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Os vendedores de propaganda e o espírito tribal

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Os vendedores de propaganda e o espírito tribal

Quando a análise televisiva troca princípios por bandeiras, a neutralidade torna-se apenas propaganda de gravata.

Por Francisco Gonçalves6 de agosto de 2026Crónica de opinião

Há uma espécie particularmente resistente de comentador televisivo que não analisa guerras: torce por elas.

Não usa cachecol, não pinta a cara nem salta das bancadas, porque isso seria demasiado honesto. Prefere sentar-se diante de uma câmara, adotar uma expressão grave, cruzar as mãos com solenidade episcopal e apresentar a sua preferência tribal como se fosse ciência política.

É o vendedor moderno de propaganda.

Não grita slogans. Fala pausadamente.

Não agita bandeiras. Exibe mapas.

Não admite simpatias. Invoca “realismo”.

Quando a Rússia ocupa mais um quilómetro quadrado de território ucraniano, a voz ganha entusiasmo, os olhos brilham discretamente e surge logo a previsão inevitável: a Ucrânia está perdida, o Ocidente deve ter cuidado, a resistência é inútil e talvez seja prudente aceitar a amputação do país antes que o invasor fique aborrecido.

Mas quando a Ucrânia ataca uma instalação militar em território russo, o mesmo comentador descobre subitamente a existência dos civis, do Direito Internacional, da proporcionalidade, da prudência e, provavelmente, dos direitos humanos em fascículos.

A bússola moral destes especialistas não aponta para norte. Aponta para Moscovo.

Naturalmente, qualquer morte civil é condenável. Russa, ucraniana, palestiniana, israelita ou de qualquer outra nacionalidade. Uma vida humana não muda de valor conforme a bandeira colocada no rodapé da televisão.

Mas há uma diferença essencial entre defender os civis e usar os civis como instrumento retórico.

Quando os mortos ucranianos são tratados como dano colateral inevitável e os mortos russos como prova da barbárie do agredido, já não estamos perante compaixão. Estamos perante contabilidade ideológica.

É uma moral de feira: dois pesos, duas medidas e uma balança já inclinada antes de começar o debate.

A neutralidade com camisola por baixo

Estes comentadores apresentam-se como observadores frios, independentes e intelectualmente superiores às emoções do público.

É uma representação razoável, embora pouco convincente.

Por baixo do fato da neutralidade está quase sempre uma camisola tribal.

Uns torcem pelo império porque confundem brutalidade com força. Outros admiram regimes autoritários porque acreditam que a democracia é decadente, lenta e excessivamente barulhenta. Há ainda os que construíram uma carreira inteira a odiar os Estados Unidos e, por reflexo de trincheira, concluem que qualquer adversário de Washington deve representar o progresso da humanidade.

É uma forma curiosa de pensamento político: se o inimigo do meu inimigo bombardear hospitais, talvez exista uma explicação geoestratégica bastante sofisticada.

A tribo vem primeiro.

Os factos vêm depois.

E, quando os factos incomodam, reorganizam-se os factos.

Uma invasão passa a ser “operação militar”.

Uma ocupação transforma-se em “realidade no terreno”.

A resistência torna-se “provocação”.

A rendição recebe o nome elegante de “solução pragmática”.

E o agressor, depois de destruir cidades, deportar populações e anexar território, é apresentado como um interlocutor incompreendido, provavelmente vítima de falta de carinho diplomático.

É extraordinário aquilo que um vocabulário universitário consegue fazer quando colocado ao serviço da cobardia moral.

Professores de certezas absolutas

O problema torna-se ainda mais grave quando estes vendedores de propaganda são também professores universitários.

Um professor deveria ensinar a pensar.

Deveria mostrar a complexidade, testar hipóteses, questionar narrativas e desconfiar das próprias conclusões. Deveria ensinar os alunos a perguntar: quem afirma, com que provas, com que interesses e segundo que critérios?

Mas alguns preferem ensinar certezas.

Certezas compactas, prontas a consumir, embaladas para caber num segmento televisivo entre a publicidade a detergentes e a previsão do tempo.

A televisão agradece.

O pensamento crítico, nem tanto.

Há qualquer coisa de profundamente inquietante num professor que passa os dias a representar objetividade enquanto oferece aos jovens uma interpretação do mundo previamente filtrada pela sua tribo ideológica.

Não está a abrir mentes. Está a instalar software proprietário.

E, como frequentemente acontece com software mal concebido, o utilizador deixa de pensar e passa apenas a repetir mensagens de erro.

Esses alunos aprendem que liberdade significa concordar com o professor, que espírito crítico significa criticar apenas o campo adversário e que a democracia é admirável desde que produza os resultados autorizados pelo catecismo político da casa.

É a pedagogia da liberdade encenada.

Pode-se pensar livremente, desde que se pense corretamente.

Pode-se discordar, desde que a discordância não incomode.

Pode-se questionar tudo, menos o professor, a narrativa e a tribo.

A guerra como campeonato

O espírito tribal transforma a guerra numa competição desportiva.

Conta-se território conquistado como quem acompanha a classificação de um campeonato. Celebra-se o avanço de tropas, anuncia-se a queda iminente do adversário e comentam-se milhares de mortos com a serenidade de quem analisa posse de bola.

Um quilómetro quadrado muda de mãos e o comentador fica radiante.

Uma aldeia é destruída e ele explica que se trata de uma evolução estratégica.

Uma cidade é bombardeada e surge a inevitável contextualização histórica, porque há cadáveres que, aparentemente, precisam de enquadramento académico antes de merecerem indignação.

Depois, quando a guerra atravessa a fronteira do invasor, descobre-se que o conflito tem consequências.

Que surpresa monumental.

Durante anos, a Rússia pôde lançar mísseis, drones e artilharia contra território ucraniano. Mas, para certos sacerdotes televisivos, a guerra deveria respeitar uma regra muito conveniente: o agressor pode atacar a partir de casa, enquanto o agredido deve defender-se apenas no próprio quintal.

É uma doutrina militar extraordinária.

Talvez venha a ser ensinada nas academias como “estratégia da vítima educada”: receber o golpe, agradecer a análise e evitar perturbar o agressor.

O mercado da rendição

Há também um negócio intelectual em torno da inevitabilidade.

Os propagandistas adoram declarar que a vitória russa é certa, que a resistência ucraniana é inútil e que o apoio ocidental apenas prolonga o sofrimento.

A fórmula é antiga.

Primeiro, o agressor destrói.

Depois, os comentadores culpam a vítima por não se render suficientemente depressa.

Chamam-lhe realismo.

Mas o realismo que só reconhece o poder das armas e ignora o direito, a soberania e a vontade dos povos não é realismo.

É servidão com bibliografia.

É a filosofia do ladrão bem armado: já que entrou em casa e possui uma pistola, talvez seja sensato entregar-lhe também a escritura.

Naturalmente, estes especialistas nunca aplicam a mesma doutrina a si próprios.

Não entregariam a casa, a família ou a liberdade ao primeiro homem que aparecesse com um tanque. Mas aconselham povos inteiros a fazê-lo, com grande serenidade, a partir de estúdios confortáveis onde o maior perigo é o café estar demasiado frio.

O dever de desconfiar

Uma democracia saudável não exige comentadores neutros. A neutralidade absoluta é uma ficção e, muitas vezes, uma máscara.

O que se exige é honestidade.

Que assumam os seus critérios.

Que condenem crimes segundo os mesmos princípios.

Que distingam factos de preferências.

Que admitam quando não sabem.

E que não transformem a autoridade académica numa licença para vender propaganda com gravata.

O público também tem responsabilidades.

Deve aprender a reconhecer os sinais: o entusiasmo seletivo, a indignação intermitente, a linguagem higienizada para o agressor e a severidade moral reservada ao agredido.

Sempre que um comentador muda de princípios conforme muda a bandeira, não está a analisar. Está a recrutar.

Sempre que uma vítima precisa de justificar a própria defesa, enquanto o invasor recebe infinitas explicações históricas, não estamos perante equilíbrio.

Estamos perante cumplicidade intelectual.

E sempre que um professor troca a dúvida pelo dogma e a investigação pelo espírito tribal, deixa de formar cidadãos livres.

Passa a produzir seguidores.

A propaganda moderna raramente usa uniforme.

Prefere títulos académicos, mapas digitais, palavras estrangeiras e uma expressão profundamente preocupada.

Mas continua a ser propaganda.

Apenas aprendeu a usar microfone.

“Sempre que um comentador muda de princípios conforme muda a bandeira, não está a analisar. Está a recrutar.”

Nota editorial

Esta crónica é um texto de opinião e crítica dos mecanismos retóricos usados no comentário televisivo. Não imputa a qualquer pessoa concreta a prática de crimes, coordenação com governos estrangeiros ou recebimento de instruções propagandísticas. Critica, isso sim, a incoerência de critérios, a linguagem que normaliza a agressão e a transformação da autoridade académica em certificado automático de objetividade.

O princípio editorial é simples: todos os civis merecem proteção, independentemente da nacionalidade; todos os alegados ataques ilegais devem ser investigados; e nenhuma análise séria pode apagar que a guerra em grande escala começou com a invasão russa de 24 de fevereiro de 2022. A equivalência moral automática entre agressor e agredido não é equilíbrio. É amnésia com iluminação de estúdio.

Francisco Gonçalves · Fragmentos do Caos · 6 de agosto de 2026

Referências internacionais

  1. Assembleia-Geral das Nações UnidasA/RES/ES-11/1 — Aggression against Ukraine (2 de março de 2022).
  2. OHCHR — Missão de Monitorização dos Direitos Humanos na UcrâniaCivilian Casualties Soar in Ukraine in the First Half of 2026 (14 de julho de 2026).
  3. Comité Internacional da Cruz VermelhaFundamental principles of international humanitarian law (consulta em 6 de agosto de 2026).
  4. ReutersIn Ukraine's Zaporizhzhia, Russia tries to sow panic with 'safari' strikes on civilians (6 de agosto de 2026).
  5. Reuters Institute for the Study of JournalismCan public demand for impartial news survive platforms and polarisation? (Digital News Report 2026).
  6. Reporters Without BordersThe Propaganda Monitor: report on the geopolitics of Kremlin propaganda (2025).
  7. Foreign AffairsWhy War Fails: Russia’s Invasion of Ukraine and the Limits of Military Power (14 de junho de 2022).

Referências consultadas para enquadramento factual e editorial. A seleção não substitui a leitura integral das fontes nem transforma a opinião do autor em posição das entidades citadas.

Francisco Gonçalves

Fragmentos do Caos · Pensamento crítico sem licença para adormecer

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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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