Que sociedade queremos ser?
Que sociedade queremos ser?
A democracia não é uma herança garantida: é uma escolha cívica que cada geração tem de renovar
Nota de abertura:
Depois de analisar o projecto estratégico de Putin e as vulnerabilidades que tornam as democracias ocidentais mais fáceis de explorar, resta a pergunta decisiva: que responsabilidade cabe aos próprios cidadãos? Esta crónica defende que a democracia depende de consciência cívica, tolerância à divergência e exigência perante o poder — mas também de instituições capazes de responder, prestar contas e continuar a merecer confiança.
Há perguntas políticas que parecem extraordinariamente complicadas.
Esta não é.
Que tipo de sociedade queremos ser?
Uma sociedade onde quem discorda de nós é um adversário — ou um inimigo?
Onde uma eleição perdida é uma derrota democrática — ou uma fraude que só aceitamos quando vencemos?
Onde procuramos compreender os factos — ou escolhemos primeiro aquilo em que queremos acreditar e procuramos depois os factos convenientes?
Onde exigimos responsabilidade aos políticos — ou apenas aos políticos dos outros?
Esta talvez seja a escolha fundamental do nosso tempo.
Não entre esquerda e direita.
Não entre conservadores e progressistas.
Nem sequer entre diferentes modelos económicos.
Mas entre uma sociedade capaz de viver com a diferença e outra que precisa de transformar a diferença em guerra.
A democracia não é um serviço que contratámos
Habituámo-nos perigosamente a pensar na democracia como pensamos na electricidade.
Carregamos no interruptor e esperamos que funcione.
Há eleições.
Há tribunais.
Há parlamento.
Há jornais.
Logo, há democracia.
Não é assim.
A democracia não existe apenas dentro das instituições.
Existe nos comportamentos de milhões de cidadãos.
Quando aceitamos perder.
Quando ouvimos alguém de quem discordamos.
Quando verificamos antes de partilhar.
Quando recusamos uma mentira mesmo que beneficie o nosso lado.
Quando exigimos aos nossos representantes a mesma honestidade que exigimos aos adversários.
Parece pouco.
É quase tudo.
Também temos direito a exigir
Mas há outra metade desta história.
Os cidadãos não podem ser permanentemente responsabilizados pela defesa de instituições que deixaram de responder às suas necessidades.
A democracia também tem obrigações.
Tem de permitir que trabalhar signifique viver com dignidade.
Que um jovem consiga imaginar uma casa.
Que adoecer não seja uma aventura administrativa.
Que a justiça não dependa da dimensão da conta bancária.
Que corrupção tenha consequências.
Que incompetência tenha responsabilidade.
Que governar seja mais do que comunicar.
E que os cidadãos sejam ouvidos antes de estarem suficientemente zangados para começar a gritar.
Uma democracia que pede confiança tem de continuar a merecê-la.
O homem forte estará sempre disponível
Quando tudo parece complicado, aparecerá sempre alguém com uma solução extraordinariamente simples.
«Dêem-me poder.»
«Acabarei com isto.»
«Os tribunais atrapalham.»
«O parlamento atrasa.»
«Os jornalistas mentem.»
«Os especialistas não percebem nada.»
«Eu represento o verdadeiro povo.»
A proposta parece eficiente.
Até ao dia em que descobrimos que também nós deixámos de fazer parte do «verdadeiro povo».
É por isso que os limites ao poder são irritantes.
Foram construídos precisamente para serem irritantes.
Sobretudo para quem governa.
Putin não é a pergunta
Putin desaparecerá.
Trump desaparecerá.
Os líderes europeus actuais desaparecerão.
Todos os protagonistas do nosso tempo acabarão transformados em fotografias nos livros de História.
A questão permanecerá.
Que sociedade queremos ser?
Uma sociedade permanentemente zangada, dividida em tribos digitais, desconfiando de tudo e procurando sucessivamente homens providenciais?
Ou uma sociedade suficientemente adulta para aceitar que democracia significa conflito, compromisso, imperfeição, responsabilidade e correcção permanente?
Não precisamos de concordar sobre tudo.
Seria até assustador.
Precisamos apenas de continuar a concordar sobre algumas coisas fundamentais.
Que ninguém está acima da lei.
Que perder eleições faz parte da democracia.
Que factos não dependem das nossas preferências.
Que adversários políticos não são inimigos da pátria.
Que o poder deve poder ser fiscalizado.
E que nenhum governante, por mais popular que seja, deve receber um cheque em branco.
A última porta
Falámos das portas que Putin procura explorar.
Mas talvez exista uma última porta que nenhum Putin consegue abrir sozinho.
A nossa consciência cívica.
Essa fechadura continua do lado de dentro.
Podemos entregar a chave.
Podemos deixá-la na porta.
Ou podemos finalmente perceber que a democracia nunca foi uma herança que recebemos definitivamente dos nossos pais.
É um empréstimo que recebemos dos que vieram antes de nós.
E que teremos de entregar aos que vierem depois.
Preferencialmente intacto.
Talvez até um pouco melhor.
Porque, no final, a pergunta não será apenas se conseguimos salvar a democracia.
Será muito mais pessoal:
Quando chegar a nossa vez de escolher, que sociedade decidimos ser?
O QUE DEVE SER RETIDO
- A democracia não depende apenas das suas instituições formais; depende também de comportamentos cívicos, aceitação da alternância e respeito por regras comuns.
- A confiança institucional não é automática. A OCDE associa-a à fiabilidade, capacidade de resposta, integridade, abertura e justiça das instituições públicas.
- Baixa confiança, polarização e desinformação podem enfraquecer a governação democrática e aumentar o afastamento político.
- Os cidadãos têm responsabilidade na qualidade da vida democrática, mas não podem substituir instituições que falham sistematicamente nas suas obrigações.
- Os mecanismos de fiscalização, separação de poderes e limites ao Executivo existem precisamente para tornar o poder controlável e reversível.
- A erosão democrática não é inevitável: instituições e cidadãos podem corrigir trajectórias quando conservam capacidade de crítica, alternância e reforma.
Nota Editorial
Esta crónica é um ensaio cívico e político, não uma afirmação de que a sobrevivência da democracia depende exclusivamente dos cidadãos. A qualidade democrática resulta da interacção entre cidadãos, instituições, partidos, tribunais, imprensa, empresas, plataformas digitais, administração pública e condições socioeconómicas.
A evidência internacional ajuda a contextualizar a tese. O V-Dem identifica sinais de retrocesso democrático em democracias ocidentais consolidadas, enquanto a Freedom House continua a classificar os Estados Unidos como país livre. A conclusão editorial é, portanto, de risco e possibilidade de correcção, não de inevitabilidade.
A OCDE mostra igualmente que a confiança nas instituições está ligada à percepção de fiabilidade, capacidade de resposta, integridade, abertura e justiça. Isto reforça uma ideia central do texto: pedir aos cidadãos que confiem não chega; as instituições têm de criar razões concretas para essa confiança.
A responsabilidade cívica defendida nesta crónica significa exigir factos, aceitar a alternância democrática, recusar tribalismos políticos e fiscalizar o poder — incluindo o poder exercido por aqueles em quem votámos. Democracia não é obediência às instituições; é participação numa ordem política onde as próprias instituições permanecem sujeitas a escrutínio e correcção.
Referências credíveis
- V-Dem Institute — Democratic Backsliding Reaches Western Democracies, with U.S. Decline “Unprecedented” (17 Mar. 2026)
- Freedom House — United States: Freedom in the World 2026
- OECD — Government at a Glance 2025: Levels of trust in public institutions
- OECD — Government at a Glance 2025: Drivers of trust in public institutions
- OECD — OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions — 2024 Results
- OECD — Trust and democracy
Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI
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