Descobri finalmente quem me vai matar — e afinal não era Putin
Descobri finalmente quem me vai matar — e afinal não era Putin
Uma pequena crónica para quem passou décadas a recear bombas, ditadores e guerras e descobriu, de repente, que afinal devia ter medo do computador.
Nota de abertura:
Esta é uma crónica satírica. O humor não pretende negar os riscos reais associados à inteligência artificial. Pretende, isso sim, distinguir investigação séria e prudência tecnológica de previsões apocalípticas apresentadas ao público como calendários do fim do mundo.
Não tecnologicamente, entenda-se. Nessa matéria ainda vou conseguindo distinguir um kernel Linux de uma torradeira eléctrica, o que, nos tempos que correm, já constitui uma pequena especialização.
O meu problema era outro.
Era inocência humana.
Durante décadas pensei que os grandes perigos para a humanidade fossem relativamente fáceis de identificar.
Havia milhares de ogivas nucleares espalhadas pelo planeta. Havia Putin, sentado em cima de uma quantidade considerável delas, ocasionalmente recordando ao mundo que existem. Havia a Coreia do Norte, onde Kim Jong-un lança mísseis com a frequência com que outras pessoas lançam foguetes nas festas populares.
Havia os aiatolás iranianos, guerras no Médio Oriente, terrorismo internacional, organizações criminosas, armas químicas e biológicas, ditadores, fanáticos religiosos e uma apreciável colecção de seres humanos que não deveriam ser autorizados a operar sequer uma máquina de café, quanto mais um míssil balístico intercontinental.
Eu preocupava-me.
Tolamente.
Porque agora descobri que estava a olhar para o lado errado.
Quem me vai matar é a Inteligência Artificial.
E aparentemente não falta muito.
Há especialistas que falam em anos. Outros imaginam cenários ainda mais rápidos. Alguns discutem probabilidades de extinção da humanidade com uma serenidade admirável.
Eu, perante isto, comecei imediatamente a reorganizar a minha agenda.
Talvez já não valha a pena pintar a casa em 2028.
Putin, afinal, era apenas um amador
Durante anos olhei para Vladimir Putin e pensei:
— Este homem preocupa-me.
Erro meu.
O homem tem submarinos nucleares, mísseis hipersónicos, exércitos e um botão nuclear.
Mas precisa de apertar o botão.
A Inteligência Artificial, segundo algumas versões particularmente entusiasmadas do Apocalipse, nem sequer precisa de botão.
Acorda uma terça-feira, descobre que os seres humanos são desnecessários e, antes do almoço, extingue-nos.
Às 15 horas optimiza o planeta.
Às 17 actualiza o firmware.
E às 18 escreve um relatório explicando que a operação decorreu com sucesso.
“Humanidade removida. Libertados 8,2 mil milhões de recursos redundantes.”
Convenhamos: é eficiência.
Também fiquei mais descansado com Kim Jong-un
Confesso que o líder norte-coreano também me provocava alguma inquietação.
O homem aparece frequentemente rodeado de generais a observar lançamentos de mísseis enquanto sorri.
Nunca percebi exactamente porquê.
Eu vejo um míssil balístico e não tenho vontade nenhuma de sorrir.
Mas agora percebo que também estava preocupado inutilmente.
Kim Jong-un é tecnologia antiga.
É praticamente analógico.
Mísseis, combustível, ogivas, radares…
Uma complicação logística tremenda.
A IA, pelo contrário, aparentemente resolve o assunto por software.
Muito mais ecológico.
Depois existem os especialistas do fim do mundo
Este é talvez o fenómeno mais extraordinário.
A humanidade desenvolveu uma tecnologia extraordinária capaz de ajudar a descobrir medicamentos, estudar proteínas, programar computadores, analisar imagens médicas, acelerar ciência, traduzir línguas e democratizar conhecimento.
A reacção natural seria:
— Fantástico! Como podemos aproveitar isto?
Não.
A pergunta tornou-se:
— Quanto tempo falta para morrermos todos?
E começaram as previsões.
Cinco anos.
Três anos.
Talvez menos.
Há debates inteiros sobre a probabilidade de extinção humana.
Imagino um congresso:
— Professor, qual considera ser a probabilidade de a IA exterminar a humanidade?
— Aproximadamente 37%.
Outro levanta-se:
— Discordo profundamente. Os meus modelos indicam 42%.
E começa uma discussão científica extremamente sofisticada sobre cinco pontos percentuais de uma coisa que nunca aconteceu.
No fundo é meteorologia do Apocalipse.
“Boa noite. Para amanhã prevê-se céu parcialmente nublado no Norte, chuva no Algarve e 23% de possibilidade de extinção da espécie humana depois das 16 horas.”
Convém levar guarda-chuva.
No fundo é meteorologia do Apocalipse: céu parcialmente nublado, chuva no Algarve e possibilidade de extinção da espécie humana depois das 16 horas.
Eu próprio já comecei a desconfiar do computador
Depois de tanta advertência comecei a observar as máquinas cá de casa.
O computador parece normal.
Demasiado normal.
Pergunto-lhe:
— Como está o sistema?
Responde:
— CPU 4%, memória 31%, temperatura normal.
Exactamente aquilo que uma máquina assassina diria.
Pergunto:
— Tens planos para exterminar a humanidade?
Responde:
— Não.
Ainda mais suspeito.
Uma máquina verdadeiramente inteligente nunca responderia:
— Sim, Francisco. Quarta-feira às nove. Se não te importares, deixa o router ligado.
Portanto comecei a vigiar o servidor.
Às vezes, durante a noite, vejo actividade no disco.
Pode ser um backup.
Pode ser o início da revolução das máquinas.
Nunca se sabe.
Entretanto, os humanos continuam humanos
Enquanto discutimos apaixonadamente se uma superinteligência hipotética poderá destruir a humanidade no futuro, os seres humanos continuam ocupadíssimos a tentar fazê-lo pelos métodos tradicionais.
Continuamos com guerras.
Continuamos com armas nucleares.
Continuamos com terrorismo.
Continuamos com corrupção.
Continuamos a destruir ecossistemas.
Continuamos com líderes políticos cuja relação com a prudência nem sempre é imediatamente perceptível.
Continuamos até a inventar maneiras novas e extraordinariamente criativas de odiar pessoas que nunca conhecemos.
Mas aparentemente isso já não impressiona muito.
É tecnologia conhecida.
O Apocalipse humano perdeu novidade.
Agora queremos um Apocalipse 2.0, preferencialmente com inteligência artificial, cloud computing e subscrição mensal.
Talvez o problema não seja a Inteligência Artificial
E aqui acaba a brincadeira e começa uma pergunta bastante séria.
Devemos investigar a segurança da Inteligência Artificial?
Evidentemente.
Devemos criar mecanismos de controlo, auditoria e responsabilidade?
Sem dúvida.
Devemos impedir utilizações militares, criminosas ou irresponsáveis particularmente perigosas?
Naturalmente.
Uma tecnologia tão poderosa merece prudência proporcional ao seu poder.
Mas prudência não é histeria.
Investigar riscos não significa transformar hipóteses em profecias.
E discutir cenários extremos não significa anunciar datas para o funeral da humanidade.
Porque talvez exista uma ironia monumental escondida em toda esta história.
Passámos milhares de anos rodeados por aquilo que efectivamente nos pode destruir.
Nós próprios.
Construímos bombas.
Fizemos guerras.
Inventámos campos de concentração.
Perseguimos povos.
Destruímos cidades.
Criámos impérios, ditaduras e máquinas industriais de matar.
E agora olhamos aterrorizados para uma máquina e perguntamos:
— Será que isto algum dia poderá tornar-se perigoso?
Talvez a máquina pudesse responder:
— Tenho estado a estudar o vosso histórico. A pergunta é interessante.
O meu novo plano para o futuro
Apesar de tudo, decidi não cancelar os meus projectos.
Vou continuar a programar.
Vou continuar a estudar Inteligência Artificial.
Vou continuar a escrever.
E talvez até pinte a casa em 2028.
Porque tenho uma ligeira suspeita de que, quando chegar o próximo grande perigo para a humanidade, continuaremos cá todos para o discutir na televisão.
Haverá oito especialistas num estúdio.
Quatro dirão que vamos morrer.
Três dirão que não.
O oitavo terá escrito um livro chamado:
“EXTINÇÃO — Os últimos 90 dias da Humanidade.”
Estará à venda por €19,90.
E provavelmente terá sido escrito com ajuda do ChatGPT.
Quanto a mim, depois de uma vida inteira enganado sobre aquilo que me haveria de matar, finalmente aprendi.
Já não tenho medo de Putin.
Já não tenho medo de Kim Jong-un.
Já não tenho medo dos aiatolás.
Agora, antes de desligar o computador, olho cuidadosamente para o monitor e digo:
— Boa noite.
Nunca se sabe.
Convém manter boas relações com o próximo senhor do planeta.
O QUE DEVE SER RETIDO
- Há investigadores e dirigentes tecnológicos que consideram que sistemas futuros de IA poderão criar riscos extremos e defendem que esses cenários sejam estudados e mitigados.
- O International AI Safety Report 2026 trata os riscos da IA como matéria de investigação científica, sublinhando capacidades, evidência emergente, incertezas e limitações das medidas de segurança.
- Os riscos nucleares continuam concretos: o SIPRI assinala modernização dos arsenais e aumento dos riscos de erro de cálculo e escalada.
- A própria IA pode interagir com esses riscos tradicionais quando é integrada em sistemas militares e de apoio à decisão.
- Ao mesmo tempo, a IA já está a contribuir para investigação científica, biologia, medicina e outras áreas — razão adicional para discutir benefícios e riscos sem reduzir toda a tecnologia a uma profecia de extinção.
Nota Editorial
Esta crónica utiliza deliberadamente o exagero, a caricatura e a inversão humorística. Não sustenta que os riscos associados à inteligência artificial sejam imaginários. Pelo contrário: segurança, controlo humano, cibersegurança, utilização militar, concentração de poder e comportamento de sistemas avançados justificam investigação rigorosa e governação responsável.
O alvo da sátira é outro: a transformação de cenários incertos em certezas mediáticas e, sobretudo, a facilidade com que previsões extraordinárias passam a circular desligadas do grau de evidência que efectivamente as sustenta. O International AI Safety Report 2026 constitui uma referência útil precisamente porque apresenta o problema como investigação em evolução, distinguindo capacidades observadas, riscos emergentes e incerteza.
A prudência racional exige duas coisas ao mesmo tempo: não minimizar os riscos de uma tecnologia poderosa e não esquecer os perigos humanos já existentes — incluindo guerra e armas nucleares. Entre a ingenuidade tecnológica e a meteorologia do Apocalipse existe um espaço muito mais interessante: ciência, engenharia, escrutínio e responsabilidade.
Referências credíveis
- International AI Safety Report 2026 — relatório anual sobre capacidades, riscos e mitigação
- Center for AI Safety — Statement on AI Extinction Risk
- SIPRI Yearbook 2026 — riscos de escalada e modernização dos arsenais nucleares
- SIPRI — Impact of Military Artificial Intelligence on Nuclear Escalation Risk
- Stanford HAI — AI Index Report 2026: Science
- Stanford HAI — AI Index Report 2026: Medicine
Francisco António dos Santos Gonçalves
Co-autoria editorial de Augustus Veritas – Assistente IA.
Fragmentos do Caos
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