Cidadania,  Crónicas,  Democracia Directa

Quando a crueldade recebe aplausos: a democracia sem empatia

Spread the love

Fragmentos do Caos · Crónica crítica · Cidadania e Democracia

Quando a crueldade recebe aplausos: a democracia sem empatia

Quando o sofrimento de quem protesta se transforma em motivo de aplauso, não é apenas a empatia que está em crise: é a própria cultura democrática.

Por Francisco Gonçalves · 29 de outubro de 2026

O aplauso que devia envergonhar-nos

Há um momento em que uma sociedade deixa de discutir a legitimidade de uma intervenção policial e começa a revelar algo mais sombrio: a satisfação perante o sofrimento de quem protesta. Nas redes sociais, incluindo no LinkedIn — esse salão de virtudes profissionais, liderança humanista e inteligência emocional — surgem comentários que não se limitam a defender a polícia. Alguns desejam que os manifestantes tivessem apanhado ainda mais.

Não se trata de exigir unanimidade política. Ninguém é obrigado a concordar com uma manifestação, com uma ocupação do espaço público ou com as propostas de um movimento. Mas há uma fronteira moral que uma democracia não pode atravessar sem se ferir: transformar a violência contra cidadãos em espetáculo merecedor de aplauso.

O paradoxo é quase cómico, se não fosse trágico: há quem publique, de manhã, frases sobre empatia e liderança inclusiva e, à tarde, celebre bastonadas em pessoas que reclamam uma casa onde viver. A inteligência emocional, afinal, parece ter horário de expediente.

A habitação, as tendas e a resposta do poder

Em outubro de 2026, os acampamentos de protesto pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto foram alvo de sucessivas intervenções policiais. A imprensa internacional documentou detenções, feridos e a remoção de tendas. A PSP sustentou que atuou para pôr termo a acampamentos ilegais e defendeu a proporcionalidade das operações; os movimentos de protesto denunciaram uso excessivo da força. Os números de feridos divulgados pelas autoridades e pelos organizadores não coincidem.

A Amnistia Internacional manifestou preocupação com indícios de força excessiva na operação de 15 de outubro, no Porto, e pediu uma investigação independente, imparcial e eficaz. Mais de quatrocentos juristas subscreveram posteriormente uma carta pública crítica das intervenções. Estas posições não substituem o apuramento judicial dos factos, mas tornam impossível tratar a controvérsia como mera birra de manifestantes.

A legalidade de uma tenda e a legitimidade de uma bastonada são perguntas diferentes. Mesmo quando existe fundamento para ordenar a desocupação de um espaço, o uso da força continua sujeito aos princípios da necessidade, adequação e proporcionalidade. A autoridade não recebe uma licença para castigar.

Uma democracia não é apenas uma máquina de contar votos

É tentador imaginar que a democracia está garantida enquanto houver eleições, partidos e um parlamento. Mas uma democracia é também a prática quotidiana de reconhecer direitos a quem pensa de modo diferente, vive em condições mais precárias ou tem menos poder para se fazer ouvir.

Se um cidadão só defende a liberdade de manifestação quando concorda com a causa, não defende um direito: defende um privilégio condicionado à sua aprovação. E direitos condicionados à simpatia dos outros são direitos de papel.

O relatório Democracy Report 2026 do V-Dem, na sua leitura sobre Portugal, aponta sinais de maior polarização e de erosão de dimensões deliberativas da democracia, mas identifica também a sociedade civil ativa como uma importante força de resistência. Isto importa: a degradação não é inevitável e o país não está condenado a uma caricatura autoritária.

A indiferença não é inocente, mas também não é destino

Seria fácil dividir o país entre pessoas boas e pessoas más. Seria também um erro. Há indiferença nascida do cansaço, do medo, da precariedade e da desconfiança. Há quem se tenha afastado da vida coletiva por sentir que ninguém o escuta. Tudo isso merece compreensão. Mas a indiferença torna-se moralmente perigosa quando evolui para desprezo, e o desprezo para prazer perante a humilhação alheia.

Não é preciso gostar de um manifestante para reconhecer a sua dignidade. Não é preciso subscrever um protesto para exigir que o Estado respeite a Constituição. E não é preciso ser pobre para compreender que a pobreza não constitui uma infração punível com um bastão.

O velho autoritarismo de fato e gravata

Portugal derrubou uma ditadura em 25 de Abril de 1974. Mas nenhuma revolução apaga, por decreto, hábitos culturais sedimentados: a deferência automática perante quem manda, a suspeita sobre quem reclama e a ideia de que ordem significa silêncio. Essas atitudes não pertencem exclusivamente a uma geração, profissão ou partido.

O autoritarismo contemporâneo nem sempre chega de botas. Por vezes chega de fato, com fotografia de perfil impecável, um cargo sonante e uma publicação motivacional sobre valores humanos. Depois encontra uma pessoa desesperada por uma habitação e conclui que o verdadeiro problema é ela fazer barulho.

É justamente por isso que uma democracia precisa de cidadãos críticos, imprensa livre, tribunais independentes, fiscalização efetiva das forças de segurança e educação cívica. Não basta esperar que toda a gente seja bondosa. É necessário construir regras e instituições que protejam cada pessoa mesmo quando a multidão perde a compostura.

A liberdade dos outros é a prova da nossa

Uma sociedade não se mede apenas pelo que produz, pelo número de licenciados ou pela sofisticação dos seus currículos. Mede-se também pela reação que tem quando alguém vulnerável pede ajuda, justiça ou simplesmente o direito de ser ouvido.

A democracia não exige que sejamos todos amigos. Exige algo simultaneamente mais modesto e mais difícil: que aceitemos a humanidade, os direitos e a liberdade daqueles de quem discordamos.

Quando a dor de um concidadão provoca aplausos, o problema já não está apenas na rua onde houve uma carga policial. Está na consciência coletiva que a observa. E uma sociedade que se habitua a aplaudir a força contra os fracos arrisca descobrir, tarde demais, que o poder nunca garante que o próximo alvo não será ela própria.

A democracia não morre apenas quando alguém fecha o Parlamento. Também adoece quando os cidadãos deixam de se reconhecer uns aos outros como iguais em dignidade.

Nota editorial

Esta crónica é um texto de opinião e análise crítica. Distingue factos noticiados, posições de autoridades e organizações e juízos do autor. As alegações de uso excessivo da força exigem investigação e apuramento de responsabilidades; a existência de feridos ou detenções não prova, por si só, a ilegalidade de cada atuação policial. A crítica dirige-se a comportamentos, decisões e práticas institucionais, não à generalidade dos agentes policiais nem a grupos de cidadãos.

Referências e leitura complementar

  1. Amnistia Internacional — violência policial contra manifestantes pela habitação (outubro de 2026)
  2. The Guardian — operações policiais nos acampamentos pela habitação (25/10/2026)
  3. Euronews — protestos em Lisboa e Porto (25/10/2026)
  4. V-Dem — Democracy Report 2026, edição portuguesa
  5. Portugal Resident — carta aberta de mais de 400 juristas (28/10/2026)


🌌 Fragmentos do Caos: Blogue • Ebooks • Carrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos