O melhor director de campanha de André Ventura chama-se incompetência do sistema
O melhor director de campanha de André Ventura chama-se incompetência do sistema
Talvez o maior aliado eleitoral do populismo não seja a sua genialidade política, mas a persistente incapacidade do sistema para corrigir aquilo que os cidadãos vêem todos os dias.
Nota de abertura:
Esta crónica é um texto de opinião e análise política. Não pretende absolver o Chega das suas próprias contradições, excessos ou responsabilidades. Procura antes discutir uma questão mais incómoda: até que ponto os erros dos partidos tradicionais ajudam a fortalecer exactamente o adversário político que afirmam querer combater?
Há uma explicação confortável para o crescimento do Chega: André Ventura fala alto, simplifica problemas complexos, explora ressentimentos, domina a televisão e percebe como poucos a lógica das redes sociais.
Tudo isso pode ser verdade.
Mas falta uma personagem fundamental nesta história.
O melhor director de campanha de André Ventura não trabalha no Chega. Trabalha, há anos, dentro do próprio sistema político que diz querer combatê-lo. Chama-se incompetência.
Às vezes chama-se arrogância. Outras vezes chama-se clientelismo. De vez em quando aparece disfarçada de falta de transparência. E, com surpreendente regularidade, apresenta-se simplesmente como incapacidade para resolver os problemas concretos das pessoas.
O elefante dentro do Parlamento
Durante décadas, PS e PSD estruturaram grande parte da governação portuguesa. Isso não constitui, por si só, qualquer pecado democrático: ganharam eleições e receberam legitimidade dos portugueses para governar.
O problema começa quando, depois de tantos anos de poder, continuam por resolver questões que os cidadãos encontram diariamente à porta de casa.
Habitação inacessível. Salários que dificilmente acompanham o custo de vida. Listas de espera no SNS. Justiça que demasiadas vezes parece deslocar-se à velocidade geológica. Administração pública burocrática. Casos sucessivos de incompatibilidades, suspeitas, demissões e explicações tardias.
E depois aparece alguém e diz: “O sistema não funciona.”
Talvez a primeira reacção devesse ser perguntar: porque é que tanta gente acredita nisso?
Em vez disso, demasiadas vezes escolhe-se outra explicação: o problema são os populistas. É uma explicação extraordinariamente cómoda.
Ventura agradece
Nas eleições legislativas de 18 de Maio de 2025, o Chega conseguiu 1.437.881 votos, 22,76% e 60 deputados. O PS obteve 1.442.194 votos, 22,83% e 58 deputados. O partido que durante muito tempo foi tratado como fenómeno marginal tornou-se a segunda maior força parlamentar em número de deputados.
Isto não aconteceu porque, subitamente, quase um milhão e meio de portugueses acordaram numa manhã possuídos por uma misteriosa febre ideológica.
Aconteceu também porque uma parcela considerável da população deixou de confiar nos partidos tradicionais.
Podemos não gostar da escolha. Podemos criticá-la. Podemos combater as ideias do Chega. Mas desprezar as razões do eleitor é provavelmente uma das formas mais eficientes de garantir que ele volte a votar exactamente da mesma maneira — ou com ainda maior convicção.
O paradoxo Montenegro
Luís Montenegro encontra-se numa posição particularmente difícil. Precisa de afirmar o PSD como força moderada de governo, distinguir-se do Chega e, simultaneamente, governar num Parlamento fragmentado, onde as maiorias têm de ser construídas proposta a proposta.
O problema político surge quando cada hesitação, cada polémica mal gerida, cada explicação tardia ou cada episódio que transmita falta de controlo se transforma numa nova linha do discurso anti-sistema.
Ventura pode então limitar-se a dizer: “Estão a ver? É isto o sistema.”
E muitas vezes nem precisa de escrever o argumento. O argumento é-lhe entregue, embrulhado e pronto a utilizar.
Há aqui uma dificuldade adicional: a percepção política conta quase tanto como os factos. Um Governo pode ter boas medidas, indicadores económicos favoráveis ou legislação tecnicamente competente; mas, se acumular episódios que transmitam improvisação, opacidade ou ausência de responsabilização, a percepção pública pode engolir silenciosamente o resto.
A estratégia mais estranha do mundo
Há sectores políticos que parecem acreditar que o crescimento do Chega será travado através da indignação permanente.
Chamam-lhe extremista. Alertam para os perigos. Criam cordões sanitários. Discutem mecanismos jurídicos. Acusam os seus eleitores de votarem mal.
E depois regressam ao governo e continuam exactamente como antes.
Se existisse um manual intitulado Como Fazer Crescer um Partido Populista em Dez Passos Simples, seria difícil produzir uma estratégia mais eficaz.
Porque a forma mais poderosa de combater o populismo não é discursar contra ele. É retirar-lhe os argumentos.
Se alguém afirma que o Estado é incompetente, faça-se o Estado funcionar.
Se alguém afirma que existe corrupção, investigue-se depressa e puna-se quem tiver de ser punido.
Se alguém acusa a política de viver fechada sobre si própria, abra-se a política à sociedade.
Se alguém diz que nada muda, demonstre-se o contrário.
Parece elementar. Talvez por isso seja tão difícil.
Governar é a melhor campanha eleitoral
Imaginem, por um momento, um Governo que durante três anos conseguisse demonstrar resultados inequívocos.
Consultas médicas em tempo razoável. Habitação efectivamente acessível. Justiça mais rápida. Menos burocracia. Investimento produtivo. Salários reais em crescimento. Serviços públicos previsíveis. Nomeações transparentes. Responsabilização política quando alguma coisa corre mal.
O que aconteceria ao discurso anti-sistema?
Perderia oxigénio.
Não desapareceria — os populismos existem mesmo nas democracias mais eficientes. Mas seria muito mais difícil convencer alguém de que tudo está podre quando as instituições funcionam diante dos seus olhos.
É aqui que PS e PSD deveriam concentrar a energia. Não em descobrir maneiras cada vez mais sofisticadas de explicar aos portugueses por que razão não devem votar no Chega, mas em dar-lhes menos razões para querer fazê-lo.
A democracia tem memória
Há uma ironia histórica neste momento português.
Durante décadas, os grandes partidos disseram correctamente aos cidadãos: “Em democracia, o poder está nas vossas mãos.”
Agora alguns eleitores começaram a utilizar esse poder de maneiras que os partidos tradicionais não esperavam.
A resposta democrática não pode ser: “Não era bem isso que queríamos dizer.”
É preciso aceitar o desconforto inerente à democracia. As pessoas podem votar de maneiras que consideramos erradas. Podem protestar através das urnas. Podem expulsar partidos do poder. Podem elevar outros. E podem voltar atrás quatro anos depois.
Essa incerteza não é uma falha da democracia. É a própria democracia.
O verdadeiro adversário
Talvez por isso André Ventura tenha um adversário muito mais perigoso do que qualquer discurso parlamentar contra ele.
Um Estado competente. Um Governo eficaz. Instituições transparentes. Uma economia que proporcione mobilidade social. Uma justiça em que os cidadãos confiem. Uma classe política capaz de reconhecer erros sem precisar primeiro de contratar três assessores de comunicação.
Isso sim poderia causar enormes dificuldades ao Chega.
Até lá, existe um extraordinário paradoxo.
Os partidos tradicionais passam grande parte do tempo a perguntar: “Como podemos parar André Ventura?”
Quando talvez devessem começar por fazer uma pergunta bastante mais incómoda:
“O que continuamos nós a fazer para que tantos portugueses considerem necessário votar nele?”
Porque existe uma regra velha como a própria política: quando o poder deixa um vazio, alguém o ocupa.
E enquanto o sistema continuar a oferecer erros, arrogância, promessas adiadas e problemas sem solução, André Ventura continuará a ter uma máquina eleitoral extraordinária a trabalhar para ele.
O mais curioso é que nem sequer precisa de lhe pagar salário.
O QUE DEVE SER RETIDO
- O Chega obteve 22,76% dos votos e 60 deputados nas legislativas de 18 de Maio de 2025.
- O crescimento populista não se explica apenas pela comunicação dos seus líderes; também se alimenta da desconfiança nas instituições e nos partidos tradicionais.
- A exclusão política ou a indignação permanente podem reforçar narrativas anti-sistema quando não são acompanhadas por melhores resultados de governação.
- A resposta democrática mais robusta ao populismo continua a ser instituições eficazes, transparência, responsabilização e resultados concretos para os cidadãos.
Nota Editorial
Esta crónica distingue deliberadamente entre crítica política e imputação criminal. A existência de erros governativos, clientelismo percebido, conflitos éticos ou desconfiança pública não permite concluir que partidos, dirigentes ou instituições sejam criminalmente corruptos sem provas e decisões judiciais adequadas.
O argumento central é político: democracias representativas perdem capacidade de conter movimentos populistas quando os partidos estabelecidos deixam problemas estruturais sem resposta, comunicam mal os seus próprios erros ou parecem incapazes de se reformar. A literatura comparada e a evolução eleitoral europeia mostram que o fenómeno é mais complexo do que uma simples deslocação ideológica dos eleitores.
Criticar o Chega, escrutinar as suas propostas e defender os limites constitucionais da democracia é legítimo e necessário. Mas nenhuma estratégia institucional substitui a mais difícil de todas: governar de modo suficientemente competente para que a revolta contra o sistema deixe de ser, para tantos cidadãos, uma opção eleitoral atractiva.
Referências credíveis
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Assembleia da República — Resultados eleitorais da XVII Legislatura, eleições de 18 de Maio de 2025
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Reuters — Portugal’s ruling centre-right alliance wins election, but far-right makes record gains
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Associated Press — Portugal’s election brings another minority government and a far-right rise
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The Guardian — “Nothing will be the same again”: Portugal’s Chega may be spot on
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POLITICO Europe — Portugal: election results, polling trends and political context
Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI
Fragmentos do Caos
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