A geração mais informada da História e a pobreza da conversa
A geração mais informada da História e a pobreza da conversa
Nunca tivemos tanto conhecimento ao alcance da mão. Talvez nunca tenha sido tão fácil passar por ele sem o tocar.
Nota de abertura:
O problema não é gostar de futebol, de música, de cinema ou de qualquer outra forma de entretenimento. O problema começa quando uma sociedade com acesso quase ilimitado ao conhecimento transforma o entretenimento no limite habitual da sua curiosidade e confunde formação académica com vida intelectual.
Há qualquer coisa de profundamente paradoxal no início do século XXI.
Nunca uma geração teve acesso a tanta informação. Nunca foi tão fácil assistir a uma aula de física de uma universidade estrangeira, consultar gratuitamente artigos científicos, aprender programação, estudar filosofia, ouvir especialistas em neurociência, acompanhar missões espaciais, explorar arquivos históricos ou conversar com sistemas de inteligência artificial capazes de explicar em segundos aquilo que antes exigia horas numa biblioteca.
E, no entanto, basta entrar em muitos cafés, restaurantes, universidades ou grupos de jovens adultos para descobrir que uma das conversas dominantes continua a girar, interminavelmente, em torno do futebol.
Quem marcou. Quem falhou. Quem devia ter sido titular. Quem o treinador devia ter substituído. Se foi penálti. Se não foi penálti. Se o árbitro roubou o clube.
Uma civilização capaz de fotografar buracos negros continua fascinada pela dúvida metafísica sobre se uma bola atravessou completamente uma linha branca.
Não há absolutamente nada de errado em gostar de futebol. O problema começa quando o entretenimento deixa de ser uma parte da vida e passa a ocupar quase todo o território da curiosidade.
O diploma não garante curiosidade
Durante muito tempo existiu uma certa associação cultural entre formação académica e desenvolvimento intelectual.
Essa relação tornou-se bastante mais frágil.
Uma universidade pode formar um excelente engenheiro, médico, economista ou informático sem necessariamente produzir uma pessoa intelectualmente curiosa.
O diploma certifica competências. Não certifica inquietação intelectual.
Uma pessoa pode dominar profundamente uma área profissional e, fora dela, possuir pouco interesse pelo mundo.
Pode conhecer linguagens de programação e nunca ter pensado seriamente sobre inteligência artificial. Pode estudar economia e nunca discutir desigualdade, produtividade ou modelos de desenvolvimento. Pode formar-se em engenharia e nunca se perguntar como funcionará uma sociedade quando máquinas inteligentes automatizarem grande parte do trabalho.
Pode frequentar uma universidade durante cinco anos e sair dela praticamente com a mesma curiosidade intelectual com que entrou.
O conhecimento técnico aumentou. A curiosidade não necessariamente.
O estranho triunfo do trivial
Talvez este seja um dos paradoxos culturais do nosso tempo.
Temos acesso ao maior sistema de conhecimento alguma vez criado pela humanidade e utilizamos uma parte considerável dele para consumir entretenimento.
Os smartphones que transportamos no bolso possuem capacidade computacional que teria parecido absurda há poucas décadas. Podem aceder a praticamente toda a história da ciência humana.
Mas grande parte dessa extraordinária infra-estrutura tecnológica é utilizada para vídeos de alguns segundos, polémicas de celebridades, disputas clubísticas e intermináveis ciclos de indignação.
Nunca tivemos tantas ferramentas para pensar. Nunca tivemos tantas ferramentas para evitar pensar.
O problema não é tecnológico.
É cultural.
A atenção tornou-se território económico
A fragmentação da atenção não é apenas uma impressão de quem acha que o mundo ficou demasiado barulhento. Existe investigação que sugere mudanças mensuráveis na velocidade com que os assuntos entram e saem da atenção colectiva, ao mesmo tempo que estudos experimentais e dados educacionais mostram custos associados à distracção digital.
Um estudo publicado na Nature Communications, analisando vários domínios culturais e informativos, encontrou sinais de ciclos cada vez mais rápidos de atenção colectiva. A quantidade de informação cresce, a competição por atenção intensifica-se e cada assunto dispõe de menos tempo antes de ser substituído pelo seguinte.
Na educação, os dados do PISA 2022 ajudam a concretizar o problema. Em média na OCDE, cerca de 30% dos alunos disseram distrair-se com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de matemática, e cerca de 25% disseram ser distraídos pelos dispositivos dos colegas. A associação com o desempenho não é trivial: os alunos que relatavam distracção frequente obtinham, em média, menos 15 pontos em matemática, mesmo depois de considerados factores socioeconómicos.
DADOS ESSENCIAIS
- OCDE, PISA 2022: cerca de 30% dos alunos disseram distrair-se com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de matemática.
- OCDE, PISA 2022: cerca de 25% relataram distracção provocada pelos dispositivos de outros alunos.
- UNESCO, GEM 2023: a evidência sobre o valor acrescentado da tecnologia educativa continua desigual, e o uso de telemóveis e outros dispositivos pode prejudicar a concentração quando não existe uma finalidade pedagógica clara.
- Ward et al., 2017: em dois estudos experimentais, a simples presença do smartphone pessoal esteve associada a menor capacidade cognitiva disponível, sobretudo entre participantes mais dependentes do aparelho.
A tecnologia não é, portanto, a vilã conveniente desta história. Pode ampliar brutalmente a aprendizagem, a criatividade e o acesso ao conhecimento. Mas também pode transformar cada minuto livre num leilão de atenção. E há empresas inteiras cujo modelo económico depende de vencer esse leilão.
A conversa como mínimo denominador comum
Há também um fenómeno social interessante.
As pessoas não conversam necessariamente sobre aquilo que mais lhes interessa. Conversam frequentemente sobre aquilo que acreditam ser mais seguro para o grupo.
Futebol funciona extraordinariamente bem nesse papel.
É simples. É emocional. Tem vencedores e derrotados. Não exige conhecimentos particularmente especializados. Permite opiniões fortes sem grandes consequências.
E, sobretudo, evita aquele momento socialmente desconfortável em que alguém pode dizer: «Não sei.»
Conversar sobre consciência, cosmologia, inteligência artificial, história, filosofia ou política científica exige uma coisa bastante mais difícil: expor a própria ignorância.
Para aprender alguma coisa é necessário admitir primeiro que não sabemos.
E essa humildade intelectual parece estar em dificuldades numa cultura que recompensa constantemente afirmações rápidas, certezas instantâneas e opiniões emitidas antes da reflexão.
Uma sociedade de especialistas estreitos
Existe ainda outro risco.
A sociedade moderna necessita de especialistas. Isso é inevitável. O conhecimento tornou-se demasiado vasto para qualquer indivíduo dominar mais do que pequenas parcelas.
Mas uma civilização composta exclusivamente por especialistas extremamente competentes e culturalmente estreitos pode tornar-se perigosa.
Um engenheiro precisa compreender minimamente ética. Um economista precisa compreender tecnologia. Um médico precisa compreender sociedade. Um programador precisa compreender comportamento humano. Um político precisa compreender ciência.
Idealmente.
Aqui a humanidade já começa a abusar da imaginação.
A especialização sem cultura geral cria pessoas tecnicamente sofisticadas mas intelectualmente compartimentadas.
Sabem muito sobre muito pouco.
E frequentemente quase nada sobre tudo o resto.
A universidade deixou de ensinar a perguntar?
Talvez uma das perguntas mais desconfortáveis seja esta.
O objectivo da universidade deveria ser apenas preparar pessoas para o mercado de trabalho?
Ou deveria também formar cidadãos intelectualmente independentes?
Durante séculos, a ideia de educação superior esteve associada a algo maior do que empregabilidade.
Educação significava adquirir ferramentas para compreender o mundo. Questionar. Argumentar. Duvidar. Investigar.
Hoje, demasiadas vezes, o percurso académico transforma-se numa espécie de pipeline:
curso → diploma → emprego → salário
O conhecimento passa a ser tratado como investimento económico.
Estuda-se aquilo que pode produzir retorno. Aprende-se aquilo que aparece no exame. Memoriza-se aquilo que permite obter classificação. Depois esquece-se rapidamente o resto.
A curiosidade, aquela força estranha que levou seres humanos a olhar para o céu e perguntar o que eram as estrelas, não aparece no plano curricular.
É revelador que organismos como a OCDE coloquem hoje, explicitamente, pensamento crítico, criatividade, curiosidade, auto-regulação e capacidade de aprender entre as competências relevantes para o futuro. Ou seja, até as instituições que passam a vida a produzir métricas perceberam que educar não pode significar apenas treinar alguém para executar uma função.
A UNESCO foi ainda mais longe na sua reflexão recente sobre o ensino superior: universidades não são apenas fábricas de credenciais, mas lugares onde ideias são desenvolvidas, valores são debatidos e novas possibilidades são imaginadas.
O desaparecimento da conversa profunda
Há outro fenómeno menos visível.
Estamos progressivamente a perder espaço para conversas longas.
Conversas sem objectivo imediato.
Discussões que começam numa pergunta e terminam duas horas depois noutra pergunta ainda melhor.
Essas conversas foram durante séculos importantes motores culturais. Cafés, universidades, tertúlias, clubes científicos, sociedades filosóficas e encontros informais funcionaram como laboratórios de ideias.
Muitas grandes descobertas nasceram não apenas em laboratórios, mas em conversas.
Hoje vivemos numa economia da atenção desenhada para interromper constantemente esse processo.
Notificação. Mensagem. Vídeo. Scroll. Outra notificação.
A concentração tornou-se um recurso disputado por milhares de sistemas digitais.
E pensar profundamente exige precisamente aquilo que essas plataformas fragmentam: tempo contínuo.
Uma geração com possibilidades extraordinárias
Seria injusto concluir que os jovens de hoje são intelectualmente inferiores às gerações anteriores.
Não são.
Provavelmente possuem até maior exposição ao conhecimento.
Existem jovens extraordinariamente curiosos, capazes de aprender autonomamente matemática, programação, biologia, astronomia ou filosofia utilizando recursos que simplesmente não existiam há algumas décadas.
O problema não é capacidade.
É ambiente.
Vivemos num ecossistema cultural onde o trivial possui uma enorme vantagem competitiva.
É mais fácil consumir do que compreender. É mais fácil reagir do que reflectir. É mais fácil pertencer do que questionar.
E o cérebro humano, criatura económica que sempre procura poupar energia, coopera alegremente com essa tendência.
Curiosidade como acto de resistência
Talvez por isso a curiosidade se tenha tornado uma espécie de resistência intelectual.
Perguntar sobre o Universo.
Perguntar como funciona a consciência.
Perguntar como a inteligência artificial poderá transformar a economia.
Perguntar porque certas sociedades prosperam e outras estagnam.
Perguntar como surgiram as civilizações.
Perguntar o que significa ser humano.
Nenhuma dessas perguntas fornece recompensas imediatas.
Mas são precisamente essas perguntas que fizeram avançar a humanidade.
O progresso nasceu quase sempre de alguém suficientemente incómodo para perguntar: «Porquê?»
E depois cometer o erro social ainda mais grave: «Temos a certeza?»
O problema não é falar de futebol
Talvez seja importante terminar onde começámos.
O problema não é o futebol.
O futebol pode ser belo, estratégico, culturalmente interessante e até intelectualmente fascinante.
O problema é quando uma sociedade transforma entretenimento no seu principal espaço de conversa.
Quando jovens que passaram décadas em educação formal chegam à idade adulta sem grande curiosidade sobre ciência, tecnologia, história, arte, filosofia ou futuro, alguma coisa falhou.
Talvez tenha falhado a escola.
Talvez tenha falhado a universidade.
Talvez tenha falhado a cultura.
Talvez tenhamos todos permitido que a economia da atenção transformasse cidadãos em consumidores permanentes de distracção.
Mas existe uma possibilidade muito mais inquietante.
Talvez tenhamos construído a maior biblioteca da história humana e descoberto que possuir acesso ao conhecimento nunca foi o verdadeiro problema.
O problema sempre foi outro:
Ter vontade de abrir o livro.
E talvez essa seja uma das grandes batalhas culturais do século XXI.
Não entre esquerda e direita.
Não entre gerações.
Não entre tecnologia e humanidade.
Mas entre duas formas de utilizar a mente:
consumir o mundo
ou
tentar compreendê-lo.
Nota Editorial
Esta crónica é uma reflexão crítica sobre cultura, educação e atenção. Não pretende medir a inteligência de uma geração, nem concluir que um diploma universitário deva determinar os temas de conversa de quem o possui.
A tese é outra: numa sociedade que tornou o conhecimento extraordinariamente acessível, a ausência de curiosidade continua a ser um limite decisivo. A formação técnica pode produzir competência profissional sem produzir, automaticamente, cultura geral, pensamento crítico ou vontade de explorar ideias fora da especialidade.
A investigação citada sustenta sobretudo a parte estrutural do argumento: a atenção é limitada, a distracção digital tem custos mensuráveis, os ciclos de atenção colectiva parecem acelerar e as organizações internacionais de educação reconhecem explicitamente a importância da curiosidade, do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da capacidade de aprender ao longo da vida.
Referências credíveis
- OECD — PISA 2022 Results, Volume II: Limiting distractions caused by digital devices in class
- UNESCO — Global Education Monitoring Report 2023: Technology in education
- Nature Communications — Lorenz-Spreen et al. (2019), “Accelerating dynamics of collective attention”
- Journal of the Association for Consumer Research — Ward et al. (2017), “Brain Drain: The Mere Presence of One’s Own Smartphone Reduces Available Cognitive Capacity”
- OECD — Learning Compass 2030
- UNESCO — Transforming higher education: Global collaboration on visioning and action (2026)
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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