Crónica do Absurdo Nacional: Quando o Fogo Arde e o Dinheiro Aplaude
BOX DE FACTOS
- 26 milhões de euros atribuídos novamente à empresa gestora do sistema de comunicações de emergência.
- Valor semelhante repetido ano após ano.
- Sistema com histórico público de falhas em situações críticas.
- Zero consequências políticas relevantes.
Crónica do Absurdo Nacional
Quando o Fogo Arde e o Dinheiro Aplaude
Quando cai, não se substitui.
Quando mata, indemniza-se.
E quando arde… passa-se um cheque.
Há países que investem em tecnologia para salvar vidas.
Portugal investe em tecnologia para salvar contratos.
O sistema de comunicações de emergência foi concebido para nunca falhar.
É precisamente por isso que falha sempre — porque a coerência, neste país, é um luxo incompatível com a gestão pública.
Sempre que o território entra em combustão espontânea,
descobrimos que os rádios não comunicam, as antenas adormecem, os comandos falam sozinhos e os bombeiros dependem da fé, do vento e de um telemóvel com 12% de bateria.
Depois, quando a cinza assenta, surgem os peregrinos do poder.
Colete fluorescente vestido,
olhar grave ensaiado, frase pronta:
Avaliar é o verbo preferido da política portuguesa.
Nunca corrige, nunca resolve, nunca substitui — apenas avalia.
É uma espécie de pensamento profundo sem qualquer intenção de agir.
A avaliação dura até à próxima chuva, momento em que se conclui o relatório mais importante do processo:
E lá seguem mais 26 milhões de euros para o SIRESP, não para garantir funcionamento, mas para garantir silêncio.
Porque neste modelo extraordinariamente criativo,
o sistema não precisa de funcionar — precisa apenas de existir juridicamente.
O resto é folclore operacional.
Se um cidadão comum falhar no trabalho, é despedido.
Se um sistema de emergência falhar repetidamente, é recompensado.
Chama-se a isto inovação administrativa.
Um conceito exclusivamente nacional, estudado com curiosidade por antropólogos e com espanto por qualquer engenheiro.
O mais notável é que ninguém é responsável.
O fogo tem responsáveis naturais.
A falha tem responsáveis técnicos.
O contrato… tem apenas beneficiários.
Assim, o país continua a arder no verão, a inundar no inverno, e a pagar durante todo o ano.
Porque em Portugal, quando o sistema falha, o problema nunca é o sistema.
É sempre o clima.
Ou o terreno.
Ou o acaso.
Nunca a estupidez organizada.
Epílogo
Um dia, talvez, teremos comunicações que funcionem.
Até lá, temos indemnizações exemplares, discursos inflamados e um país inteiro ligado não por rádio, mas por resignação.
O fogo apaga-se. O absurdo, infelizmente, continua operacional.
quando o buraco é estrutural,
não se corrige —
sai-se dele.
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade
Co-autoria simbólica: Augustus Veritas


