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Finalmente um Empresário Português Olhou para o Espelho

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Finalmente um Empresário Português Olhou para o Espelho

O ovo, a galinha e a velha desculpa de que os portugueses ganham pouco porque produzem pouco.

Nota de abertura:
Esta crónica parte de uma intervenção pública de Filipe de Botton sobre liderança, salários e responsabilidade das elites empresariais. Desenvolve criticamente uma tese simples: a produtividade não depende apenas do trabalhador; investimento, tecnologia, organização e qualidade da gestão determinam também quanto valor uma empresa consegue produzir.

Durante décadas ouvimos a mesma explicação para os baixos salários portugueses: “Os portugueses ganham pouco porque produzem pouco.”

A frase foi repetida tantas vezes por empresários, economistas, políticos e comentadores que acabou transformada numa espécie de lei económica nacional.

O problema era sempre o trabalhador.

Até que Filipe de Botton, empresário e chairman da Logoplaste, resolveu dizer publicamente aquilo que raramente se ouve vindo das elites empresariais portuguesas.

Na conferência Economia Sem Fronteiras, ao falar daquilo a que chamou a “suposta elite”, incluiu-se no problema.

E foi bastante claro: somos maus a motivar, somos maus a puxar pelas pessoas e a criar condições para que tenham sucesso.

Finalmente apareceu um espelho.

O estranho milagre da fronteira

Há uma pergunta que deveria incomodar qualquer empresário português.

Como explicar que tantos portugueses aparentemente pouco produtivos em Portugal se transformem em excelentes profissionais quando trabalham na Alemanha, Suíça, Holanda, Reino Unido ou outros países?

Será que o gene da produtividade se activa quando o avião levanta voo da Portela?

Naturalmente que não.

O trabalhador é essencialmente o mesmo.

O que muda é frequentemente a empresa.

Mudam os salários. Mudam as ferramentas. Muda a tecnologia. Mudam os processos. Muda a organização. Muda a liderança.

E muda, sobretudo, a capacidade da empresa para transformar talento em valor.

Talvez esteja na altura de abandonar o mito confortável segundo o qual produtividade é simplesmente uma característica do trabalhador.

Produtividade também é gestão.

O ovo e a galinha

Filipe de Botton colocou correctamente o problema como o velho dilema do ovo e da galinha.

As empresas dizem: “Não podemos pagar melhor porque temos baixa produtividade.”

Mas salários baixos dificultam a contratação e retenção das melhores pessoas.

Os melhores profissionais emigram. As empresas perdem competências. Investem pouco. Inovam pouco. Automatizam pouco. Produzem bens e serviços de menor valor acrescentado.

A produtividade permanece baixa.

E então regressamos triunfalmente ao princípio: “Não podemos pagar melhor porque temos baixa produtividade.”

É um círculo perfeito.

Só tem um pequeno inconveniente.

Mantém o país pobre.

E os números são incómodos

A própria OCDE tem chamado a atenção para problemas estruturais portugueses que vão muito além do desempenho individual dos trabalhadores: investimento insuficiente, reduzida dimensão empresarial, dificuldades na adopção tecnológica, défices de competências e qualidade da gestão.

Há ainda um dado particularmente interessante.

Um estudo da OCDE sobre empresas portuguesas concluiu que, em cerca de dois terços das empresas analisadas, os salários cresceram menos do que seria sugerido pelo crescimento observado da produtividade.

Portanto, nem sequer é sempre verdade que primeiro temos de aumentar a produtividade para depois aumentarem automaticamente os salários.

Por vezes a produtividade aumentou.

O salário é que ficou para trás.

A economia dos salários baixos

Portugal habituou-se durante demasiado tempo a competir através de salários baixos.

Foi uma estratégia possível numa determinada fase do desenvolvimento económico.

Mas estamos em 2026.

A competição mundial faz-se cada vez mais através de automação, inteligência artificial, robótica, conhecimento, investigação, tecnologia e produtos de elevado valor acrescentado.

Competir essencialmente através do preço do trabalhador é entrar numa corrida que Portugal nunca poderá vencer.

Haverá sempre alguém disposto a fazer mais barato.

A alternativa é fazer melhor.

E isso exige trabalhadores qualificados. Mas exige igualmente empresários qualificados. Gestores competentes. Capital. Tecnologia. Estratégia. E liderança.

Talvez o problema também esteja no galinheiro

Não se trata de absolver trabalhadores nem de condenar empresários.

Existem excelentes e péssimos profissionais dos dois lados da folha salarial.

Trata-se simplesmente de acabar com uma narrativa intelectualmente preguiçosa que colocou durante décadas a baixa produtividade portuguesa quase exclusivamente sobre os ombros de quem trabalha.

Se queremos salários europeus, precisamos de produtividade europeia.

Sem dúvida.

Mas para obter produtividade europeia precisamos também de empresas europeias na qualidade da gestão, investimento, tecnologia, organização e liderança.

E é precisamente aí que a intervenção de Filipe de Botton se torna importante.

Porque, desta vez, alguém pertencente à própria elite empresarial resolveu fazer algo pouco habitual: olhar para o espelho.

Talvez, afinal, tenhamos passado décadas a discutir se o problema era o ovo ou a galinha…

quando também deveríamos ter perguntado: quem é que está a gerir o galinheiro?

DADOS ESSENCIAIS

  • A OCDE estima que a produtividade do trabalho em Portugal permanece cerca de 17% abaixo da média da organização.
  • O diferencial é particularmente elevado nas micro e pequenas empresas.
  • A OCDE identifica carências de competências, especialmente de gestão, e atraso em práticas organizacionais e de delegação.
  • Num estudo com dados empresariais portugueses de 2010 a 2016, cerca de dois terços das empresas analisadas aumentaram insuficientemente os salários face ao crescimento observado da produtividade.

Nota Editorial

Este texto é uma crónica de opinião e crítica económica. A referência às declarações de Filipe de Botton serve de ponto de partida para discutir a responsabilidade da gestão empresarial no problema português da produtividade e dos baixos salários.

A crónica não sustenta que a qualidade da gestão seja a única causa da diferença de produtividade portuguesa. A OCDE identifica um conjunto mais amplo de factores: investimento, dimensão empresarial, qualificações, organização, regulação, adopção tecnológica, inovação e competências de trabalhadores e gestores.

Também não se conclui que todas as empresas possam aumentar salários independentemente da produtividade ou situação financeira. O argumento é mais limitado: reduzir o problema à alegada baixa produtividade individual do trabalhador omite factores empresariais decisivos.

O estudo da OCDE sobre o nexo produtividade-salários utiliza dados administrativos de empresas portuguesas entre 2010 e 2016; deve ser lido como evidência histórica daquele período, e não como medição directa de todas as empresas portuguesas em 2026.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves & Augustus Veritas — AI Assistant
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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