A economia que precisa de muletas para continuar de pé
A economia que precisa de muletas para continuar de pé
Uma crónica sobre empresas zombie, baixa produtividade, subsídios recorrentes e a diferença entre apoiar a transformação de uma empresa e financiar a sua imobilidade.
Há economias pobres. Há economias ricas. E depois há economias que aprenderam a sobreviver numa espécie de enfermaria permanente, onde todos os anos se muda o nome ao soro, mas raramente se pergunta por que razão o doente nunca recebe alta.
Portugal tem demasiados sintomas desta última doença.
Sobe o salário mínimo: algumas associações empresariais avisam que será uma tragédia.
Sobe a energia: é necessário apoio.
Sobem os combustíveis: é preciso compensação.
Sobem os juros: é preciso uma linha especial.
Chega uma crise: moratórias.
Termina a crise: incentivos à recuperação.
É preciso modernizar: fundos.
É preciso digitalizar: fundos.
É preciso descarbonizar: fundos.
É preciso internacionalizar: mais fundos.
E quando tudo parece finalmente estabilizado, descobrimos que há empresas que continuam exatamente como estavam dez ou vinte anos antes.
Talvez esteja na altura de fazermos uma pergunta desconfortável: quantas das empresas que estamos permanentemente a tentar salvar são realmente empresas economicamente viáveis?
O capitalismo estranho das empresas que não podem falhar
Numa economia de mercado, uma empresa existe para criar valor. Compra recursos, combina capital, conhecimento e trabalho e procura produzir alguma coisa que os clientes valorizem mais do que aquilo que custou produzi-la.
Parece elementar.
Mas fomos construindo uma versão curiosa do capitalismo na qual queremos os benefícios da iniciativa privada e, simultaneamente, pretendemos eliminar uma das suas características essenciais: a possibilidade de uma empresa mal gerida desaparecer.
Não defendo que uma empresa deva ser abandonada perante uma dificuldade temporária. Uma pandemia, uma guerra, uma recessão, uma catástrofe ou uma disrupção energética podem atingir empresas perfeitamente saudáveis. Nesses casos, a intervenção pública pode preservar capacidade produtiva que seria irracional destruir devido a um choque transitório.
O problema começa quando o transitório se transforma em permanente.
Uma empresa que durante anos só consegue sobreviver através de salários muito baixos, benefícios fiscais, crédito favorecido, subsídios, moratórias e sucessivos programas públicos talvez já não esteja perante uma crise. Talvez a própria empresa seja a crise.
São as chamadas empresas zombie: organismos empresariais que continuam juridicamente vivos, empregam pessoas, ocupam instalações e consomem capital, mas perderam há muito a capacidade de caminhar pelos próprios meios.
E mantê-las artificialmente vivas tem um preço que raramente aparece no orçamento do apoio concedido.
A empresa saudável paga a doença da concorrente
Imaginemos duas pequenas empresas portuguesas do mesmo setor.
Uma investiu em software, automatizou processos, formou trabalhadores, melhorou a gestão, comprou equipamento, experimentou inteligência artificial, reduziu desperdícios e conseguiu aumentar a produtividade. Como consequência, consegue pagar melhores salários e competir internacionalmente.
A outra praticamente não mudou.
Quando os custos aumentam, a segunda declara que não consegue sobreviver e pede ajuda ao Estado.
O Estado concede-lhe um apoio financiado pelos impostos pagos, entre outros, pela primeira empresa.
Percebemos o absurdo?
A empresa que se modernizou acaba a financiar indiretamente a sobrevivência daquela que não se modernizou. E ainda tem de competir com ela.
Isto não é proteção da economia. Pode transformar-se precisamente no contrário: proteção da improdutividade.
Capital, trabalhadores, instalações e mercado permanecem presos em atividades de baixa produtividade em vez de migrarem para organizações capazes de lhes atribuir maior valor.
A economia deixa de selecionar eficiência e começa a selecionar capacidade de sobrevivência administrativa.
E depois culpamos os salários
É neste contexto que considero particularmente revelador ouvir defender que Portugal poderia dispensar o salário mínimo.
A discussão económica sobre qual deve ser o seu valor é perfeitamente legítima. Pode discutir-se produtividade, salário mediano, diferenças regionais, setores económicos ou velocidade dos aumentos.
Outra coisa completamente diferente é transformar salários permanentemente baixos numa política de competitividade.
Se determinado modelo empresarial apenas funciona enquanto alguém trabalha oito horas por dia recebendo o mínimo possível, devemos perguntar se estamos perante uma vantagem competitiva ou simplesmente perante baixa produtividade subsidiada pelo trabalhador.
Porque salários baixos também têm consequências económicas.
Significam menor consumo, menor capacidade de poupança, menor autonomia das famílias, maior dificuldade de habitação e menor capacidade para investir na educação dos filhos.
Uma economia não se torna competitiva porque consegue manter pessoas baratas.
Torna-se competitiva quando consegue tornar cada hora de trabalho mais valiosa.
É precisamente aí que Portugal continua a ter um problema estrutural.
O dinheiro público deveria comprar transformação
Não proponho acabar com os apoios às empresas.
Proponho algo bastante mais exigente: os apoios deveriam servir para tornar desnecessários os apoios seguintes.
Se uma PME recebe dinheiro público para digitalização, daqui a três anos deveríamos conseguir medir o que aconteceu.
A produtividade aumentou?
As vendas cresceram?
Exportou?
Automatizou processos?
Formou trabalhadores?
Criou produtos de maior valor acrescentado?
Conseguiu pagar melhores salários?
Se nada mudou, financiar novamente a mesma organização dificilmente pode continuar a chamar-se política de desenvolvimento económico.
É assistência empresarial.
E deveria existir uma pergunta obrigatória associada a qualquer apoio significativo:
Como ficará esta empresa capaz de sobreviver sem nós?
Se ninguém souber responder, talvez não devêssemos passar o cheque.
A inteligência artificial torna a desculpa ainda mais difícil
Estamos, além disso, perante uma oportunidade extraordinária.
IA generativa, automação, software aberto, robótica e computação acessível estão a reduzir drasticamente o custo tecnológico necessário para aumentar a produtividade de pequenas organizações.
Uma PME que há quinze anos necessitaria de uma equipa informática significativa pode hoje automatizar atendimento, documentação, análise, programação, controlo administrativo, previsão e inúmeras operações internas por uma fração desse custo.
É aqui que gostaria de ver o Estado português colocar recursos.
Não em conservar empresas de 2026 a trabalhar como empresas de 1996.
Mas em ajudá-las a trabalhar como empresas de 2030.
Um verdadeiro programa nacional de produtividade deveria aproximar universidades, centros tecnológicos, empresas de software, especialistas em IA e PME e colocar uma questão extremamente pragmática:
onde estão as horas desperdiçadas nesta empresa e como podemos eliminá-las?
Não precisamos de mais um portal bonito.
Precisamos de produtividade.
Também é preciso deixar morrer
Há, porém, uma palavra quase proibida na política económica: falência.
Nem todas as empresas podem ser recuperadas.
Nem devem.
Uma economia saudável necessita de mecanismos rápidos e humanos para permitir que empresas inviáveis encerrem, que empresários possam recomeçar, que trabalhadores encontrem novas oportunidades e que capital seja reutilizado.
A morte empresarial também faz parte da renovação económica.
Uma floresta onde nenhuma árvore pudesse morrer acabaria sufocada pelas próprias árvores.
Na economia acontece algo semelhante.
Proteger indefinidamente tudo aquilo que existe pode impedir o nascimento daquilo que ainda não existe.
É uma ideia particularmente importante numa época de transformação tecnológica acelerada.
Transformar, crescer ou sair
Portugal não precisa de hostilidade contra os empresários. Muito pelo contrário.
Precisa de melhores empresários, empresas mais capitalizadas, gestão profissional, tecnologia, trabalhadores qualificados, inovação e ambição internacional.
E precisa de distinguir claramente três situações.
A empresa saudável deve poder crescer sem ser esmagada por burocracia.
A empresa viável mas atrasada deve receber instrumentos para se transformar.
A empresa estruturalmente inviável deve poder encerrar de forma ordenada.
Transformar, crescer ou sair.
O que não podemos continuar a fazer é acrescentar eternamente uma quarta opção:
subsidiar para permanecer exatamente igual.
Porque uma economia não se moderniza conservando todas as suas fragilidades.
Moderniza-se permitindo que recursos passem do passado para o futuro.
Portugal tem talento, capital, universidades, infraestruturas, acesso ao mercado europeu e agora dispõe de tecnologias extraordinárias como a inteligência artificial.
Talvez aquilo que nos falte não seja mais um subsídio.
Talvez seja finalmente a coragem de dizer que uma economia saudável não é aquela onde nenhuma empresa morre — é aquela onde as boas empresas conseguem nascer, crescer e substituir as que deixaram de criar valor.
Caso contrário continuaremos a construir uma economia de muletas.
E depois, de quatro em quatro anos, ficaremos surpreendidos por ela continuar a não saber correr.
Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI
Nota editorial
Esta crónica é um texto de opinião sobre produtividade, política empresarial e utilização de recursos públicos. A expressão empresa zombie é usada na literatura económica para descrever empresas maduras e persistentemente incapazes de gerar resultados suficientes para cumprir normalmente os seus encargos financeiros, ou empresas de muito baixa produtividade que, em condições competitivas, tenderiam a reestruturar-se ou sair do mercado.
A investigação internacional não sustenta que toda a pequena empresa, empresa endividada ou empresa temporariamente deficitária seja uma empresa zombie. Choques económicos, recessões, pandemias, juros elevados ou perdas transitórias de procura podem justificar medidas públicas de estabilização. O ponto desta crónica é diferente: apoio temporário a empresas viáveis não deve transformar-se em proteção permanente de modelos de negócio estruturalmente improdutivos.
A OCDE identifica em Portugal uma produtividade laboral ainda cerca de 17% abaixo da média da organização e uma forte concentração do emprego empresarial em microempresas, que frequentemente apresentam défices de gestão profissional, investimento tecnológico e inovação. A mesma literatura mostra que a permanência prolongada de empresas zombie pode congestionar mercados, reter capital e trabalho e reduzir o crescimento e o investimento das empresas mais produtivas.
Também por isso a utilização de fundos públicos deveria ser avaliada não apenas pelo montante executado, mas pelos resultados produzidos: produtividade, investimento, inovação, digitalização, exportações, salários sustentáveis e capacidade de a empresa continuar a operar sem apoio recorrente.
Referências e publicações internacionais
Seleção de relatórios e estudos internacionais sobre produtividade, empresas zombie, reafetação de recursos, PME e transformação digital.
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OECD Economic Surveys: Portugal 2026
OECD · 6 de Janeiro de 2026Analisa os desafios estruturais da economia portuguesa. A OCDE assinala que a produtividade laboral permanece cerca de 17% abaixo da média da organização e destaca o peso elevado das microempresas, a baixa escala empresarial, o investimento insuficiente e a necessidade de reformas que favoreçam produtividade, inovação e crescimento.
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The Walking Dead? Zombie Firms and Productivity Performance in OECD Countries
OECD Economics Department Working Papers No. 1372 · 2017Estudo seminal sobre empresas zombie. Encontra associação entre maior presença destas empresas, menor investimento e crescimento das empresas saudáveis e menor reafetação de capital para utilizações mais produtivas.
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Confronting the Zombies: Policies for Productivity Revival
OECD Economic Policy Papers No. 21 · 2017Discute políticas de reestruturação empresarial, insolvência e reafetação de capital como instrumentos para reduzir a sobrevivência artificial de empresas pouco produtivas e favorecer a difusão tecnológica.
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Insolvency Regimes, Zombie Firms and Capital Reallocation
OECD Economics Department Working Papers No. 1399 · 2017Relaciona características dos regimes de insolvência com a sobrevivência de empresas zombie e com a eficiência na reafetação de capital.
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The Global Forum on Productivity at 10 — A reflection on the past 10 years, and future priorities
OECD · 2025Revê uma década de investigação sobre produtividade e refere estudos específicos sobre Portugal que encontraram elevada prevalência de empresas zombie, produtividade inferior e efeitos negativos sobre o crescimento de empresas viáveis e sobre a reafetação de recursos.
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Annual Report on European SMEs 2025/2026
European Commission · 22 de Junho de 2026O relatório sublinha a produtividade das PME como questão central para a competitividade europeia e identifica tecnologia, setor, geografia e políticas públicas como fatores que podem alterar os diferenciais de produtividade entre empresas.
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Portugal 2025 Digital Decade Country Report
European Commission · 2025Regista progressos na digitalização portuguesa, mas identifica desafios relevantes na adoção de inteligência artificial pelas empresas e nas competências digitais — precisamente áreas com impacto potencial na produtividade das PME.
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OECD Compendium of Productivity Indicators 2026 — Labour productivity patterns across firm sizes
OECD · 23 de Junho de 2026Mostra que, no conjunto das economias analisadas, as PME apresentam em média níveis de produtividade significativamente inferiores aos das grandes empresas, embora tecnologia e outros fatores possam atenuar essa diferença.


