A Sociedade que Aprendeu o Preço de Tudo e o Valor de Quase Nada
A Sociedade que Aprendeu o Preço de Tudo e o Valor de Quase Nada
Quando sucesso, visibilidade e riqueza ocupam o lugar do carácter, da competência e da dignidade.
Nota de abertura:
Esta crónica retoma uma inquietação escrita em Junho de 2013: a substituição progressiva dos homens de valor pelos homens de sucesso. Treze anos depois, o problema tornou-se mais vasto. A economia da atenção, a desigualdade, a polarização, a fragilidade da confiança pública e a transformação da reputação em produto deram escala industrial a uma velha tentação humana: confundir aquilo que brilha com aquilo que vale.
Vivemos talvez na época mais tecnologicamente sofisticada da história humana.
Construímos máquinas capazes de atravessar o espaço, redes que ligam continentes em fracções de segundo, sistemas de inteligência artificial capazes de conversar, programar, traduzir, diagnosticar, criar imagens e organizar quantidades gigantescas de conhecimento.
Nunca tivemos tanto.
E talvez nunca tenhamos confundido tanto aquilo que temos com aquilo que somos.
Porque enquanto a tecnologia avança a uma velocidade quase vertiginosa, a nossa arquitectura moral parece caminhar em sentido contrário.
A sociedade contemporânea aperfeiçoou extraordinariamente a capacidade de medir.
Medimos rendimento.
Medimos produtividade.
Medimos audiências.
Medimos seguidores.
Medimos crescimento.
Medimos mercados.
Medimos influência.
Medimos praticamente tudo aquilo que cabe numa folha de cálculo.
Mas continuamos com uma dificuldade curiosamente primitiva para medir aquilo que realmente sustenta uma civilização:
carácter.
honestidade.
responsabilidade.
coragem.
competência.
solidariedade.
dignidade.
Talvez porque essas coisas tenham o inconveniente económico de não caberem facilmente numa coluna de Excel.
O triunfo do sucesso
Durante séculos, as sociedades procuraram definir modelos de virtude.
Nem sempre conseguiram.
Frequentemente foram hipócritas.
Mas existia pelo menos a noção de que um ser humano deveria aspirar a alguma coisa para além da riqueza.
Hoje, uma grande parte do imaginário colectivo substituiu essa palavra por outra:
sucesso.
É preciso ser bem-sucedido.
Não necessariamente útil.
Não necessariamente justo.
Não necessariamente competente.
Não necessariamente digno.
Bem-sucedido.
A distinção parece pequena.
É gigantesca.
Um homem de valor pergunta:
“O que posso construir?”
O homem de sucesso pergunta:
“Como posso subir?”
O primeiro preocupa-se com aquilo que deixa.
O segundo preocupa-se com aquilo que consegue obter.
Naturalmente, uma pessoa pode ser simultaneamente bem-sucedida e valiosa.
O problema começa quando a sociedade passa a assumir que a primeira condição prova automaticamente a segunda.
Não prova.
A história está abundantemente povoada por indivíduos extremamente bem-sucedidos que seriam excelentes argumentos contra semelhante teoria.
A nova aristocracia
As antigas aristocracias justificavam os seus privilégios pelo nascimento.
As modernas justificam-nos pelo sucesso.
A linguagem mudou.
O mecanismo nem sempre mudou assim tanto.
Hoje chamamos mérito àquilo que demasiadas vezes mistura trabalho, oportunidade, herança, contactos, contexto social, sorte e capacidade de ocupar o lugar certo no momento certo.
Depois construímos uma narrativa retrospectiva.
O vencedor explica que venceu exclusivamente porque trabalhou mais.
O derrotado ouve que perdeu porque não tentou suficientemente.
É uma história extremamente confortável.
Sobretudo para quem ganhou.
Permite transformar fortuna em virtude e desigualdade em justiça natural.
Assim nasce uma sociedade onde os privilegiados podem acreditar sinceramente que merecem cada centímetro da sua posição enquanto os restantes são convidados a participar alegremente numa competição cujo ponto de partida nunca foi igual.
A economia da aparência
Nunca a aparência teve tamanho valor económico.
É possível construir carreiras inteiras a parecer competente.
Parecer informado.
Parecer rico.
Parecer feliz.
Parecer especialista.
Parecer indignado.
Parecer moralmente superior.
As redes sociais não inventaram esta tendência.
Apenas lhe forneceram infra-estrutura industrial.
Durante milhares de anos, a reputação era construída dentro de comunidades relativamente pequenas.
As pessoas conheciam aquilo que alguém fazia.
Hoje milhões podem conhecer aquilo que alguém diz que faz.
Essa diferença criou uma economia gigantesca da representação.
O importante deixa progressivamente de ser fazer.
Passa a ser parecer que se faz.
Nas empresas, multiplicam-se apresentações sobre produtividade.
Na política, multiplicam-se anúncios sobre governação.
Nas redes, multiplicam-se discursos sobre felicidade.
Talvez sobrem menos horas para produzir, governar e ser feliz.
Mas a comunicação está impecável.
A indústria da opinião
Também nunca tivemos tanta informação disponível.
E nunca foi tão difícil perceber aquilo que merece confiança.
Milhões de pessoas recebem diariamente notícias, opiniões, vídeos, comentários, rumores, análises e propaganda num fluxo praticamente contínuo.
Já não existe silêncio suficiente para pensar.
Existe conteúdo.
Conteúdo interminável.
A palavra é reveladora.
Uma sinfonia é conteúdo.
Uma investigação científica é conteúdo.
Uma mentira num vídeo de quinze segundos é conteúdo.
Um tratado filosófico é conteúdo.
Um gato a cair de uma mesa também.
A máquina digital resolveu magnificamente a distribuição.
Nunca prometeu resolver o discernimento.
E assim construímos sociedades extraordinariamente informadas sobre acontecimentos triviais e surpreendentemente ignorantes sobre processos fundamentais.
Sabemos quem disse uma frase absurda esta manhã.
Talvez não saibamos explicar como funciona o orçamento do nosso próprio país.
Conhecemos a polémica da semana.
Desconhecemos a tendência de vinte anos.
A democracia começa então a ser governada pela atenção.
E a atenção é um recurso cada vez mais comercializado.
A morte da honestidade intelectual
Existe, contudo, uma degradação ainda mais perigosa.
A perda da honestidade intelectual.
Não é necessário que alguém seja neutro.
A neutralidade absoluta é provavelmente uma fantasia.
É necessário algo muito mais modesto:
não mentir deliberadamente.
Não esconder aquilo que sabemos apenas porque contradiz a nossa posição.
Não transformar dúvidas em certezas.
Não apresentar propaganda como análise.
Não distorcer factos para proteger uma tribo política, económica ou ideológica.
Parece pouco.
Tornou-se extraordinariamente exigente.
Porque existe hoje um mercado considerável para opiniões convenientes.
Há sempre uma audiência para aquilo que queremos ouvir.
Há sempre alguém disposto a confirmar aquilo em que já acreditamos.
E frequentemente há também alguém disposto a pagar por isso.
A mentira deixou de ser simplesmente uma falha moral.
Pode ser um modelo de negócio.
Tribos com Internet
Imaginámos durante algum tempo que a Internet criaria uma inteligência colectiva global.
Não era uma ideia absurda.
Milhares de milhões de pessoas ligadas poderiam partilhar conhecimento, confrontar perspectivas e cooperar numa escala histórica sem precedentes.
Aconteceu.
Mas aconteceu outra coisa simultaneamente.
As tribos também ganharam Internet.
Agora cada preconceito consegue encontrar comunidade.
Cada teoria encontra seguidores.
Cada ressentimento encontra amplificação.
Cada fanático pode descobrir, em segundos, que não está sozinho.
O resultado é uma estranha combinação de tecnologia do século XXI com instintos sociais bastante anteriores à agricultura.
Continuamos profundamente tribais.
Apenas melhorámos a largura de banda.
Política sem horizonte
A política sofre da mesma doença.
Governar deveria significar preparar sociedades para décadas.
Mas a arquitectura política recompensa frequentemente horizontes muito mais curtos.
Próxima sondagem.
Próxima eleição.
Próximo ciclo mediático.
Próxima crise.
Planear vinte anos raramente produz votos amanhã.
Resolver problemas estruturais implica decisões difíceis.
Adiar custa muito menos.
Assim, governos sucessivos aprendem a gerir consequências enquanto evitam causas.
Chamamos pragmatismo à procrastinação organizada.
Depois ficamos surpreendidos quando problemas de décadas aparecem simultaneamente.
Habitação.
Demografia.
Educação.
Saúde.
Infra-estruturas.
Produtividade.
Alterações climáticas.
Desigualdade.
A realidade possui uma característica desagradável para a comunicação política:
não desaparece quando muda o assunto das notícias.
A civilização do imediato
Talvez uma das maiores transformações culturais seja a destruição progressiva do tempo longo.
Queremos respostas imediatamente.
Entregas imediatamente.
Resultados imediatamente.
Reconhecimento imediatamente.
Carreiras imediatamente.
A própria atenção tornou-se impaciente.
Um texto com dez páginas parece longo.
Um vídeo com vinte minutos exige compromisso.
Uma ideia complexa começa a ser suspeita precisamente porque não cabe numa frase.
Mas quase tudo aquilo que realmente importa necessita de tempo.
Conhecimento.
Confiança.
Ciência.
Instituições.
Amizade.
Competência.
Educação.
Civilização.
Nenhuma destas coisas possui botão de entrega no próprio dia.
Construir exige tempo.
Destruir continua extraordinariamente rápido.
Quando o cidadão se transforma em cliente
As democracias também sofreram outra transformação silenciosa.
O cidadão começou a comportar-se como consumidor.
Espera serviços.
Exige resultados.
Avalia governos.
Tudo perfeitamente legítimo.
Mas uma democracia não é uma loja.
O cidadão não é apenas cliente do Estado.
É parte dele.
Tem direitos.
Mas também responsabilidades.
Tem liberdade.
Mas também deveres.
Tem voz.
Mas deveria ter igualmente disponibilidade para compreender aquilo sobre que fala.
Uma democracia de cidadãos exige participação.
Uma democracia de consumidores exige apenas satisfação.
É uma diferença perigosa.
Porque quando a política passa a ser avaliada exclusivamente como produto, inevitavelmente aparecem políticos especializados em marketing.
A tecnologia não nos salvará de nós próprios
É tentador acreditar que a tecnologia resolverá estas contradições.
Inteligência artificial.
Automação.
Ciência.
Novos sistemas educativos.
Novas plataformas democráticas.
Tudo isto pode ajudar.
Mas nenhuma máquina conseguirá decidir por nós aquilo que consideramos valioso.
Um algoritmo pode optimizar um objectivo.
Não pode escolher legitimamente o objectivo da civilização.
Pode ajudar-nos a produzir mais.
Não pode explicar por que razão precisamos de produzir.
Pode maximizar atenção.
Não pode determinar aquilo que merece atenção.
Pode ajudar-nos a viver mais anos.
Não consegue decidir o que torna esses anos dignos de serem vividos.
Esta continuará a ser uma responsabilidade humana.
Que inconveniência.
Homens de sucesso ou homens de valor
Talvez regressemos finalmente à questão essencial.
Que pessoas admiramos?
Quem mostramos aos jovens como exemplo?
O milionário porque é milionário?
O famoso porque é famoso?
O poderoso porque chegou ao poder?
Ou alguém que construiu alguma coisa útil?
Alguém que manteve princípios quando seria lucrativo abandoná-los?
Alguém que criou conhecimento?
Alguém que serviu outros seres humanos?
Alguém que teve coragem para dizer não?
Uma sociedade revela muito sobre si através dos seus heróis.
Quando admira apenas riqueza, produzirá pessoas obcecadas com riqueza.
Quando admira poder, produzirá candidatos ao poder.
Quando admira aparência, produzirá actores sociais.
Quando admira carácter, talvez ainda consiga produzir cidadãos.
O que sustenta uma civilização
Civilizações não desaparecem apenas através de invasões.
Também podem apodrecer por dentro.
Quando as instituições deixam de merecer confiança.
Quando a verdade se transforma numa mercadoria.
Quando a incompetência deixa de ter consequências.
Quando a responsabilidade desaparece.
Quando o oportunismo é premiado.
Quando os melhores começam a desistir.
Quando aqueles que possuem princípios parecem ingénuos perante aqueles que aprenderam todos os atalhos.
É então que uma sociedade começa lentamente a perder aquilo que nenhum indicador económico consegue medir.
A sua espinha dorsal.
Podemos continuar ricos.
Podemos continuar tecnologicamente avançados.
Podemos continuar a construir edifícios magníficos e redes extraordinárias.
E ainda assim estar culturalmente empobrecidos.
Porque uma civilização não é a soma das suas máquinas.
É a qualidade das relações humanas que consegue estabelecer em torno delas.
A escolha
Não estamos condenados.
Sociedades mudam.
Valores mudam.
Prioridades mudam.
Mas primeiro é necessário recuperar algumas distinções elementares que parecem ter desaparecido no ruído.
Sucesso não é valor.
Riqueza não é mérito.
Influência não é conhecimento.
Popularidade não é verdade.
Liberdade não é ausência de responsabilidade.
Informação não é sabedoria.
Tecnologia não é progresso moral.
E talvez a mais importante:
vencer não significa necessariamente ter razão.
Uma sociedade saudável não precisa de santos.
Precisa apenas de cidadãos suficientemente lúcidos para perceber que aquilo que recompensa hoje será aquilo que receberá amanhã.
Se premiarmos oportunistas, teremos oportunistas.
Se premiarmos mediocridade, teremos mediocridade.
Se premiarmos mentira, teremos excelentes mentirosos.
Mas se começarmos novamente a valorizar conhecimento, integridade, competência, coragem e serviço, talvez descubramos que os homens e mulheres de valor nunca estiveram realmente em extinção.
Talvez tenhamos apenas deixado de olhar para eles.
E uma civilização começa talvez a recuperar exactamente nesse instante:
quando volta a admirar aquilo que merece ser admirado.
ELEMENTOS CENTRAIS
- As sociedades contemporâneas medem com enorme precisão riqueza, audiência e desempenho, mas continuam a tratar carácter, honestidade e responsabilidade como variáveis quase invisíveis.
- A desigualdade não se limita ao rendimento: condiciona acesso a oportunidades, capital humano, influência e mobilidade social.
- A confiança em instituições, media e outros cidadãos tornou-se um recurso democrático crítico, num contexto de polarização, desinformação e fragmentação informativa.
- A corrupção e a deterioração de mecanismos de responsabilização continuam a ameaçar instituições mesmo em sociedades formalmente democráticas.
- A tecnologia amplia capacidades humanas, mas não determina por si mesma os valores, fins ou critérios morais de uma civilização.
Nota Editorial
Esta é uma crónica de opinião e não pretende demonstrar que todas as sociedades, instituições ou gerações seguem uma trajectória uniforme de decadência moral. A história raramente oferece declínios tão arrumados. Há simultaneamente avanços extraordinários em direitos, conhecimento, saúde, educação, cooperação e tecnologia, ao lado de sinais preocupantes de desigualdade, erosão da confiança, polarização, corrupção e fragilidade democrática.
Os relatórios internacionais reunidos abaixo mostram precisamente essa complexidade. O World Inequality Report 2026 documenta desigualdades que atravessam múltiplas dimensões da vida social; a OCDE identifica diferenças significativas de confiança nas instituições; Reuters Institute, UNESCO e outros organismos analisam um ecossistema informativo mais fragmentado; V-Dem e Freedom House registam pressões sobre democracia e liberdades; e o World Happiness Report sublinha a importância da confiança e das ligações sociais para o bem-estar.
A crítica aqui formulada é, portanto, menos uma nostalgia do passado do que uma pergunta dirigida ao futuro: que comportamentos, instituições e pessoas decidimos recompensar? Nenhuma sociedade elimina egoísmo, oportunismo ou mentira. Mas cada sociedade escolhe, através das suas regras e da sua cultura, se esses comportamentos serão penalizados, tolerados ou promovidos.
O progresso tecnológico pode multiplicar a capacidade humana. Só uma cultura de responsabilidade, conhecimento e dignidade pode decidir para que essa capacidade será usada.
Referências credíveis
-
Reuters Institute — Digital News Report 2026
-
OECD — Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results
-
V-Dem Institute — Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era?
-
Transparency International — Corruption Perceptions Index 2025
-
World Inequality Lab — World Inequality Report 2026
-
World Happiness Report — World Happiness Report 2026
-
UNDP — Human Development Report 2025: A Matter of Choice
-
UNESCO — Media and Information Literacy
-
Freedom House — Freedom in the World 2026: The Growing Shadow of Autocracy
-
Edelman — 2026 Edelman Trust Barometer
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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