Vendedor de ilusões tecnológicas com troféu vazio
📷 Vendem soluções, entregam promessas. O troféu é a esperteza — vazia, mas brilhante.
A esperteza como moeda: como os incompetentes bem falantes dominam a tecnologia em Portugal
Ensaio sobre a era dos vendedores de ilusões, onde o saber fazer é atropelado pelo saber parecer
Em Portugal, o mercado das tecnologias — e, por arrasto, o Estado que o contrata — tem uma regra de ouro: não são os mais competentes nem os mais capacitados que sobem, mas sim aqueles que melhor se vendem, que mais conversa de esperteza conseguem vender. O sistema premia a oratória oca, o PowerPoint brilhante, o discurso inflamado. O currículo é uma montra de siglas e projetos imaginários. A ética? Ficou pelo caminho. A vergonha de mentir? É um ativo. O omitir? É uma competência. E assim, os verdadeiros troféus são os que enganam melhor — exibidos nas empresas, nos ministérios, nos institutos públicos, até que o barco comece a afundar. Aí, mudam de barco. E o ciclo recomeça.
🎬 Pondé: “A farsa do politicamente correcto” — também a farsa dos vendedores de ilusões tecnológicas. A esperteza vazia é o novo normal.
Os sintomas da praga
💼 A cultura do “vende-se bem”
O mercado tecnológico português está cheio de especialistas de PowerPoint. Gente que tem uma lábia fenomenal, que apresenta soluções complexas com uma confiança inabalável, que convence chefias e júris. Mas depois, no terreno, o projeto atrasa, os custos explodem, a promessa não se concretiza. E quem é responsabilizado? Quase nunca o vendedor de ilusões. Ele já está noutro sítio, a vender a mesma banha a outro cliente. Os que ficam a pagar o pato são os executores silenciosos — os que sabem, mas não sabem vender-se.
🏛️ No Estado: os troféus que não resolvem
O Estado é o maior comprador de tecnologia e também o maior consumidor de especialistas de fachada. Entram gestores públicos com currículos aparatosos, prometem magia digital, inauguram plataformas que nunca funcionam, lançam cadernos de encargos impossíveis. São exibidos como troféus — até serem trocados por outros troféus, igualmente inúteis. O resultado são milhões e milhões de euros desperdiçados em sistemas informáticos que não falam uns com os outros, em bases de dados incompatíveis, em projetos que caducam antes de sair do papel.
🎭 A ética é um estorvo
Para subir neste mundo, a honestidade intelectual é um fardo. Quem diz “não sei, vou estudar” perde o lugar para quem diz “sei tudo, confie em mim”. A mentira e a omissão tornaram-se ativos de carreira. Quem tem vergonha de inventar, fica para trás. O sistema não pune o aldrabão — recompensa-o. E os aldrabões sabem disso. Por isso, mentem sem peso na consciência. E vão subindo. E os verdadeiros técnicos, os competentes, os que entregam, vão sendo corridos ou emigram.
• Dinheiro público queimado: Sistemas informáticos do Estado que custaram milhões e nunca funcionaram (ex: via verde na saúde, plataforma de compras públicas, etc.).
• Projetos eternos: Atrasos médios de anos em grandes obras tecnológicas.
• Custos de auditoria: O Estado gasta milhões a contratar consultores que, depois, nada resolvem.
• Fuga de talento real: Os bons fogem para onde a competência é valorizada. Os aldrabões ficam.
Porque é que este sistema persiste?
1. As chefias também não percebem: Muitos dos que contratam os “vendedores” também são incompetentes na matéria. Preferem confiar em quem fala bem do que em quem mostra resultados.
2. A promessa fácil vence o trabalho árduo: Um aldrabão promete um sistema em 3 meses. Um competente alerta para riscos e pede 12 meses. Quem ganha o concurso? O aldrabão.
3. Falta de consequências: Em Portugal, raramente alguém é responsabilizado por projetos falhados. O máximo que acontece é uma comissão de inquérito. Depois, todos seguem as suas vidas.
4. A ética é uma chatice: Quem é honesto demora mais tempo a responder, pede mais garantias, admite incertezas. O aldrabão não: responde logo, garante tudo, nunca admite dúvidas. Parece mais competente.
O remédio (para quem o quer aplicar)
O papel do cidadão (e do profissional honesto)
Se és daqueles que sabe fazer, que entrega, que tem vergonha de mentir: não te cales. Exige nos teus locais de trabalho que as avaliações sejam baseadas em resultados, não em promessas. Recusa participar em projetos onde a liderança é aldrabona. Prepara-te para sair, se necessário. E acima de tudo, não invejes os aldrabões. Eles ganham hoje, perdem amanhã. A longo prazo, a competência verdadeira — essa sim — constrói. A mentira é um castelo de cartas.
Portugal ainda pode mudar este ciclo. Mas precisa de coragem. Coragem para preferir quem faz a quem fala. Coragem para despedir quem engana. Coragem para pagar mais a quem entrega. Enquanto isso não acontecer, o país continuará a ser um paraíso para aldrabões bem falantes. E um inferno para os competentes silenciosos.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


