Quando a História tem de pedir desculpa ao patrocinador
Fragmentos do Caos · Crónica | História, liberdade e poder
Quando a História tem de pedir desculpa ao patrocinador
Quando um futebolista chama ditador a Mao, os patrocinadores mostram o cartão vermelho. E a História descobre que também tem departamento comercial.
O futebol descobriu a máquina do tempo
Kylian Mbappé comentou um meme em que o seu rosto aparecia sobreposto ao de Mao Tsé-Tung e referiu-se à figura como um «ditador chinês». O comentário, feito numa entrevista anterior e recuperado nas redes sociais, desencadeou uma crise diplomática de chuteiras: patrocinadores chineses cortaram relações, a televisão estatal suspendeu transmissões e até o Real Madrid apresentou desculpas. A bola era redonda, mas a liberdade de expressão saiu bastante amolgada.
O crime de chamar as coisas pelo nome
Mao governou a China de 1949 a 1976 num sistema de partido único. O Grande Salto em Frente esteve associado a uma fome devastadora; a Revolução Cultural desencadeou perseguições, humilhações públicas e violência. Os historiadores discutem números, causas e responsabilidades específicas. Não discutem, porém, que estes acontecimentos existiram. Chamar autoritário ao seu regime não equivale a insultar a poesia chinesa, a porcelana, Confúcio ou a extraordinária história de uma civilização milenar.
A nova disciplina olímpica: salto à retaguarda
O episódio parece inaugurar uma modalidade: os cem metros de marcha-atrás institucional. Um jogador fala, um mercado protesta, as marcas retiram-se, a liga lamenta e o clube pede desculpa. Falta apenas o árbitro consultar o VAR para verificar se a História estava em fora de jogo. Quando os contratos publicitários se tornam árbitros do discurso público, a autocensura pode entrar em campo antes de qualquer proibição formal.
O respeito não é amnésia
Há cidadãos chineses que veneram Mao, outros que avaliam criticamente o seu legado e muitos que podem ter opiniões complexas. Nenhum povo é uma voz única. Respeitar os chineses não implica aceitar que a memória oficial do Estado seja a única interpretação admissível. E convém não confundir crítica histórica com insulto étnico: a primeira pertence ao debate livre; o segundo ataca pessoas pela sua origem.
O precedente que nos deve inquietar
Imaginemos, por absurdo, que daqui a umas décadas alguém exige desculpas por recordar a repressão de Mussolini, o nazismo de Hitler ou a censura e a polícia política do Estado Novo de Salazar. Os regimes diferem profundamente em ideologia, dimensão e crimes; compará-los exige rigor, não equivalências fáceis. Mas todos ilustram por que motivo o passado deve permanecer aberto à investigação e à crítica. Caso contrário, um dia ainda se exige a um manual escolar que peça licença ao departamento de marketing.
A memória não está à venda
A diplomacia exige delicadeza; o comércio exige negociação. A investigação histórica exige provas. Confundir estas três linguagens é entregar o arquivo da humanidade ao patrocinador mais sensível. Podemos reconhecer a importância de Mao na fundação da China contemporânea e examinar sem eufemismos as consequências humanas do seu governo. Não são posições incompatíveis. A História não precisa de insultar ninguém; também não deve ajoelhar-se perante ninguém.
Quando a verdade histórica precisa de pedir desculpa ao poder, não é a História que está a ser respeitada. É a liberdade que está a ser negociada.
Referências e leituras internacionais


