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Portugal não precisa de mais empresas. Precisa de deixar crescer as boas.

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Portugal não precisa de mais empresas. Precisa de deixar crescer as boas.

Produtividade, escala, tecnologia e um Estado que permita às boas empresas crescer.

Nota de abertura:
Esta crónica não defende o abandono do turismo, dos serviços ou do outsourcing. Questiona a suficiência de um modelo económico demasiado dependente de actividades intensivas em trabalho e argumenta que a convergência exige maior produtividade, produtos próprios, propriedade intelectual, empresas capazes de ganhar escala e um ambiente administrativo mais previsível.

Durante décadas, Portugal procurou a fórmula do crescimento económico como quem procura uma receita secreta.

Vieram os fundos comunitários. Os incentivos. Os programas operacionais. Os programas de competitividade. Os programas de inovação. Os programas para internacionalizar. Os programas para digitalizar. Os programas para apoiar quem prepara candidaturas aos programas.

E, pelo caminho, criámos até uma pequena indústria especializada em explicar às empresas como pedir dinheiro ao Estado para conseguirem ser mais competitivas apesar do tempo que perdem a pedir dinheiro ao Estado.

É uma extraordinária demonstração de economia circular.

Mas talvez tenhamos complicado aquilo que, na essência, é relativamente simples.

Um país torna-se mais rico quando cada hora de trabalho consegue produzir mais valor.

E Portugal continua a ter um problema chamado produtividade.

Não podemos viver eternamente de quartos, mesas e programadores à hora

Comecemos por uma heresia nacional.

O turismo é importante. Muito importante.

Cria emprego, exporta serviços, dinamiza regiões, restaura património, traz divisas e sustenta milhares de empresas.

Mas o turismo não pode ser a estratégia central de convergência económica de Portugal.

Existe um limite para o número de turistas que conseguimos receber, camas que conseguimos ocupar e refeições que conseguimos servir. E uma parte importante dessas actividades continua intensiva em trabalho e relativamente pouco produtiva.

O problema não é existir turismo. É imaginarmos que podemos alcançar as economias europeias mais produtivas multiplicando indefinidamente hotéis, alojamentos e restaurantes.

Com a tecnologia acontece uma versão mais sofisticada do mesmo problema.

Portugal tornou-se interessante para empresas internacionais porque tem bons engenheiros e programadores a custos comparativamente reduzidos.

Excelente.

O problema começa quando transformamos essa vantagem numa vocação nacional.

Contratamos engenheiros portugueses para os colocar em projectos de terceiros. Vendemos horas. Vendemos equipas. Vendemos outsourcing. Vendemos bodyshopping.

E depois congratulamo-nos porque exportamos tecnologia.

Tecnicamente, é verdade.

Mas existe uma diferença gigantesca entre vender dez mil horas de programação e vender dez mil licenças do software que essas horas criaram.

No primeiro caso, para duplicarmos a facturação provavelmente precisamos de aproximadamente duplicar recursos.

No segundo, podemos vender novamente aquilo que já desenvolvemos.

Chama-se escala.

E as economias mais produtivas aprenderam há muito tempo a diferença.

Precisamos de produtos portugueses, não apenas de cérebros portugueses

Portugal forma excelentes engenheiros.

Forma investigadores. Forma matemáticos. Forma médicos. Forma cientistas. Forma programadores.

Depois aparece uma multinacional e contrata-os.

Ou aparece uma consultora e vende-os por hora.

Ou aparece uma empresa estrangeira e compra a pequena tecnológica portuguesa que começou finalmente a crescer.

O talento continua português.

A propriedade intelectual deixa frequentemente de o ser.

E é a propriedade intelectual — software, algoritmos, patentes, processos industriais, marcas, tecnologia, conhecimento especializado — que permite multiplicar valor sem multiplicar proporcionalmente o número de trabalhadores.

É aí que Portugal precisa de mudar de escala.

IA. Cibersegurança. Robótica. Tecnologias médicas. Biotecnologia. Energia. Software industrial. Tecnologias marítimas. Electrónica. Sistemas autónomos. Tecnologias espaciais. Materiais avançados.

Não precisamos de apostar em todas.

Precisamos de criar um ecossistema em que as empresas que demonstrarem capacidade real em qualquer delas consigam crescer.

E talvez seja aqui que temos feito tudo ao contrário

Portugal adora startups.

Há incubadoras. Aceleradoras. Concursos. Prémios. Pitch days. Eventos. Fotografias. Palcos. Ministros. Secretários de Estado. Ecrãs gigantes.

Um jovem apresenta uma aplicação durante sete minutos e durante alguns instantes parece que estamos em Silicon Valley.

Fantástico.

A pergunta deveria chegar dez anos depois:

Onde está a empresa?

Quantos trabalhadores tem? Quanto exporta? Quanto factura por trabalhador? Quanto investe em investigação? Quanto paga aos seus engenheiros? Quantos produtos próprios possui? Em quantos países vende?

Esse acompanhamento interessa muito mais do que contar quantas startups foram constituídas.

Portugal não precisa de celebrar empresas por nascerem.

Precisa de aprender a ajudá-las a sobreviver e a crescer.

Apoiar resultados, não apresentações

Uma política tecnológica inteligente deveria funcionar por etapas.

Uma empresa começa.

Desenvolve tecnologia.

Sobrevive dois anos.

Consegue clientes.

Aumenta vendas.

Investe em investigação.

Cria produto próprio.

Começa a exportar.

Contrata trabalhadores qualificados.

Aumenta produtividade.

Entra noutros mercados.

Cada etapa demonstrada deveria permitir aceder à seguinte camada de instrumentos públicos.

Não porque um funcionário decidiu que aquela empresa será o próximo unicórnio português.

Mas porque os resultados demonstram que está a funcionar.

Os indicadores podem ser objectivos: crescimento das exportações; receita por trabalhador; investimento privado captado; percentagem da facturação aplicada em I&D; propriedade intelectual criada; mercados conquistados; emprego altamente qualificado; salários; crescimento sustentado.

Dinheiro público deveria acompanhar evidência económica.

Não capacidade de produzir candidaturas.

E depois existem as empresas que vivem dos apoios

Também precisamos de falar delas.

Há uma diferença entre apoiar temporariamente uma empresa para que consiga chegar ao mercado e criar uma empresa cuja verdadeira especialidade seja obter apoio para continuar a obter apoio.

Portugal não deveria financiar eternamente empresas economicamente artificiais.

Se após sucessivos programas, incentivos e anos de actividade uma empresa não desenvolve mercado, clientes, tecnologia competitiva ou capacidade de sobreviver sem subsídios, talvez tenhamos de aceitar uma palavra que desapareceu misteriosamente do vocabulário económico:

falhou.

Faz parte do capitalismo.

Empresas nascem.

Algumas prosperam.

Outras desaparecem.

O dinheiro público deve permitir assumir riscos que o mercado sozinho talvez não assumisse.

Não deve eliminar indefinidamente as consequências do fracasso.

Mas agora chegamos ao outro lado do problema: o próprio Estado

Imaginemos que encontramos a empresa certa.

Tem tecnologia. Tem clientes. Tem engenheiros. Tem capital. Tem mercado. Quer crescer.

E então conhece o seu novo sócio involuntário:

a burocracia portuguesa.

Começa a aventura.

Licenças. Pareceres. Certidões. Autorizações. Plataformas. Declarações. Regulamentos. Organismos. Formulários.

Um organismo pede uma informação que outro organismo do mesmo Estado já possui.

A empresa entrega-a.

Falta um documento.

Entrega-o.

Falta uma assinatura.

Assina.

Falta um parecer.

Espera.

Pergunta quando estará decidido.

Informam que o processo «se encontra em análise».

É uma das expressões mais extraordinárias da língua administrativa portuguesa.

Pode significar três dias.

Ou quinze meses.

Para uma tecnológica, um ano não é um ano

Este é um ponto que a Administração Pública precisa urgentemente de compreender.

Um ano numa empresa industrial tradicional já é muito tempo.

Um ano em tecnologia pode ser uma geração.

Uma empresa desenvolve hoje uma solução de inteligência artificial.

Espera doze meses por uma decisão.

Quando chega a autorização, financiamento ou contratação, o modelo mudou, apareceu uma tecnologia concorrente e o mercado deslocou-se.

A Administração finalmente diz:

— Aprovado.

E a empresa responde:

— Obrigado. Já não existe.

Não se pode administrar a economia tecnológica do século XXI com relógios administrativos do século XX.

Do controlo prévio para a responsabilidade

Há uma mudança filosófica que Portugal poderia fazer.

O Estado português parte demasiadas vezes de uma presunção:

antes de deixarmos fazer, temos de verificar tudo.

Parece prudente.

Mas tem um custo gigantesco.

Para impedir que um agente desonesto faça algo errado, obrigamos milhares de agentes honestos a demonstrar previamente que não pretendem fazê-lo.

Talvez seja necessário inverter o paradigma sempre que o risco o permita:

declaração responsável → actividade → fiscalização → penalização

A empresa declara que cumpre. Avança. O Estado cruza automaticamente informação. Fiscaliza por risco. Quem cumpre continua. Quem mente enfrenta consequências suficientemente sérias para que mentir deixe de compensar.

Isto permite uma coisa revolucionária: o Estado fiscaliza sem precisar de paralisar.

Naturalmente, haverá áreas — saúde, segurança, ambiente, infra-estruturas críticas — onde o controlo prévio continuará indispensável.

Mas não precisamos de tratar toda a economia como uma central nuclear.

E há uma regra ainda mais simples

O Estado nunca deveria perguntar a um cidadão ou empresa por uma informação que o próprio Estado já possui.

Uma vez.

É suficiente.

Finanças sabem.

Segurança Social sabe.

Justiça sabe.

IAPMEI sabe.

Município sabe.

Então o Estado sabe.

A empresa não deveria funcionar como protocolo TCP humano, retransmitindo os mesmos dados entre organismos públicos que não conseguem comunicar uns com os outros.

Temos computadores.

Podíamos experimentar utilizá-los.

Prazos também são política económica

Se uma empresa tem prazo para responder ao Estado, o Estado deveria ter prazo para responder à empresa.

Não um prazo decorativo.

Um prazo com consequências.

Sempre que jurídica e materialmente possível, terminado o prazo sem decisão deveria existir deferimento tácito ou outro mecanismo que impedisse a Administração de transformar silêncio em poder indefinido.

Porque existe algo que raramente aparece nas estatísticas económicas:

o custo da espera.

Uma fábrica que não abre.

Um engenheiro que não é contratado.

Uma máquina parada.

Um investimento suspenso.

Um produto que não chega ao mercado.

Um empresário que desiste.

Nada disso aparece numa rubrica chamada «Imposto Burocrático».

Mas economicamente é exactamente isso.

Talvez as empresas precisem menos de subsídios e mais de clientes

Há ainda uma ferramenta extraordinariamente poderosa que Portugal utiliza menos do que poderia:

a contratação pública como instrumento de inovação.

Imagine-se uma PME portuguesa que desenvolveu um excelente sistema de cibersegurança.

Pode receber 100 mil euros de incentivo para desenvolver uma demonstração.

Muito bem.

Mas talvez fosse mais transformador se uma entidade pública lhe comprasse, através de um procedimento competitivo e transparente, um projecto-piloto de 100 mil euros.

No primeiro caso, a empresa tem um subsídio.

No segundo tem: um cliente; receita; uma implementação real; um caso de estudo; uma referência; e algo para mostrar quando bater à porta de um cliente alemão.

«Quem utiliza o vosso produto?»

— O Estado português.

Essa resposta pode valer muito mais do que outro certificado de inovação.

O Estado não deve escolher campeões. Deve deixar que apareçam.

Existe sempre um perigo quando falamos de política industrial.

Alguém no Governo pode imaginar que sabe quais serão as tecnologias vencedoras daqui a dez anos.

Provavelmente não sabe.

Eu também não.

O mercado também não sabe completamente.

É precisamente por isso que experimenta.

O papel do Estado não deveria ser declarar:

«Esta será a próxima grande empresa portuguesa.»

Deveria ser criar condições para que centenas tentem e, quando algumas começarem objectivamente a demonstrar resultados extraordinários, não colocar uma parede administrativa diante delas.

Capital. Universidades. Investigação. Talento. Infra-estruturas. Fiscalidade previsível. Justiça económica rápida. Administração eficiente. Mercado europeu.

Depois deixem as empresas trabalhar.

Portugal precisa de mudar a pergunta

Durante demasiado tempo perguntámos:

Quantas empresas criámos?

Depois:

Quantas startups temos?

Depois:

Quantos milhões distribuímos?

Depois:

Quanto executámos do programa?

Esta última é particularmente deliciosa.

Gastámos 97% do dinheiro.

Excelente.

Mas a pergunta economicamente importante não é quanto dinheiro conseguimos gastar.

É:

Que riqueza ficou depois de o dinheiro acabar?

Quantas empresas cresceram?

Quantos produtos ficaram?

Quantas patentes?

Quantas exportações?

Quantos empregos de 3.000 euros?

Quantas empresas portuguesas passaram de 20 trabalhadores para 200?

Quantas passaram de 200 para 2.000?

Quantas continuam portuguesas?

Quantas vendem para cinquenta países?

Essa é a contabilidade que interessa.

O próximo Portugal

Portugal não precisa de acabar com o turismo.

Precisa de deixar de imaginar que o turismo basta.

Não precisa de acabar com o outsourcing.

Precisa de fazer com que mais empresas deixem progressivamente de vender apenas horas e comecem a vender produtos, tecnologia e propriedade intelectual.

Não precisa de distribuir indiscriminadamente mais dinheiro pelas empresas.

Precisa de acompanhar durante anos aquelas que demonstram resultados e ajudá-las a atravessar o difícil caminho entre startup e empresa global.

E, sobretudo, precisa de reformar o próprio Estado.

Porque não podemos pedir aos empresários que inovem enquanto a Administração lhes responde daqui a nove meses.

Não podemos falar em inteligência artificial e continuar a transportar certidões entre organismos públicos.

Não podemos querer empresas globais e administrar processos à velocidade do papel selado.

Não podemos pedir produtividade ao sector privado sem exigir produtividade ao Estado.

Portugal já demonstrou que consegue formar talento.

Já demonstrou que consegue construir infra-estruturas.

Já demonstrou que consegue criar empresas.

O desafio dos próximos vinte anos é outro:

conseguir que as melhores cresçam cá.

Que criem propriedade intelectual cá.

Que tenham centros de decisão cá.

Que exportem a partir daqui.

Que paguem salários europeus.

Que transformem conhecimento português em capital português.

E talvez a melhor política pública para algumas delas seja surpreendentemente barata:

o Estado sair-lhes da frente.

Porque uma economia moderna não floresce quando o Governo tenta fazê-la crescer puxando-a pelas folhas.

Floresce quando existem boas raízes, capital, conhecimento, concorrência e regras claras — e quando ninguém passa todas as semanas a desenterrar a planta para verificar se preencheu correctamente o formulário.

Portugal não precisa apenas de criar mais empresas.

Precisa de deixar crescer as boas.

DADOS ESSENCIAIS

  • A OCDE estima que a produtividade do trabalho em Portugal permanece 17% abaixo da média da OCDE.
  • As microempresas representam cerca de 39% do emprego empresarial português; as empresas com até 50 trabalhadores representam cerca de 60%.
  • No EIB Investment Survey 2025, 82% das empresas portuguesas consideraram a regulamentação empresarial um obstáculo ao investimento; 49% classificaram-na como obstáculo importante.
  • A Comissão Europeia considera que Portugal tem boas infra-estruturas digitais e serviços públicos digitais fortes, mas continua atrasado na adopção empresarial de IA e cloud e enfrenta dificuldades de escala e acesso a financiamento.

Nota Editorial

Esta é uma crónica de opinião e interpretação económica. As propostas apresentadas — apoio progressivo baseado em resultados, maior utilização da contratação pública para inovação, simplificação administrativa, interoperabilidade e recurso prudente a mecanismos de declaração responsável ou deferimento tácito — exprimem a posição editorial do autor.

Os dados utilizados para enquadrar a análise provêm da OCDE, do Banco Europeu de Investimento e da Comissão Europeia. Essas fontes documentam problemas de produtividade, escala empresarial, regulamentação, financiamento e adopção tecnológica, mas não determinam por si mesmas as opções políticas defendidas nesta crónica.

Turismo, outsourcing, startups e microempresas são realidades heterogéneas. Existem empresas altamente produtivas e inovadoras em todas estas categorias. A crítica incide sobre dependências estruturais e sobre a capacidade de Portugal transformar conhecimento em empresas escaláveis, propriedade intelectual, exportações de elevado valor e melhores salários.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue • Ebooks • Carrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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