O analfabetismo do século XXI: mais escola, menos literacia?
- O mais recente Inquérito às Competências dos Adultos (Survey of Adult Skills/PIAAC) indica que, em muitos países da OCDE, a literacia e a numeracia dos adultos estagnaram ou diminuíram na última década.
- Em média, na OCDE, cerca de 18% dos adultos não atingem níveis básicos de proficiência em nenhuma das competências avaliadas.
- Em Portugal, os adultos 16-65 anos obtiveram, em média, 235 pontos em literacia e 238 em numeracia, abaixo da média da OCDE.
- Entre os 16-24 anos em Portugal, os resultados também ficam abaixo da média da OCDE nas três áreas medidas.
- Os resultados do PISA 2022 sugerem que as quedas no desempenho em leitura e ciências já se observavam antes da pandemia em vários países.
O analfabetismo do século XXI
E, no entanto, a literacia parece estar a perder densidade.
Como se estivéssemos a aprender a ler mais cedo, mas a desaprender a compreender mais tarde.
O paradoxo que já não cabe nas estatísticas bonitas
Durante décadas, prometeu-se ao cidadão moderno que a expansão da escolaridade seria a grande ponte para a autonomia intelectual e para a responsabilidade cívica.
Em teoria, faz sentido: mais educação deveria significar mais leitura sólida, mais capacidade de argumentar, mais resistência à manipulação.
Mas os dados mais recentes da OCDE sobre competências de adultos introduzem uma inquietação
difícil de ignorar: a literacia e a numeracia não estão a acompanhar, em muitos países, o aumento formal de credenciais.
Há uma erosão silenciosa, transversal a idades e gerações, como se a sociedade estivesse a construir edifícios mais altos sobre fundações progressivamente mais frágeis.
Portugal: a ferida antiga com novas roupas
Portugal, como sabemos, carrega um lastro histórico pesado no campo da literacia.
O que choca agora não é apenas o peso do passado, mas a persistência do desnível em pleno século XXI.
O Inquérito às Competências dos Adultos aponta, em Portugal, médias de 235 pontos em literacia e 238 em numeracia.
Não é um detalhe técnico: é um retrato de vulnerabilidade social.
E essa vulnerabilidade não é abstracta.
Significa maior dificuldade em navegar contratos, compreender legislação simples, interpretar notícias, distinguir prova de propaganda e, no limite, defender-se do oportunismo político e económico.
Uma democracia pode sobreviver a muitas crises.
Mas não sobrevive por muito tempo à corrosão da capacidade de leitura do real.
A escola, o ecrã e a leitura que ficou curta
O problema não é que as pessoas leiam pouco.
É que lêem de forma diferente.
A cultura digital favorece a fragmentação, a urgência, o reflexo.
Ensina-nos a saltar.
Raramente nos ensina a pousar e a refletir.
E quando a escola — pressionada por programas extensos, burocracias internas e uma lógica de avaliação por metas — deixa de ter tempo para a leitura longa, a literacia transforma-se num verniz funcional, suficiente para sobreviver, insuficiente para compreender.
A cidadania como vítima colateral
É aqui que a minha intuição ganha forma cívica:
mais anos de escolaridade não garantem mais cidadania.
A cidadania exige literacia robusta, visão histórica, treino de lógica, e um hábito de pensamento que não cabe em slogans e manipulaçoes por imagens e videos.
Quando esses músculos se enfraquecem, a sociedade torna-se mais vulnerável à demagogia, à polarização fácil, e ao falso conforto de soluções instantâneas.
O mundo actual não precisa de cidadãos com diplomas decorativos.
Precisa de leitores competentes do universo político e humano.
Epílogo: recuperar a leitura como acto de soberania
Talvez o combate central desta década não seja apenas económico.
Seja cultural.
E, mais especificamente, seja um combate pela leitura profunda: a capacidade de sustentar atenção, compreender camadas, e recusar o imediato quando o imediato mente despoduradamente.
Um país que lê mal é um país que se governa pior, porque quem não interpreta o mundo com clareza
torna-se presa fácil do ruído
e servo involuntário do medo.
- OCDE, Adult skills in literacy and numeracy declining or stagnating in most OECD countries, comunicado de 10 Dezembro 2024.
- OCDE, Inquérito às Competências dos Adultos 2023: Portugal, nota de país, 10 Dezembro 2024.
- OCDE, Do adults have the skills they need to thrive in a changing world?, síntese do Survey of Adult Skills 2023.
- OCDE, PISA 2022 Results (Volume I), publicado em 2023, com referência a tendências negativas pré-pandemia em vários países.
com co-autoria editorial de Augustus


