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O País dos Doutores sem Técnicos

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O País dos Doutores sem Técnicos

Quando a universidade se transforma em destino obrigatório e a economia fica sem quem saiba fazer

Nota de abertura:
Portugal precisava de aumentar a escolaridade e conseguiu fazê-lo. O problema começa quando uma conquista necessária se transforma numa superstição social: a ideia de que quase todos os jovens devem seguir para a universidade, independentemente das suas aptidões, interesses ou perfil cognitivo. Entretanto, faltam electricistas, canalizadores, mecânicos, técnicos de climatização, instaladores e outros profissionais sem os quais nenhuma sociedade moderna funciona durante muito tempo.

Durante décadas Portugal teve um problema evidente: escolaridade insuficiente, abandono precoce e uma percentagem reduzida da população com formação superior.

Era preciso corrigir esse atraso. E foi corrigido em boa medida.

Mas, como tantas vezes acontece, começámos a confundir uma política necessária com uma verdade universal.

Instalou-se lentamente uma ideia cultural simples: um jovem que tenha sucesso deve ir para a universidade.

Não interessa muito se gosta de estudar de forma académica. Não interessa se possui uma extraordinária inteligência espacial, talento mecânico, habilidade manual, curiosidade por máquinas ou capacidade para resolver problemas concretos. Não interessa sequer se aquilo que deseja fazer profissionalmente exige uma licenciatura.

A pergunta social aparece quase automaticamente:

“Então, que curso vais tirar?”

Como se qualquer resposta que não envolvesse uma universidade fosse uma pequena derrota familiar.

Uma sociedade não vive apenas de licenciados

Precisamos de médicos, engenheiros, professores, investigadores, juristas, programadores e muitos outros profissionais cuja formação superior é indispensável.

Mas uma sociedade também precisa de electricistas, canalizadores, soldadores, mecânicos, técnicos de AVAC, técnicos de manutenção industrial, instaladores de equipamentos, carpinteiros especializados, técnicos de automação, operadores qualificados e profissionais da construção.

Estas profissões não são vestígios de uma economia antiga prestes a desaparecer perante a gloriosa marcha do mundo digital.

São precisamente algumas das profissões que mantêm o mundo digital, os edifícios, as fábricas, as casas, os hospitais e as cidades fisicamente em funcionamento.

Uma bomba de calor não se instala por videoconferência.

Um quadro eléctrico não se repara com um webinar.

E uma canalização rebentada continua magnificamente indiferente ao número de mestrados existentes dentro de casa.

A velha hierarquia do prestígio

Durante demasiado tempo construímos uma hierarquia social intelectualmente pobre:

Licenciado significa sucesso. Técnico significa alguém que “não conseguiu estudar”.

É uma ideia absurda.

Um bom electricista industrial precisa de compreender circuitos, cargas, protecções, segurança, regulamentação e diagnóstico. Um técnico moderno de climatização trabalha com termodinâmica, electricidade, electrónica, sensores, controlo e bombas de calor. Um mecânico encontra máquinas cheias de unidades electrónicas e software. Um técnico de automação pode trabalhar diariamente com PLC, redes industriais, sensores, actuadores e sistemas de controlo.

Isto é conhecimento técnico.

Exige estudo. Exige raciocínio. Exige experiência. E exige uma forma particularmente incómoda de competência: aquela que tem de funcionar no mundo real.

Os números começam a devolver a mensagem de erro

Portugal fez um progresso importante no ensino superior. O Cedefop indica que, em 2023, 41,5% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham formação superior, valor próximo dos 43,1% da União Europeia.

Mas a mesma fonte mostra a outra metade do retrato: apenas 37,9% dos alunos do secundário superior participavam em ensino e formação profissional, contra 49,1% na União Europeia. Em 2013 eram 45,8%.

Ou seja, enquanto aproximámos Portugal dos países europeus no ensino superior, a via profissional continua relativamente pouco valorizada e perdeu peso.

A economia, que possui pouca sensibilidade para cerimónias académicas, começou entretanto a responder.

Temos pessoas qualificadas, mas nem sempre temos as competências de que a economia precisa.

A OCDE, no Economic Survey of Portugal 2026, assinala que muitas empresas portuguesas têm dificuldade em recrutar trabalhadores com as competências adequadas. As carências são particularmente visíveis, entre outros sectores, na construção e nas actividades tecnológicas, e a organização recomenda o reforço do ensino profissional secundário e da formação em contexto de trabalho.

A EURES identifica igualmente carências em profissões ligadas aos metais e máquinas, manutenção industrial, instalações eléctricas, construção e outras funções técnicas. Em várias regiões portuguesas, o diagnóstico repete-se: é difícil encontrar determinadas competências.

DADOS ESSENCIAIS

  • 41,5% dos portugueses entre os 25 e os 34 anos tinham formação superior em 2023; a média da UE-27 era 43,1%.
  • 37,9% dos alunos do secundário superior estavam em vias de ensino e formação profissional; na UE-27 eram 49,1%.
  • A OCDE refere dificuldades crescentes das empresas portuguesas em encontrar trabalhadores com as competências adequadas.
  • A EURES identifica escassez em várias profissões técnicas e de manutenção, incluindo funções eléctricas, mecânicas e industriais.
  • A OCDE estima que a população nascida no estrangeiro representava cerca de 16% da população portuguesa em 2024, mas assinala simultaneamente forte subutilização das qualificações de muitos migrantes.

A imigração aumenta a oferta de trabalho, não fabrica competências

Nos últimos anos Portugal recebeu uma imigração muito significativa. Isso ajudou a aumentar a população activa, a aliviar parcialmente o envelhecimento demográfico e a fornecer trabalhadores a vários sectores.

Mas existe aqui outro equívoco frequente: aumentar o número de trabalhadores não significa automaticamente aumentar o número de trabalhadores com as qualificações exactas de que o país necessita.

A população imigrante é heterogénea. Há pessoas altamente qualificadas, trabalhadores técnicos, profissionais sem formação especializada e pessoas cujas qualificações simplesmente não são reconhecidas ou são mal aproveitadas em Portugal.

A OCDE mostra precisamente essa contradição. A imigração tornou-se uma componente fundamental da oferta de trabalho portuguesa e a população nascida no estrangeiro atingiu cerca de 16% em 2024. Ao mesmo tempo, Portugal apresenta uma das taxas mais elevadas de sobrequalificação de migrantes na OCDE, sobretudo entre aqueles que possuem ensino superior.

Portanto, a questão não é nacionalidade.

É correspondência entre pessoas, formação e necessidades económicas.

Uma política de imigração pode aumentar a mão-de-obra. Só uma política de competências transforma mão-de-obra nas qualificações de que o país necessita.

Importar pessoas não substitui formar pessoas

Se Portugal necessita de milhares de electricistas, técnicos de manutenção, instaladores, soldadores ou profissionais da construção e recebe trabalhadores sem essas competências específicas, a escassez continua a existir.

Há mais pessoas disponíveis para trabalhar.

Mas o défice técnico permanece.

Por isso, uma política séria tem de combinar imigração, reconhecimento rápido de qualificações, formação profissional, aprendizagem em empresas e identificação antecipada das necessidades de mão-de-obra.

O problema não se resolve contando entradas de pessoas. Resolve-se perguntando que competências existem, quais faltam e quanto tempo demora a formá-las.

O jovem que poderia ter sido um excelente técnico

Imagine-se um jovem com grande inteligência espacial. Percebe rapidamente como uma máquina funciona. Gosta de desmontar coisas e, contra todas as probabilidades, consegue voltar a montá-las sem deixar três parafusos em cima da mesa.

Tem habilidade manual. Gosta de electricidade, electrónica, construção ou mecânica. Resolve problemas práticos depressa. Mas não sente especial entusiasmo por anos de ensino académico abstracto.

A pergunta habitual continua a ser:

“Então, não vais para a universidade?”

Talvez a pergunta inteligente fosse:

“Em que podes tornar-te extraordinariamente bom?”

Pode tornar-se um electricista industrial excepcional.

Um técnico de automação.

Um especialista em climatização.

Um mecânico altamente qualificado.

Um técnico de sistemas solares.

Um instalador especializado.

Ou criar a sua própria empresa e empregar outros profissionais.

Empurrá-lo para uma licenciatura indiferenciada apenas para satisfazer uma convenção social pode produzir um dos resultados mais portugueses que consigo imaginar:

um licenciado medíocre onde poderia ter existido um técnico excelente.

Universidade para quem deve ir. Formação técnica para quem deve escolher outra via.

A universidade não é o problema.

Seria intelectualmente absurdo defender menos conhecimento ou menos educação.

O problema é transformar o ensino superior na única forma socialmente respeitável de sucesso educativo.

Há jovens com aptidão académica que devem ser estimulados a chegar tão longe quanto conseguirem.

Há outros cuja inteligência se manifesta melhor na engenharia prática, na técnica, na construção, na manutenção ou na execução especializada.

Ambos podem ser extraordinariamente competentes.

Uma sociedade inteligente não transforma vias educativas diferentes numa hierarquia humana.

Cria percursos exigentes, permeáveis e prestigiados.

Um técnico deve poder prosseguir posteriormente estudos superiores.

Um universitário deve poder reorientar-se para formação profissional.

Não devemos escolher o destino de uma pessoa aos quinze anos.

Devemos proporcionar-lhe instrumentos para descobrir onde as suas capacidades podem produzir mais valor e mais realização.

A ironia do mercado

Há entretanto uma pequena vingança económica em curso.

Quando uma competência se torna escassa, o seu valor sobe.

Um excelente canalizador, electricista, técnico de AVAC, mecânico ou especialista de manutenção pode hoje obter rendimentos muito competitivos porque possui uma combinação que o mercado aprecia bastante:

conhecimento especializado + experiência + procura real.

Ao mesmo tempo, podemos produzir milhares de diplomados para áreas em que a oferta excede a procura e vê-los depois exercer funções que nunca exigiram ensino superior.

É uma utilização extraordinariamente engenhosa de recursos: financiamos anos de formação, entregamos um diploma e depois descobrimos que não conseguimos encontrar quem repare a instalação eléctrica.

A sociedade gosta de estatuto.

A economia, mal-educadamente, continua a pedir competência.

O que Portugal deveria perguntar

Portugal não precisa de escolher entre universidade e formação profissional.

Precisa de deixar de tratar uma delas como promoção social e a outra como consolação.

Precisamos de melhor orientação escolar, baseada em aptidões, interesses, literacia, raciocínio lógico, capacidade espacial e perfil técnico.

Precisamos de cursos profissionais exigentes e actualizados.

Precisamos de mais aprendizagem dentro de empresas.

Precisamos de certificação profissional séria.

Precisamos de formação contínua, porque um técnico de 2026 trabalha frequentemente com electrónica, software e automação que não existiam quando iniciou a carreira.

E precisamos de uma política migratória ligada às necessidades de competências, sem imaginar que qualquer aumento populacional resolve automaticamente qualquer falta de mão-de-obra especializada.

O objectivo não é produzir diplomas

Um diploma pode certificar aprendizagem.

Não fabrica talento.

Não fabrica responsabilidade.

Não fabrica curiosidade.

E não transforma automaticamente conhecimento teórico em capacidade profissional.

Uma sociedade moderna precisa de pessoas capazes de pensar.

Mas também precisa de pessoas capazes de construir, instalar, reparar, manter, diagnosticar e produzir.

Esses profissionais não são cidadãos educativos de segunda categoria.

São algumas das pessoas sem as quais o resto da sociedade deixa rapidamente de funcionar.

Podemos ter muitos doutores.

Mas quando a água começa a atravessar o tecto às três da manhã ocorre uma súbita e admirável revisão da hierarquia social.

Ninguém pergunta ao canalizador onde fez o mestrado.

Pergunta apenas:

“Consegue resolver isto?”

E talvez seja precisamente essa a pergunta que Portugal deveria fazer ao sistema educativo.

Não quantos diplomas produzimos.

Mas quantas pessoas realmente competentes estamos a formar.

Porque o objectivo da educação não deveria ser fabricar títulos.

Deveria ser desenvolver capacidades.

E uma economia não se constrói com prestígio social.

Constrói-se com competência.

Nota Editorial

Esta crónica é uma peça de opinião sobre o equilíbrio entre ensino superior, formação profissional e necessidades de competências em Portugal. A expressão “todos têm de ir para a universidade” descreve uma percepção cultural, não uma política oficial. O crescimento do ensino superior em Portugal foi uma conquista social importante e continua a ter elevado valor económico e cívico.

O argumento central não é que Portugal possua “educação a mais”, mas que uma economia desenvolvida necessita de diferentes tipos de qualificação e não deve tratar a formação técnica como uma via socialmente inferior. Os dados do Cedefop mostram uma participação portuguesa no ensino profissional secundário abaixo da média da União Europeia, enquanto a OCDE identifica desajustamentos de competências e dificuldades empresariais de recrutamento em sectores importantes.

A referência à imigração deve igualmente ser entendida em termos de competências e não de nacionalidade. A OCDE documenta simultaneamente o forte contributo da imigração para a oferta de trabalho portuguesa e a subutilização das qualificações de muitos migrantes. Uma política de competências deve, por isso, combinar formação nacional, reconhecimento de qualificações estrangeiras, integração profissional e recrutamento orientado para necessidades concretas.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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