Ai, Liberdade — Crónica Poética sobre o Silêncio do Nosso Tempo
- Género: crónica poética e literária
- Tema: liberdade, censura social e medo colectivo
- Enquadramento: sociedades democráticas contemporâneas
- Tom: simbólico, introspectivo, crítico
- Ideia central: a liberdade não morreu por decreto — morreu por silêncio
Ai, Liberdade
Morre quando já ninguém se atreve a usá-la.”
Ai, liberdade…
que não morreste de bala nem de decreto, mas de vergonha.
A polícia antiga não regressou.
Despiu apenas a farda, guardou o cassetete no museu da memória
e aprendeu a falar baixo.
Hoje veste-se de virtude,
cheira a boas intenções
e sorri enquanto vigia.
Não bate à porta de madrugada.
Não arrasta corpos por corredores frios.
Limita-se a observar —
com olhos que não dormem
e dedos que apontam.
Já não prende.
Classifica.
Já não tortura.
Exclui.
Quem pensa fora do trilho não é detido.
É esquecido.
Apagado do convívio, da profissão, do futuro.
Não lhe quebram os ossos —
quebram-lhe os laços.
Chamam-lhe “consequências”.
Chamam-lhe “consenso”.
Chamam-lhe “responsabilidade social”.
Mas é medo.
Medo de falar alto.
Medo de discordar.
Medo de existir fora da fila.
A censura deixou de vir de cima
e espalhou-se horizontal, como nevoeiro.
Já não se impõe — contagia.
E quando a multidão vigia,
ninguém é inocente
e ninguém é responsável.
Assim se constrói a nova prisão:
sem muros,
sem grades,
sem culpa.
Uma cela feita de olhares,
um silêncio imposto pelo receio de não pertencer.
A liberdade não gritou quando morreu.
Não houve tiros.
Não houve sirenes.
Apenas um suspiro cansado
— e o som suave de milhões
a calarem-se ao mesmo tempo.
Porque a liberdade verdadeira
não morre quando é proibida.
Morre
quando já ninguém se atreve
a usá-la.
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team


