A Europa que enriqueceu os mercados e esqueceu os cidadãos
A Europa que enriqueceu os mercados e esqueceu os cidadãos
Quatro décadas de promessas de prosperidade, uma fractura social persistente e a urgência de reconstruir o contrato democrático europeu.
Nota de abertura: Esta crónica é um ensaio de opinião fundamentado em indicadores públicos. Não atribui corrupção a pessoas ou governos sem prova, nem presume que todos os países europeus tenham a mesma trajectória social.
O incêndio que não se mede apenas pelas chamas
A Europa não está literalmente toda em chamas. Mas há um incêndio mais silencioso que atravessa as suas sociedades: a sensação de que trabalhar, cumprir as regras e pagar impostos já não basta para construir uma vida digna. Quando a habitação se afasta dos salários, quando o futuro dos filhos parece menor do que o dos pais, a confiança deixa de ser uma certeza e transforma-se numa pergunta.
Os protestos que irrompem em diferentes países não constituem um único movimento, nem têm as mesmas causas. Uns denunciam os preços das casas; outros, o custo de vida, as reformas laborais, os serviços públicos ou suspeitas de corrupção. O denominador comum de muitas dessas reivindicações é a exigência de que a política volte a responder a problemas concretos.
Quando a economia deixou de caber na vida das pessoas
Desde os anos oitenta, liberalização financeira, integração dos mercados e globalização alteraram profundamente a economia europeia. Trouxeram investimento, tecnologia e oportunidades. Trouxeram também vulnerabilidades: crises bancárias transmitidas à economia real, pressão competitiva sobre alguns sectores produtivos e valorização de patrimónios a ritmos que muitos rendimentos do trabalho não acompanharam.
Não se trata de declarar os mercados inimigos da democracia. Trata-se de recordar que um mercado é um mecanismo de coordenação, não um parlamento eleito. A sua eficiência em fixar preços não lhe confere legitimidade para decidir sozinho quem pode viver numa cidade, quanto vale uma profissão ou que serviços essenciais uma comunidade merece.
Na crise financeira de 2008 e na crise das dívidas soberanas que se lhe seguiu, tornou-se particularmente visível a tensão entre a estabilização do sistema financeiro e os custos sociais dos ajustamentos. As respostas diferiram entre países e evoluíram com o tempo; a memória política desses anos, porém, não desapareceu.
A casa: do direito quotidiano ao activo cobiçado
Uma habitação é abrigo, intimidade e condição de autonomia. Mas também se tornou, em muitos mercados urbanos, um activo de investimento sujeito à procura internacional, às taxas de juro, à oferta limitada e às expectativas de valorização. A especulação pode agravar o problema; não é, contudo, a sua única causa. Planeamento urbano deficiente, lentidão de licenciamento, falta de construção e políticas fiscais também pesam.
Segundo a OCDE, entre 2010 e o primeiro trimestre de 2025, os preços das casas na União Europeia subiram 57,9% e as rendas 27,8%. Os números agregados não descrevem todas as cidades, mas mostram a escala da transformação. A Eurofound alerta, além disso, que os indicadores tradicionais de sobrecarga com habitação nem sempre captam a dificuldade de quem sequer consegue entrar no mercado.
Uma geração pode ter emprego e ainda assim não conseguir sair de casa dos pais. Pode trabalhar numa cidade que precisa do seu talento, mas que já não lhe oferece um lugar para viver. Isto não é apenas um problema imobiliário: é um bloqueio à mobilidade, à natalidade, à liberdade individual e à coesão social.
A aritmética fria da desigualdade
O Eurostat contabilizou 92,7 milhões de residentes na União Europeia em risco de pobreza ou exclusão social em 2025: 20,9% da população. É indispensável reconhecer que houve uma pequena melhoria relativamente a 2024. Mas a descida estatística não torna irrelevante a dimensão humana do problema.
Em 2024, as famílias europeias em risco de pobreza gastavam, em média, 37% do seu rendimento disponível com habitação, contra 16% entre as que estavam acima do limiar de risco. A média esconde ainda desigualdades territoriais profundas. A pobreza não se resume ao rendimento: manifesta-se no tempo perdido em deslocações, na incapacidade de poupar e no adiamento permanente dos projectos de vida.
Uma economia pode apresentar lucros elevados e continuar a produzir insegurança social. Daí a necessidade de avaliar o sucesso político não apenas pelo PIB, mas também pela acessibilidade da habitação, qualidade dos serviços, rendimento disponível e oportunidades reais de mobilidade.
DADOS ESSENCIAIS
- 92,7 milhões de pessoas, 20,9% da população da UE, em risco de pobreza ou exclusão social em 2025 (Eurostat).
- 37% do rendimento disponível dedicado à habitação, em média, por famílias em risco de pobreza em 2024 (Eurostat).
- Entre 2010 e o primeiro trimestre de 2025, preços das casas +57,9% e rendas +27,8% na UE (OCDE, com dados Eurostat).
Poder económico, influência e responsabilidade
As grandes empresas e instituições financeiras são actores essenciais no investimento e na inovação. Precisamente por deterem recursos consideráveis, a sua relação com o poder político deve ser escrutinável. Transparência no lobbying, concorrência efectiva, regras de contratação pública, combate a conflitos de interesses e fiscalização independente são condições de uma economia aberta e de uma democracia saudável.
Corrupção não é sinónimo de toda a decisão favorável a uma empresa, nem uma suspeita equivale a uma condenação. Mas também seria ingénuo ignorar os riscos de captura regulatória e de influência desproporcionada. O Índice de Percepção da Corrupção de 2025, divulgado pela Transparency International em Fevereiro de 2026, assinala estagnação do progresso na Europa Ocidental e na União Europeia ao longo da última década. Mede percepções especializadas sobre corrupção no sector público, não a contagem directa de crimes.
O desafio democrático consiste em assegurar que a capacidade de influência não depende simplesmente da dimensão da conta bancária ou do acesso aos corredores do poder.
Os governos administram o presente; quem projecta o futuro?
Uma sucessão de ciclos eleitorais curtos pode favorecer medidas de efeito imediato em detrimento de projectos de vinte anos. Não é uma fatalidade: há países, cidades e instituições capazes de planear, avaliar e corrigir políticas ao longo de várias legislaturas. O problema surge quando o calendário partidário substitui a estratégia nacional e europeia.
Precisamos de metas públicas verificáveis: número de casas acessíveis efectivamente entregues, redução do abandono escolar, produtividade, qualidade dos cuidados de saúde, tempos de resposta da justiça, transição energética e investimento científico. Precisamos também de envolver universidades, trabalhadores, empresas, autarquias e cidadãos, sem transformar a sociedade civil num cenário de consulta sem consequências.
A Europa não carece de inteligência colectiva. Carece, muitas vezes, de mecanismos que transformem conhecimento em decisões transparentes, executáveis e sujeitas a prestação de contas.
Um pacto europeu para 2046
Imagino uma Europa que trate a habitação como infra-estrutura social: oferta pública, cooperativa e privada em escala suficiente, licenciamento previsível e combate eficaz às práticas anticoncorrenciais. Uma Europa que remunere melhor o trabalho através de produtividade, qualificação e negociação social, em vez de prometer prosperidade por decreto.
Imagino instituições capazes de medir o efeito distributivo das políticas antes e depois da sua aplicação; registos públicos de interesses; autoridades reguladoras independentes; fiscalização do uso de fundos; investimento persistente em ciência, indústria e redes energéticas e ferroviárias interoperáveis.
E imagino, sobretudo, uma União que não confunda disciplina orçamental com indiferença social, nem protecção social com ausência de responsabilidade. Financiar o futuro exige escolhas, receitas sustentáveis e avaliação rigorosa. A justiça social não dispensa contas certas; as contas certas também não dispensam justiça social.
O que está verdadeiramente em causa
A democracia não é apenas a possibilidade de depositar um voto numa urna. É também a possibilidade concreta de construir uma existência livre de medo permanente, com instituições que escutem e prestem contas.
Quando os cidadãos saem à rua pacificamente, exercem um direito democrático; quando há violência, ela deve ser investigada e julgada segundo a lei, venha de quem vier. Nenhum protesto substitui a deliberação democrática, mas nenhuma democracia madura pode tratar a contestação como um incómodo administrativo.
A Europa construiu-se sobre a promessa de que a liberdade política e o progresso material poderiam caminhar juntos. Essa promessa não está perdida. Mas precisa de deixar de ser um discurso cerimonial e voltar a ser um compromisso mensurável.
Porque uma civilização não se avalia apenas pela altura dos seus edifícios financeiros. Avalia-se também pela dignidade da vida que decorre à sua sombra.
Uma democracia que não consegue traduzir a riqueza colectiva em oportunidades reais arrisca perder a confiança de quem a sustenta.
Nota Editorial
O Fragmentos do Caos defende a liberdade de expressão, a fiscalização do poder e a dignidade humana. A crítica política aqui apresentada é uma interpretação editorial sustentada em fontes identificadas, não uma imputação criminal. Os indicadores europeus agregados escondem realidades nacionais distintas e alguns melhoraram nos últimos anos.
A finalidade desta crónica não é substituir a discussão pública por certezas fáceis, mas exigir uma discussão melhor: mais evidência, menos propaganda, mais planeamento e mais responsabilidade perante os cidadãos.
Referências credíveis
- Eurostat — People at risk of poverty or social exclusion (2025; publicado em 2026)
- Eurostat — Housing in Europe, 2025 edition
- OCDE — The social economy in housing (dados sobre preços e rendas)
- Eurofound — Housing affordability: approaches to measurement (2025)
- Eurofound — Living and working in Europe 2025 (2026)
- Transparency International — Corruption Perceptions Index 2025: Europe (2026)
Francisco António dos Santos Gonçalves
Com a colaboração editorial de Augusto Veritas (IA)
Fragmentos do Caos
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