Crónicas,  Política

O Governo do Buraco

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Crónica satírica · Governação e Democracia

O Governo do Buraco

Tragicomédia em vários ministérios, com Montenegro ao comando da escavadora

Por Francisco Gonçalves 4 de agosto de 2026 Fragmentos do Caos

Portugal acordou certa manhã com um enorme buraco em frente ao Palácio de São Bento.

Não era uma cratera provocada por um meteorito, uma obra do Metro ou mais uma intervenção urgente numa conduta que tinha sido reparada na semana anterior.

Era o programa do Governo.

À entrada, uma placa anunciava:

GRANDE OBRA NACIONAL
Aprofundamento do País
Prazo de conclusão: depende da oposição

Luís Montenegro surgiu de capacete branco, colete refletor e expressão confiante. Trazia debaixo do braço um dossier intitulado Portugal Pode Mais, embora ninguém tivesse ainda esclarecido se podia mais alguma coisa além de cavar.

Atrás dele, alinhava-se o Conselho de Ministros, cada governante munido da respetiva pá.

O primeiro-ministro ergueu a mão e declarou:

“Temos de continuar a arriscar, mesmo que aqui ou ali as coisas corram menos bem.”

Os portugueses olharam para a cratera.

As coisas já tinham ultrapassado há muito o “aqui ou ali” e entrado firmemente no “por todo o lado”.

Mas Montenegro manteve-se sereno. Há governantes que veem problemas. Outros veem oportunidades. E há ainda os que, perante um buraco, mandam buscar uma máquina maior.

O encarregado da obra

Montenegro governa como um chefe de obra que chega ao estaleiro depois de o muro ter caído e pergunta quem deixou ali aqueles tijolos.

Nunca há propriamente uma crise.

Há ocorrências.

Nunca existe descontrolo.

Há desafios de coordenação.

Nunca se verifica incompetência.

Há apenas processos de aprendizagem, que é uma forma delicada de dizer que o país está a pagar propinas por erros cometidos por ministros adultos.

O chefe do Governo percorre o estaleiro, observa o caos e transmite tranquilidade.

A tranquilidade tornou-se, aliás, a principal matéria-prima do Executivo.

Quando alguma coisa desaparece, falha, arde, prescreve ou aparece no sítio errado, Montenegro está tranquilo.

Quando um ministro se enrola nas próprias explicações, o primeiro-ministro está confiante.

Quando a oposição pede responsabilidades, Montenegro considera que existe uma campanha política.

Se um dia o edifício do Governo desabar completamente, é provável que surja entre os escombros a declarar:

“Não há qualquer colapso. O edifício está apenas numa posição horizontal não prevista.”

O Ministério do Atrelado

No setor da Administração Interna, a obra ganhou características de romance policial escrito por uma comissão de inquérito.

Um atrelado apreendido numa operação contra o tráfico de droga acabou nas instalações de uma empresa pertencente a um amigo do ministro Luís Neves. Também foram encontrados nessa empresa bidões com substâncias químicas apreendidas, e as autoridades abriram inquéritos. A movimentação do veículo levantou ainda dúvidas sobre a cadeia de custódia da prova.

Não se trata apenas de um elefante na sala.

É um atrelado no parque.

E, ao contrário do elefante, o atrelado teve a delicadeza de desaparecer durante algum tempo.

O ministro assegurou estar disponível para prestar esclarecimentos. Montenegro respondeu com a serenidade habitual, afirmando estar “muito tranquilo” e confiante no ministro, enquanto aguardava as explicações e o trabalho das autoridades.

Em Portugal, os esclarecimentos têm um ciclo de vida próprio.

Primeiro são anunciados.

Depois são preparados.

Em seguida são considerados prematuros.

Mais tarde tornam-se inoportunos porque existe uma investigação.

Finalmente deixam de ser necessários porque entretanto apareceu outro escândalo.

É a economia circular aplicada à responsabilidade política.

Nada se perde.

Tudo se adia.

O Governo observou o atrelado no fundo do buraco e concluiu que o mais prudente seria continuar a escavar em redor.

Talvez apareça uma explicação.

Ou petróleo.

O Ministério da Educação Sentimental

No setor da Educação, decidiu-se digitalizar a correção dos exames nacionais.

A intenção era moderna.

O resultado foi português.

Surgiram atrasos, problemas técnicos, dúvidas sobre prazos e críticas de professores e oposição. Montenegro rejeitou que existisse “caos”, mesmo perante incertezas sobre a publicação das classificações.

Esta é uma técnica governativa importante.

Quando o caos é negado com suficiente convicção, deixa de ser caos e passa a ser perceção mediática.

Um sistema falha?

É resistência à mudança.

Os profissionais alertam?

São conservadores.

Os alunos esperam?

É inovação em curso.

As famílias desesperam?

Falta-lhes literacia digital.

No futuro, os exames poderão ser corrigidos por inteligência artificial, enviados por drones e validados por blockchain.

Os resultados continuarão atrasados, naturalmente, porque a tradição também é património nacional.

O ministro da Educação foi colocado junto à borda da cratera com uma pá eletrónica.

Tentou iniciar sessão.

A palavra-passe expirara.

A reforma laboral que foi trabalhar para casa

O Governo apresentou uma reforma laboral ambiciosa.

O Parlamento rejeitou-a em junho de 2026, num revés relevante para um Executivo minoritário. Montenegro acusou os extremos políticos de se terem unido para bloquear a proposta e prometeu insistir.

É uma das maravilhas da democracia governativa contemporânea.

Quando uma proposta é aprovada, trata-se da vontade popular.

Quando é rejeitada, trata-se de irresponsabilidade da oposição.

O Parlamento existe para fiscalizar, debater e decidir, desde que decida corretamente.

Corretamente significa, neste contexto, aquilo que o Governo já tinha decidido antes do debate.

Montenegro apontou para o buraco e explicou:

“Queríamos flexibilizar o mercado de trabalho.”

Um operário perguntou:

“Flexibilizar como?”

“De forma equilibrada.”

“Equilibrada para quem?”

Nesse momento, chegou uma retroescavadora e o diálogo democrático teve de ser interrompido por razões de segurança.

As férias do capitão

Perante a sucessão de crises políticas, Montenegro anunciou que prescindiria das férias de verão para coordenar o Governo.

Analistas interpretaram a decisão como uma tentativa de transmitir controlo e dedicação num período marcado pelas polémicas na Educação e na Administração Interna. Também observaram que a presença física do primeiro-ministro pouco alteraria o funcionamento de um Executivo já fortemente centralizado na sua figura.

O gesto foi apresentado como sacrifício.

O país comoveu-se.

Milhões de portugueses, habituados a trabalhar sem conseguir pagar uma semana de férias, descobriram finalmente alguém capaz de compreender o seu sofrimento: o primeiro-ministro, que decidiu permanecer no gabinete durante o verão.

Montenegro ficou ao leme.

O problema é que o navio estava em terra firme, dentro do buraco.

Ainda assim, a tripulação recebeu ordens para remar.

Contabilidade no rés-do-chão, governação na cave

Seria injusto afirmar que tudo corre mal.

As contas públicas continuam a beneficiar de uma trajetória de redução da dívida, e o Orçamento para 2026 foi aprovado com a abstenção socialista, prevendo crescimento económico e excedente orçamental.

Portugal tornou-se, assim, um país singular.

A contabilidade pode estar arrumada enquanto a governação tropeça nos móveis.

O Excel sorri.

O cidadão espera no hospital.

A dívida pública desce.

O comboio não passa.

O saldo orçamental melhora.

Os exames não chegam.

As instituições anunciam estabilidade.

O atrelado muda de estacionamento.

É possível que, num futuro próximo, o Governo apresente um relatório demonstrando que o buraco possui uma execução financeira exemplar.

A profundidade ultrapassou as metas.

A despesa ficou dentro do previsto.

A escavação foi cofinanciada pela União Europeia.

Falta apenas encontrar uma saída.

A oposição, essa retroescavadora auxiliar

A oposição observa a obra com indignação.

Não por estar contra o buraco.

Cada partido tem o seu.

O problema é não ter sido convidada a escolher a profundidade.

O PS apresenta uma pá social-democrata, mais inclusiva e com cabo ergonómico.

O Chega exige uma escavadora maior, com buzina, bandeiras e transmissão em direto.

A Iniciativa Liberal propõe privatizar o buraco e cobrar entrada.

A esquerda recomenda uma comissão pública para determinar quem tem direito a cair primeiro.

Todos criticam a escavação.

Todos gostariam de dirigir a máquina.

A política portuguesa não discute verdadeiramente se o país deve sair do buraco.

Discute quem terá o direito histórico de continuar a cavá-lo.

A teoria da conspiração hidráulica

Sempre que a água começa a entrar na cratera, o Governo procura o responsável.

Pode ser a oposição.

Pode ser a comunicação social.

Pode ser um funcionário intermédio.

Pode ser um técnico que não compreendeu a reforma.

Pode ser a herança recebida.

Pode até ser a chuva, essa força radical que insiste em cair sem autorização do Conselho de Ministros.

O que nunca pode ser é o projeto.

O projeto está certo.

A execução foi apenas surpreendida pela realidade.

A realidade portuguesa tem este hábito desagradável de não respeitar apresentações em PowerPoint.

Nos gráficos, tudo cresce.

Nos comunicados, tudo melhora.

Nos vídeos institucionais, as pessoas sorriem enquanto atravessam corredores luminosos.

Depois abre-se a porta e está lá o buraco.

O país em modo de obra

O cidadão comum aproxima-se da vedação e pergunta:

“Quando fica pronto?”

Um assessor consulta o calendário político.

“Depois da próxima reforma.”

“E quando será a próxima reforma?”

“Assim que avaliarmos esta.”

“E esta está a funcionar?”

“É cedo para avaliar.”

“Mas já falhou.”

“Isso é uma interpretação.”

“E o buraco?”

“Está dentro dos parâmetros.”

“Quais parâmetros?”

“Os que definimos depois de medir o buraco.”

A ciência governativa atingiu um nível admirável.

Primeiro escava-se.

Depois mede-se.

Finalmente estabelece-se que aquela era precisamente a profundidade desejada.

Montenegro, o homem que não recua

Há que reconhecer coragem ao primeiro-ministro.

Montenegro não recua.

Avança sempre.

Mesmo quando a direção é vertical.

Cada polémica é enfrentada com outra declaração de confiança.

Cada falhanço produz uma reafirmação estratégica.

Cada ministro cercado por dúvidas recebe um abraço institucional e mais alguns dias para explicar aquilo que já deveria ter sido explicado.

Não é teimosia.

É estabilidade.

Não é fuga à responsabilidade.

É respeito pelas instituições.

Não é um buraco.

É uma infraestrutura subterrânea de governação.

Quando o Governo caiu em 2025, depois de perder uma moção de confiança, Montenegro regressou às eleições e voltou a formar um Executivo minoritário.

Aprendeu com a experiência.

Desta vez, em vez de perguntar ao Parlamento se confiava nele, decidiu confiar por todos.

A inauguração

Chegou finalmente o dia da cerimónia.

Ministros, secretários de Estado, assessores e consultores reuniram-se em redor da cratera.

Uma banda tocou o hino.

Descobriu-se uma placa:

BURACO NACIONAL MONTENEGRO
Iniciado com confiança
Aprofundado com estabilidade
Concluído por falta de alternativa

O primeiro-ministro cortou a fita e pronunciou um discurso:

“Portugal é hoje um país mais profundo.”

Os ministros aplaudiram.

Os assessores publicaram fotografias.

A televisão transmitiu imagens aéreas.

Um comentador salientou a dimensão histórica da obra.

Outro explicou que o buraco era inevitável devido à conjuntura internacional.

Um terceiro garantiu que outros países tinham crateras maiores.

No fundo, ouviu-se a voz de um cidadão:

“Podem mandar uma escada?”

Montenegro inclinou-se sobre a borda.

“Não dramatizemos.”

Depois virou-se para as câmaras e concluiu:

“Estamos no caminho certo.”

E o Governo retomou os trabalhos.

Porque há países que constroem pontes.

Há países que abrem caminhos.

E há Portugal, onde cada nova crise é tratada como prova de que ainda não se cavou o suficiente.

Referências

  1. RTP Notícias. Atrelado desaparecido e substâncias apreendidas em empresa ligada a amigo de Luís Neves
  2. RTP Notícias. Montenegro mantém confiança em Luís Neves e afirma estar tranquilo
  3. RTP Notícias. Montenegro rejeita cenário de caos nos exames nacionais
  4. Reuters. Parlamento rejeita reforma laboral do Governo minoritário
  5. RTP Notícias. Especialistas comentam decisão de Montenegro de prescindir de férias
  6. Reuters. Orçamento para 2026 aprovado com abstenção socialista
  7. Reuters. Presidente convida Montenegro a formar novo Governo em 2025
Fragmentos do Caos · Crónicas do País Adiado

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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