Crónicas,  Justiça

A Justiça que Deixa Fugir a Responsabilidade e Cobra a Factura aos Pobres

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A Justiça que Deixa Fugir a Responsabilidade e Cobra a Factura aos Pobres

Quando a demora deixa de ser incompetência administrativa e começa a tornar-se uma agressão ao património dos cidadãos.

Nota de abertura:
O alvo desta crónica não são os direitos de defesa nem a presunção de inocência. É um sistema que, perante processos económico-financeiros de enorme complexidade e impacto público, consegue consumir anos, recursos e confiança até que a discussão sobre os factos seja substituída pela discussão sobre os prazos.

Há uma violência que não deixa sangue no chão.

Não parte montras.

Não aparece nas estatísticas criminais.

Não exige uma arma.

Basta um processo.

Um calendário.

Uma sucessão interminável de recursos.

Algumas prescrições.

E um contribuinte suficientemente resignado para continuar a pagar.

Portugal aperfeiçoou uma forma extraordinariamente sofisticada de injustiça:

quando alguma coisa corre terrivelmente mal no topo da sociedade, o prejuízo desce.

Desce até ao orçamento.

Do orçamento passa para os impostos.

Dos impostos chega à família.

E finalmente entra pela casa do cidadão que nunca administrou um banco, nunca assinou uma operação financeira de milhões, nunca teve acesso a sociedades offshore e nunca conheceu um ministro pelo primeiro nome.

Mas paga.

Sempre.

Vinte e um mil milhões

Não precisamos de teorias conspirativas.

Temos contabilidade pública.

Segundo o Tribunal de Contas, entre 2008 e 2024, os apoios públicos ao sector financeiro deixaram um saldo global desfavorável ao Estado de 21.284 milhões de euros.

BES/Novo Banco.

BPN.

CGD.

BANIF.

BPP.

Diferentes instituições.

Diferentes histórias.

Diferentes responsabilidades.

E convém dizê-lo claramente: este número não representa dinheiro roubado nem prova crimes individuais. É o saldo líquido das intervenções públicas no sector financeiro contabilizado pelo Tribunal de Contas.

Mas para o cidadão existe uma realidade muito mais simples.

O dinheiro saiu da esfera pública.

Mais de vinte e um mil milhões.

Dinheiro que não apareceu por geração espontânea.

Dinheiro obtido através de impostos, dívida pública e recursos que pertencem à comunidade.

E é aqui que a Justiça entra na história.

Ou, demasiadas vezes, não entra a tempo.

Quando desaparecem milhões, aparece um processo

O ritual português tornou-se familiar.

Surge um escândalo.

Descobrem-se operações obscuras.

Há buscas.

Há manchetes.

Há detenções.

Há conferências de imprensa.

Há milhares de páginas de investigação.

O Ministério Público acusa.

As televisões montam estúdios especiais.

Os comentadores anunciam que “agora é que vai ser”.

Depois começa a verdadeira Justiça portuguesa.

Recurso.

Incidente.

Nulidade.

Reclamação.

Impedimento.

Contestação.

Tribunal superior.

Tribunal Constitucional.

Nova interpretação.

Nova qualificação jurídica.

Novo recurso.

Nova questão processual.

Entretanto passam cinco anos.

Depois oito.

Depois dez.

E um dia já ninguém está a discutir aquilo que aconteceu.

Está toda a gente a discutir quando prescreve aquilo que aconteceu.

É uma obra-prima de deslocação judicial.

A pergunta inicial era:

quem fez o quê?

A pergunta final transforma-se em:

ainda vamos a tempo de perguntar?

O relógio absolve aquilo que o tribunal não consegue decidir

A prescrição é uma instituição necessária num Estado de Direito.

O Estado não pode perseguir eternamente uma pessoa.

As provas degradam-se.

As testemunhas desaparecem.

A memória falha.

O cidadão tem direito a segurança jurídica.

Tudo certo.

Mas existe uma diferença gigantesca entre a prescrição cumprir a sua função civilizacional e a prescrição tornar-se o prémio pela incapacidade do Estado em julgar processos complexos.

Em finais de 2025, o próprio tribunal alertava para o risco de crimes de corrupção relacionados com Vale do Lobo prescreverem no primeiro semestre de 2026.

Pensemos no absurdo.

O Estado investiga durante anos.

Acusa.

Mobiliza procuradores.

Juízes.

Polícia Judiciária.

Peritos.

Funcionários.

Salas de audiência.

Sistemas informáticos.

Milhares de horas de trabalho público.

E depois pode concluir:

acabou o tempo.

Não porque o tribunal tenha considerado o arguido inocente.

Não porque tenha considerado provada a acusação.

Mas porque o calendário chegou primeiro à sentença.

Se isto não é uma derrota institucional, então teremos de inventar outra palavra para derrota.

Os pobres não têm direito ao infinito

Existe ainda uma mentira confortável na expressão:

“todos são iguais perante a Justiça.”

Perante a lei, devem ser.

Perante a capacidade prática de utilizar a lei, não são.

Um trabalhador com um salário modesto não dispõe de uma equipa de advogados durante dez anos.

Uma pensionista não financia pareceres jurídicos sucessivos.

Uma pequena empresa não percorre todas as instâncias possíveis apenas para testar uma interpretação.

Um cidadão comum pergunta:

“Quanto custa recorrer?”

E muitas vezes a Justiça termina nessa frase.

Os poderosos fazem outra pergunta:

“Que recursos ainda existem?”

É perfeitamente legítimo utilizar todos os meios legais de defesa.

O problema é fingirmos que a capacidade económica para os utilizar indefinidamente não cria uma desigualdade material gigantesca.

A lei oferece portas iguais.

Mas uns chegam ao tribunal com uma chave.

Outros chegam com um chaveiro inteiro e uma equipa de especialistas para experimentar cada fechadura.

Formalmente iguais.

Materialmente mundos diferentes.

O pobre paga duas vezes

E aqui chegamos àquilo que considero mais obsceno.

O cidadão de baixos rendimentos paga primeiro os efeitos económicos das crises e falhas institucionais.

Paga através dos impostos.

Paga através da dívida pública.

Paga através de serviços que poderiam receber mais recursos.

Paga através de carga fiscal indirecta.

Paga através de salários que dificilmente acompanham o custo de vida.

Depois paga novamente para o Estado investigar aquilo que correu mal.

Financia procuradores.

Juízes.

Polícias.

Peritos.

Tribunais.

Anos de processos.

E se o sistema acabar sem conseguir produzir uma decisão definitiva?

O contribuinte não recebe reembolso.

Não chega nenhuma carta do Ministério da Justiça:

“Pedimos desculpa. O processo demorou quinze anos e acabou por prescrever. Segue em anexo a sua parte dos custos.”

Naturalmente que não.

O contribuinte apenas continua.

IRS.

IVA.

IMI.

Taxas.

Contribuições.

Porque para cobrar ao cidadão nunca existe prescrição emocional.

A máquina funciona lindamente.

O Estado forte com os fracos

Portugal possui uma característica extraordinária.

O Estado é extremamente eficiente quando está perante alguém que não consegue resistir.

Uma dívida fiscal modesta?

Execução.

Uma prestação atrasada?

Juros.

Uma multa esquecida?

Notificação.

Uma pequena empresa falhou uma obrigação?

Coima.

O cidadão comum conhece um Estado rápido, informatizado, persistente e dotado de uma memória administrativa admirável.

Mas quando os processos envolvem poder económico, política, operações financeiras complexas e equipas jurídicas sofisticadas, o mesmo Estado parece transformar-se numa criatura filosófica.

Começa a contemplar o tempo.

Discute conceitos.

Reinterpreta prazos.

Produz milhares de páginas.

E envelhece.

É difícil não concluir que em Portugal existem duas velocidades.

A velocidade da cobrança e a velocidade da responsabilidade.

A primeira é digital.

A segunda ainda parece funcionar com ampulheta.

Bruxelas também já percebeu

Não se trata apenas de uma irritação popular portuguesa.

O Relatório de 2026 sobre o Estado de Direito da Comissão Europeia afirma que persistem desafios em assegurar a investigação, acusação e julgamento atempados dos casos de corrupção, em particular dos casos de alto nível.

A Comissão conclui igualmente que não houve novo progresso na eficiência global do sistema de Justiça, destacando deterioração nos tribunais administrativos e fiscais, embora reconheça progresso significativo na preparação de medidas destinadas a melhorar a gestão de processos criminais complexos.

Ou seja, nem sequer estamos perante uma paranóia colectiva.

O problema está documentado.

A Europa olha para Portugal e escreve aquilo que os portugueses já descobriram há anos:

a Justiça demora demasiado precisamente onde a demora mais destrói a confiança pública.

Não retirem direitos

E aqui está a armadilha.

A solução não pode ser retirar direitos aos arguidos.

Não pode ser eliminar recursos.

Não pode ser enfraquecer advogados.

Não pode ser permitir que procuradores acusem sem contraditório.

Não pode ser transformar indignação pública em condenação judicial.

Porque amanhã o arguido pode ser um cidadão inocente perante um Estado poderoso.

Os direitos de defesa são uma conquista civilizacional.

Mas uma coisa deve ser igualmente clara:

direitos não são instrumentos destinados a impedir eternamente a decisão.

O Estado tem obrigação de organizar o processo de forma que todos os direitos possam ser exercidos sem que o julgamento se transforme numa carreira contra a prescrição.

Se não consegue fazê-lo, então o problema não é haver direitos a mais.

É haver Estado a menos.

Um atentado económico sem criminoso identificado

É aqui que utilizo deliberadamente uma expressão dura.

Quando um sistema permite que gigantescos prejuízos públicos sejam socializados, que processos de enorme relevância económica atravessem uma década e que a responsabilização possa morrer pelo caminho, existe um efeito que se aproxima de um atentado contra o património colectivo.

Não estou a criar uma figura penal.

Estou a fazer um julgamento político.

Porque o património público pertence sobretudo a quem depende dele.

Para um multimilionário, menos investimento num hospital público pode ser uma estatística.

Ele tem seguro.

Para uma família pobre, pode ser uma consulta adiada.

Menos dinheiro disponível para educação pode ser uma linha orçamental.

Para um jovem pobre, pode significar menos oportunidades.

Mais dívida pública pode ser uma variável macroeconómica.

Para quem vive do salário, pode significar impostos durante décadas.

É por isso que o desaparecimento de responsabilidade económica no topo não atinge todos da mesma forma.

Quem tem dinheiro compra alternativas.

Quem não tem dinheiro depende do Estado.

Logo, quando o Estado perde dinheiro e não consegue determinar responsabilidades em tempo útil, os pobres são os accionistas involuntários do prejuízo.

Sem votos na administração.

Sem dividendos.

Só com chamadas de capital.

A maior forma de corrupção institucional pode ser a impunidade percebida

Uma democracia não morre apenas quando os tribunais deixam de existir.

Pode morrer lentamente quando os cidadãos deixam de acreditar que eles servem para alguma coisa.

Quando um cidadão olha para um processo de quinze anos e diz:

“Já sabemos como isto acaba.”

Esse momento é perigosíssimo.

Porque significa que já não espera Justiça.

Espera prescrição.

Recurso.

Nulidade.

Esquecimento.

E quando a população passa a acreditar que dinheiro suficiente permite transformar a Justiça num labirinto, a igualdade perante a lei pode continuar lindamente impressa na Constituição.

Mas deixou de existir na cabeça das pessoas.

E uma instituição que perdeu legitimidade pública está a funcionar a crédito.

O Estado de Direito também tem direito a defender-se

Passámos décadas a repetir, correctamente, que o Estado de Direito existe para proteger o cidadão do poder.

Falta acrescentar uma segunda frase.

O Estado de Direito também tem de conseguir proteger-se de quem instrumentaliza as suas próprias garantias.

Não retirando essas garantias.

Mas decidindo depressa.

Recursos em semanas, não anos.

Questões processuais decididas prioritariamente.

Megaprocessos organizados com equipas especializadas.

Calendários judiciais exigentes.

Tribunais superiores preparados para responder rapidamente.

Sanções efectivas quando um tribunal determine abuso processual.

Responsabilidade institucional quando processos decisivos ficam parados sem justificação.

E regras de prescrição que mantenham o equilíbrio entre os direitos do arguido e a capacidade real de julgar criminalidade económico-financeira extraordinariamente complexa.

Porque actualmente existe um paradoxo grotesco.

Quanto mais simples o crime, mais facilmente o Estado o julga.

Quanto mais sofisticado o crime económico, mais tempo necessita.

Quanto mais tempo necessita, mais possibilidades processuais aparecem.

Quanto mais possibilidades aparecem, maior o risco de prescrição.

Ou seja:

quanto mais sofisticada for eventualmente a criminalidade, maior pode tornar-se a probabilidade de o próprio sistema se derrotar.

É difícil conceber um incentivo pior.

Não quero Justiça popular

Não quero julgamentos na televisão.

Não quero condenações por manchete.

Não quero tribunais populares.

Não quero que alguém seja condenado porque é rico, político, banqueiro ou simplesmente antipático.

Quero algo aparentemente muito mais radical.

Quero tribunais que funcionem.

Que investiguem.

Que ouçam.

Que permitam defesa.

Que decidam.

Que absolvam quando não há prova.

Que condenem quando há prova.

E que façam tudo isso enquanto os intervenientes ainda estão vivos e os crimes ainda existem juridicamente.

Parece pouco.

Em Portugal começa a parecer revolucionário.

A factura final

Os portugueses pobres não precisam de discursos sobre confiança na Justiça.

Precisam de razões para confiar nela.

E confiança não se decreta.

Constrói-se com decisões.

Com prazos.

Com responsabilidade.

Com igualdade real.

Com recuperação de património quando legalmente possível.

Com consequências.

Porque uma Justiça que leva quinze anos a decidir se alguém deve responder por factos económicos graves não é apenas lenta.

É economicamente destrutiva.

Consome recursos.

Desvaloriza provas.

Aproxima prescrições.

Destrói confiança.

E deixa no cidadão a sensação de que o dinheiro público possui uma característica extraordinária:

quando entra nos cofres do Estado, é de todos.

Quando desaparece, parece não ser de ninguém.

Mas não.

É de alguém.

É da enfermeira.

Do reformado.

Do trabalhador.

Da criança na escola pública.

Da família que paga IVA sobre quase tudo aquilo que compra.

Do empresário que cumpre.

Do cidadão que nunca terá cinquenta mil euros para financiar uma guerra processual.

É deles que estamos a falar quando dizemos “dinheiro público”.

Por isso, quando o Estado perde milhares de milhões e depois perde também a capacidade de estabelecer responsabilidades em tempo útil, não estamos perante uma simples falha administrativa.

Estamos perante uma agressão profunda ao contrato democrático.

Os ricos podem sobreviver a um Estado ineficiente.

Os pobres precisam que ele funcione.

E talvez seja essa a acusação mais grave que podemos fazer à Justiça portuguesa:

não é apenas que seja lenta.

É que, quando falha perante os poderosos, a factura acaba quase sempre por chegar a quem nunca teve poder nenhum.

DADOS ESSENCIAIS

  • O Tribunal de Contas apurou um saldo global desfavorável ao Estado de 21.284 milhões de euros nos apoios públicos ao sector financeiro entre 2008 e 2024.
  • Esse valor é contabilístico e agrega operações distintas; não equivale a “dinheiro roubado” nem prova responsabilidade criminal individual.
  • O Relatório de 2026 sobre o Estado de Direito da Comissão Europeia afirma que persistem desafios na investigação, acusação e julgamento atempados de casos de corrupção, sobretudo de alto nível.
  • A Comissão Europeia reconhece simultaneamente progresso significativo na preparação de medidas para melhorar a eficiência dos processos criminais complexos.
  • A OCDE recomenda reforço da capacidade do sistema judicial português para lidar com casos de corrupção interna e transnacional e melhoria continuada da sua eficiência.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e crítica institucional. Não atribui culpa criminal a qualquer pessoa sem sentença definitiva, nem afirma que os 21.284 milhões de euros contabilizados pelo Tribunal de Contas correspondem a apropriação ilícita. O valor refere-se ao saldo líquido desfavorável ao Estado das intervenções públicas no sector financeiro entre 2008 e 2024.

A expressão «atentado contra o património colectivo» é empregada em sentido político e moral, não como qualificação penal. A tese editorial é que a incapacidade de decidir processos económico-financeiros complexos em prazo razoável pode produzir custos económicos, institucionais e democráticos que recaem de forma desproporcionada sobre os cidadãos mais dependentes dos serviços públicos.

A prescrição é uma garantia essencial de segurança jurídica e não deve ser confundida com absolvição no mérito. A crítica dirige-se ao risco de a duração excessiva do processo impedir uma decisão substantiva antes de esgotados os prazos legais.

O Relatório de 2026 sobre o Estado de Direito da Comissão Europeia documenta dificuldades persistentes no tratamento atempado de casos de corrupção de alto nível e recomenda novos esforços de eficiência. O mesmo relatório reconhece progresso significativo na preparação de reformas destinadas a processos criminais complexos.

Pesquisa factual e verificação de fontes assistidas por IA da OpenAI. A interpretação e o argumento editorial pertencem à crónica.

Referências credíveis e publicações internacionais

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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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