Notas éticas de um país que desaprendeu a pensar
- A escolaridade média em Portugal aumentou significativamente desde 1974.
- A pobreza estrutural mantém-se, com novas roupagens.
- O espaço público é hoje dominado pela auto-promoção e pelo discurso performativo.
- A ética do recato, do rigor e do mérito foi substituída pela visibilidade e pelo aplauso.
“Elogio em boca própria é impropério”
Houve um tempo em que um professor podia ensinar, com simplicidade austera, uma regra de vida: “elogio em boca própria é impropério”.
Não era moralismo barato. Era ética aplicada.
Significava que o valor verdadeiro não se anuncia — revela-se pelo trabalho, pela consistência, pelo silêncio competente.
Esses professores existiram. Mesmo em tempos politicamente sombrios, ensinaram algo que hoje parece subversivo: pensar antes de falar, duvidar antes de repetir, calar antes de se exibir.
Não formavam palcos; formavam consciência.
Hoje, o país parece ter feito o percurso inverso.
A escolaridade aumentou, os diplomas multiplicaram-se, as certificações encheram currículos.
Mas o discernimento — esse músculo invisível — atrofiou.
Aprendeu-se a falar muito e a pensar pouco.
O país-palco
O espaço público português transformou-se num teatro permanente.
Cada rede social é um palco.
Cada perfil é um cartaz.
Cada publicação é um auto-elogio disfarçado de humildade.
O LinkedIn tornou-se o espelho mais cruel desta mutação:
uma sucessão de vaidades bem penteadas, entusiasmo artificial, gratidão encenada, títulos inflacionados e competência raramente demonstrada.
Tudo é “liderança”, tudo é “excelência”, tudo é “impacto”.
Quase nada é obra.
Neste circo, a ética antiga soa ofensiva.
O silêncio parece fraqueza.
A dúvida é vista como negativismo.
A crítica fundamentada é confundida com azedume.
Pensar tornou-se inconveniente.
Competência sem palco
O mais trágico não é a existência do teatro.
É o facto de a competência séria, discreta e profunda ter sido empurrada para as margens.
Quem trabalha bem e fala pouco tornou-se invisível.
Quem se promove incessantemente tornou-se referência.
Não admira, por isso, que o óbvio pareça ficção.
Um país habituado à encenação perde a capacidade de reconhecer a realidade quando ela surge nua, sem slogans, sem emojis, sem PowerPoint.
Uma lição para o futuro
Esta pequena crónica não é escrita para o presente.
O presente já fez a sua escolha: prefere aplauso a rigor, narrativa a verdade, vaidade a ética.
Escrevo-a para o futuro — para quem um dia possa perguntar: “como chegámos aqui?”
E, sobretudo: “como evitamos repetir?”
Que fique então registado: pensar é mais importante do que aparecer.
fazer bem é mais valioso do que dizer que se fez.
o mérito não precisa de megafone.
Se um dia este país acordar do sono narcísico em que mergulhou, talvez volte a compreender aquela lição simples e dura, ensinada por professores que não precisavam de palco:
“Elogio em boca própria é impropério.”
Fragmentos do Caos
Co-autoria crítica: Augustus Veritas


