo contrário.
Superar-se a si próprio exige uma disciplina muito mais profunda do que vencer ocasionalmente um colega.
O aluno deve aprender a confrontar os próprios limites.
Deve insistir quando uma matéria é difícil.
Deve reconhecer erros.
Deve rever métodos.
Deve desenvolver concentração.
Deve aprender que talento sem trabalho é apenas uma promessa satisfeita com a própria vaidade.
Mas esta exigência não necessita de humilhação.
Pode haver rigor sem medo.
Pode haver avaliação sem desprezo.
Pode haver ambição sem inveja.
Pode haver excelência sem transformar os colegas em degraus.
A verdadeira exigência não pergunta apenas se o aluno atingiu um padrão comum. Pergunta também se desenvolveu ao máximo aquilo que possui de singular.
Um jovem poderá não ser o melhor matemático da turma e tornar-se um excelente músico.
Outro poderá escrever com dificuldade e revelar uma inteligência prática extraordinária.
Outro poderá ter resultados medianos nos testes e possuir uma capacidade rara para unir pessoas, resolver conflitos ou compreender o sofrimento alheio.
A escola que só reconhece aquilo que consegue numerar empobrece a própria definição de inteligência.
E depois a sociedade admira-se por produzir técnicos competentes incapazes de cooperar, dirigentes brilhantes incapazes de ouvir e especialistas altamente qualificados que confundem sucesso com superioridade.
A semente foi lançada cedo.
O professor como mestre, não como árbitro
O professor não deveria ser o juiz de uma competição permanente.
Deveria ser quem ajuda cada aluno a descobrir o seu caminho.
Um mestre não aponta para o melhor aluno e ordena aos restantes que o imitem.
Observa cada um.
Percebe dificuldades.
Reconhece progressos discretos.
Sabe quando deve exigir mais e quando deve oferecer confiança.
Não distribui apenas conhecimento. Ensina uma relação com o conhecimento.
O bom professor não cria seguidores. Cria pessoas capazes de pensar por si próprias.
Não pretende ser indispensável para sempre. Trabalha para que um dia o aluno já não precise dele.
E talvez a mais alta forma de autoridade pedagógica seja esta: possuir saber suficiente para orientar sem sentir necessidade de dominar.
A escola deveria ser uma comunidade de aprendizagem.
Quem sabe mais ajuda quem sabe menos.
Quem tem uma dúvida pode formulá-la sem vergonha.
Quem erra contribui para que todos compreendam melhor.
O trabalho colectivo não apaga a responsabilidade individual. Fortalece-a.
Um grupo não é um esconderijo para a preguiça. É um lugar onde cada um oferece aquilo que possui e recebe aquilo que lhe falta.
É assim que funciona a ciência.
É assim que funciona a tecnologia.
É assim que se constrói quase tudo o que realmente importa.
Nenhum engenheiro cria sozinho uma ponte.
Nenhum médico trabalha sem o conhecimento acumulado de gerações.
Nenhum programador começa no vazio. Utiliza linguagens, algoritmos, protocolos e bibliotecas criadas por milhares de pessoas.
A humanidade avançou menos por causa de homens que quiseram vencer todos os outros do que por causa de pessoas que aceitaram continuar o trabalho umas das outras.
Educar para uma sociedade diferente
A escola não prepara apenas profissionais.
Prepara cidadãos.
Uma criança habituada a ver os outros como rivais poderá tornar-se um adulto que mede o próprio valor pelo salário, pelo cargo, pelo automóvel ou pela derrota do vizinho.
Um aluno ensinado a colaborar poderá compreender que o progresso colectivo não ameaça a sua identidade.
A sociedade que transforma tudo em competição acaba povoada por pessoas incapazes de celebrar o sucesso alheio.
O colega promovido torna-se inimigo.
O vizinho feliz provoca irritação.
O amigo bem-sucedido desperta suspeita.
A cooperação é vista como fraqueza.
A solidariedade parece ingenuidade.
E a vida inteira converte-se numa corrida cuja meta ninguém conhece, disputada por pessoas demasiado ocupadas a olhar umas para as outras para perceberem que seguem na direcção errada.
A escola poderia interromper este mecanismo.
Poderia ensinar que há espaço para muitos talentos.
Que a vida não distribui um único primeiro prémio.
Que o conhecimento cresce quando é partilhado.
Que ajudar alguém não nos diminui.
Que o valor de uma pessoa não pode ser calculado pela sua posição numa lista.
Que perder uma competição não significa fracassar como ser humano.
E que vencer todas as competições pode não significar ter aprendido a viver.
A escola do futuro
A escola do futuro não deveria abandonar a avaliação, mas transformá-la.
Deveria medir menos a obediência e mais a compreensão.
Menos a memória imediata e mais a capacidade de relacionar ideias.
Menos a velocidade e mais a profundidade.
Menos a posição relativa e mais o desenvolvimento individual.
O aluno deveria conhecer os seus progressos, as suas dificuldades e os passos seguintes.
Não deveria receber apenas um número, como quem recebe uma sentença administrativa.
A tecnologia poderá ajudar neste processo, acompanhando percursos, identificando dificuldades e oferecendo métodos personalizados. Mas nenhuma plataforma substituirá o olhar de um professor capaz de perceber que um aluno está a desistir de si próprio.
A inteligência artificial poderá explicar uma equação de dez maneiras diferentes.
Mas continuará a ser necessária uma inteligência humana para dizer a uma criança:
«Tu consegues. Ainda não encontrámos a forma certa de te ensinar.»
Esta frase contém mais educação do que muitos regulamentos.
Chegar mais longe sem deixar ninguém para trás
Agostinho da Silva deixou-nos a suspeita de que a escola perde a sua grandeza quando organiza os alunos como adversários.
A educação não deveria fabricar vencedores e vencidos.
Deveria formar pessoas que desejam crescer.
Pessoas capazes de reconhecer o talento alheio sem se sentirem diminuídas.
Pessoas que compreendem que o seu verdadeiro desafio não é ultrapassar o colega, mas superar a ignorância, o medo, a preguiça e os limites que ontem pareciam definitivos.
A pergunta essencial não é:
«Foste melhor do que os outros?»
É:
«Foste hoje um pouco melhor do que eras?»
Aprendeste alguma coisa?
Pensaste com mais liberdade?
Descobriste uma nova pergunta?
Foste capaz de ajudar alguém?
Tiveste coragem para admitir que não sabias?
Continuaste quando era difícil?
Se a resposta for afirmativa, houve educação.
Porque a verdadeira escola não é aquela onde alguns chegam primeiro.
É aquela onde todos aprendem a caminhar.
E o melhor aluno talvez não seja quem corre tão depressa que deixa os restantes para trás.
Talvez seja aquele que avança, olha para o lado e compreende que o caminho se torna maior quando é percorrido em conjunto.
Nota Editorial
Esta crónica foi inspirada pelo excerto de Agostinho da Silva intitulado «Os malefícios da rivalidade na escola», apresentado pelo autor do blogue. O texto não pretende reproduzir nem interpretar de forma exaustiva o pensamento pedagógico de Agostinho da Silva; toma aquela reflexão como luz de fundo para discutir a competição escolar, a comparação social e o sentido humano da educação.
A crítica à rivalidade não equivale a rejeitar a exigência, a avaliação, o esforço individual ou a ambição académica. Distingue-se entre a superação pessoal, que procura desenvolver capacidades, e uma cultura de comparação permanente, na qual o valor de cada aluno depende da posição que ocupa perante os colegas.
A investigação internacional não sustenta uma oposição simplista entre toda a competição e toda a cooperação. Os efeitos variam com os alunos, os contextos e a forma como as actividades são organizadas. Contudo, a evidência aponta para benefícios consistentes da aprendizagem colaborativa estruturada, da avaliação formativa e de ambientes que valorizam o domínio do conhecimento, o apoio entre pares e o bem-estar. A escola deve exigir muito de cada aluno, sem lhe ensinar que o progresso do outro constitui uma derrota pessoal.
Referências credíveis
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OCDE — PISA 2018 Results, Volume III: Student co-operation and competition
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OCDE — What School Life Means for Students’ Lives
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UNESCO — Futures of Education: A new social contract for education
-
UNESCO — Assessment for improved learning outcomes
-
Education Endowment Foundation — Collaborative learning approaches
-
Current Psychology / Springer Nature — A second-order meta-analysis on the effects of cooperative learning
-
International Journal of Educational Research — Effects of classroom goal structures on student emotions at school
-
Learning and Instruction — The power of anticipated feedback: Effects on students’ goals and emotions
-
Frontiers in Psychology — Achievement goals, academic social comparison and well-being at school
-
OCDE — Students’ well-being
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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