Os Regimes Corta-Fitas
Os Regimes Corta-Fitas
Mudam os regimes, mudam as câmaras e os discursos. A velha paixão política pela primeira pedra, pela placa e pela fita, porém, continua admiravelmente resistente.
Nota de abertura:
A democracia portuguesa rompeu com a natureza autoritária do Estado Novo, mas certas linguagens do poder sobreviveram à mudança de regime. Entre elas está a irresistível paixão pela obra visível: anunciar, lançar a primeira pedra, visitar o estaleiro, descerrar a placa e cortar a fita. O cenário muda; o valor político da fotografia permanece.
Há regimes políticos que constroem países. E há regimes políticos que constroem palcos.
Portugal conhece bem os segundos.
Mudaram as bandeiras, mudaram os discursos, mudaram os partidos e desapareceram os retratos obrigatórios nas repartições públicas. Mas sobreviveu uma velha paixão nacional pelo ritual da obra inaugurada, pela primeira pedra, pela placa descerrada, pela fotografia diante do betão ainda fresco e, naturalmente, pela majestosa fita de cetim que aguarda o momento histórico em que um governante empunhará uma tesoura.
É uma tradição política curiosamente resistente.
O Estado Novo compreendeu cedo o poder propagandístico da obra pública. Estradas, barragens, escolas, pontes e edifícios administrativos eram apresentados não apenas como infra-estruturas necessárias, mas como manifestações físicas da competência do regime. O Secretariado de Propaganda Nacional e os meios audiovisuais do regime ajudaram a construir e difundir essa imagem pública.[1][3]
A obra existia. Logo, o regime trabalhava.
Era uma equação simples, visual e extremamente eficaz.
Uma estrada pode ser fotografada.
Uma ponte aparece no jornal.
Uma barragem impressiona pela dimensão.
Uma escola pode receber uma placa.
Já a produtividade, a inovação, a qualidade institucional, a capacidade científica ou o desenvolvimento tecnológico têm um problema terrível para qualquer departamento de propaganda: são difíceis de inaugurar.
Não existe fita para cortar diante de um aumento sustentado da produtividade.
Não há placa de mármore para celebrar uma indústria que começou a exportar tecnologia própria.
Não se reúne o Conselho de Ministros diante de uma universidade para inaugurar solenemente o aumento da qualidade dos seus investigadores.
E nunca vimos um primeiro-ministro aparecer na televisão empunhando uma tesoura dourada para declarar oficialmente inaugurada uma administração pública eficiente.
Talvez por isso continuemos tão apaixonados pelo betão.
A democracia portuguesa trouxe liberdade política, pluralismo, eleições e alternância no poder. Felizmente.
Mas não conseguiu eliminar completamente uma determinada cultura de exercício do poder.
O governante continua frequentemente a sentir necessidade de mostrar que governa através de coisas que podem ser vistas.
Anuncia-se a obra.
Apresenta-se a obra.
Assina-se o protocolo da obra.
Lança-se a primeira pedra da obra.
Visita-se a obra.
Inaugura-se a obra.
E, em alguns casos particularmente férteis da criatividade administrativa portuguesa, reinaugura-se aquilo que já tinha sido inaugurado.
Cada etapa produz fotografias.
Cada fotografia produz comunicação.
Cada comunicação produz a ilusão de movimento.
É o Estado performativo. Não basta governar. É preciso parecer que se governa. E nada parece mais governo do que capacetes brancos alinhados diante de uma escavadora.
O culto da primeira pedra
Há algo particularmente fascinante na cerimónia da primeira pedra.
A primeira pedra tem uma qualidade política extraordinária: permite colher os benefícios simbólicos de uma obra muito antes de a obra existir.
É talvez uma das maiores invenções da engenharia eleitoral.
O político inaugura aquilo que ainda não foi construído.
Fotografa-se diante de um buraco.
Faz um discurso.
Promete datas.
Multiplica números.
E regressa a Lisboa deixando atrás de si uma pedra, algumas bandeiras e uma população convencida durante algumas horas de que o futuro finalmente começou.
Depois chegam os concursos.
As impugnações.
As revisões de projecto.
Os aumentos de custos.
Os atrasos.
As derrapagens.
As mudanças de governo.
E, com alguma sorte, dez anos depois aparece outro político para inaugurar aquilo cuja primeira pedra foi colocada pelo anterior.
A História completa então o círculo.
Um colocou a pedra.
Outro corta a fita.
O contribuinte paga ambos.
A grande vantagem do betão
Há, evidentemente, obras públicas indispensáveis.
Um país moderno precisa de boas infra-estruturas ferroviárias, hospitais, redes energéticas, escolas, sistemas de água, transportes públicos, portos e telecomunicações.
O problema não é construir.
O problema começa quando construir passa a substituir pensar.
Uma infra-estrutura deveria ser consequência de uma estratégia económica.
Em Portugal, demasiadas vezes, a infra-estrutura transforma-se na própria estratégia.
Constrói-se primeiro.
Explica-se depois.
E procura-se crescimento económico algures pelo caminho.
Uma ferrovia pode aumentar extraordinariamente a competitividade de um país se estiver integrada numa política industrial, logística e exportadora.
Um aeroporto pode ser decisivo se fizer parte de uma visão coerente do território e da economia.
Uma ponte pode transformar mobilidade e produtividade.
Mas nenhuma destas coisas possui poderes mágicos. A própria OCDE insiste que a qualidade da governação da infra-estrutura, a selecção dos projectos, a sustentabilidade orçamental e o valor obtido pelo investimento são decisivos para transformar despesa pública em benefício duradouro.[6]
O betão não produz automaticamente riqueza.
Uma infra-estrutura sem economia produtiva capaz de a utilizar pode transformar-se apenas numa maneira particularmente monumental de armazenar dívida pública.
A política do objecto visível
Existe também um incentivo eleitoral poderoso.
O político trabalha dentro de ciclos de quatro anos.
O desenvolvimento estrutural trabalha frequentemente dentro de ciclos de quinze ou vinte.
Criar uma indústria tecnológica competitiva demora.
Reformar profundamente o ensino demora.
Construir centros de investigação excelentes demora.
Formar engenheiros, cientistas e técnicos demora.
Transformar universidades em motores de inovação demora.
Construir uma ponte é politicamente muito mais agradecido.
Mesmo quando a ponte demora dez anos, cada fase pode ser anunciada.
Há estudos.
Há concursos.
Há contratos.
Há adjudicações.
Há visitas.
Há imagens computadorizadas.
Há primeiras pedras.
Há cerimónias.
É uma mina inesgotável de comunicação política.
O desenvolvimento humano, pelo contrário, comete a indelicadeza de não produzir fotografias suficientemente impressionantes.
Da propaganda analógica à propaganda digital
Salazar tinha a rádio, os jornais controlados e o cinema de actualidades. O «Jornal Português» é hoje estudado precisamente como instrumento audiovisual de propaganda do Estado Novo, e a própria história das inaugurações do regime chegou à televisão através do arquivo da RTP.[1][2]
Os governos contemporâneos possuem televisão permanente, redes sociais, assessores, departamentos de comunicação, vídeos institucionais, drones e gráficos tridimensionais.
A tecnologia mudou.
O princípio permanece admiravelmente familiar.
Produzir uma imagem simples que permita ao cidadão concluir:
Estão a fazer alguma coisa.
E talvez esta seja uma das grandes fragilidades das democracias modernas.
A política tornou-se cada vez mais dependente da percepção imediata.
Governar tornou-se também gerir narrativas.
A diferença entre realizar e anunciar começa perigosamente a diminuir.
E, quando isso acontece, o país pode acumular projectos enquanto continua sem resolver os seus problemas estruturais.
Pode ter mais quilómetros de estrada e continuar com baixa produtividade.
Pode construir novas infra-estruturas e continuar dependente tecnologicamente.
Pode inaugurar universidades e continuar incapaz de transformar investigação em indústria.
Pode anunciar fundos para inovação enquanto as empresas mais inovadoras procuram capital noutros países.
Pode cortar muitas fitas e continuar economicamente parado.
A OCDE continua a identificar o fraco crescimento de longo prazo da produtividade como uma das razões para o diferencial persistente de Portugal face às economias avançadas; a Comissão Europeia, por seu lado, mantém a produtividade, a inovação empresarial e a transformação do conhecimento em valor económico entre os desafios estruturais portugueses.[5][7][8]
O país que nunca inaugura o essencial
Talvez devêssemos imaginar outro tipo de cerimónias.
A inauguração da primeira empresa portuguesa capaz de exportar semicondutores.
A primeira plataforma nacional de inteligência artificial competitiva internacionalmente.
Uma indústria portuguesa de robótica.
Uma rede nacional de centros tecnológicos ligados às universidades.
Um crescimento sustentado da produtividade acima da média europeia.
Um sistema educativo onde aprender fosse mais importante do que decorar.
Uma administração pública onde um cidadão não tivesse de percorrer cinco balcões para resolver aquilo que um computador deveria fazer em segundos.
Seriam belas inaugurações.
Mas quase nenhuma teria fita.
E talvez esteja justamente aí o problema.
Continuamos a confundir aquilo que é visível com aquilo que é importante.
Continuamos a celebrar o objecto e não o sistema.
A obra e não o resultado.
O investimento e não o retorno.
O anúncio e não a transformação.
Democracia não deveria precisar de tesouras
Uma democracia madura deveria avaliar governos por aquilo que deixam funcionando quando abandonam o poder.
Não pelas placas onde gravaram os seus nomes.
Não pelas cerimónias.
Não pelas primeiras pedras.
Não pelos discursos diante das escavadoras.
Mas pela riqueza que ajudaram a criar, pelas instituições que melhoraram, pelo conhecimento que multiplicaram e pelas oportunidades que deixaram às gerações seguintes.
Porque uma estrada pode degradar-se.
Uma ponte envelhece.
Um aeroporto torna-se insuficiente.
Mas conhecimento, tecnologia, capacidade industrial e instituições sólidas produzem novas estradas, novas pontes e novos aeroportos quando forem necessários.
Essa é a diferença entre construir infra-estruturas e construir um país.
Portugal já teve demasiados regimes fascinados pelo primeiro gesto.
Colocar a pedra.
Descerrar a placa.
Cortar a fita.
Talvez esteja na altura de experimentar uma ideia politicamente revolucionária:
Governar sem necessidade permanente de inaugurar alguma coisa.
Seria menos fotogénico.
Provavelmente daria péssima televisão.
Mas talvez, finalmente, começássemos a inaugurar o futuro.
Nota Editorial
Esta crónica não estabelece equivalência entre o Estado Novo e a democracia portuguesa contemporânea. Um regime autoritário, sustentado em censura, repressão e ausência de pluralismo político, não é comparável a uma democracia constitucional apenas porque ambos recorrem a cerimónias públicas e comunicação política.
O objecto da crítica é outro: a persistência de uma cultura política que tende a confundir obra visível com desenvolvimento, anúncio com realização e investimento realizado com valor efectivamente criado. A história da propaganda do Estado Novo demonstra como a obra pública podia ser transformada em linguagem política; a experiência democrática deveria tornar-nos particularmente exigentes perante essa tentação.
Infra-estruturas são indispensáveis quando servem uma estratégia económica, social e territorial coerente. O que uma democracia deve exigir não é menos investimento, mas melhor investimento: projectos seleccionados pelo seu retorno colectivo, pela produtividade que permitem, pela riqueza que ajudam a criar e pelo país que deixam depois de desaparecerem os ministros, as fotografias e as fitas.
Referências credíveis
- RTP Ensina — Jornal Português: como se fazia propaganda no país de Salazar
- RTP Ensina — As inaugurações do Estado Novo chegam à televisão
- RTP Ensina — O SPN como motor do projecto cultural do Estado Novo
- RTP Ensina — As obras do Estado Novo
- OCDE — Portugal Economic Snapshot: produtividade e convergência económica
- OCDE — Recommendation of the Council on the Governance of Infrastructure
- Comissão Europeia — European Semester documents: Portugal
- Comissão Europeia — European Innovation Scoreboard 2026: Portugal
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


