Crónicas,  Democracia Directa,  Sociedade

A Civilização da Desesperança

Spread the love


A Civilização da Desesperança

Construímos máquinas capazes de pensar e sociedades que parecem ter desaprendido a resolver os problemas mais elementares da vida.

Talvez o Ocidente não esteja a morrer.
Talvez esteja apenas cansado.

O que, para uma civilização, pode ser ainda mais perigoso.

Chegámos ao século XXI carregados de promessas. A tecnologia libertar-nos-ia do trabalho repetitivo, a globalização espalharia prosperidade, a democracia consolidar-se-ia, a ciência venceria doenças, a Europa tornar-se-ia um espaço de paz e progresso e os nossos filhos viveriam inevitavelmente melhor do que nós.

Era essa a religião secular do Ocidente: amanhã seria melhor.

Hoje já não temos tanta certeza.

E talvez seja essa dúvida, mais do que qualquer crise económica ou militar, o verdadeiro princípio da decadência.

A estranha sociedade do progresso sem progresso

Nunca possuímos tanta tecnologia.

Temos inteligência artificial, computadores com capacidades que há poucas décadas pertenciam à ficção científica, medicina molecular, robótica, satélites, engenharia genética e acesso instantâneo ao conhecimento acumulado pela humanidade.

E, no entanto, conseguimos produzir uma sociedade onde um jovem altamente qualificado pode trabalhar durante anos sem conseguir comprar uma casa.

Criámos inteligência artificial capaz de escrever programas informáticos, mas construir habitação suficiente tornou-se aparentemente uma ciência demasiado avançada.

Conseguimos colocar telescópios a milhões de quilómetros da Terra, mas uma ligação ferroviária pode levar décadas a decidir.

Somos capazes de sequenciar um genoma em horas, mas um processo judicial pode atravessar uma parte substancial da vida de um cidadão.

Talvez tenhamos confundido progresso tecnológico com progresso civilizacional.

Não são a mesma coisa.

A geração que deixou de acreditar no amanhã

Durante grande parte do pós-guerra europeu existia uma promessa simples.

Trabalhava-se. Comprava-se uma casa. Criava-se uma família. Pouco a pouco melhorava-se de vida.

E havia uma certeza silenciosa: os filhos teriam oportunidades que os pais nunca tiveram.

Essa certeza está a desaparecer.

Hoje encontramos jovens mais escolarizados do que qualquer geração anterior, tecnologicamente sofisticados, capazes de trabalhar para empresas espalhadas pelo planeta — e muitos continuam no quarto da casa dos pais porque a habitação se tornou financeiramente inacessível.

Não lhes falta formação. Não lhes falta vontade.

Falta-lhes aquilo que qualquer civilização saudável deveria conseguir oferecer aos seus jovens: uma expectativa razoável de futuro.

Uma sociedade pode sobreviver à pobreza. É muito mais difícil sobreviver à ausência de esperança.

A energia da impotência

Depois veio a guerra na Ucrânia.

A Europa descobriu subitamente aquilo que a geografia e a física já sabiam: uma civilização industrial precisa de energia abundante, segura e competitiva.

Passaram anos. Diversificaram-se fornecedores, instalaram-se renováveis, construíram-se terminais e reduziram-se dependências.

Mas continuamos extraordinariamente vulneráveis aos choques energéticos internacionais.

Falamos agora de nuclear. Falamos de pequenos reatores modulares. Falamos de novas redes elétricas. Falamos de armazenamento.

Falamos maravilhosamente.

A Europa tornou-se talvez a primeira civilização da História capaz de produzir uma estratégia para praticamente tudo e executar apenas uma parte dela antes de escrever a estratégia seguinte.

Entretanto, famílias pagam energia cara e empresas europeias competem com regiões onde ela custa muito menos.

Depois admiramo-nos com a desindustrialização.

É uma espécie de suicídio económico administrativamente certificado.

A Justiça que chega depois da vida

Também criámos sociedades juridicamente sofisticadas.

Temos direitos. Muitos direitos. Constituições, convenções, recursos, garantias, regulamentos e tribunais. E ainda bem.

Mas um direito que demora dez anos a ser reconhecido aproxima-se perigosamente de um direito que não existe.

Uma Justiça incapaz de decidir em tempo útil deixa lentamente de ser percebida como Justiça.

Para o cidadão comum surge então uma suspeita devastadora: seremos realmente todos iguais perante a lei ou apenas igualmente descritos perante a lei?

Porque quem possui dinheiro pode contratar especialistas, advogados, consultores e peritos durante anos.

Quem não possui dinheiro tem frequentemente apenas razão.

E razão, infelizmente, continua sem aceitar-se como meio de pagamento.

Quando essa diferença se instala na consciência coletiva, o Estado de direito começa a perder o seu bem mais precioso.

Não a autoridade. A legitimidade.

Trabalhar para sobreviver

Também o trabalho mudou.

Durante décadas, trabalhar significava participar na prosperidade crescente da sociedade.

Hoje demasiadas pessoas trabalham apenas para impedir que a vida recue.

Habitação. Energia. Alimentação. Transportes. Saúde. Impostos.

O salário chega e começa imediatamente a despedir-se.

Criámos economias capazes de gerar fortunas gigantescas e, simultaneamente, milhões de cidadãos vivem com a sensação de que qualquer avaria no automóvel, doença inesperada ou aumento da renda pode destruir o equilíbrio financeiro familiar.

Não é pobreza clássica. É uma nova espécie de insegurança.

A precariedade dentro da prosperidade.

E talvez seja ainda mais corrosiva porque o cidadão vê diariamente a riqueza que a sociedade produz e pergunta: Se somos tão ricos, porque vivemos tão inseguros?

É uma pergunta perigosa. Sobretudo quando ninguém responde.

E então chegam os salvadores

É aqui que aparecem os populistas.

Nunca chegam dizendo: — Vim destruir a democracia.

Isso seria pouco comercial.

Chegam dizendo: — Vim devolver-vos o país.

Apontam para tribunais lentos. Para políticos desacreditados. Para burocracias incompreensíveis. Para preços impossíveis. Para jovens sem casa. Para trabalhadores frustrados.

E dizem: «Eles falharam. Eu resolvo.»

Depois começam os detalhes.

Os jornalistas tornam-se inimigos. As notícias incómodas tornam-se falsas. Os juízes tornam-se conspiradores. Os especialistas tornam-se elites. A oposição torna-se antipatriótica. Os parlamentos tornam-se obstáculos.

E os autocratas estrangeiros começam curiosamente a parecer homens muito interessantes. Fortes. Decididos. Pragmáticos. Homens que não perdem tempo com aquelas coisas aborrecidas chamadas contrapoderes.

A democracia começa então a morrer não porque os cidadãos tenham subitamente ficado apaixonados pela ditadura.

Morre porque ficaram desesperados com a democracia.

O presente sem futuro

Talvez seja essa a verdadeira doença do Ocidente.

Não falta dinheiro. Não falta conhecimento. Não falta tecnologia. Não faltam universidades. Não faltam especialistas. Não faltam leis.

Falta cada vez mais uma coisa muito mais simples: capacidade de transformar tudo isso numa vida melhor.

Construímos instituições extraordinariamente complexas para impedir decisões erradas. E acabámos, demasiadas vezes, por criar instituições incapazes de tomar decisões.

Construímos mecanismos destinados a proteger direitos. E descobrimos cidadãos que sentem que os seus direitos nunca chegam.

Criámos mercados para produzir prosperidade. E encontramos jovens que desistiram de comprar casa.

Construímos a União Europeia para tornar a Europa poderosa. E frequentemente conseguimos produzir vinte e sete opiniões sobre a razão pela qual não podemos fazer determinada coisa.

Talvez o Ocidente não esteja perante uma crise económica.

Talvez esteja perante algo bastante maior.

Uma crise de eficácia civilizacional.

A civilização cansada

As civilizações raramente desaparecem numa explosão.

Primeiro deixam de acreditar em si próprias. Depois deixam de construir. Depois deixam de reformar. Depois começam a administrar cuidadosamente o declínio.

Criam observatórios para estudar o problema. Comissões para analisar o observatório. Relatórios para avaliar a comissão. E conferências internacionais para discutir o relatório.

Finalmente produzem um plano estratégico para 2050.

O problema é que a História costuma chegar antes.

Ainda há tempo

Apesar de tudo, recuso-me a escrever o epitáfio.

Porque esta mesma civilização continua a produzir ciência extraordinária, tecnologia revolucionária, pensamento livre, sociedades abertas e milhões de pessoas que recusam entregar a sua liberdade aos vendedores de soluções fáceis.

O Ocidente não precisa de regressar ao século XX.

Precisa de recuperar algo que o século XX possuía: a convicção de que era possível construir um futuro melhor.

Isso exige menos discursos sobre resiliência e mais capacidade de execução.

Habitação que as pessoas consigam pagar. Energia abundante e competitiva. Justiça que decida enquanto ainda estamos vivos. Trabalho que permita construir uma vida. Educação que produza conhecimento e mobilidade social. Estados que protejam sem sufocar. Europa capaz de decidir. Democracias suficientemente confiantes para se defenderem.

Porque a batalha decisiva do nosso tempo talvez não seja entre esquerda e direita. Nem sequer entre capitalismo e socialismo.

Pode ser uma batalha muito mais antiga: esperança contra resignação.

E quando uma civilização deixa de oferecer esperança aos seus filhos, alguém acabará inevitavelmente por lhes oferecer outra coisa.

Raiva. Um inimigo. Um salvador.

E a História já nos mostrou demasiadas vezes como termina essa troca.

Talvez ainda estejamos a tempo de recordar uma ideia extraordinariamente simples:

o futuro não é aquilo que acontece depois de nós.

É aquilo que decidimos construir antes que seja tarde.

Alguns números que enquadram a crónica

• Entre 2015 e o quarto trimestre de 2025, os preços das casas na União Europeia subiram 64,9%; em Portugal, 180%.

• No primeiro trimestre de 2026, os salários reais permaneciam abaixo dos níveis do início de 2021 em 13 dos 37 países analisados pela OCDE.

• A Comissão Europeia reconhece que os elevados custos energéticos continuam no centro do problema de competitividade europeu e que os preços permanecem significativamente acima dos principais concorrentes.

• O International IDEA registou, pelo 11.º ano consecutivo, mais países em deterioração democrática do que em melhoria; em 2025, 98 países tinham recuado em pelo menos um indicador face a cinco anos antes.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e reflexão civilizacional. Não pretende afirmar que todos os indicadores sociais, económicos ou democráticos do Ocidente tenham piorado desde o final do século XX. Sustenta uma tese mais delimitada: apesar do enorme progresso científico e tecnológico, várias sociedades ocidentais enfrentam dificuldades crescentes em converter riqueza, conhecimento e capacidade técnica em habitação acessível, energia competitiva, segurança económica, justiça eficaz, confiança institucional e expectativa de progresso intergeracional.

As referências abaixo são apresentadas para permitir ao leitor confrontar a interpretação do autor com dados e análises independentes. As conclusões e formulações críticas pertencem ao autor.

Referências e leituras


🌌 Fragmentos do Caos: Blogue • Ebooks • Carrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos