A praça que grita
FRAGMENTOS DO CAOS · POESIA · 1 NOVEMBRO 2026
A praça que grita
Por Augustus Veritas
A praça tinha perguntas,
rostos, frio, mãos abertas;
havia uma casa por encontrar
por trás de tantas portas desertas.
Vieram passos de ferro,
escudos a fechar o ar;
a noite encolheu entre os corpos,
faltou espaço para recuar.
Um bastão caiu na noite.
Uma palavra ficou a meio.
Um corpo vergou sob o golpe;
outro braço lhe deu esteio.
A bastonada não responde,
não explica a sua razão.
Deixa uma pergunta ferida
nas pedras frias do chão.
Uma mão procurou outra,
um casaco cobriu um rosto;
alguém amparou um estranho
como se o conhecesse desde agosto.
Que quem veste aquela farda
se lembre, antes de avançar:
há vidas à frente do escudo,
há direitos para guardar.
Quem escolheu aquela hora?
Quem deu a ordem de avançar?
Há nomes acima dos braços
que também têm de falar.
Não me chamem paz
ao silêncio de quem caiu.
Houve uma mãe junto à janela
que nessa noite não dormiu.
Recolham as tendas, os cartazes,
os restos espalhados no chão.
A praça seguirá com as pessoas,
com a sua pergunta na mão.
