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O Estado Digitalizou a Burocracia, Mas Esqueceu-se de Integrar o Conhecimento

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Fragmentos do Caos · Crónica de opinião · 29 de outubro de 2026

O Estado Digitalizou a Burocracia, Mas Esqueceu-se de Integrar o Conhecimento

Portugal, a saúde digital e o extraordinário talento nacional para transformar tecnologia em burocracia eletrónica.

Há países onde a tecnologia serve para resolver problemas. E há países onde a tecnologia serve para informatizar os problemas, garantindo que continuam a existir, agora com palavras-passe, autenticação multifator e uma plataforma que ocasionalmente está indisponível para manutenção.

Portugal parece ter desenvolvido um talento muito particular para a segunda modalidade.

Vivemos numa época em que a inteligência artificial consegue identificar padrões em milhões de registos clínicos, a biologia molecular permite reconhecer agentes infecciosos em minutos e os sistemas distribuídos asseguram a troca de informação entre continentes.

Mas um cidadão português pode entrar no consultório da sua médica de família e ter de explicar, mais uma vez, doenças que o acompanham há quarenta anos.

O computador está ligado. O processo está digitalizado. A informação, essa, parece ter emigrado.

Quarenta anos de doença, cinco minutos de consulta

Imaginemos um cidadão que sofre de prostatites recorrentes desde os trinta anos. Ao longo de quase quatro décadas, foi observado por vários médicos, submetido a análises, ecografias, tratamentos e consultas de especialidade.

As infeções regressam. Os antibióticos são prescritos. Os sintomas desaparecem. Passam-se anos. A doença regressa novamente. E, perante cada novo episódio, o cidadão volta a contar a mesma história.

O médico consulta o sistema informático, encontra alguma medicação, alguns resultados e alguns documentos. Mas nem sempre consegue reconstruir o percurso clínico completo. A investigação recomeça. Os exames repetem-se. A receita é emitida. O doente melhora e o processo encerra. Até à próxima vez.

Não estamos necessariamente perante incompetência médica. Estamos perante um modelo assistencial que pode falhar naquilo que deveria ser a sua principal responsabilidade: assegurar a continuidade do conhecimento clínico.

A grande ilusão da saúde digital

Portugal possui um Registo de Saúde Eletrónico. Possui plataformas hospitalares, sistemas de cuidados primários, prescrição eletrónica, portais e aplicações. E existem progressos reais que importa reconhecer.

Mas possuir muitos sistemas informáticos não significa possuir um sistema de informação integrado.

Em 2024, o Instituto Português da Qualidade reconheceu expressamente a existência de múltiplos sistemas de saúde frequentemente não interoperáveis. Em 2025, a Comissão Europeia destacou o desempenho português no acesso digital aos registos de saúde. E, em 2026, o relatório europeu sobre Portugal continuou a apontar a interoperabilidade como uma área de investimento e desenvolvimento.

Podemos ser relativamente avançados no acesso digital e continuar a ser insuficientemente eficazes na integração clínica. Um portal permite consultar informação. Um verdadeiro processo clínico longitudinal permite compreender a história do doente.

Quando o cidadão se transforma numa base de dados ambulante

O cidadão chega à consulta com uma pasta de exames, relatórios antigos, listas de medicamentos e recordações de diagnósticos. Torna-se simultaneamente doente, arquivista, operador de integração de dados e gestor de continuidade clínica.

Se esquecer um exame realizado há dez anos, esse exame pode desaparecer da avaliação atual. Se não recordar o nome de um antibiótico, perde-se uma informação potencialmente relevante. Se uma urocultura antiga estiver guardada noutro sistema, a comparação microbiológica pode simplesmente não acontecer.

É uma arquitetura extraordinária: o Estado investe em infraestruturas digitais e depois utiliza a memória humana como mecanismo de interoperabilidade. Um modelo tecnicamente inovador, se estivéssemos em 1973.

Medicina de episódios ou medicina de conhecimento?

A medicina não é engenharia informática. O corpo humano não é um servidor e nem todas as doenças possuem uma causa única, identificável e corrigível. Mas a analogia continua a ser instrutiva.

Se um sistema informático apresentasse a mesma falha crítica durante quarenta anos, seria absurdo limitar a intervenção a reiniciá-lo sempre que deixasse de funcionar. Seria necessário analisar logs, identificar padrões, correlacionar eventos, investigar dependências e procurar causas-raiz.

Na medicina, o raciocínio é naturalmente mais complexo, mas a necessidade de preservar e relacionar informação não é menor. Uma consulta isolada pode tratar uma manifestação da doença. Um acompanhamento longitudinal pode revelar padrões que nenhuma consulta isolada consegue identificar.

O problema não está em tratar sintomas. Está em tratar repetidamente sintomas sem garantir que o conhecimento adquirido em cada episódio contribui para o seguinte.

O público, o privado e a economia dos atos médicos

É legítimo questionar modelos de organização e financiamento que valorizam o volume de atividade mais facilmente do que os resultados clínicos de longo prazo.

No setor público, a pressão assistencial pode reduzir o tempo disponível para investigação e acompanhamento. No privado, certos mecanismos de remuneração podem favorecer a multiplicação de atos médicos.

Isso não demonstra que os profissionais atuem por interesses meramente económicos. Muitos médicos procuram prestar cuidados excelentes em condições difíceis.

Mas levanta uma questão institucional: quem assume a responsabilidade por assegurar que décadas de informação clínica são transformadas em conhecimento utilizável? Quem avalia a continuidade assistencial? Quem mede as duplicações evitáveis de exames? E quem responde quando o doente precisa de explicar novamente toda a sua história?

A tecnologia já existe. Falta fazê-la funcionar como um sistema.

As normas internacionais HL7 FHIR, SNOMED CT e LOINC permitem estruturar e trocar informação clínica com maior consistência.

Um verdadeiro processo longitudinal poderia integrar diagnósticos, exames, resultados microbiológicos, terapêuticas, alergias, intervenções e evolução temporal. Poderia também disponibilizar mecanismos de apoio à decisão clínica, incluindo sistemas de inteligência artificial capazes de identificar padrões, alertar para interações medicamentosas e assinalar alterações relevantes.

Sempre com supervisão médica, proteção de dados, auditoria dos acessos e responsabilidade clínica claramente definida. Não seria necessário construir uma gigantesca base de dados central com toda a informação sensível dos portugueses. Uma arquitetura federada, interoperável e bem governada poderia permitir o acesso autorizado à informação existente nas diferentes instituições.

A dificuldade não reside apenas na programação. Reside na governação, na normalização semântica, na qualidade dos registos, na integração entre prestadores e na capacidade de responsabilizar as instituições pelos resultados.

A Europa avança. Portugal não pode continuar a confundir projetos com resultados.

O Espaço Europeu de Dados de Saúde estabelece um novo enquadramento para a utilização e partilha de informação clínica. Portugal criou, em 2025, um grupo de trabalho para acompanhar o desenvolvimento do Registo de Saúde Eletrónico Único. São iniciativas relevantes.

Mas um grupo de trabalho não é um processo clínico integrado. Um despacho não é interoperabilidade. Uma apresentação institucional não é continuidade assistencial. E uma plataforma inaugurada não é, por si só, um problema resolvido.

A verdadeira transformação digital só acontece quando os profissionais conseguem utilizar a informação necessária, no momento certo, com segurança e sem obrigar o cidadão a reconstruir a sua história.

A modernização que falta

Portugal não precisa de mais uma revolução anunciada em conferência de imprensa. Precisa de uma arquitetura nacional de informação clínica que funcione.

Precisa de garantir que o historial acompanha o cidadão entre hospitais, centros de saúde e prestadores privados, dentro dos limites legais e com proteção efetiva da privacidade. Precisa de sistemas capazes de transformar dados dispersos em informação clinicamente relevante.

E precisa, sobretudo, de reconhecer que o verdadeiro indicador de sucesso não é o número de aplicações instaladas, mas a melhoria dos cuidados prestados. Porque a saúde digital não deveria existir para servir os sistemas informáticos. Os sistemas informáticos deveriam existir para servir a saúde.

E enquanto um cidadão continuar a ser obrigado a contar quarenta anos de doença numa consulta de cinco minutos, haverá uma distância considerável entre a modernização anunciada e a modernização vivida.

Portugal digitalizou a burocracia, mas ainda não conseguiu integrar plenamente o conhecimento. E talvez seja essa uma das formas mais sofisticadas de subdesenvolvimento: possuir os instrumentos do futuro e continuar a organizar os serviços segundo os hábitos do passado.

Fragmentos do Caos — onde a notícia e a crónica se submetem aos factos, mas não se submetem ao conformismo.

Referências e documentação

  1. Instituto Português da Qualidade — Recomendação sobre Registo de Saúde Eletrónico (2024)
  2. Comissão Europeia — Portugal 2025 Digital Decade Country Report
  3. Comissão Europeia — Country Report Portugal 2026
  4. Observatório Europeu / OCDE — Perfil de Saúde de Portugal 2025
  5. OMS Europa — Exploring the Digital Health Landscape (2024)
  6. OCDE — Health at a Glance 2025: Data and Digital
  7. Diário da República — Despacho n.º 3030/2025
  8. Comissão Europeia — European Health Data Space

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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