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Instituto Progresso: quando o futuro de Portugal volta a ficar entregue aos veteranos do passado

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CRÓNICA · POLÍTICA · PORTUGAL

Instituto Progresso: quando o futuro de Portugal volta a ficar entregue aos veteranos do passado

Portugal acaba de ganhar mais um instituto para pensar o futuro. O problema é que algumas das pessoas chamadas a imaginá-lo já tiveram anos para o construir.

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Há coisas que só Portugal consegue produzir com esta elegância involuntariamente cómica.

Depois de décadas de governos, secretários de Estado, deputados, administradores, assessores, observatórios, comissões estratégicas, grupos de reflexão, planos tecnológicos, agendas digitais, estratégias nacionais e documentos intitulados invariavelmente “Portugal 20qualquercoisa”, descobrimos finalmente o problema.

Ainda não pensámos suficientemente o país.

E assim nasceu o Instituto Progresso.

O nome, reconheça-se, é magnífico. Em Portugal temos uma relação quase poética com substantivos aspiracionais. Quanto menos uma coisa acontece, mais gostamos de lhe colocar o nome numa instituição.

Produtividade? Criamos uma comissão.
Simplificação? Criamos um programa.
Modernização? Um observatório.
Progresso?
Naturalmente, um instituto.

O recém-criado Instituto apresenta-se como suprapartidário, situado entre o centro e a esquerda, presidido pelo deputado socialista Miguel Costa Matos e subscrito por perto de duas centenas de personalidades, entre as quais antigos governantes, atuais e antigos deputados, académicos e responsáveis públicos. A intenção anunciada é meritória: produzir políticas baseadas em dados, experimentar soluções no terreno e passar do tradicional think tank para aquilo a que chamam um “do tank”.

Convém guardar esta expressão.

Do tank.

Portugal entrou finalmente na fase executiva da língua inglesa.

Durante cinquenta anos tivemos pessoas a governar, mas aparentemente estavam apenas em versão beta.

Agora vão do.

As melhores cabeças do país regressam ao laboratório

Miguel Costa Matos explica que pretende juntar algumas das melhores cabeças portuguesas para estudar os problemas com profundidade e escapar à espuma mediática. O Instituto promete investigação, propostas concretas, experimentação em projetos-piloto e avaliação de resultados.

Excelente.

Só há uma pequena pergunta desagradável, dessas que costumam estragar conferências:

Onde estiveram estas cabeças durante os últimos vinte anos?

Algumas estiveram, precisamente, no Governo.

Outras no Parlamento.

Outras em gabinetes ministeriais.

Outras nas instituições que elaboraram políticas públicas.

Entre os subscritores encontram-se, por exemplo, antigos governantes como Duarte Cordeiro, Maria Manuel Leitão Marques, Mário Campolargo e Catarina Marcelino, além de atuais deputados e figuras oriundas também do PSD e do Livre.

Nada disto os impede intelectualmente de produzir boas ideias. Seria absurdo defender isso.

Mas permite uma pergunta perfeitamente legítima:

Quando alguém passou anos dentro da máquina e, depois de sair da máquina, cria um instituto para descobrir porque é que a máquina não funciona, talvez o estudo devesse começar por uma visita ao espelho.

Seria um projeto-piloto barato.

Nem sequer precisava de fundos europeus.

E então aparece Isaltino

Mas a composição do grupo reservou-nos uma pequena joia de simbolismo nacional.

Entre as personalidades subscritoras encontra-se Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras.

Aqui a sátira quase se torna desnecessária. Os factos trabalham sozinhos.

Isaltino Morais foi condenado, após recursos, a dois anos de prisão efetiva por fraude fiscal e branqueamento de capitais. Acabou por cumprir efetivamente pouco mais de um ano, tendo saído em liberdade condicional em 2014. A referência é factual e diz respeito ao seu percurso judicial passado, não constituindo qualquer imputação sobre a sua atuação presente.

Naturalmente, cumpriu a pena que lhe foi determinada e pôde regressar à vida política. Assim funciona um Estado de direito.

Mas há qualquer coisa de extraordinariamente portuguesa em colocar uma figura com este percurso entre um conjunto de personalidades convocadas para refletir sobre o futuro institucional do país.

Não digo que Isaltino não possa pensar o futuro.

Certamente pode.

Tem até experiência institucional bastante diversificada.

Autarquia.
Tribunais.
Estabelecimento prisional.
Regresso triunfal às urnas.

Poucos currículos apresentam uma visão tão completa do funcionamento do Estado português.

Se o Instituto pretende estudar a resiliência das carreiras políticas, sugiro que dispense o projeto-piloto.

Já possui um estudo longitudinal completo.

Portugal sofre de excesso de diagnóstico

A parte mais divertida é que o próprio Instituto identifica problemas que Portugal discute há décadas: baixa produtividade, dificuldade de reforma, Estado pouco ágil, improvisação, falta de planeamento de longo prazo e distância entre conhecimento e decisão política.

Extraordinária descoberta.

É aproximadamente como criar em 2026 o Instituto Português de Investigação da Água Molhada.

Sabemos que Portugal tem problemas persistentes de produtividade.

Sabemos que muitas empresas têm pouca escala.

Sabemos que a Administração Pública ainda suporta demasiada fragmentação e complexidade processual.

Sabemos que a justiça económica pode ser lenta.

Sabemos que os salários continuam baixos em comparação com os países mais ricos da Europa.

Sabemos que muitos jovens qualificados procuram oportunidades no estrangeiro.

Sabemos que a burocracia consome tempo, energia e investimento.

Sabemos que existe dificuldade crónica em executar reformas estruturais.

A OCDE, no seu Economic Survey: Portugal 2026, voltou a chamar a atenção para a produtividade: apesar de progressos recentes, a produtividade do trabalho portuguesa permanece cerca de 17% abaixo da média da OCDE, e a organização aponta a complexidade administrativa, a pequena dimensão de muitas empresas e o défice de transformação da investigação em inovação como alguns dos obstáculos a enfrentar.

A própria Comissão Europeia, no Country Report Portugal 2026, continua a dedicar dezenas de páginas aos desafios estruturais do país. Não estamos propriamente perante um território virgem que aguarda os primeiros cartógrafos.

A quantidade de relatórios portugueses e internacionais que já explicaram estas coisas provavelmente exige um armazém climatizado.

O problema de Portugal nunca foi falta de diagnóstico.
Foi cirurgia.

Ciência, dados e planeamento

O manifesto do Instituto sustenta que o futuro do país deve assentar em ciência, dados e planeamento.

Sensato.

Mas aqui surge outro pequeno inconveniente histórico.

Portugal já possui universidades, INE, Banco de Portugal, Conselho das Finanças Públicas, laboratórios do Estado, centros de investigação, fundações, think tanks, ordens profissionais, milhares de investigadores e uma quantidade apreciável de dados.

Não estamos propriamente a tentar governar a Mesopotâmia em 2300 a.C. com uma tabuleta de argila e três cabras.

Os dados existem.

O extraordinário talento português consiste frequentemente em estudá-los, organizar uma conferência sobre eles, publicar um relatório de 184 páginas, criar uma comissão para analisar as conclusões e, três governos depois, encomendar novo estudo para descobrir se o problema ainda existe.

Existe.

É persistente, o malandro.

O maravilhoso “do tank”

Mas quero conceder ao Instituto um ponto importante.

A ideia de experimentar políticas públicas em pequena escala, estabelecer métricas, medir resultados e só depois generalizar é boa. Muito boa, aliás. É precisamente assim que políticas sérias deveriam ser tratadas: hipótese, experiência, dados, avaliação e correção. O Instituto anuncia projetos-piloto com autarquias, universidades, empresas e sociedade civil.

E aqui há substância internacional que merece ser levada a sério. A OCDE publicou em 2024 um estudo especificamente dedicado a Portugal, Improving decision making through policy evaluation in Portugal, defendendo que a avaliação sistemática é essencial para perceber o que funciona, porquê, para quem e em que circunstâncias. Em 2025, a mesma organização voltou a insistir que a avaliação deve integrar o ciclo normal das políticas públicas. A Comissão Europeia aplica igualmente o princípio evaluate first na sua agenda de Better Regulation.

Portanto, se o Instituto fizer realmente isto, terá mérito.

Mas existe uma condição terrivelmente pouco portuguesa:

publicar também os fracassos.

Quero ver um relatório do Instituto Progresso escrever:

“Testámos esta política durante doze meses. Custou 1,7 milhões. Não funcionou. A hipótese estava errada.”

Nesse dia abrirei uma garrafa.

Porque teremos introduzido em Portugal uma tecnologia verdadeiramente revolucionária:

a admissão institucional do erro.

Talvez seja necessário financiamento do CERN.

A nova geração, acompanhada pelas anteriores

O Instituto apresenta também a ideia de “uma nova geração a liderar o debate”.

E eu gosto da ideia.

Só não compreendo porque é que uma nova geração portuguesa precisa sempre de aparecer rodeada pelas gerações que estiveram no poder nas últimas décadas.

É uma peculiaridade nacional.

Mudamos de geração aproximadamente como mudamos os móveis da sala:

os novos entram, mas o sofá velho fica.

Há sempre antigos ministros.

Antigos secretários de Estado.

Antigos dirigentes partidários.

Antigos administradores.

Antigos deputados.

E depois alguém sobe ao palco e anuncia:

“Precisamos de pensar diferente.”

Atrás dele estão precisamente as pessoas que pensaram anteriormente.

Há uma espécie de conservação de massa política em Portugal.

Nada se cria.

Nada se perde.

Tudo se reconverte em conselho estratégico.

O país permanentemente em reunião

Talvez seja este o verdadeiro drama português.

Não nos falta inteligência.

Portugal tem excelentes cientistas, engenheiros, médicos, empresários, gestores, programadores e investigadores.

Não nos faltam sequer ideias.

Falta-nos uma cultura feroz de execução, avaliação e responsabilidade.

Quem decidiu?
Qual era o objetivo?
Quanto custou?
Que prazo tinha?
Funcionou?
Qual era a métrica?
Quem responde se falhou?

Estas perguntas têm em Portugal aproximadamente a mesma popularidade que um cobrador de impostos numa festa de aniversário.

É muito mais confortável falar de visões estratégicas.

As visões têm uma extraordinária vantagem administrativa:

não podem ser auditadas.

O futuro chegará depois do coffee break

O Instituto Progresso anunciou a sua conferência inaugural para 19 de setembro, às 14h30, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Imagino o cenário.

14h30: abertura.
15h00: Os desafios estruturais de Portugal.
16h00: Uma nova visão para a produtividade.
17h00: Portugal na era da inteligência artificial.
17h45: coffee break.

Nota para os historiadores do futuro: o programa acima é satírico e imaginário; à data desta crónica, o Instituto anunciava apenas que o programa seria divulgado posteriormente.

É precisamente durante o coffee break que provavelmente uma pequena empresa portuguesa estará a tentar obter uma licença há seis meses.

Um investigador estará à espera de financiamento.

Um programador terá emigrado.

Um empresário estará a preencher o mesmo dado em três plataformas públicas diferentes.

E alguém numa PME estará a tentar perceber porque é que o portal do Estado decidiu que JavaScript é um luxo ocidental.

Mas tranquilizemo-nos.

O futuro está a ser pensado.

Portugal, o país onde o futuro nunca chega porque está numa comissão

Desejo genuinamente que o Instituto Progresso tenha sucesso.

Seria excelente que produzisse experiências mensuráveis, revelasse dados, desafiasse dogmas do seu próprio campo político, reconhecesse políticas que falharam e apresentasse soluções que pudessem ser testadas independentemente da cor partidária.

Se fizer isso, merecerá respeito.

Mas até lá mantenho o direito ao cepticismo.

Porque Portugal já teve demasiadas pessoas a pensar o país.

Algumas delas tiveram mesmo ministérios, orçamentos, maiorias parlamentares e máquinas administrativas inteiras à disposição para o transformar.

E agora regressam para nos explicar que é urgente transformar Portugal.

É impossível não apreciar a elegância da coisa.

É como contratar o arquiteto, viver vinte anos numa casa cheia de infiltrações e depois convidá-lo para presidir ao Instituto Nacional de Estudos sobre Humidade.

Portugal não precisa desesperadamente de mais duzentos sábios a imaginar o futuro.

Precisa de algumas dezenas de pessoas competentes com autoridade para fazer coisas, prazo para terminá-las, métricas para avaliá-las e coragem para assumir:

“Funcionou.”

ou

“Falhámos.”

O resto já sabemos fazer magnificamente.

Chama-se reunião.

E nisso, convenhamos, Portugal continua orgulhosamente na vanguarda mundial.

Referências e leituras

  1. Instituto Progresso — apresentação institucional, manifesto público, objetivos, metodologia e conferência inaugural. institutoprogresso.pt.
  2. Instituto Progresso — O que fazemos — áreas de intervenção, monitorização, investigação, projetos-piloto e avaliação. institutoprogresso.pt/o-que-fazemos.
  3. Lusa / ECO (26 agosto 2026), “Instituto Progresso nasce entre centro e esquerda para pensar e testar políticas públicas”. ECO.
  4. RTP (14 julho 2010), “Tribunal reduziu para dois anos pena de prisão de Isaltino Morais”. RTP Notícias.
  5. RTP / Lusa (2014), “Isaltino Morais sai da cadeia”. RTP Notícias.
  6. OECD (2026), OECD Economic Surveys: Portugal 2026, OECD Publishing. OECD. DOI: 10.1787/025b3445-en.
  7. European Commission (3 June 2026), 2026 Country Report — Portugal. European Commission.
  8. OECD (2024), Improving decision making through policy evaluation in Portugal, OECD Public Governance Policy Papers, No. 63. OECD. DOI: 10.1787/4f8ef34d-en.
  9. OECD (2025), Government at a Glance 2025 — Public policy evaluation. OECD.
  10. European Commission, Better Regulation — evidence-based policy, evaluation, impact assessment and the “evaluate first” principle. European Commission.
  11. World Bank, Worldwide Governance Indicators — international indicators covering government effectiveness, regulatory quality, rule of law and control of corruption. World Bank.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos · Crónica e opinião

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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