A Cidadania que Ficou pelo Caminho
A Cidadania que Ficou pelo Caminho
Protegemos os jovens de quase todas as dificuldades e depois pedimos-lhes que sejam cidadãos num mundo que não promete protecção, estabilidade nem respostas simples.
Nota de abertura:
Esta crónica não é uma acusação contra uma geração. É uma pergunta dirigida à geração que a educou: o que acontece quando ensinamos extensamente os direitos da liberdade, mas deixamos a responsabilidade, a autonomia, o dever cívico e a experiência das consequências fora do currículo real da vida?
Durante décadas, convencemo-nos de que estávamos a construir uma sociedade mais livre, mais aberta, mais humana e mais capaz de proteger os seus jovens.
Em muitos aspectos, conseguimos.
Mas talvez tenhamos confundido protecção com preparação.
Criámos crianças cercadas de cuidados, adolescentes poupados a dificuldades e jovens adultos cuja relação com a adversidade é, por vezes, quase teórica. Levamo-los à escola até idades em que outras gerações já atravessavam cidades sozinhas. Resolvemos-lhes problemas antes de eles próprios perceberem que existiam. Telefonamos aos professores. Tratamos das matrículas. Intervimos nas avaliações. Justificamos os erros.
E depois, subitamente, aos dezoito anos, declaramos:
És adulto. Boa sorte.
Há qualquer coisa de extraordinariamente contraditório nisto.
Passamos quase duas décadas a retirar obstáculos do caminho de uma pessoa e esperamos que, por efeito administrativo da maioridade, ela adquira autonomia, discernimento, responsabilidade e resistência à frustração.
A maturidade, infelizmente, ainda não vem instalada com o Cartão de Cidadão.
A liberdade sem a outra metade
Talvez o maior equívoco esteja na forma como começámos a falar de liberdade.
Ensinamos, justamente, que cada pessoa possui direitos.
Direito à expressão.
Direito à escolha.
Direito à diferença.
Direito à educação.
Direito à dignidade.
Direito a construir a própria vida.
Tudo isto representa conquistas civilizacionais extraordinárias.
Mas esquecemos frequentemente de explicar a segunda metade da frase.
Porque toda a liberdade transporta consigo responsabilidade.
Tenho liberdade para escolher.
Mas sou responsável pelas consequências da escolha.
Tenho liberdade para falar.
Mas sou responsável pelas palavras que utilizo.
Tenho liberdade para participar numa democracia.
Mas tenho igualmente a responsabilidade de me informar antes de decidir.
Tenho direitos perante a sociedade.
Mas a sociedade possui também expectativas legítimas sobre mim.
Quando apenas ensinamos direitos, produzimos consumidores da democracia. Quando ensinamos também deveres, formamos cidadãos.
E essa diferença é gigantesca.
A cidadania tornou-se uma disciplina invisível
Perguntemos a um jovem o que significa cidadania.
Provavelmente falará de eleições, ambiente, igualdade, liberdade ou direitos humanos.
Tudo importante.
Mas cidadania também é chegar a horas.
Cumprir uma promessa.
Respeitar o espaço público.
Não deixar lixo no chão.
Ajudar alguém que caiu.
Conhecer minimamente as instituições do país.
Pagar impostos.
Respeitar quem pensa de maneira diferente.
Aceitar uma derrota democrática.
Não considerar um adversário político um inimigo pessoal.
Participar na comunidade.
Perceber que viver em sociedade implica aceitar limitações individuais em benefício colectivo.
Isto também é cidadania.
Só que dificilmente aparece nos discursos.
Talvez porque os deveres tenham péssimo marketing.
Os direitos cabem maravilhosamente num cartaz.
A responsabilidade exige trabalho.
Uma geração sem rito de passagem
Outras sociedades tinham mecanismos, alguns bons e outros discutíveis, que marcavam a entrada na idade adulta.
O serviço militar foi um deles.
Não precisamos necessariamente de recuperar quartéis, formaturas matinais e sargentos particularmente criativos na arte de explicar a pontualidade.
Mas talvez tenhamos perdido algo quando eliminámos qualquer experiência colectiva obrigatória entre a adolescência e a vida adulta.
Imagino, por exemplo, um verdadeiro serviço cívico nacional.
Seis meses.
Talvez um ano.
Protecção civil.
Hospitais.
Apoio a idosos.
Florestas.
Bombeiros.
Conservação ambiental.
Assistência social.
Património.
Projectos científicos.
Emergência e catástrofe.
Cada jovem oferecendo algum tempo ao país que lhe oferece educação, saúde, segurança e direitos.
Não como punição.
Como formação.
Um jovem de Lisboa trabalhando com outro de Bragança.
O filho de um empresário lado a lado com o filho de um operário.
O universitário juntamente com o jovem que escolheu uma profissão técnica.
Durante alguns meses seriam apenas cidadãos.
Talvez descobrissem então uma coisa que nenhuma rede social consegue ensinar:
uma sociedade é composta por pessoas reais.
O desaparecimento da dificuldade
Também transformámos a dificuldade numa espécie de falha do sistema.
Se um aluno sente frustração, alguma coisa está errada.
Se uma disciplina é difícil, talvez seja demasiado exigente.
Se um resultado é mau, procura-se imediatamente a circunstância atenuante.
Mas a dificuldade possui uma função educativa extraordinária.
É nela que descobrimos paciência.
Persistência.
Humildade.
Capacidade de tentar novamente.
É quando falhamos que percebemos os nossos limites.
E é quando superamos alguma coisa difícil que construímos confiança verdadeira.
Não aquela confiança artificial feita de elogios.
A confiança que nasce da memória:
“Já passei por coisas difíceis antes. Portanto talvez consiga passar por esta também.”
Uma sociedade que tenta eliminar toda a frustração das crianças pode acabar por produzir adultos profundamente vulneráveis à primeira grande adversidade.
E o problema é que o mundo não assinou qualquer compromisso de ser gentil.
O futuro não parece especialmente tranquilo
Este ponto torna tudo mais preocupante.
Estamos a preparar jovens para um mundo que provavelmente será mais turbulento do que aquele em que cresceram.
A inteligência artificial mudará profissões inteiras.
A automação eliminará algumas funções e criará outras.
As alterações climáticas provocarão deslocações económicas e humanas.
A Europa envelhece rapidamente.
Os sistemas de segurança social enfrentarão pressões enormes.
A competição internacional intensifica-se.
A guerra regressou ao continente europeu.
A energia voltou a ser uma questão estratégica.
A cibersegurança tornou-se parte da defesa nacional.
E ninguém sabe exactamente como será o mercado de trabalho daqui a vinte anos.
Talvez este não seja precisamente o momento histórico ideal para formar pessoas incapazes de lidar com contrariedades.
Ler também é cidadania
Existe ainda uma dimensão silenciosa deste problema: a progressiva perda dos hábitos de leitura.
Não me refiro apenas aos clássicos.
Refiro-me à leitura longa.
A capacidade de permanecer quarenta minutos diante de um argumento complexo.
Ler uma investigação.
Compreender posições contraditórias.
Interpretar dados.
Mudar de opinião.
Uma democracia depende dessa capacidade.
Porque um cidadão incapaz de acompanhar um argumento longo torna-se presa fácil do slogan.
E o slogan é provavelmente a forma mais barata de manipulação política alguma vez inventada.
Cinco palavras.
Uma fotografia.
Alguma indignação.
Publicar.
Repetir.
Partilhar.
E eis formada uma opinião.
Pensar dá muito mais trabalho.
Talvez por isso esteja temporariamente fora de moda.
A culpa não é dos jovens
Seria fácil transformar tudo isto numa acusação geracional.
Seria também intelectualmente preguiçoso.
Os jovens são produto do mundo que nós, adultos, construímos.
Fomos nós que criámos a hiperprotecção.
Fomos nós que substituímos algumas exigências por facilidades.
Fomos nós que inventámos plataformas desenhadas para capturar atenção segundo após segundo.
Fomos nós que confundimos autoestima com ausência de crítica.
Fomos nós que decidimos que quase qualquer frustração deveria ser evitada.
Agora contemplamos o resultado e perguntamos:
“Que se passa com esta juventude?”
Passa-se aquilo que seria previsível.
As pessoas adaptam-se ao ambiente que encontram.
E, felizmente, continuam a existir milhares de jovens extraordinariamente responsáveis, trabalhadores, curiosos e solidários.
Por isso não estamos perante uma geração perdida.
Estamos perante uma sociedade que talvez tenha esquecido uma parte essencial da educação.
Ensinar novamente a ser cidadão
Talvez a grande reforma educativa do futuro não esteja apenas nos computadores, na inteligência artificial ou nas novas tecnologias.
Tudo isso será necessário.
Mas haverá algo ainda mais básico.
Ensinar a viver numa comunidade.
Ensinar primeiros socorros.
Literacia financeira.
Instituições democráticas.
Pensamento crítico.
Debate.
Leitura.
Ciência.
História.
Cooperação.
Responsabilidade.
Trabalho comunitário.
Gestão do fracasso.
Capacidade de resolver problemas.
Talvez devêssemos mesmo criar uma disciplina que nunca aparece suficientemente nos currículos:
Vida adulta.
Porque educar não deveria significar apenas preparar alguém para encontrar emprego.
Deveria significar preparar alguém para participar numa civilização.
A democracia também precisa de adultos
Falamos muito sobre a fragilidade das democracias.
Sobre populismo.
Radicalização.
Desinformação.
Extremismos.
Talvez devêssemos acrescentar outro risco:
a infantilização política.
Uma sociedade onde cada indivíduo exige permanentemente satisfação, considera qualquer limitação uma violência e interpreta qualquer discordância como agressão torna-se terreno fértil para quem promete soluções simples.
A democracia, pelo contrário, exige adultos.
Pessoas capazes de ouvir “não”.
De aceitar compromissos.
De perceber que não podem ganhar sempre.
De reconhecer legitimidade ao adversário.
De sacrificar pequenos interesses pessoais pelo interesse colectivo.
A cidadania começa precisamente aí.
Na capacidade de compreender que existe algo para além de nós próprios.
A parte esquecida da liberdade
Talvez devêssemos voltar a ensinar aos jovens uma frase bastante simples:
És livre.
Mas precisamente porque és livre, és responsável.
Responsável pelas tuas escolhas.
Pelas tuas palavras.
Pelo teu trabalho.
Pelos teus erros.
Pelo país que ajudas a construir.
Pela comunidade de que fazes parte.
A liberdade não é uma porta aberta para fazermos tudo aquilo que desejamos.
É algo muito mais exigente.
É receber o direito de escolher o caminho e aceitar que os passos serão nossos.
Talvez seja essa a cidadania que ficou pelo caminho.
Não a cidadania das cerimónias, dos discursos ou dos programas escolares.
Mas aquela cidadania silenciosa que começa quando uma pessoa compreende:
Ninguém existe sozinho.
Somos livres porque vivemos numa comunidade que construiu instituições capazes de proteger essa liberdade.
E essas instituições apenas continuarão a existir enquanto houver cidadãos suficientemente maduros para as defender.
O século XXI vai precisar de tecnologia.
Vai precisar de cientistas.
Engenheiros.
Médicos.
Programadores.
Professores.
Empresários.
Mas acima de tudo vai precisar de pessoas capazes de compreender que uma civilização não se herda eternamente.
Cada geração recebe-a por empréstimo.
E tem a responsabilidade de a entregar à seguinte um pouco melhor do que a encontrou.
BOX DE FACTOS
- O ICCS 2022 envolveu cerca de 82 mil alunos do ensino secundário inferior, em milhares de escolas, e concluiu que o conhecimento cívico não aumentou nos países comparáveis entre 2016 e 2022.
- A OCDE considera que programas de voluntariado juvenil e serviço cívico podem reforçar competências, confiança para participação futura, solidariedade, inclusão social e resiliência.
- O PISA 2022 registou níveis relevantes de distracção por dispositivos digitais em contexto escolar e associa estratégias de auto-regulação, pensamento crítico e aprendizagem proactiva à preparação para aprendizagem ao longo da vida.
- A OCDE, no seu estudo sobre confiança publicado em Junho de 2026, indica que apenas cerca de 31% das pessoas inquiridas acreditam que pessoas como elas têm voz no que o governo faz.
- A investigação sobre hiperparentalidade não autoriza generalizações sobre todos os jovens, mas uma revisão recente da literatura associa o controlo parental excessivo a dificuldades de autonomia e ajustamento psicológico em estudantes universitários.
Nota Editorial
Esta crónica é um ensaio de opinião sobre cidadania, educação, autonomia e responsabilidade. Não pretende afirmar que uma geração inteira é menos capaz do que as anteriores, nem romantizar modelos educativos do passado, muitos deles marcados por autoritarismo, desigualdade e exclusão.
A crítica dirige-se sobretudo aos adultos, às instituições e às escolhas colectivas que moldam o ambiente em que os jovens crescem. A investigação internacional consultada sustenta a importância da educação cívica, da autonomia, da participação democrática, da auto-regulação da aprendizagem e das experiências de serviço ou voluntariado, mas não demonstra uma relação causal simples entre protecção parental, ausência de serviço cívico e fragilidade cívica.
A proposta de um serviço cívico nacional é apresentada como hipótese política e educativa, não como conclusão científica. A própria OCDE documenta uma grande diversidade de programas voluntários e de serviço cívico, com objectivos, desenho e resultados diferentes.
O ponto central é mais simples: uma democracia não se sustenta apenas pelo catálogo dos direitos. Precisa de cidadãos capazes de exercer liberdade com responsabilidade, compreender instituições, aceitar consequências, cooperar com os outros e participar na construção do bem comum.
Referências credíveis e publicações internacionais
- UNESCO — Recommendation on Education for Peace and Human Rights, International Understanding, Cooperation, Fundamental Freedoms, Global Citizenship and Sustainable Development
- OECD — Civic education as a pathway to inclusive societies (2025)
- IEA — ICCS 2022 International Report: Education for Citizenship in Times of Global Change
- Council of Europe — Reference Framework of Competences for Democratic Culture
- OECD — Promoting youth volunteering and civic service engagement (2024)
- OECD — PISA 2022 Results, Volume V: Learning Strategies and Attitudes for Life
- OECD — PISA 2022 Results, Volume I: Digital distraction and learning environment
- OECD — Building trust through education: The common thread (2025)
- OECD — Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results
- PubMed — The Impact of Helicopter Parenting on Emerging Adults in Higher Education: A Scoping Review of Psychological Adjustment in University Students
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News
URL canónica: https://www.fragmentoscaos.eu/2026/08/09/a-cidadania-que-ficou-pelo-caminho/


