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Quando a História tem de pedir desculpa ao patrocinador

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Fragmentos do Caos · Crónica | História, liberdade e poder

Quando a História tem de pedir desculpa ao patrocinador

28 de outubro de 2026 · Crónica de opinião

Quando um futebolista chama ditador a Mao, os patrocinadores mostram o cartão vermelho. E a História descobre que também tem departamento comercial.

O futebol descobriu a máquina do tempo

Kylian Mbappé comentou um meme em que o seu rosto aparecia sobreposto ao de Mao Tsé-Tung e referiu-se à figura como um «ditador chinês». O comentário, feito numa entrevista anterior e recuperado nas redes sociais, desencadeou uma crise diplomática de chuteiras: patrocinadores chineses cortaram relações, a televisão estatal suspendeu transmissões e até o Real Madrid apresentou desculpas. A bola era redonda, mas a liberdade de expressão saiu bastante amolgada.

O crime de chamar as coisas pelo nome

Mao governou a China de 1949 a 1976 num sistema de partido único. O Grande Salto em Frente esteve associado a uma fome devastadora; a Revolução Cultural desencadeou perseguições, humilhações públicas e violência. Os historiadores discutem números, causas e responsabilidades específicas. Não discutem, porém, que estes acontecimentos existiram. Chamar autoritário ao seu regime não equivale a insultar a poesia chinesa, a porcelana, Confúcio ou a extraordinária história de uma civilização milenar.

A nova disciplina olímpica: salto à retaguarda

O episódio parece inaugurar uma modalidade: os cem metros de marcha-atrás institucional. Um jogador fala, um mercado protesta, as marcas retiram-se, a liga lamenta e o clube pede desculpa. Falta apenas o árbitro consultar o VAR para verificar se a História estava em fora de jogo. Quando os contratos publicitários se tornam árbitros do discurso público, a autocensura pode entrar em campo antes de qualquer proibição formal.

O respeito não é amnésia

Há cidadãos chineses que veneram Mao, outros que avaliam criticamente o seu legado e muitos que podem ter opiniões complexas. Nenhum povo é uma voz única. Respeitar os chineses não implica aceitar que a memória oficial do Estado seja a única interpretação admissível. E convém não confundir crítica histórica com insulto étnico: a primeira pertence ao debate livre; o segundo ataca pessoas pela sua origem.

O precedente que nos deve inquietar

Imaginemos, por absurdo, que daqui a umas décadas alguém exige desculpas por recordar a repressão de Mussolini, o nazismo de Hitler ou a censura e a polícia política do Estado Novo de Salazar. Os regimes diferem profundamente em ideologia, dimensão e crimes; compará-los exige rigor, não equivalências fáceis. Mas todos ilustram por que motivo o passado deve permanecer aberto à investigação e à crítica. Caso contrário, um dia ainda se exige a um manual escolar que peça licença ao departamento de marketing.

A memória não está à venda

A diplomacia exige delicadeza; o comércio exige negociação. A investigação histórica exige provas. Confundir estas três linguagens é entregar o arquivo da humanidade ao patrocinador mais sensível. Podemos reconhecer a importância de Mao na fundação da China contemporânea e examinar sem eufemismos as consequências humanas do seu governo. Não são posições incompatíveis. A História não precisa de insultar ninguém; também não deve ajoelhar-se perante ninguém.

Quando a verdade histórica precisa de pedir desculpa ao poder, não é a História que está a ser respeitada. É a liberdade que está a ser negociada.

Referências e leituras internacionais

  1. Reuters, 28 outubro 2026 — pedido de desculpas do Real Madrid
  2. Associated Press, 28 outubro 2026 — reação e consequências
  3. AFP, 28 outubro 2026 — resposta chinesa
  4. Le Monde, 27 outubro 2026 — custos económicos
  5. The National Archives (Reino Unido) — Revolução Cultural

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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