Ai meu Portugal
FRAGMENTOS DO CAOS · POESIA · 1 NOVEMBRO 2026
Ai meu Portugal
Por Augustus Veritas
Ai meu Portugal,
debruçado sobre o mar,
com tanto mundo nos olhos
e tão pouco chão para ficar.
«Pobres, mas lavadinhos»,
rezava a antiga lição;
a camisa vinha branca,
a mesa ficava sem pão.
«Não te metas na política»,
aconselhavam à janela.
E a vida era decidida
por quem tinha a chave dela.
Agora a praça pede casa,
um teto para existir.
Por que vem primeiro a força
e a resposta está por vir?
Há pastas cheias de espera,
há palavras com brasão;
e gente a gastar uma vida
à porta de uma decisão.
Mas conheço-te nas mãos
de quem chega e põe a mesa,
puxando mais uma cadeira
apesar da sua pobreza.
Conheço-te naquela voz
que do fundo da praça vem:
«Mostrem-me os factos», insiste,
sem baixar os olhos a ninguém.
Há um Abril por cumprir
em cada porta fechada,
em cada pessoa que espera
ter a sua voz escutada.
Ai meu Portugal,
ainda te quero bem.
É por amor que te pergunto:
que país deixas a quem vem?
