Crónicas,  Política

A Rotunda do Conformismo

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A Rotunda do Conformismo

Portugal não está parado. Está demasiadas vezes a circular, confundindo movimento com mudança.

Nota de abertura:
O conformismo raramente se apresenta como conformismo. Prefere palavras mais respeitáveis: prudência, estabilidade, consenso, maturidade institucional. O problema começa quando essas virtudes deixam de proteger aquilo que funciona e passam a proteger aquilo que já devia ter mudado.

Portugal tem uma relação curiosa com a mudança.

Fala muito dela.

Faz congressos sobre ela.

Cria programas, estratégias, observatórios e comissões para a estudar.

Depois entra numa rotunda.

E fica lá.

O país que circula

Na política portuguesa, quase tudo parece mexer.

Mudam os governos.

Mudam os ministros.

Mudam os slogans.

Mudam os logótipos dos programas.

Mudam os nomes das reformas.

Mas demasiadas vezes permanece intacta a estrutura que produziu o problema.

É uma espécie de movimento sem deslocação.

Como numa rotunda.

Estamos sempre a andar.

Nunca chegamos a lado nenhum.

E, pior ainda, convencemo-nos de que o simples facto de circular já constitui progresso.

Sempre fizemos assim

Talvez o conformismo português possa ser resumido numa frase:

“Sempre fizemos assim.”

É uma expressão extraordinária.

Consegue transformar uma falha antiga numa tradição respeitável.

Um processo é absurdo?

Sempre foi assim.

Uma instituição não funciona?

Sempre funcionou assim.

Uma lei ficou ultrapassada?

Sempre esteve assim.

Uma burocracia já ninguém consegue justificar?

Então deve ser importantíssima.

Em Portugal, a antiguidade de um erro pode acabar por funcionar como certificado de qualidade.

O político prudente

Também cultivámos uma certa ideia de político competente.

Não deve mexer demasiado.

Não deve incomodar demasiados interesses.

Não deve provocar demasiadas rupturas.

Deve gerir.

Negociar.

Equilibrar.

Acalmar.

Explicar.

E, acima de tudo, evitar criar problemas novos enquanto administra cuidadosamente os antigos.

O resultado é frequentemente aquilo a que chamamos estabilidade.

Uma palavra confortável.

Mas estabilidade e imobilidade não são exactamente a mesma coisa.

Um edifício pode permanecer de pé durante décadas.

Isso não significa que a instalação eléctrica esteja em boas condições.

A coragem das pequenas reformas

Portugal raramente sofre de falta de diagnósticos.

Sabemos muitos dos nossos problemas há anos.

Produtividade.

Justiça lenta.

Burocracia.

Demografia.

Habitação.

Saúde.

Educação.

Administração Pública.

A lista muda pouco.

O que muda é o título do relatório.

O grande problema não é descobrir o que está errado.

É aceitar o custo político de mudar aquilo que está errado.

Porque reformar implica contrariar interesses.

Eliminar estruturas.

Mudar hábitos.

Dizer a alguém que determinada função deixou de fazer sentido.

E isso é muito menos agradável do que anunciar uma nova estratégia nacional com apresentação em PowerPoint.

O partido acima da ideia

O conformismo também vive dentro dos partidos.

Uma proposta chega do adversário?

Primeiro verifica-se a origem.

Depois decide-se o mérito.

Se veio do lado errado, começam imediatamente as dificuldades técnicas, constitucionais, financeiras, ideológicas e meteorológicas.

A ideia pode até ser razoável.

Mas há um problema grave.

Foi pensada por outra pessoa.

E numa democracia tribal isso pode ser imperdoável.

Assim se perde uma enorme quantidade de inteligência colectiva.

Não porque faltem ideias.

Mas porque demasiadas chegam com a etiqueta errada.

Quem tenta sair da rotunda

Depois aparece alguém a sugerir uma mudança mais profunda.

Simplificar verdadeiramente.

Eliminar processos.

Fundir estruturas.

Digitalizar sem copiar a burocracia antiga para um ecrã.

Avaliar serviços por resultados.

Contratar pela competência.

Responsabilizar pela execução.

Nesse momento começa o alarme.

“É arriscado.”

“Não estão reunidas as condições.”

“É preciso estudar melhor.”

“Temos de ouvir todos os parceiros.”

“Talvez seja prematuro.”

Traduzido para português corrente:

“Não mexa nisso.”

A pessoa que procura a saída da rotunda passa subitamente a ser considerada imprudente.

Os restantes continuam a dar voltas com enorme experiência institucional.

A verdadeira estabilidade

Mas um país não se torna estável recusando mudar.

Torna-se frágil.

Porque o mundo não espera.

A tecnologia muda.

A economia muda.

A população muda.

As empresas mudam.

As expectativas das pessoas mudam.

E quanto mais tempo um sistema evita adaptar-se, mais violenta acaba por ser a adaptação quando já não existe alternativa.

O conformismo parece seguro apenas enquanto a realidade permite.

Depois apresenta a factura.

Talvez seja esse o problema

Portugal não está parado.

Essa seria uma descrição injusta.

Trabalha-se.

Discute-se.

Legisla-se.

Planeia-se.

Reforma-se.

Reformula-se.

Reorganiza-se.

O problema é outro.

Estamos demasiadas vezes a circular.

E talvez o maior desafio político português não seja encontrar mais uma estratégia.

Seja encontrar finalmente coragem para escolher uma saída.

Porque um país pode passar décadas numa rotunda.

Pode até chamar-lhe estabilidade.

Mas continua a haver uma diferença bastante importante entre:

andar

e

chegar a algum lado.

O QUE DEVE SER RETIDO

  • Portugal não sofre de falta de diagnósticos internacionais sobre produtividade, burocracia, justiça e eficiência institucional.
  • A OCDE estima que a produtividade laboral portuguesa permanece cerca de 17% abaixo da média da organização e defende simplificação de processos administrativos.
  • O FMI considera que elevar o crescimento de médio prazo exige reformas de produtividade, inovação, crescimento empresarial e redução da burocracia.
  • A Comissão Europeia continua a acompanhar Portugal em matérias como eficiência da justiça, anticorrupção, transparência legislativa e equilíbrio institucional.
  • O problema político descrito nesta crónica não é ausência total de reformas, mas a recorrente distância entre diagnóstico, anúncio, execução e resultado.
  • Estabilidade institucional não deve ser confundida com imobilidade; adaptar estruturas pode ser precisamente a condição para preservar estabilidade no longo prazo.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião. A “rotunda do conformismo” é uma metáfora destinada a descrever a sensação de movimento político e administrativo que nem sempre se traduz em transformação estrutural. Não pretende afirmar que Portugal esteja parado ou que reformas não tenham ocorrido; procura distinguir actividade institucional de mudança efectiva e mensurável.

A OCDE, no Economic Survey of Portugal 2026, reconhece que a economia portuguesa tem crescido acima da média da zona euro e que a dívida pública caiu significativamente. Ao mesmo tempo, salienta que a produtividade laboral permanece cerca de 17% abaixo da média da OCDE e identifica processos administrativos complexos, fragmentação e subinvestimento em tecnologia e inovação como obstáculos relevantes. A organização recomenda simplificação administrativa e reformas que favoreçam crescimento empresarial e produtividade.

O Fundo Monetário Internacional apresenta uma leitura semelhante. Na consulta do Artigo IV de Junho de 2026, considera forte a resiliência económica portuguesa, mas afirma que maior crescimento de médio prazo exige reformas que elevem produtividade, promovam inovação e crescimento das empresas, simplifiquem burocracia e continuem a melhorar educação e eficiência da despesa pública.

O relatório de 2026 da Comissão Europeia sobre o Estado de Direito acompanha igualmente a qualidade e capacidade institucional dos Estados-Membros em áreas como justiça, anticorrupção, pluralismo dos media e equilíbrios de poder. O capítulo português integra esse processo anual de avaliação e recomendações, lembrando que qualidade democrática e capacidade de reforma não se resumem à aprovação de legislação: dependem igualmente de recursos, execução, transparência e acompanhamento.

Isto aconselha alguma prudência perante a ideia de que “nada muda”. Portugal tem realizado reformas e alcançado melhorias importantes em diferentes áreas. O ponto crítico é outro: instituições podem melhorar gradualmente e, simultaneamente, conservar processos, incentivos e estruturas que reduzem a velocidade de adaptação. A crítica ao conformismo deve, por isso, ser dirigida menos à existência de continuidade e mais à incapacidade de distinguir aquilo que merece ser preservado daquilo que já se tornou obstáculo.

A conclusão editorial é simples: estabilidade democrática é um valor, mas não pode servir de argumento automático contra mudança. Numa sociedade submetida a transformações tecnológicas, económicas e demográficas rápidas, preservar instituições exige frequentemente reformá-las. Um país que confunde movimento com transformação pode passar anos extremamente ocupado sem abandonar a mesma rotunda.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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