A culpa é dos extremos: o álibi de quem governa
FRAGMENTOS DO CAOS · CRÓNICA CRÍTICA
A culpa é dos extremos: o álibi de quem governa
A responsabilidade política perde-se quando os problemas de quem protesta dão lugar ao julgamento de quem está na rua.
Há uma forma muito económica de governar o descontentamento: deixar os problemas crescer, esperar que os cidadãos protestem e discutir então o perigo dos cidadãos. As rendas continuam por pagar, mas a responsabilidade política acaba de encontrar uma saída de emergência.
O álibi que serve para quase tudo
Na política, a expressão «a culpa é dos extremos» tem a versatilidade de um canivete suíço. Abre debates, corta perguntas incómodas e permite sair de uma entrevista sem transportar o peso das próprias decisões. Se a contestação vem da esquerda, descobre-se uma ameaça revolucionária. Se vem da direita, anuncia-se uma ameaça à democracia. Se vem de pessoas sem filiação, investiga-se com particular entusiasmo quem as terá influenciado.
O cidadão fica numa posição curiosa: é considerado adulto para trabalhar, pagar impostos e assumir dívidas de trinta anos; quando protesta contra as condições em que vive, pode passar a figurante manipulado por alguém. A sua autonomia política diminui precisamente no momento em que resolve exercê-la.
Entretanto, quem decidiu mantém o estatuto de pessoa responsável. Quem suporta as consequências tem de apresentar primeiro o certificado de respeitabilidade da sua indignação.
As casas subiram antes de aparecerem os cartazes
A crise da habitação permite testar esta confortável teoria. Segundo o Eurostat, os preços das casas em Portugal aumentaram 180% entre 2015 e o quarto trimestre de 2025. No segundo trimestre de 2026, a subida face ao mesmo período do ano anterior foi de 16,5%, a maior entre os países da União Europeia com dados disponíveis; a média europeia foi de 4,7%. São indicadores dos preços de compra de habitação, não uma medição direta das rendas ou do esforço de todas as famílias. Ainda assim, descrevem uma transformação material suficientemente séria para exigir respostas. [1][2]
Nenhum desses números foi produzido por uma palavra de ordem no Rossio. O seu percurso obriga a examinar políticas de habitação, construção, reabilitação, tributação, rendimentos e ordenamento do território, a par das condições económicas internacionais. A responsabilidade deve ser apurada por decisão, por competência e por período de governação. Esse trabalho dá mais trabalho do que escolher um culpado para o telejornal.
Há uma diferença decisiva entre reconhecer que um problema tem várias causas e espalhar a responsabilidade até já ninguém responder por coisa alguma. Quando a explicação se torna tão complexa que absolve sempre quem exerceu o poder, deixou de esclarecer e começou a proteger.
Em 17 de outubro, uma reportagem da Reuters descreveu os protestos em Lisboa contra os custos da habitação e da vida. Registou também a posição do ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim: o Governo não cederia aos gritos vindos da rua e já estaria a executar medidas concretas. A formulação é aqui apresentada em paráfrase da notícia, sem pretensão de transcrição literal em português. [3]
Medidas concretas merecem avaliação concreta: quantas casas, para quem, a que custo, em que prazo e com que efeito sobre a acessibilidade? Uma casa anunciada deve chegar a ser uma casa habitável. Até lá, o anúncio protege melhor o currículo do governante do que protege uma família da chuva.
Da hipótese à condenação de uma praça inteira
No dia 28 de outubro, o Observador noticiou suspeitas de ligação de um grupo presente no Rossio a movimentos radicais. A informação continha uma ressalva essencial: a PSP declarou que, com os dados disponíveis, não era possível confirmar formalmente essa ligação. A hipótese de associação à extrema-esquerda era apresentada no enquadramento jornalístico; a declaração policial reproduzida falava de possíveis ligações a grupos radicais e extremistas. [4]
É legítimo investigar atos concretos, agressões, ameaças ou organização violenta. O problema começa quando uma suspeita localizada é promovida a explicação de uma manifestação inteira. Nesse salto, a prudência da prova desaparece e fica apenas a utilidade política do rótulo.
Uma pessoa que exige uma renda suportável não passa a exigir menos legitimamente por ter marchado perto de alguém com ideias diferentes. E a eventual prática de um crime por um participante exige prova e responsabilidade individual. A multidão não pode ser transformada numa pessoa coletiva com cadastro atribuído por aproximação.
A Deutsche Welle relatou, em 21 de outubro, a continuação dos protestos portugueses e as versões divergentes de ativistas e polícia sobre as operações de desmantelamento dos acampamentos. Essa divergência pede apuramento e escrutínio; um adjetivo sobre os manifestantes não resolve a disputa factual. [5]
A Europa também conhece o expediente
França oferece um exemplo documentado. Em março de 2023, durante a contestação à reforma das pensões, o então ministro do Interior, Gérald Darmanin, atribuiu violência a elementos frequentemente ligados à extrema-esquerda. A Reuters relatou confrontos e destruição, ao mesmo tempo que descreveu o caráter maioritariamente pacífico daquela jornada de protesto. [6]
O Le Monde registou também a preocupação de responsáveis sindicais com os grupos violentos. Havia, portanto, incidentes reais e razões para os investigar. Havia igualmente reivindicações e participantes que continuavam a merecer uma resposta política. [7]
O caso francês não demonstra que todos os governos europeus atuem da mesma maneira, nem que todas as manifestações tenham a mesma origem. Mostra como duas discussões podem coexistir: a responsabilidade por atos violentos e a responsabilidade pelas decisões que suscitam oposição. A primeira não faz desaparecer a segunda.
Quando as imagens dos confrontos passam a ocupar todo o espaço disponível, os motivos da contestação ficam fora de campo. A minha crítica dirige-se a esse efeito político: o problema social perde o lugar central e o poder ganha a possibilidade de discutir apenas a conduta dos seus contestatários.
A respeitabilidade não substitui a prestação de contas
Este expediente ganha força quando é repetido por pessoas de reputação social consolidada. O tom é sereno, o vocabulário institucional e o currículo suficientemente longo para sugerir que a conclusão já foi revista por uma comissão de sábios. Mas uma afirmação continua a precisar de provas, mesmo quando é pronunciada por alguém que conhece o diretor da estação.
Defender instituições implica exigir-lhes resultados e limites. A reputação de um governante, de um comentador ou de um partido não pode funcionar como desconto permanente na exigência de explicações. Quanto maior foi a capacidade de decidir, maior deve ser a obrigação de mostrar o que se fez com ela.
Também convém aplicar esse critério à oposição. Um partido que governou durante anos continua responsável pelo seu próprio percurso quando muda de bancada. A mudança de cadeira não apaga os documentos que assinou. E um partido sem experiência governativa deve ser julgado pela consistência das propostas e dos comportamentos, sem receber antecipadamente um diploma de inocência ou um certificado de salvação nacional.
Há aqui uma regra bastante modesta: avaliar cada um pelos seus atos. Parece uma exigência razoável. Talvez por isso seja tão difícil encontrar-lhe lugar numa discussão partidária.
Os extremos reais e o uso conveniente da palavra
Existem movimentos que promovem ódio, violência ou destruição de direitos. Devem ser identificados com rigor, escrutinados e responsabilizados pelos seus atos. A banalização da palavra «extremismo» prejudica precisamente esse trabalho: quando serve para descrever toda a contestação incómoda, perde capacidade de distinguir perigos reais.
Ao mesmo tempo, a recusa em assumir erros pode oferecer argumentos a quem explora o descontentamento. Um governante que trata cada crítica como manipulação arrisca-se a confirmar a suspeita de que o poder só escuta quem já concorda com ele. Apontar esse risco é uma interpretação política, não uma demonstração de que um único fator explica o crescimento de qualquer partido.
A democracia precisa de cidadãos capazes de discordar sem se tornarem inimigos. Precisa também de dirigentes capazes de receber essa discordância sem a transformar imediatamente num caso de segurança.
O teste das respostas
O rigor exige reconhecer ainda o que contraria uma narrativa demasiado simples. Em 29 de outubro, segundo a RTP, Luís Montenegro reconheceu o caráter estrutural e acumulado do problema habitacional, afirmou o direito das pessoas a manifestarem-se e declarou disponibilidade para o diálogo político. Seria incorreto resumir todas as suas posições à culpabilização dos manifestantes. [8]
Essas declarações podem e devem ser confrontadas com a prática: quem é ouvido, o que muda depois da conversa e que resultados chegam à vida das pessoas. O respeito pela cidadania torna-se visível nas decisões, nos prazos cumpridos e na abertura ao escrutínio.
Uma discussão útil sobre habitação pede metas públicas, financiamento identificável, execução verificável e avaliação dos efeitos das medidas. Uma discussão útil sobre protestos pede factos individualizados, proteção de quem se manifesta pacificamente e apuramento de eventuais abusos. E uma discussão útil sobre polarização começa por permitir que alguém tenha razão num ponto sem ter de pertencer ao nosso grupo.
O país não cabe num álibi
A cidadania torna-se exaustiva quando cada pedido de explicação acaba num exame à ideologia de quem perguntou. As pessoas levam problemas à praça; o poder devolve-lhes categorias. Ao fim de algum tempo, há uma abundância de diagnósticos sobre os manifestantes e uma persistente escassez de soluções para aquilo que os levou a manifestar-se.
Quem governou deve responder pelas escolhas que fez e pelas oportunidades que deixou passar. Quem governa agora deve explicar o que está a executar e aceitar que a legitimidade eleitoral inclui a obrigação de prestar contas entre eleições.
Chamar «extremista» a alguém pode terminar uma conversa. Não reduz uma renda, não abre uma escola, não melhora um serviço público e não devolve confiança a quem já deixou de acreditar.
O verdadeiro teste à responsabilidade política começa quando o governante deixa de explicar quem são os manifestantes e passa a explicar o que fez pelos cidadãos.
E, se ainda assim a culpa continuar sempre nos extremos, talvez seja tempo de perguntar por onde tem andado a responsabilidade. Deve estar muito bem instalada. Nunca a vemos à procura de casa.
Referências e publicações internacionais
- Eurostat — House prices and rents went up in Q4 2025. 7 de abril de 2026. Comparação entre 2015 e o quarto trimestre de 2025: subida de 180% dos preços das casas em Portugal.
- Eurostat — House prices up by 4.0% in the euro area. 1 de outubro de 2026. No segundo trimestre de 2026, Portugal registou uma subida homóloga de 16,5%, a maior entre os países da UE com dados disponíveis; a média da UE foi 4,7%.
- Reuters / Internazionale — Tens of thousands march in Lisbon over housing and living costs. 17 de outubro de 2026. Reportagem sobre as reivindicações sociais e a posição do ministro dos Assuntos Parlamentares perante os protestos.
- Observador — PSP detetou grupo com «possível ligação» à extrema-esquerda durante protestos de domingo no Rossio. 28 de outubro de 2026. Notícia que reproduz a ressalva da PSP de que a ligação a grupos radicais não podia ser formalmente confirmada com os dados disponíveis.
- Deutsche Welle — Portugal housing protests continue after police clear camps. 21 de outubro de 2026. Enquadramento internacional da crise habitacional portuguesa e das versões divergentes sobre as operações policiais.
- Reuters / Investing.com — Violence hits France in day of anger over Macron’s pension changes. 23 de março de 2023. Protestos contra a reforma das pensões, incidentes violentos e declarações do então ministro Gérald Darmanin sobre elementos da extrema-esquerda.
- Le Monde — French pension reform: Day of anger gives way to night of turmoil. 24 de março de 2023. Reportagem sobre as manifestações francesas, os confrontos e a preocupação de dirigentes sindicais com a violência.
- RTP — Crise na habitação. Montenegro garante que Governo está «disponível para diálogo». 29 de outubro de 2026. Reconhecimento pelo primeiro-ministro da dimensão estrutural da crise e do direito à manifestação; posições do executivo sobre o diálogo.


