Crónicas,  Política e Sociedade

Portugal Cavou um Buraco Bem Fundo

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Portugal Cavou um Buraco Bem Fundo

A imprensa, o poder e a democracia decorada junto ao abismo

Nota de abertura:
Portugal não caiu no buraco por acidente. Escavou-o com método, inaugurou-o com discursos
e contratou comentadores para explicar que, visto de determinado ângulo, aquilo até parecia
uma obra de engenharia democrática.

DADOS ESSENCIAIS

  • Portugal ocupa o 10.º lugar entre 180 países no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, da Repórteres Sem Fronteiras.
  • O indicador económico português da RSF ocupa apenas o 26.º lugar, revelando uma fragilidade bastante superior à posição global do país.
  • O Media Pluralism Monitor 2025 atribui a Portugal um risco global de 49% e um risco de 60% na pluralidade de mercado.
  • O Reuters Institute descreve em 2026 um mercado dominado por quatro grandes grupos comerciais, além da RTP, e sujeito a transformações estruturais e maior concentração.

Portugal cavou um buraco.

Não foi um buraco pequeno, desses que aparecem numa estrada municipal e ficam seis meses
rodeados por duas grades, uma fita vermelha e branca e uma placa a dizer “obra em curso”.
Foi um buraco nacional, profundo, paciente e cuidadosamente escavado ao longo de décadas.

Primeiro cavou-se com a pá da mediocridade.

Depois com a enxada do conformismo.

Mais tarde chegaram as máquinas pesadas: a dependência económica, o compadrio, a captura
das instituições, a promiscuidade entre política, negócios e comunicação social.

E, quando finalmente o país já estava lá em baixo, alguém colocou uma tribuna junto à borda
para anunciar:

“Portugal está no bom caminho.”

A imprensa aplaudiu.

Não toda, naturalmente. Ainda existem jornalistas dignos, incómodos, competentes e teimosos,
criaturas cada vez mais raras num ecossistema onde fazer perguntas difíceis pode ser
prejudicial à carreira, ao salário e ao convite para o próximo almoço institucional.

Mas uma parte importante da comunicação social portuguesa deixou há muito de vigiar o poder.
Prefere frequentá-lo.

Em vez de manter distância, aproxima-se.

Em vez de investigar, comenta.

Em vez de confrontar, contextualiza.

Em vez de perguntar quem beneficiou, explica que o assunto é complexo.

E quando alguém é apanhado numa contradição, num conflito de interesses ou numa pequena
catástrofe ética, aparece imediatamente um especialista em serenidade democrática para
informar o público de que não se devem tirar conclusões precipitadas.

Em Portugal, as conclusões são sempre precipitadas.

Os negócios, curiosamente, nunca são.

A democracia de estúdio

Criou-se assim uma democracia de estúdio, com iluminação adequada, maquilhagem institucional
e intervalos para publicidade.

Os protagonistas mudam, mas o argumento mantém-se. Um governante garante que desconhecia.
Outro assegura que foi mal interpretado. Um terceiro promete um inquérito. Um quarto cria
uma comissão. O quinto demite-se por “razões pessoais”, geralmente depois de as razões
públicas se terem tornado difíceis de esconder.

A seguir entra o comentador residente, esse sacerdote moderno do regime, e explica durante
quarenta minutos aquilo que poderia ser resumido numa frase:

“Ninguém será verdadeiramente responsabilizado.”

Mas a frase seria demasiado clara.

E clareza, num país habituado à neblina administrativa, pode causar perturbações graves.

A relação entre imprensa e poder tornou-se semelhante a certos casamentos antigos: já não
há amor, talvez nunca tenha havido, mas existem propriedades comuns, interesses partilhados,
amigos influentes e um profundo receio do divórcio.

O poder precisa da imprensa para parecer respeitável.

A imprensa precisa do poder para ter acesso, declarações, publicidade, fugas de informação
e convites para circular nos corredores onde se decide aquilo que o público só descobrirá
depois de decidido.

É um casamento de conveniência.

O problema é que a conta da boda foi enviada ao cidadão.

O cidadão paga impostos, paga assinaturas, paga canais, paga resgates, paga consultorias,
paga indemnizações, paga estudos, paga observatórios, paga comissões e, em certos dias
particularmente patrióticos, paga até para lhe explicarem por que motivo deve continuar a pagar.

Em troca, recebe informação cuidadosamente embalada, politicamente desinfectada e servida
em pequenas doses, para evitar excessos de consciência cívica.

A notícia que não chega ao fim

A notícia transformou-se muitas vezes em espectáculo.

O escândalo dura dois dias.

A indignação dura três.

A investigação dura até surgir outro assunto com maior capacidade de gerar cliques.

Depois tudo desaparece no arquivo digital, essa enorme vala comum da memória nacional.

Portugal tornou-se um país onde quase tudo é noticiado e quase nada é verdadeiramente acompanhado.

Sabe-se que aconteceu.

Não se sabe como terminou.

Sabe-se que alguém prometeu investigar.

Não se sabe o que foi apurado.

Sabe-se que houve responsabilidades políticas.

Não se conhece nenhum responsável.

É uma espécie de justiça narrativa: os acontecimentos têm princípio, alguma tensão dramática
e raramente têm desfecho.

A imprensa que deveria ligar os factos perde-se no calendário dos episódios.

O poder agradece.

A democracia enfraquece.

E o povo, já habituado, encolhe os ombros.

A captura elegante

É aqui que o buraco se torna realmente fundo.

Porque a captura de uma democracia não acontece apenas quando se fecham jornais ou se prendem
jornalistas. Isso seria grosseiro, desagradável e péssimo para a imagem internacional.

Nas democracias modernas, a captura é mais elegante.

Mantêm-se os jornais abertos, mas financeiramente frágeis.

Mantêm-se os jornalistas livres, mas profissionalmente precários.

Mantém-se o pluralismo, desde que todos debatam dentro de limites aceitáveis.

Mantém-se a crítica, desde que não toque nos alicerces do edifício.

Permite-se até alguma indignação, porque a indignação periódica funciona como válvula de
segurança. O cidadão protesta, comenta, partilha uma frase furiosa e regressa ao trabalho
na manhã seguinte.

O sistema continua.

É uma liberdade com regulador de intensidade.

Uma democracia em modo económico.

Um jornalismo que ladra, mas conhece perfeitamente o comprimento da corrente.

O país instala-se no fundo

Entretanto, o país habitua-se ao buraco.

Instalam-se escadas.

Coloca-se iluminação.

Abre-se um café.

Cria-se uma entidade pública para estudar a profundidade.

Contrata-se uma consultora internacional para concluir que o buraco apresenta
“desafios estruturais, mas também oportunidades”.

Um ministro visita o local e declara que nunca estivemos tão perto da superfície.

A oposição acusa o Governo de ter cavado mal, embora tenha utilizado as mesmas pás
quando esteve no poder.

A televisão transmite tudo em directo.

Um comentador elogia a maturidade das instituições.

E o povo, lá no fundo, tenta perceber por que razão continua sem ver a luz.

A verdade é simples e pouco televisiva: Portugal cavou fundo porque trocou exigência
por resignação.

Aceitou demasiadas vezes a incompetência como fatalidade, o favorecimento como tradição
e a impunidade como característica cultural.

Habituou-se a ouvir que “é assim em todo o lado”, a frase preferida de quem deseja
que nada mude em lado nenhum.

Perdoou repetidamente aquilo que deveria ter punido politicamente.

Confundiu estabilidade com imobilismo.

Confundiu moderação com silêncio.

Confundiu experiência política com permanência profissional nos corredores do Estado.

E confundiu imprensa livre com abundância de canais.

Uma democracia não se mede pelo número de microfones. Mede-se pelas perguntas
que esses microfones têm coragem de fazer.

Não se mede pela quantidade de debates.

Mede-se pelos assuntos que não são retirados da agenda antes de serem esclarecidos.

Não se mede pela existência formal de eleições.

Mede-se pela qualidade da informação com que os cidadãos escolhem.

Sem imprensa independente, o voto continua livre apenas no gesto. A decisão que o antecede
passa a ser construída num ambiente de versões incompletas, narrativas seleccionadas
e silêncios convenientes.

Uma democracia assim não desaparece de repente.

Vai perdendo substância.

Mantém a bandeira, o hino, o parlamento e as cerimónias.

Por dentro, torna-se oca.

Um cenário impecável montado sobre um buraco.

Subir ou decorar o abismo

Ainda é possível sair dele.

Mas não com mais discursos sobre confiança nas instituições. A confiança não se decreta.
Conquista-se.

É preciso transparência real, responsabilização efectiva, protecção do jornalismo de
investigação, diversidade na propriedade dos meios e menos dependência entre comunicação
social, poder político e grandes interesses económicos.

É preciso que os jornalistas possam incomodar sem recear desaparecer.

É preciso que os cidadãos deixem de premiar quem os trata como figurantes.

E é preciso recuperar uma ideia antiga, hoje considerada quase revolucionária:
o poder público existe para servir o povo, não para se servir dele.

Portugal cavou um buraco bem fundo.

Agora tem duas opções.

Pode continuar a decorá-lo, chamando-lhe estabilidade, consenso e maturidade democrática.

Ou pode começar finalmente a subir.

A subida será difícil.

Mas permanecer no fundo, a assistir à novela enquanto nos apresentam a factura,
já deixou há muito de ser prudência.

É apenas resignação com boa iluminação.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e sátira política. Não pretende acusar globalmente
jornalistas, órgãos de comunicação social, empresas ou responsáveis públicos de corrupção
ou de qualquer actuação ilícita.

A crítica dirige-se a riscos estruturais reconhecidos por estudos nacionais e internacionais:
concentração da propriedade, fragilidade financeira, precariedade laboral, dependência
de receitas institucionais, conteúdos patrocinados, opacidade e proximidade excessiva
entre os média e os centros de poder.

Existem em Portugal muitos jornalistas independentes, rigorosos e corajosos, cujo trabalho
constitui uma defesa essencial da democracia. É precisamente em nome desse jornalismo
que importa denunciar as condições que o enfraquecem.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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