Crónicas,  Humor e Sátira

A República dos Sem-Tecto e o Milagre dos Pães Invisíveis

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A República dos Sem-Tecto e o Milagre dos Pães Invisíveis

Portugal, esse extraordinário país onde a democracia fez cinquenta anos, o preço das casas chegou à Lua e os salários continuam à espera do foguetão.

Nota de abertura: Uma sátira política: os diálogos e os programas descritos são imaginários. A crise habitacional que inspira a ficção é real.

Era uma vez um país chamado Portugal, situado na extremidade ocidental da Europa, onde o Sol brilhava trezentos dias por ano, os turistas eram recebidos de braços abertos e os portugueses começavam a suspeitar que tinham sido contratados para figurantes na sua própria pátria.

O país tinha tudo: praias magníficas, gastronomia extraordinária, paisagens deslumbrantes, hotéis de luxo e um primeiro-ministro chamado Luís Montenegro.

Só lhe faltava um pequeno pormenor: casas onde os portugueses pudessem viver e salários com que pudessem pagar o jantar.

Mas não sejamos pessimistas!

Afinal, Portugal tinha uma democracia com mais de cinquenta anos. E cinquenta anos de democracia não são coisa pouca. São cinquenta anos de eleições, promessas, inaugurações, comissões, observatórios, grupos de trabalho e fotografias de ministros com capacetes de obras que nunca mais acabavam.

I — O milagre da habitação invisível

Certo dia, um jovem português, de trinta e cinco anos, com mestrado, emprego e um salário que dava para comprar três cafés e uma sandes de fiambre, decidiu adquirir uma casa.

Entrou numa imobiliária.

— Bom dia! Queria comprar um T1.

— Naturalmente! Temos este magnífico apartamento de 42 metros quadrados por 375 mil euros.

— Mas tem vista para o mar?

— Não. Tem vista para o apartamento do vizinho.

— E garagem?

— Não.

— E elevador?

— Também não.

— Então o que justifica o preço?

— A localização!

— Mas fica ao lado de uma estação de tratamento de esgotos!

— Precisamente! Excelente oportunidade de investimento numa zona com enorme potencial aromático!

O jovem saiu desanimado.

Felizmente, apareceu na televisão um governante a explicar que o Governo estava profundamente empenhado em resolver o problema da habitação.

O jovem ficou emocionado.

Finalmente tinha encontrado alguma coisa gratuita em Portugal: o empenhamento governamental.

II — Montenegro e a multiplicação dos pães

Entretanto, no Palácio de São Bento, realizava-se uma reunião extraordinária sobre a pobreza.

— Senhor primeiro-ministro, há portugueses que não conseguem pagar a renda e comprar alimentos!

Montenegro, nesta nossa ficção, ergueu os olhos dos relatórios.

— Isso é gravíssimo! Temos de encontrar uma solução estrutural!

— Excelente, senhor primeiro-ministro! Qual?

— Criamos uma comissão.

— Mas já temos uma comissão!

— Então criamos um observatório.

— Também já existe!

— Nesse caso, criamos uma comissão para observar o observatório que acompanha a comissão!

Fez-se silêncio.

Um secretário de Estado, visivelmente impressionado, murmurou:

— Genial! E os cidadãos?

— Os cidadãos aguardam pelas conclusões.

— E se tiverem fome?

— Que consultem o Portal da Transparência!

— Mas não se come transparência!

— Pois não, mas ao menos podem ver através dela o que não têm!

E assim nasceu o primeiro programa europeu de alimentação metafísica.

Chamava-se PÃO 2035 — Programa de Alimentação Orçamental e Nutrição.

O orçamento estava aprovado.

Os pães, infelizmente, ainda se encontravam em fase de estudo prévio.

III — O português e a tenda subversiva

Numa praça de Lisboa, um cidadão sem casa resolveu montar uma pequena tenda.

Não era um palácio.

Não tinha piscina, garagem, painéis solares ou certificado energético.

Tinha dois metros quadrados e um fecho éclair que funcionava quando não chovia.

Apareceu um polícia.

— O senhor não pode permanecer aqui!

— Porquê?

— Porque está a ocupar o espaço público!

— Mas eu não tenho espaço privado!

— Isso não é problema meu!

— Então onde posso dormir?

— Na sua residência!

— Mas eu não tenho residência!

— Nesse caso, apresente uma reclamação através do portal electrónico.

— E qual é a morada que devo indicar?

— A sua residência!

O cidadão olhou para o céu.

Pela primeira vez na vida, compreendeu a verdadeira dimensão da inteligência administrativa portuguesa.

Para reclamar que não tinha casa, precisava de ter uma morada.

Era Kafka, mas com autenticação.gov.

IV — O banquete dos indicadores económicos

Na televisão, um ministro anunciava, orgulhoso:

— A economia portuguesa apresenta indicadores muito positivos!

Numa cozinha em Almada, uma reformada olhava para a conta da electricidade.

— Ó António! Ouviste? Estamos ricos!

— Estamos?!

— O ministro disse que os indicadores estão excelentes!

— Então põe dois indicadores na sopa, Maria, que hoje só temos batatas!

A senhora abriu o frigorífico.

Lá dentro estavam uma cenoura, meio limão e um iogurte cujo prazo de validade tinha expirado durante o Governo anterior.

— António, achas que os indicadores económicos se podem grelhar?

— Não sei, Maria. Mas experimenta o défice. Dizem que é baixo e talvez caiba na frigideira.

Entretanto, no estúdio televisivo, discutia-se apaixonadamente se o crescimento de umas décimas era uma vitória histórica ou uma extraordinária demonstração de responsabilidade orçamental.

A Maria desligou a televisão.

— António, amanhã vamos comer responsabilidade orçamental com arroz.

— Outra vez?!

V — Cinquenta anos de democracia e o direito constitucional ao banco de jardim

A Constituição portuguesa reconhece direitos fundamentais, incluindo o direito à habitação.

É uma Constituição generosa.

Tão generosa que promete coisas que a realidade nem sempre consegue entregar.

O cidadão lê:

— Todos têm direito a uma habitação de dimensão adequada!

Olha para o seu extracto bancário.

Olha para os anúncios imobiliários.

Olha novamente para a Constituição.

E conclui:

— Isto deve ser uma edição de fantasia.

Num gabinete ministerial imaginário, um assessor propõe uma inovação legislativa:

— Senhor primeiro-ministro, e se actualizássemos o conceito de habitação?

— Como assim?

— Passávamos a considerar os bancos de jardim como residências de tipologia T0.

— Excelente! E as paragens de autocarro?

— Habitação colectiva com cobertura e excelente acessibilidade aos transportes!

— E as tendas?

— Essas não. Podem constituir uma ocupação irregular do espaço público.

— Magnífico! Estamos finalmente a modernizar o país!

O Instituto Nacional de Estatística foi imediatamente informado de que Portugal tinha descoberto milhares de novas unidades habitacionais.

Sem construir uma única parede.

VI — O Conselho de Ministros da Prosperidade Imaginária

Numa sessão extraordinária, o Governo decidiu resolver definitivamente todos os problemas nacionais.

O ministro da Habitação anunciou:

— Vamos aumentar a oferta!

O ministro das Finanças acrescentou:

— Sem comprometer o equilíbrio orçamental!

O ministro da Economia declarou:

— Vamos estimular o investimento!

E um assessor perguntou:

— E como vamos aumentar os salários?

Fez-se um silêncio tão profundo que se ouviu uma impressora do Ministério das Finanças a engasgar-se com uma folha A4.

Finalmente, alguém sugeriu:

— E se aumentássemos os salários nos discursos?

A proposta foi aprovada por unanimidade.

Nesse mesmo dia, os portugueses passaram a ganhar, em média, quatro mil euros mensais.

Infelizmente, apenas durante as conferências de imprensa.

Nos recibos de vencimento continuava tudo igual.

Mas havia esperança.

O Governo anunciou que iria criar uma plataforma digital para acompanhar a evolução das promessas.

Chamava-se Promete.gov.pt.

Estava indisponível por motivos de manutenção.

VII — O grande plano nacional: Portugal 2050, cidadãos não incluídos

Chegou finalmente o dia da apresentação do grande plano estratégico.

O auditório estava cheio.

Havia ministros, secretários de Estado, consultores, empresários, especialistas em comunicação e três fotógrafos por cada cidadão presente.

No ecrã surgiu o título:

PORTUGAL 2050 — UMA NAÇÃO DE OPORTUNIDADES

O primeiro slide apresentava uma seta ascendente.

O segundo, outra seta ascendente.

O terceiro mostrava uma família sorridente em frente de uma moradia com piscina.

Um jornalista perguntou:

— Essa família é portuguesa?

— Não sabemos. A fotografia foi adquirida num banco internacional de imagens.

— E a casa fica em Portugal?

— Também não sabemos.

— E o plano prevê habitações acessíveis?

— Naturalmente!

— Quantas?

— Estamos a trabalhar na definição dos indicadores!

— E quando estarão prontas?

— Em 2050 teremos uma visão muito mais clara!

Um cidadão levantou a mão.

— Senhor primeiro-ministro, em 2050 terei oitenta anos. Onde vou viver até lá?

O moderador respondeu:

— Essa questão não consta da agenda.

VIII — O último português

Conta-se que, num futuro distante, um arqueólogo encontrou o último português que ainda vivia em Portugal.

Era um homem de noventa anos, sentado num banco de jardim, com uma manta sobre os joelhos e um exemplar da Constituição de 1976 debaixo do braço.

— O senhor é português?

— Sou, infelizmente para as estatísticas.

— E onde estão os outros?

— Emigraram.

— Todos?!

— Quase todos. Os restantes transformaram as casas em alojamento turístico para conseguir pagar o empréstimo da casa onde já não viviam.

— E os governos?

— Continuaram a governar.

— Mas governavam quem?

— Uns aos outros, naturalmente!

O arqueólogo ficou perplexo.

— E conseguiram resolver o problema da habitação?

O velho sorriu.

— Claro que sim!

— Como?!

— Deixou de haver portugueses suficientes para precisar de casas!

E acrescentou, com um brilho irónico nos olhos:

— Foi a única política de habitação que funcionou sem construir nada.

Epílogo — A democracia não se come com talheres de prata

E assim prossegue a nossa pequena República à beira-mar plantada.

Um país onde os governantes falam de crescimento, os economistas discutem décimas, os comentadores explicam a prosperidade e os cidadãos fazem contas à vida com a precisão de um físico nuclear.

Há uma ironia particularmente cruel nesta história: a democracia portuguesa nasceu de uma revolução que prometia dignidade, liberdade e melhores condições de vida.

Mais de meio século depois, continuamos a discutir como transformar esses princípios em realidade quotidiana para todos.

É certo que houve progressos profundos desde 1974. Negá-los seria tão absurdo como imaginar que uma conferência de imprensa substitui uma refeição.

Mas também é legítimo perguntar por que razão, depois de tantas décadas, o acesso à habitação continua a ser um problema tão difícil para tantas famílias.

Talvez a verdadeira revolução do século XXI não seja construir mais um portal electrónico, criar mais uma comissão ou anunciar mais um programa com uma sigla suficientemente comprida para ocupar três linhas no Diário da República.

Talvez seja simplesmente construir um país onde trabalhar permita viver com dignidade.

Porque, senhor Montenegro, nesta nossa comédia republicana, há uma verdade que nem o melhor assessor de comunicação consegue transformar num gráfico ascendente:

Uma casa não se constrói com promessas.

Um estômago não se alimenta de indicadores económicos.

E uma democracia não se mede apenas pelo número de eleições que realizou, mas também pela capacidade de concretizar os direitos que proclama.

Quanto ao cidadão português, esse extraordinário sobrevivente de cinquenta anos de promessas políticas, resta-lhe aguardar pelo próximo milagre.

A multiplicação dos pães já foi tentada há dois mil anos.

A multiplicação das casas continua em consulta pública.

E a multiplicação dos ministros?

Essa, felizmente, nunca precisou de intervenção divina.

Bem-vindos a Portugal: onde a esperança é a última a morrer, porque até para morrer é preciso encontrar uma vaga.

Uma casa não se constrói com promessas. Um estômago não se alimenta de indicadores económicos.

CONTEXTO DOCUMENTADO

  • A OCDE, no seu estudo de 2026 sobre Portugal, identifica dificuldades estruturais de acesso à habitação, particularmente entre os jovens.
  • A Comissão Europeia, no relatório de 2026, salienta a subida dos preços e a insuficiência da oferta acessível.
  • O FMI, na avaliação de 2026, analisa o agravamento da acessibilidade para famílias vulneráveis.

Nota Editorial

Esta crónica é uma obra de humor político e sátira social. As reuniões, conversas, medidas fictícias e personagens secundárias foram inventadas para efeitos literários; não devem ser interpretadas como declarações, decisões ou acontecimentos reais envolvendo Luís Montenegro ou o Governo.

O texto aborda, pela caricatura, problemas reais de habitação, rendimentos e concretização de direitos sociais. As referências seguintes documentam o enquadramento socioeconómico, não os episódios ficcionais.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Coautoria: Augusto Veritas
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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