A Vacina Contra as Utopias
Crónica · Filosofia política
A Vacina Contra as Utopias
Da sedução das certezas ao pragmatismo das democracias corrigíveis
Por Francisco Gonçalves · Fragmentos do Caos · 24 de Julho de 2026
Há pessoas que atravessam uma ideologia como quem atravessa uma religião: entram à procura de respostas e acabam ajoelhadas perante certezas. Outras, mais inconvenientes, entram levando livros, perguntas e uma desconfiança saudável em relação a todos os homens que prometem reorganizar a Humanidade antes do jantar.
O que me imunizou contra os extremismos políticos não foi uma doutrina rival. Foi a leitura. Foi a dúvida. Foi a comparação persistente entre aquilo que as ideologias prometiam nos seus manifestos e aquilo que produziam quando conquistavam o poder.
Os dogmas preferem fiéis a leitores, seguidores a cidadãos e palavras de ordem a perguntas bem formuladas.
A facilidade de imaginar o paraíso
Quando li Thomas More, percebi que Utopia não era propriamente um manual para governar sociedades. Era uma construção filosófica ambígua, simultaneamente crítica, provocação e experiência mental. A própria tradição académica continua a sublinhar essa mistura de perspectivas e a tensão entre o ideal abstracto e a prudência política.[1]
More imaginou uma sociedade organizada segundo princípios racionais, mas deixou-nos também um aviso que a História viria a confirmar repetidamente: conceber uma sociedade perfeita é relativamente fácil.
O problema começa quando alguém decide impô-la a seres humanos reais.
Seres humanos com ambição, medo, vaidade, ressentimento, desejo de poder e uma extraordinária capacidade para converter boas intenções em gabinetes de vigilância. A perfeição política costuma chegar acompanhada por censores, polícias secretas e funcionários encarregados de decidir quais pensamentos são compatíveis com a felicidade colectiva.
Uma coincidência histórica tão frequente que quase poderia ser classificada como lei científica.
O diagnóstico e a contradição de Marx
Karl Marx teve mérito ao estudar a concentração do capital, a exploração do trabalho, a alienação e as profundas desigualdades produzidas pela industrialização do século XIX. A amplitude e a complexidade do seu pensamento não cabem nas caricaturas dos seus devotos nem nas dos seus adversários.[2]
O seu diagnóstico continha intuições poderosas. Percebeu que a propriedade económica também produz poder político, que o trabalho pode ser reduzido a mercadoria e que uma sociedade formalmente livre pode continuar profundamente desigual.
O problema estava na solução.
A promessa de construir uma sociedade sem classes através da concentração revolucionária do poder continha uma contradição fatal: para eliminar a dominação, entregava-se ao Estado uma capacidade quase ilimitada de dominar.
A chamada ditadura do proletariado transformou-se, em sucessivas experiências históricas, na ditadura do partido. Depois, na ditadura do comité central. Finalmente, na ditadura de um homem rodeado por retratos gigantes, discursos intermináveis e cidadãos prudentemente silenciosos.
O proletariado, anunciado como proprietário do futuro, não podia escolher livremente o governo, fundar um jornal, criar uma empresa, atravessar uma fronteira ou discordar do secretário-geral sem descobrir, por experiência própria, o lado menos lírico da revolução.
A igualdade prometida acabou demasiadas vezes por significar a igualdade dos cidadãos perante a escassez, enquanto uma nova elite política ocupava casas reservadas, lojas especiais, automóveis oficiais e sanatórios inacessíveis ao povo em cujo nome governava.
Mudaram os proprietários. Não desapareceu o poder.
A lição soviética: os arquivos históricos mostram como o controlo do partido-Estado, a intolerância perante a dissidência e o terror policial foram usados para assegurar o domínio absoluto de Estaline. A utopia declarava-se libertadora; o cidadão aprendia a medir cada frase.[3]
Portugal à beira de outro autoritarismo
Portugal, durante o PREC e até ao 25 de Novembro de 1975, viveu uma confrontação entre projectos incompatíveis de sociedade. Na minha leitura, esteve perigosamente próximo de trocar uma ditadura autoritária de direita por uma experiência revolucionária em que sectores militares e políticos da esquerda radical procuravam concentrar o poder e olhavam para regimes comunistas como modelos de futuro.
A historiografia continua a discutir intenções, responsabilidades e alianças, como sucede em todos os episódios que ainda alimentam a política do presente. Porém, estudos internacionais reconhecem a radicalização, a infiltração partidária de instituições, a tentativa militar de 25 de Novembro e o papel daquele desfecho na estabilização da democracia representativa.[4][5]
E tudo isto acontecia quando já era possível conhecer o resultado das experiências políticas apresentadas como faróis da emancipação: censura, partido único, perseguição política, economias rigidamente comandadas, fronteiras fechadas e uma curiosa abundância de prisões em sociedades que se proclamavam libertadas.
Nesse período, era quase herético recordar que uma revolução feita em nome da liberdade também podia acabar com ela. O entusiasmo dispensava frequentemente a análise. Bastava chamar “reaccionário” a quem fizesse perguntas e “conquista popular” a qualquer decisão tomada por uma minoria suficientemente ruidosa.
Uma ideologia não deve ser julgada pela beleza dos seus manifestos. Deve ser julgada pela vida concreta das pessoas submetidas à sua aplicação.
Pode permitir discordância? Pode ser criticada publicamente? Aceita eleições livres? Tolera imprensa independente? Permite alternância política? Reconhece ao cidadão o direito de dizer não?
Quando a resposta é negativa, já não estamos perante uma promessa de emancipação. Estamos perante uma prisão com vocabulário filosófico.
O caminho nórdico
Foi por isso natural que eu tivesse encontrado nas democracias nórdicas um caminho muito mais sério.
Essas sociedades não aboliram o capitalismo. Civilizaram-no.
Mantiveram a propriedade privada, as empresas competitivas, o comércio, a inovação e os mercados. Mas construíram, simultaneamente, serviços públicos universais, protecção social, negociação colectiva, tributação redistributiva, instituições transparentes e uma cultura política baseada na confiança e na responsabilidade.
O modelo nórdico não assenta num milagre cultural inexplicável. Assenta numa economia produtiva, níveis elevados de emprego, abertura ao comércio, mercados de trabalho flexíveis, serviços sociais universais, negociação entre sindicatos e empregadores, estabilidade macroeconómica e instituições fortes. O FMI descreve precisamente esta combinação entre prosperidade, inclusão, abertura e disciplina.[6]
O sucesso nórdico nasceu exactamente daquilo que os extremismos detestam: mistura, pragmatismo, correcção, compromisso e avaliação permanente dos resultados.
Não existe ali a pureza doutrinária do capitalismo absoluto, segundo a qual qualquer intervenção do Estado representa uma ofensa à ordem natural do universo.
Também não existe a fantasia do Estado proprietário, patrão, comerciante, banqueiro, agricultor, jornalista, educador e tutor geral da consciência pública.
Existe uma economia de mercado regulada por uma democracia exigente.
Existem sindicatos fortes e empresários livres. Serviços públicos universais e responsabilidade fiscal. Protecção social e incentivo à inovação. Direitos colectivos e autonomia individual.
A prosperidade financia a solidariedade, e a solidariedade ajuda a preservar a estabilidade social necessária à prosperidade.
Parece simples.
Infelizmente, exige políticos competentes, instituições respeitadas e cidadãos pouco interessados em transformar líderes partidários em santos, salvadores ou pais da pátria. A OCDE destaca precisamente a relação entre instituições robustas, confiança, participação, qualidade dos serviços públicos e satisfação democrática em países como a Suécia e a Noruega.[7][8]
Uma arquitectura bastante exótica para países onde tantas vezes se prefere a palavra de ordem à análise dos resultados.
O pior de vários mundos
Portugal pagou caro a febre revolucionária, as nacionalizações precipitadas, a instabilidade económica, a destruição da confiança e a ideia quase infantil de que mudar a propriedade das empresas equivalia automaticamente a melhorar a sua gestão.
Mas pagou também caro, nas décadas seguintes, por não ter conseguido construir uma social-democracia madura, produtiva e institucionalmente séria.
Ficámos, demasiadas vezes, com o pior de vários mundos.
Um Estado pesado sem a eficiência nórdica.
Impostos elevados sem serviços públicos equivalentes.
Capitalismo de proximidade sem verdadeira concorrência.
Burocracia abundante e responsabilização escassa.
Partidos que falam de justiça social enquanto distribuem cargos, administrações, assessorias e oportunidades pelos respectivos círculos de amizade.
Não construímos uma economia verdadeiramente liberal, porque protegemos rendas, monopólios e relações privilegiadas.
Também não construímos uma social-democracia moderna, porque confundimos o Estado social com a acumulação de estruturas, dirigentes, institutos, empresas públicas e procedimentos que parecem existir, sobretudo, para justificar a sua própria existência.
O resultado é um país onde o cidadão paga como se vivesse na Escandinávia, recebe frequentemente serviços de uma administração exausta e observa elites políticas que continuam a explicar-lhe, com solenidade pedagógica, que tudo melhorará mediante mais uma comissão.
Uma sociedade corrigível
O meu percurso intelectual começou pela filosofia, atravessou as ideologias, observou a História e procurou os sistemas que demonstravam funcionar na realidade.
Não procurei uma religião política.
Procurei uma sociedade livre, justa, próspera e corrigível.
Esta última palavra talvez seja a mais importante.
Uma democracia digna não promete a perfeição. Permite reconhecer erros, substituir governantes, reformar instituições, corrigir políticas e continuar a evoluir sem prender, exilar ou fuzilar quem discorda.
A democracia é, por natureza, incompleta. Faz barulho, perde tempo, produz compromissos imperfeitos e coloca-nos perante a desagradável obrigação de conviver com pessoas que pensam de maneira errada, isto é, diferente da nossa.
Mas essa imperfeição é precisamente a sua grandeza.
Num regime livre, um governo pode falhar sem que o país tenha de derrubar o sistema inteiro. Um partido pode perder eleições. Uma lei pode ser revogada. Um governante pode ser substituído. Um cidadão pode escrever que todos eles são incompetentes e, com alguma sorte, continuar a tomar café na manhã seguinte.
As utopias não toleram esta fragilidade.
As utopias oferecem o céu e exigem obediência.
As boas democracias oferecem trabalho imperfeito, revisão constante e liberdade.
É menos épico. Não produz tantos desfiles, tantos uniformes nem tantos retratos de líderes contemplando o horizonte.
Também produz bastante menos cadáveres.
E, depois de tantos séculos de experiências políticas realizadas sobre corpos humanos, talvez seja razoável concluir que uma sociedade que pode corrigir os seus erros é infinitamente superior a uma sociedade que se declara perfeita e transforma qualquer crítica num crime.
A dúvida não enfraquece a democracia. A dúvida protege-nos daqueles que têm certezas suficientes para querer governar até os nossos pensamentos.
Nota Editorial
Esta crónica é um ensaio de opinião e reflexão filosófico-política. Reconhece a importância intelectual da crítica marxiana ao capitalismo, mas distingue essa análise dos regimes que, em seu nome, concentraram o poder e suprimiram liberdades. A leitura do PREC e do 25 de Novembro é assumidamente autoral, num campo historiográfico onde persistem interpretações divergentes. O critério defendido é simples e verificável: nenhuma doutrina deve ser absolvida pelas suas intenções quando os seus resultados retiram ao cidadão o direito de escolher, discordar e corrigir o poder.
Referências internacionais
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — “Thomas More”. Enquadramento filosófico de Utopia, da sua ambiguidade e da tensão entre idealismo e prudência política.
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — “Karl Marx”. Síntese crítica do pensamento de Marx, da alienação, da teoria da História e da emancipação política.
- Library of Congress — “Internal Workings of the Soviet Union”. Documentação histórica sobre o controlo do partido-Estado, o terror político e a repressão durante o período estalinista.
- Cambridge University Press, Contemporary European History — “From Enemies to Allies? Portugal’s Carnation Revolution and Czechoslovakia, 1968–1989”. Análise académica das relações políticas do processo revolucionário português com o bloco de Leste.
- Financial Times — “The Carnation Revolution: Portugal’s fight against dictatorship”. Leitura internacional do PREC, da radicalização de 1975 e do risco de conflito civil.
- International Monetary Fund — “Is There a One-Size-Fits-All Approach to Inclusive Growth?”. Estudo comparativo que identifica produtividade, emprego, abertura económica, flexibilidade laboral, protecção universal e instituições fortes como pilares do modelo nórdico.
- OECD — “Public Governance Monitor of Sweden”. Avaliação da robustez institucional, dos serviços públicos e da satisfação democrática na Suécia.
- OECD — “Drivers of Trust in Public Institutions in Norway”. Estudo sobre confiança, participação cívica, economia mista e qualidade das instituições norueguesas.
- Our World in Data — “Democracy”. Dados e investigação comparada sobre democracia, governação, desenvolvimento e paz.
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Nota final: a Utopia de Thomas More
Publicada em 1516, Utopia, de Thomas More, descreve uma ilha imaginária onde a sociedade foi organizada segundo princípios de racionalidade, disciplina colectiva e relativa igualdade económica. A propriedade privada é praticamente inexistente, o trabalho é distribuído entre todos, a educação é valorizada e a riqueza material não constitui o centro da vida social.
A obra não deve, contudo, ser lida como um simples programa político. Thomas More construiu uma narrativa deliberadamente ambígua, que tanto critica as desigualdades, a pobreza e a corrupção da Europa do seu tempo como questiona o preço da ordem absoluta. A sociedade da ilha parece justa e eficiente, mas também profundamente regulamentada, deixando pouco espaço para a espontaneidade, a individualidade e a verdadeira liberdade pessoal.
A grande força de Utopia está precisamente nessa ambiguidade. A obra convida-nos a imaginar uma sociedade melhor, mas também a desconfiar de qualquer sistema que pretenda definir, antecipadamente, a felicidade de todos. Quando a perfeição colectiva exige que cada ser humano se adapte a um modelo único, a esperança começa facilmente a transformar-se em vigilância, disciplina e obediência.
Thomas More deixou, assim, uma das perguntas mais persistentes da filosofia política: será possível construir uma sociedade mais justa sem destruir a liberdade que torna cada pessoa singular? Cinco séculos depois, a resposta continua por concluir. As ideologias, essas, continuam a apresentar projectos definitivos, como se a natureza humana fosse um erro administrativo que pudesse ser corrigido por decreto.
A verdadeira lição de Utopia não é que a sociedade perfeita esteja à nossa espera, mas que imaginar um mundo melhor é necessário e acreditar na perfeição política pode ser perigoso.


