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Tragi-Comédia à Beira-Mar Plantada

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BOX DE FACTOS

  • Problemas estruturais repetem-se: burocracia pesada, execução lenta e reformas em cadeia sem avaliação séria.
  • A comunicação política privilegia anúncio; a cidadania exige resultados mensuráveis.
  • A justiça tardia mina confiança pública e amplifica sensação de impunidade.
  • Apesar disso, há uma minoria criativa e resiliente que sustenta inovação e futuro.
  • Sem ruptura de método, o país repete ciclos: promessa, comissão, atraso, esquecimento.

Tragi-Comédia à Beira-Mar Plantado

Um país belíssimo onde o pôr-do-sol é de postal e a governação, por vezes, de ensaio geral permanente.

Dizem que isto é um jardim à beira-mar plantado.
Em certos dias, parece mais um condomínio antigo: fachada bonita, actas desaparecidas, administração vitalícia e elevador sempre “em manutenção”.

Temos talento para transformar potencial em apresentação.
Quando surge um problema, cria-se um grupo de trabalho.
Se o grupo falha, nasce uma comissão.
Se a comissão tropeça, aparece uma plataforma digital com palavra-passe provisória e erro permanente.
E, quando tudo colapsa, abre-se um inquérito para apurar responsabilidades de quem já mudou de gabinete.

A liturgia nacional da resistência

Somos um povo resistente.
Resistimos a filas, a promessas, a reformas das reformas e à reforma já reformada
Resistimos tanto que, por vezes, confundimos sobrevivência com progresso.

O cidadão paga.
O especialista avisa.
O governante anuncia.
O comentador traduz.
O sistema absorve.
E a roda volta ao início com um novo slogan e a mesma ferrugem.

Realismo mágico administrativo

Há dias em que o país parece ficção: hospital sem médicos, escola sem professores, empresa sem produtividade, conferência sobre eficiência marcada para as 11h00 e iniciada às 12h17.
Nada disto é extraordinário. É rotina com nome técnico.

A justiça, essa senhora de olhos vendados, por cá usa GPS com atraso.
Chega quase sempre.
Às vezes, ao sítio errado.
Outras vezes, quando o dano já venceu por prescrição emocional.

A tragédia e a glória

E, no entanto, há uma força teimosa que não cabe no cinismo: gente que estuda, cria, empreende, programa, investiga e constrói sem palco nem escolta.
Essa minoria é o verdadeiro ministério da esperança.

Talvez o drama nacional não seja falta de talento.
É excesso de portas giratórias e escassez de portas abertas.
Não é falta de recursos.
É défice de carácter institucional.
Não é falta de povo.
É sobra de coreografia.

Conclusão

Num país à beira-mar plantado, o naufrágio raramente vem das ondas.
Vem da ponte de comando quando confundem leme com espelho.

Ainda assim, amanhã voltamos.
Porque o país não é só de quem o administra mal.
É também de quem insiste, contra a maré, em imaginá-lo melhor.

Francisco Gonçalves · Co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — Crónica tragi-cómica com nervo cívico e memória longa.
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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