Os sinais errados
Os sinais errados
Uma crónica sobre aquilo que uma sociedade escolhe premiar, mostrar e transformar em prestígio — e sobre como os sinais públicos de reconhecimento moldam ambições, vocações e, a prazo, a própria capacidade de um país criar conhecimento e riqueza.
Há sociedades que ensinam através da escola. E há sociedades que ensinam, talvez ainda mais eficazmente, através daquilo que aplaudem.
Uma criança não aprende apenas com os livros. Aprende olhando à sua volta. Observa quem aparece nos grandes cartazes, quem ocupa horas de televisão, quem acumula milhões de seguidores, quem recebe salários inimagináveis, quem é recebido por governantes, quem dá nome a aeroportos, quem é tratado como herói nacional.
E tira conclusões.
Não é necessário ninguém lhe explicar a hierarquia. A sociedade já a escreveu nas paredes.
Quando um futebolista aparece num outdoor de vinte metros e um investigador que dedicou trinta anos a compreender uma doença permanece desconhecido, estamos a transmitir um sinal. Quando sabemos quanto ganha um jogador mas desconhecemos quem dirige alguns dos melhores laboratórios do país, transmitimos outro. Quando uma transferência de futebol merece abertura de telejornal e uma descoberta científica portuguesa fica escondida numa breve notícia, continuamos a ensinar.
O problema não é o futebol. Nem os futebolistas.
Um atleta extraordinário merece reconhecimento pelo talento, disciplina e trabalho necessários para chegar ao mais alto nível. O erro começa quando confundimos popularidade com importância, preço de mercado com valor social e capacidade de gerar audiência com capacidade de gerar progresso.
São coisas profundamente diferentes.
Uma sociedade pode movimentar milhões em torno de um espetáculo sem aumentar significativamente a sua capacidade tecnológica. Pode vender milhões de camisolas sem produzir uma única patente. Pode ter estádios cheios e laboratórios vazios. Pode conhecer todos os resultados da Liga e continuar dependente de outros países para produzir medicamentos, semicondutores, software, equipamentos industriais ou tecnologias energéticas.
E depois pergunta, perplexa, por que razão tem baixa produtividade.
A motivação também é uma infraestrutura
Falamos habitualmente de produtividade como se fosse uma equação exclusivamente económica: investimento, impostos, salários, capital, legislação laboral.
Falta uma variável: aquilo que uma sociedade ensina os seus jovens a admirar.
Os seres humanos são extraordinariamente sensíveis ao reconhecimento social. Desde muito cedo percebemos quais os comportamentos associados a prestígio, dinheiro e estatuto. Não precisamos sequer de uma aula sobre o assunto.
Os sinais estão por todo o lado.
Se durante anos mostramos aos jovens que o auge do sucesso consiste em ser futebolista, influencer, celebridade televisiva ou personagem permanentemente exposta nas redes sociais, não podemos depois entrar numa escola secundária e ficar surpreendidos porque poucos sonham dedicar quinze anos à matemática, à física, à engenharia ou à investigação científica.
Criámos o incentivo e lamentamo-nos do resultado.
É quase engenharia de sistemas: se alimentarmos um sistema com determinados sinais de recompensa, não devemos ficar espantados com os comportamentos que emergem dele.
Imaginem outra avenida
Imaginemos por momentos Lisboa, Porto, Coimbra ou Braga.
Num enorme painel não aparece um perfume promovido por uma celebridade.
Aparece uma jovem investigadora portuguesa.
«Está a desenvolver uma nova terapia contra o cancro.»
Mais adiante, um engenheiro:
«A tecnologia criada pela sua equipa é utilizada em 27 países.»
Depois, um matemático:
«Resolveu um problema em que outros trabalhavam há décadas.»
E ainda um professor:
«Durante quarenta anos ensinou milhares de jovens a pensar.»
Não proponho transformar cientistas em santos nem substituir o culto das celebridades pelo culto dos investigadores. A ciência também é feita por seres humanos, com vaidades, erros, rivalidades e fracassos.
Proponho simplesmente reequilibrar o imaginário coletivo.
Porque talvez uma criança olhasse para um daqueles cartazes e perguntasse:
— Quem é aquela senhora?
E alguém respondesse:
— É uma cientista. Descobriu uma coisa que ninguém sabia antes.
Pode parecer insignificante.
Não é.
Talvez naquele instante tenha acabado de nascer uma vocação.
O preço e o valor
O mercado possui uma característica simultaneamente extraordinária e perigosa: consegue atribuir preços com enorme eficiência, mas não sabe necessariamente atribuir importância civilizacional.
Se centenas de milhões de pessoas quiserem assistir a determinado espetáculo, esse espetáculo pode movimentar milhares de milhões de euros. É perfeitamente compreensível economicamente.
Mas daí não resulta que os protagonistas desse espetáculo tenham produzido o equivalente em conhecimento, produtividade ou bem-estar coletivo.
Um investigador pode descobrir um mecanismo biológico decisivo e receber durante toda a carreira uma pequena fração do rendimento anual de uma estrela desportiva.
Contudo, décadas depois, milhões de pessoas podem continuar a beneficiar daquela descoberta.
O mercado contabilizou mal?
Não necessariamente.
Estava simplesmente a medir outra coisa.
O erro é nosso quando transformamos preço em medida universal de valor.
A sociedade que queremos construir
Os países que pretendem competir no século XXI precisam de capital, energia, boas instituições e empresas competitivas.
Mas precisam também de algo muito menos tangível:
uma cultura que admire o conhecimento.
Precisam de crianças que considerem extraordinário compreender o Universo, construir um robot, programar uma máquina, descobrir uma molécula, resolver uma equação ou compreender como funciona o cérebro humano.
Precisam de tornar intelectualmente desejável aquilo que economicamente necessitarão vinte anos depois.
Podemos continuar a celebrar um grande futebolista. Podemos emocionar-nos com um grande concerto. Podemos rir com um excelente ator. Uma sociedade sem entretenimento seria uma sociedade terrivelmente aborrecida.
Mas devemos reservar uma parte importante do nosso aplauso para aqueles que descobrem, ensinam, inventam e constroem.
Porque os sinais que uma geração coloca nas ruas tornam-se muitas vezes nos sonhos da geração seguinte.
E talvez seja essa a pergunta que uma sociedade séria deva fazer quando escolhe os seus heróis:
não apenas quanto dinheiro conseguem gerar, mas que futuro ajudam a construir.
Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI
Nota editorial
Esta crónica é um ensaio de opinião sobre prestígio social, motivação e prioridades coletivas. Não sustenta que exista uma relação mecânica entre um cartaz, uma celebridade ou um modelo público e a escolha profissional de um jovem. As aspirações resultam de muitos fatores: família, rendimento, escola, género, contexto social, aptidões, oportunidades, autoconceito e exposição real a diferentes profissões.
Há, contudo, evidência internacional sólida de que as expectativas profissionais dos adolescentes são fortemente concentradas e influenciadas pelo contexto social, e de que a exposição a carreiras, empregadores e modelos de referência pode alterar perceções e escolhas. Essa influência não é sempre linear: experiências recentes mostram mesmo que a exposição a modelos profissionais pode produzir efeitos inesperados, dependendo de como os jovens interpretam dificuldade, recompensa, identidade e pertença.
A tese central é, portanto, cultural e institucional: o reconhecimento público constitui um sinal. Uma sociedade que pretende aumentar a sua capacidade científica e tecnológica tem interesse em tornar visíveis não apenas os resultados do conhecimento, mas também as pessoas e percursos que o tornam possível.
Celebrar ciência, engenharia, ensino e inovação não exige desvalorizar o desporto ou a cultura popular. Exige apenas recusar a ideia de que audiência, rendimento ou notoriedade sejam medidas universais de contribuição social.
Referências e publicações internacionais
Seleção de relatórios e estudos internacionais sobre aspirações profissionais, motivação, exposição a modelos de referência e interesse por carreiras STEM.
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The State of Global Teenage Career Preparation
OECD · 2025Relatório baseado, entre outras fontes, no PISA 2022. Mostra que as expectativas profissionais dos adolescentes permanecem muito concentradas, são condicionadas pelo contexto socioeconómico e frequentemente não correspondem à procura real do mercado de trabalho.
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Are students’ career expectations aligned with their skills?
OECD · PISA in Focus No. 104 · 2020Analisa o desajustamento entre competências, expectativas profissionais e oportunidades, salientando o peso do contexto pessoal e social nas aspirações dos jovens.
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Remote delivery of STEM and entrepreneurship role models at scale changes college major choice in Ecuador
Nature Human Behaviour · 2026Ensaio randomizado com 29 243 estudantes em 813 escolas. Mostra que a exposição a modelos profissionais pode alterar escolhas reais de cursos, mas também que os efeitos são complexos e podem divergir da intenção inicial da intervenção.
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Mathematics interest, self-efficacy, and anxiety predict STEM career choice in emerging adulthood
npj Science of Learning · 2024Estudo longitudinal que relaciona interesse em matemática, autoeficácia e ansiedade na adolescência com a posterior escolha de carreiras STEM.
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Factors influencing student interest in STEM careers: motivational, cognitive, and socioeconomic status
Humanities and Social Sciences Communications · 2025Examina fatores motivacionais, cognitivos e socioeconómicos associados ao interesse dos estudantes por carreiras STEM.
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Advancing gender equality in STEM education: Inspiring girls to pursue science
UNESCO · 2026Destaca a importância de mentoria e de modelos científicos visíveis para contrariar estereótipos e alargar a perceção de quem pode pertencer às áreas STEM.


