Política Nacional

O Atrelado da Confiança

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O Atrelado da Confiança

Crónica de uma democracia rebocada pelos seus próprios donos

Nota de abertura:
Em Portugal, a confiança política deixou muitas vezes de ser consequência dos factos. Tornou-se um escudo anterior aos factos, independente dos factos e, quando necessário, resistente aos próprios factos.

Em Portugal, a confiança política não é uma consequência dos factos.

É um produto anterior aos factos, independente dos factos e, quando necessário, resistente aos factos.

O primeiro-ministro declarou-se “tranquilo e confiante” no ministro da Administração Interna, Luís Neves, garantindo que este continuará a ser um governante “muitíssimo competente”. Perante as críticas da oposição, Luís Montenegro respondeu que não estava concentrado em “piropos”.

É uma frase admirável.

Não pelo conteúdo, que é escasso, mas pela quantidade de democracia que consegue dispensar em tão poucas palavras.

Uma investigação sobre a possível utilização irregular de um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária, encontrado nas instalações da empresa de um amigo do antigo director nacional da PJ e actual ministro, passa a ser tratada como galanteio parlamentar. Os indícios de eventual abuso de poder entregues ao Ministério Público tornam-se ruído de bancada. As perguntas transformam-se em maledicência. E a obrigação de prestar contas é apresentada como uma distracção de quem governa.

A democracia portuguesa atingiu assim uma nova etapa de sofisticação: já não é preciso responder às acusações. Basta classificá-las como pouco elegantes.

O ministro, o amigo e a extraordinária coincidência nacional

O caso possui todos os ingredientes da cozinha política portuguesa.

Há um ministro.

Há um amigo.

Há obras privadas.

Há contratos públicos.

Há uma viatura apreendida numa operação relacionada com o tráfico de droga.

Há produtos químicos associados ao processamento de estupefacientes.

Há decisões administrativas cuja regularidade está a ser investigada.

E, naturalmente, há confiança política.

A empresa do empreiteiro João dos Santos Carvalho, descrito como amigo pessoal de Luís Neves e responsável por obras em propriedades privadas deste, recebeu cerca de 1,9 milhões de euros em contratos públicos da Polícia Judiciária entre 2020 e 2025, período durante o qual Neves dirigiu aquela instituição.

Isto não demonstra, por si só, a existência de qualquer crime.

Mas deveria ser suficiente para produzir explicações claras, documentação completa e uma separação política prudente enquanto decorrem as averiguações.

Em vez disso, produz confiança.

O atrelado tinha sido apreendido numa investigação relacionada com o fabrico de droga e acabou nas instalações da empresa do empreiteiro amigo. Segundo informações publicadas, continha bidões com substâncias químicas utilizadas no processamento de cocaína, tendo a sua deslocação ocorrido sem conhecimento da direcção da PJ responsável pelo combate ao tráfico de estupefacientes.

A Polícia Judiciária recolheu elementos que levaram à abertura de um inquérito pelo Ministério Público, estando em causa indícios de eventual abuso de poder e de descaminho. A culpa criminal não está determinada e deverá ser apurada pelas autoridades competentes.

Mais tarde, foi noticiado que a Polícia Judiciária não encontrou qualquer documento, ordem ou despacho que formalizasse a retirada do atrelado e a sua entrega à empresa onde veio a ser localizado.

Mas a responsabilidade política não precisa de esperar que um tribunal termine o seu trabalho dentro de alguns anos, quando o atrelado já estiver num museu e os protagonistas reformados com uma coluna de opinião.

A responsabilidade política começa precisamente onde começa a dúvida razoável sobre a imparcialidade, o discernimento e a utilização do poder público.

A confiança como instrumento de blindagem

Quando um primeiro-ministro afirma que mantém a confiança num ministro envolvido numa sucessão de casos controversos, pode estar a dizer uma de duas coisas.

Ou conhece factos ainda não revelados que demonstram inequivocamente a correcção da actuação do governante.

Ou decidiu protegê-lo antes de conhecer o resultado completo das investigações.

Se conhece factos absolvitórios, deve apresentá-los.

Se não os conhece, a confiança deixa de ser uma avaliação e passa a ser uma barricada.

Em Portugal, a confiança política tornou-se uma muralha erguida à volta dos membros do Governo. Não serve para garantir que alguém é competente. Serve para informar o público de que as dúvidas não alterarão, por enquanto, o equilíbrio interno do poder.

É menos uma declaração sobre a integridade do ministro do que uma ordem dirigida ao país:

Não incomodem.

O Governo está ocupado a governar.

Governar o quê exactamente já é matéria secundária.

Talvez o país real, aquele em que os cidadãos esperam meses por consultas, pagam rendas incomportáveis, contam os preços no supermercado e descobrem que a justiça possui a velocidade média de um móvel pesado.

Ou talvez o outro país.

O país dos gabinetes, das adjudicações, das amizades profissionais, das coincidências administrativas e dos telefonemas que nunca aparecem nas actas.

A democracia do condomínio fechado

Portugal realiza eleições livres. Possui partidos, Parlamento, tribunais, imprensa e liberdade de expressão.

Tudo isso é real e deve ser defendido.

Mas entre a existência formal das instituições e a sua capacidade efectiva de responsabilizar o poder existe um território cinzento onde floresce uma elite política, administrativa, empresarial e jurídica que aprendeu a viver do Estado sem parecer dependente dele.

Essa elite não precisa de conspirar numa sala subterrânea.

Encontra-se naturalmente nos mesmos lugares.

Estudou nas mesmas escolas.

Circula pelos mesmos escritórios.

Frequenta os mesmos congressos.

Contrata os mesmos consultores.

Nomeia os mesmos especialistas.

E, quando abandona o Governo, atravessa a rua para uma empresa, um regulador, uma sociedade de advogados ou uma instituição pública onde a experiência adquirida será devidamente valorizada.

Não é necessariamente uma organização secreta.

É uma comunidade de interesses tão habituada a si própria que já não reconhece o privilégio.

A democracia torna-se então um condomínio fechado.

Os cidadãos são chamados de quatro em quatro anos para escolher a administração. Depois regressam à portaria, enquanto os condóminos permanentes discutem os contratos, distribuem lugares e garantem que ninguém estranho perturba excessivamente o funcionamento do edifício.

Quando alguém faz perguntas, dizem-lhe que está a alimentar o populismo.

Quando um jornalista investiga, acusam-no de sensacionalismo.

Quando a oposição exige responsabilidades, responde-se que são “piropos”.

E quando os factos se acumulam, nomeia-se uma comissão.

Portugal inventou a forma institucional da digestão lenta: tudo entra no sistema, nada parece sair dele e, ao fim de algum tempo, já ninguém se recorda do que estava a ser investigado.

O desprezo embrulhado em serenidade

A palavra “tranquilo” surge frequentemente no vocabulário dos governantes portugueses.

Estão tranquilos perante investigações.

Tranquilos perante falhas.

Tranquilos perante contratos duvidosos.

Tranquilos perante sistemas que não funcionam.

Tranquilos perante demissões que recusam.

Tranquilos perante explicações que ainda não deram.

Talvez seja uma extraordinária disciplina mental. Ou talvez a tranquilidade provenha da certeza de que o sistema raramente pune quem está suficientemente bem instalado dentro dele.

O cidadão não possui esse privilégio.

Se falhar uma prestação, não pode declarar confiança em si próprio.

Se entregar um bem de uma instituição pública a um amigo, não pode chamar “piropos” às perguntas do tribunal.

Se omitir um rendimento, atrasar um imposto ou cometer um erro administrativo, encontra imediatamente um Estado desperto, eficiente e de memória prodigiosa.

O Estado português é frequentemente distraído para cima e rigoroso para baixo.

Perante o cidadão comum, exige documentos, prazos, justificações e comprovativos.

Perante o poder, aceita versões, esclarecimentos futuros e confiança política.

A máquina conhece perfeitamente a direcção em que deve exercer a autoridade.

A demagogia da competência

Luís Montenegro não se limitou a manter a confiança. Classificou Luís Neves como um ministro “muitíssimo competente”.

Também aqui existe uma manobra conhecida.

Quando a integridade política é questionada, responde-se com a competência técnica.

Como se uma anulasse a outra.

Um governante pode ser competente e, ainda assim, tomar decisões imprudentes.

Pode conhecer profundamente uma instituição e, precisamente por isso, ter maior obrigação de evitar relações susceptíveis de levantar conflitos de interesses.

Pode ter uma carreira respeitável e cometer um erro político grave.

A competência não é um certificado vitalício de inocência.

Aliás, quanto maior for a experiência de Luís Neves na Polícia Judiciária, menos compreensível se torna qualquer informalidade na gestão de bens apreendidos, nas relações com fornecedores ou na separação entre amizades privadas e responsabilidades públicas.

Não se pode simultaneamente apresentar alguém como profundo conhecedor do sistema e desculpar acontecimentos estranhos como meros acidentes administrativos.

O argumento da competência tem dois lados.

O Governo decidiu mostrar apenas o mais conveniente.

O país real e o paraíso da miséria

Enquanto esta elite se protege, o país real vive num regime de escassez administrada.

Faltam médicos, mas não faltam administradores.

Faltam casas, mas abundam programas de habitação.

Faltam professores, mas multiplicam-se reformas educativas.

Falta produtividade, mas sobram conferências sobre inovação.

Falta justiça rápida, mas nunca faltam discursos sobre o Estado de direito.

Portugal tornou-se um paraíso da miséria não porque todos vivam na pobreza absoluta, mas porque a precariedade da maioria foi normalizada como cenário permanente.

O trabalhador deve adaptar-se.

O reformado deve compreender.

O jovem deve emigrar.

A família deve esperar.

A empresa pequena deve sobreviver.

O cidadão deve confiar.

Só a elite não precisa de adaptar-se. A elite adapta o sistema.

Privatiza oportunidades, distribui contratos, protege carreiras e socializa os custos dos seus erros. Quando alguma coisa corre mal, ninguém decidiu sozinho, todos cumpriram procedimentos e o processo administrativo adquiriu vida própria.

A responsabilidade dissolve-se numa estrutura tão complexa que acaba por parecer indelicado procurar o responsável.

O atrelado como símbolo nacional

Talvez o mais extraordinário deste caso seja o seu poder simbólico.

Portugal tornou-se um país rebocado.

A democracia segue dentro de um atrelado cuja propriedade ninguém consegue explicar completamente.

O atrelado foi apreendido, deslocado, utilizado, encontrado, investigado e discutido. Há documentos, mas não parecem encerrar todas as dúvidas. Há versões, mas nenhuma consegue tranquilizar fora do círculo governamental.

E, perante tudo isso, o primeiro-ministro mantém a confiança.

O atrelado transporta agora muito mais do que aquilo que alguma vez esteve no seu interior.

Transporta a promiscuidade entre amizade e função pública.

Transporta a fragilidade dos mecanismos de controlo.

Transporta a arrogância do poder.

Transporta o desprezo pelo escrutínio.

E transporta uma democracia cada vez mais pesada, cansada e incapaz de travar a descida.

No banco da frente seguem os escolhidos, protegidos por vidros escuros e confiança política.

Atrás, o país real agarra-se como pode.

A confiança que falta

A verdadeira questão já não é saber se Luís Montenegro mantém confiança em Luís Neves.

Isso ficou suficientemente repetido.

A questão é saber por que razão os portugueses deveriam manter confiança num sistema que reage desta maneira.

A confiança democrática não se decreta.

Constrói-se com transparência, consequências e prestação de contas.

Quando um governante está envolvido num caso grave, não basta afirmar que é competente.

Quando existem indícios investigados pelo Ministério Público, não basta ridicularizar a oposição.

Quando há relações pessoais cruzadas com contratos públicos e decisões administrativas, não basta dizer que tudo será esclarecido.

É necessário esclarecer.

A demagogia começa quando a linguagem deixa de servir para explicar e passa a servir para encerrar o assunto.

“Estou tranquilo.”

“Mantenho a confiança.”

“É muito competente.”

“São piropos da oposição.”

Quatro frases, nenhum esclarecimento.

E assim se governa Portugal: não através da resolução dos problemas, mas através da administração mediática do cansaço.

Espera-se alguns dias.

Surge outro caso.

Muda-se o assunto.

O ministro permanece.

O primeiro-ministro continua tranquilo.

E a democracia, cuidadosamente rebocada para longe do escrutínio público, desaparece pela estrada abaixo dentro do seu próprio atrelado.

Nota Editorial

Esta crónica é uma análise política e editorial sobre a forma como o Governo responde ao escrutínio público. Distingue a responsabilidade política da responsabilidade criminal, que depende de investigação, acusação e decisão judicial.

À data de publicação, o Ministério Público tinha aberto um inquérito relacionado com a deslocação do atrelado apreendido, tendo sido noticiados indícios de eventual abuso de poder e descaminho. A existência de um inquérito ou de indícios não equivale a acusação nem a condenação.

A referência aos contratos públicos celebrados entre a Polícia Judiciária e a Construbarcelos, bem como às obras privadas realizadas para Luís Neves, baseia-se em informação publicada por órgãos de comunicação social. Luís Neves negou favorecimento e afirmou que os procedimentos de contratação pública respeitaram a lei.

A crítica aqui formulada incide na manutenção da confiança política, na desvalorização das perguntas da oposição e na insuficiência das explicações públicas perante factos que justificam escrutínio reforçado. A presunção de inocência é plenamente respeitada; a exigência de responsabilidade política também deve sê-lo.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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