Portugal em modo século XVIII
Portugal em modo século XVIII
O país que apresenta o futuro em PowerPoint e o administra a cavalo
Nota de abertura:
Portugal apresenta uma das imagens mais intrigantes da modernização europeia: possui portais digitais, estratégias avançadas e bons resultados em vários indicadores de governo electrónico, mas muitos cidadãos e empresas continuam a enfrentar processos fragmentados, tempos imprevisíveis, licenças desproporcionadas e serviços que comunicam entre si com a velocidade cerimonial de uma diligência administrativa.
Portugal é um país extraordinariamente moderno.
Tem portais digitais, balcões electrónicos, autenticação por Chave Móvel Digital, aplicações públicas, estratégias de transformação, planos de inovação, programas de simplificação e apresentações em PowerPoint onde o futuro aparece sempre luminoso, sustentável e ligado por setas azuis.
Depois o cidadão tenta fazer uma obra.
E descobre que o século XXI termina exactamente no botão «Submeter».
A partir daí, o processo entra numa dimensão temporal própria. É recebido por um serviço, encaminhado para outro, aguarda parecer de um terceiro, regressa ao primeiro, perde um documento, pede um esclarecimento, muda de técnico e fica a repousar numa repartição com a serenidade mineral de uma rocha.
O requerimento foi enviado pela Internet.
Mas a decisão parece seguir numa diligência puxada por cavalos.
E há fortes indícios de que os cavalos entraram de férias.
O PowerPoint como máquina do tempo
Os governos portugueses dominam uma tecnologia política fascinante: o PowerPoint.
No PowerPoint, tudo funciona.
A Administração é ágil.
Os serviços comunicam.
Os dados circulam.
Os processos são simplificados.
O investimento é atraído.
As empresas crescem.
O cidadão encontra-se no centro.
Há normalmente um círculo com a palavra «Pessoas», rodeado por outros círculos onde se lê «Inovação», «Sustentabilidade», «Transição digital» e «Competitividade».
As setas apontam todas na direcção certa.
Nenhuma precisa de licença municipal.
O ministro apresenta o diapositivo, pronuncia «ecossistema», «resiliência» e «modernização administrativa», e durante alguns minutos Portugal parece ter ultrapassado a Estónia, a Dinamarca e, por distracção gráfica, talvez a própria civilização.
Depois termina a conferência.
O empresário regressa à empresa.
O cidadão regressa à obra.
E o funcionário regressa ao processo que aguarda um parecer de uma entidade que ainda não respondeu porque o pedido foi enviado para o endereço electrónico errado, embora ninguém saiba exactamente quem o enviou.
Portugal vive assim em três séculos ao mesmo tempo.
Pensa administrativamente como no século XVIII.
Apresenta-se institucionalmente como no século XX.
E proclama orgulhosamente habitar o século XXI.
É uma espécie de património histórico com Wi-Fi.
A casa que envelhece antes de nascer
Construir uma casa em Portugal não é apenas uma obra de engenharia.
É uma experiência filosófica sobre o tempo, a paciência e a mortalidade.
O cidadão começa jovem, cheio de planos, desenhos e entusiasmo. Apresenta o projecto, pede licenças, responde a exigências, entrega documentos e espera.
Quando chega a autorização seguinte, já mudou a legislação, aumentaram os materiais, o engenheiro reformou-se e a criança que deveria ocupar o quarto mais pequeno começou a procurar casa própria.
Cada passo administrativo é tratado como se estivesse em causa a construção de uma central nuclear no interior de um hospital pediátrico.
Uma ligação eléctrica pode exigir meses.
Um corte temporário de estrada pode demorar quatro meses a ser autorizado.
Uma betoneira que precise de ocupar parcialmente a via durante algumas horas pode obrigar a um pedido apresentado com meses de antecedência e à presença policial, mesmo quando o local é tão isolado que a maior perturbação de trânsito prevista é uma cabra indecisa.
A Administração não distingue suficientemente entre risco elevado e operação banal.
Não avalia o contexto.
Não adapta o procedimento.
Aplica a solenidade burocrática com a imparcialidade de um rolo compressor.
Uma betoneira torna-se assunto de Estado.
O cimento aguarda despacho.
A obra aguarda o cimento.
O proprietário aguarda a obra.
E o país aguarda o investimento estrangeiro.
Todos aguardam.
Talvez seja esta a verdadeira política nacional de ordenamento do território: impedir que alguma coisa aconteça depressa demais.
O Estado que exige pontualidade e pratica eternidade
A relação entre o Estado português e o tempo é particularmente elegante.
Quando o cidadão deve alguma coisa, o prazo é rigoroso.
Há datas.
Há multas.
Há juros.
Há notificações.
Há consequências.
Se o contribuinte se atrasa alguns dias, o sistema identifica imediatamente a infracção. A máquina administrativa, habitualmente sonolenta, desperta com a energia de um galgo quando fareja uma coima.
Mas quando é o Estado que tem de responder, o tempo transforma-se num conceito flexível.
O prazo é indicativo.
A demora é compreensível.
O serviço está sobrecarregado.
O processo encontra-se em análise.
Foi solicitado um parecer.
O técnico responsável está ausente.
A plataforma sofreu uma indisponibilidade.
A entidade competente não se pronunciou.
O pedido será respondido oportunamente.
«Oportunamente» é uma palavra admirável. Pode significar amanhã, no próximo trimestre ou durante o mandato de um futuro governo ainda não fundado.
O Estado exige ao cidadão precisão cronológica e reserva para si uma espécie de eternidade administrativa.
Quem suporta o custo não é o serviço que demora.
É quem espera.
A obra fica parada.
A equipa é desmobilizada.
O fornecedor altera o preço.
O financiamento acumula juros.
A empresa perde a oportunidade.
O investimento procura outro país.
A Administração não contabiliza estes danos porque o atraso não aparece como despesa pública.
É pago privadamente pelo cidadão.
A burocracia é, assim, um imposto invisível sobre o tempo dos outros.
Digitalizar o papel sem reformar o processo
Portugal não modernizou verdadeiramente grande parte da Administração.
Digitalizou-lhe a aparência.
O formulário de papel tornou-se formulário electrónico.
O carimbo tornou-se validação digital.
A fila física tornou-se uma página que apresenta a mensagem «O seu pedido está em análise».
O cidadão já não precisa de se deslocar à repartição para descobrir que nada aconteceu. Pode fazê-lo confortavelmente a partir de casa.
É progresso, sem dúvida.
Uma espécie de imobilidade remota.
A verdadeira transformação digital exigiria redesenhar o processo antes de o informatizar.
Eliminar passos inúteis.
Automatizar decisões simples.
Partilhar dados entre serviços.
Criar prazos vinculativos.
Identificar responsabilidades.
Aplicar critérios de risco.
Impedir que o cidadão entregue documentos emitidos pelo próprio Estado.
Mas reformar processos mexe em competências, hábitos, departamentos, hierarquias e pequenas soberanias administrativas.
É muito mais cómodo criar um portal.
O portal não protesta.
Não pertence a nenhum sindicato.
Não exige reorganização interna.
Pode ser inaugurado com fotografia e comunicado de imprensa.
Depois recebe pedidos à velocidade da luz e entrega-os a um procedimento que continua a mover-se à velocidade de um burro carregado de pareceres.
Mudou-se a interface.
Manteve-se o labirinto.
A religião do parecer
A burocracia portuguesa não decide.
Protege-se.
Cada serviço solicita um parecer para reduzir a própria responsabilidade.
O parecer solicita informação adicional.
A informação exige validação.
A validação depende de outro serviço.
O outro serviço entende que a competência é da entidade anterior.
E assim nasce um circuito administrativo perfeito: a responsabilidade circula continuamente sem alguma vez tocar numa pessoa concreta.
A prioridade não é resolver o problema.
É garantir que, se algo correr mal, ninguém possa ser acusado de ter decidido sozinho.
A Administração desenvolveu uma extraordinária técnica de sobrevivência institucional: distribuir tanto a decisão que ela acaba por desaparecer.
O cidadão pergunta:
«Quem decide?»
E recebe uma resposta colectiva:
«Depende.»
É por isso que processos relativamente simples envolvem câmaras municipais, polícias, empresas concessionárias, departamentos técnicos, entidades reguladoras e, em breve, talvez a Marinha, caso a betoneira apresente intenções anfíbias.
Cada intervenção possui uma lógica isolada.
O absurdo surge da soma.
Nenhum serviço se considera responsável pelo resultado final.
A Câmara cumpriu.
A polícia cumpriu.
A concessionária cumpriu.
O departamento jurídico cumpriu.
O cidadão não conseguiu realizar a operação a tempo, mas institucionalmente correu tudo bem.
É a vitória perfeita do procedimento sobre a realidade.
A burocracia como política de selecção económica
Os governos dizem querer empresas inovadoras, pequenas empresas dinâmicas, jovens empreendedores e investimento produtivo.
Mas constroem procedimentos que favorecem quem possui departamentos jurídicos, consultores, relações institucionais e dinheiro suficiente para esperar.
Uma grande empresa consegue manter equipas dedicadas a licenças.
Consegue acompanhar processos.
Consegue contratar antigos responsáveis públicos que conhecem a geografia secreta da Administração.
Consegue suportar meses de atraso.
Uma pequena empresa não.
Um cidadão comum não.
Um investidor que ainda não está comprometido simplesmente escolhe outro destino.
A burocracia funciona, assim, como uma barreira à entrada.
Não foi oficialmente criada para proteger os maiores, mas produz exactamente esse efeito.
O Estado trata todos por igual no formulário e de forma profundamente desigual nas consequências.
Quem tem recursos espera.
Quem tem contactos acelera.
Quem não tem nenhum dos dois desiste.
Depois o Governo apresenta um novo programa de apoio ao empreendedorismo, acompanhado por um PowerPoint com uma lâmpada, uma engrenagem e três jovens sorridentes diante de um portátil.
A mesma Administração que dificulta a criação da empresa financia uma campanha para incentivar a sua criação.
Portugal é muito competente a combater com subsídios os problemas que fabrica com regulamentos.
O caminho normal e o caminho possível
A corrupção não nasce apenas da ganância.
Também nasce da impossibilidade.
Quando o caminho normal é lento, obscuro e imprevisível, aparece alguém que conhece um caminho possível.
«Conheço uma pessoa.»
«Vou falar com o técnico.»
«Talvez se consiga acelerar.»
«Falta apenas tratar de um detalhe.»
«É melhor contratar alguém que saiba como isto funciona.»
Nasce a cunha.
Depois o favor.
Depois a dívida.
Depois a rede.
Depois o sistema.
A pequena corrupção quotidiana e a grande corrupção institucional não são mundos completamente separados. Partilham a mesma raiz: a convicção de que o processo oficial não funciona sem intermediação pessoal.
Uma burocracia excessiva cria valor económico para quem consegue contorná-la.
Quanto mais difícil é obter uma decisão, mais valioso se torna conhecer quem decide.
O atraso fabrica intermediários.
A opacidade fabrica influência.
A discricionariedade fabrica dependência.
E quando um país precisa de relações pessoais para tornar suportável o funcionamento das instituições, a corrupção deixa de ser um acidente.
Torna-se uma camada informal da arquitectura administrativa.
É depois muito comovente ouvir responsáveis políticos defenderem planos anticorrupção sem reduzirem a complexidade que alimenta a corrupção.
É como combater mosquitos preservando cuidadosamente o pântano.
O investidor e a carroça administrativa
Um investidor sério não procura apenas benefícios fiscais.
Procura previsibilidade.
Quer saber quanto tempo demora uma licença.
Que entidades intervêm.
Que critérios serão aplicados.
Que recurso existe.
Quando poderá iniciar a actividade.
Não exige necessariamente que tudo seja fácil.
Exige que tudo seja claro.
Portugal pode ter boa localização, infra-estruturas, segurança, talento e qualidade de vida. Mas se uma operação simples depende de meses de espera, pareceres incertos e autoridades que não comunicam, o investidor percebe rapidamente que o custo real do país não está apenas nos impostos.
Está na entropia.
O investimento produtivo detesta incerteza administrativa.
O capital especulativo tolera-a melhor, sobretudo quando encontra relações suficientemente influentes para a atravessar.
É assim que um Estado burocraticamente disfuncional pode afastar precisamente o investimento que diz querer: o investimento duradouro, industrial, tecnológico e comprometido com o território.
Os governos organizam missões económicas.
Visitam feiras.
Assinam memorandos.
Anunciam milhões.
Prometem um país moderno.
Depois a empresa tenta instalar uma máquina, alterar uma entrada ou fazer uma ligação eléctrica e descobre que chegou à corte de D. João V, embora o requerimento tenha código QR.
O país administrado como suspeito
No fundo, a Administração portuguesa parte muitas vezes de uma ideia desconfortável: o cidadão é potencialmente culpado.
Pretende construir?
Talvez viole alguma regra.
Pretende abrir uma empresa?
Talvez engane alguém.
Pretende ocupar uma estrada durante duas horas?
Talvez provoque o colapso da circulação nacional.
Pretende fazer uma alteração simples?
Talvez esconda uma conspiração urbanística.
Em vez de fiscalizar com inteligência e punir severamente quem infringe, o sistema tenta controlar preventivamente todos os movimentos de todos os cidadãos.
O resultado é previsível.
Os cumpridores são esmagados por procedimentos.
Os prevaricadores procuram atalhos.
E os grandes infractores contratam especialistas para garantir que o abuso surge juridicamente impecável.
Uma Administração moderna deveria funcionar segundo o risco.
Operações simples, baixo risco, decisão automática ou rápida.
Operações complexas, avaliação aprofundada.
Fiscalização posterior eficiente.
Responsabilidade real.
Em Portugal, aplica-se frequentemente ao cidadão comum uma desconfiança minuciosa e aos grandes interesses uma reverência cuidadosamente fundamentada.
O pequeno proprietário entrega plantas, certificados, requerimentos e declarações.
O grande projecto apresenta um estudo estratégico e recebe uma comissão de acompanhamento.
A igualdade administrativa é uma senhora de grande sentido hierárquico.
Portugal não precisa de mais um portal
O país não necessita de outra plataforma com um nome optimista.
Não precisa do «Balcão Único 4.0», da «Via Verde Administrativa Plus» ou do «Programa Acelerar Portugal 2035».
Precisa de decisões.
Prazos obrigatórios.
Silêncio administrativo positivo em procedimentos de baixo risco.
Responsabilidade pelo incumprimento.
Interoperabilidade real entre serviços.
Eliminação de documentos redundantes.
Processos desenhados a partir da experiência do cidadão.
Transparência sobre o estado dos pedidos.
Compensação quando atrasos administrativos injustificados provocam prejuízos graves.
E uma regra simples:
O Estado não pode exigir ao cidadão informação que já possui.
Outra regra seria igualmente revolucionária:
Quem tem competência para pedir mais documentos deve também ter competência e obrigação para decidir.
Porque uma Administração sem responsabilidade não é prudente.
É apenas lenta.
E lentidão sem consequência transforma-se rapidamente em cultura.
Um país que confunde movimento com progresso
Portugal produz estratégias, grupos de trabalho, relatórios, observatórios e planos de acção.
Tudo se move.
Pouco avança.
A actividade institucional cria a sensação de progresso. Há reuniões, documentos, eventos, verbas executadas e indicadores de realização.
O sistema mede quantos processos tratou.
Não mede quantas vidas atrasou.
Mede quantas plataformas criou.
Não mede quantos procedimentos eliminou.
Mede quantas consultas públicas abriu.
Não mede quantas contribuições alteraram realmente a decisão.
Mede o movimento da máquina.
Não o destino.
É por isso que o país consegue apresentar uma Administração moderna e continuar a oferecer uma experiência arcaica.
O PowerPoint mede o futuro prometido.
O cidadão mede os meses perdidos.
Entre ambos existe Portugal.
O século em que realmente vivemos
Portugal possui tecnologia do século XXI.
Apresentações do século XX.
Procedimentos do século XVIII.
E uma cultura de responsabilidade administrativa que, em certos dias, parece anterior à invenção da escrita.
O problema não é falta de inteligência.
Não é falta de técnicos competentes.
Não é sequer falta de dinheiro.
É falta de coragem política para desmontar estruturas, eliminar poderes redundantes e responsabilizar serviços pelo tempo que retiram à sociedade.
Cada processo inútil tem defensores.
Cada parecer possui uma entidade.
Cada licença sustenta uma competência.
Cada competência sustenta uma chefia.
Cada chefia sustenta uma parte do edifício.
E assim o absurdo permanece, porque ninguém quer remover a pedra que poderá revelar que metade da parede não serve para coisa alguma.
Portugal não entrará verdadeiramente no século XXI quando todos os formulários forem electrónicos.
Entrará quando um cidadão puder realizar uma operação simples sem precisar de meses, intermediários ou resistência psicológica comparável à de uma expedição polar.
Entrará quando o Estado compreender que o tempo das pessoas tem valor.
Quando a regra for proporcional ao risco.
Quando o silêncio administrativo deixar de ser uma técnica de governação.
Quando a decisão substituir o parecer infinito.
Até lá, continuaremos a assistir ao mesmo espectáculo:
um ministro diante de um ecrã anuncia a modernização;
um cidadão diante de uma obra espera pela licença;
uma empresa diante de um investimento reconsidera o país;
e uma betoneira, parada à beira da estrada, aguarda que o século XVIII termine finalmente o despacho.
Portugal mostra o século XXI em PowerPoint, administra no século XVIII e chama transformação digital ao acto de enviar a carroça por correio electrónico.
O PARADOXO PORTUGUÊS EM NÚMEROS
- No Índice de Governo Digital de 2025 da OCDE, Portugal obteve 0,86 pontos, acima da média de 0,70, mostrando que possui estratégias, infra-estruturas e capacidades digitais relevantes.
- Apesar disso, apenas 43% dos portugueses declararam satisfação com os serviços administrativos utilizados, contra uma média de 66% na OCDE.
- A própria OCDE identifica um problema geral de execução: os governos possuem estratégias e normas, mas os utilizadores continuam a enfrentar pontos de entrada fragmentados, fraca coordenação entre entidades e qualidade inconsistente.
- O Banco Mundial identifica a localização empresarial como a área mais fraca entre as dimensões avaliadas em cidades portuguesas, associando-a a cobertura cadastral limitada, baixa digitalização e longos tempos de licenciamento.
- Segundo a mesma avaliação, as ligações eléctricas podem demorar cerca de 100 dias em Lisboa e 133 dias em Ponta Delgada, apesar da existência de procedimentos formalmente digitalizados.
Nota Editorial
Esta crónica combina experiências pessoais do autor com crítica política, sátira e dados comparativos internacionais. Os episódios relativos à construção da habitação, ao corte temporário de estrada, à ligação eléctrica e ao licenciamento de uma betoneira correspondem à experiência relatada pelo autor e não pretendem representar, por si só, todos os municípios, serviços ou procedimentos administrativos portugueses.
Os indicadores internacionais revelam um paradoxo importante. Portugal apresenta resultados fortes na arquitectura estratégica do governo digital e na disponibilização de serviços electrónicos. Contudo, a satisfação dos utilizadores com os serviços administrativos permanece abaixo da média da OCDE, e avaliações sobre localização empresarial, ligações a serviços públicos e licenciamento continuam a identificar demoras, fragmentação e diferenças territoriais relevantes.
Digitalizar não equivale a simplificar. Um processo pode ser integralmente submetido por via electrónica e continuar a exigir decisões redundantes, múltiplas validações, dados já detidos pelo Estado e coordenação deficiente entre entidades. A crítica central do texto dirige-se precisamente à distância entre a estratégia anunciada e a experiência real do cidadão.
A associação entre burocracia excessiva e corrupção deve ser entendida como análise de risco institucional, não como acusação generalizada contra funcionários públicos. Processos opacos, lentos e discricionários podem criar incentivos para intermediários, favores, influência informal e tratamento desigual. A resposta não consiste em eliminar regras necessárias à segurança, ao ambiente ou ao ordenamento, mas em torná-las proporcionais ao risco, claras, previsíveis, auditáveis e sujeitas a responsabilidade efectiva.
Referências credíveis
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OCDE — Digital Government Outlook 2026: Portugal
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OCDE — Government at a Glance 2025: Portugal
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OCDE — Building human-centred and proactive government services in the digital age
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OCDE — Better Regulation Practices across the European Union 2025: Portugal
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OCDE — SIMPLEX: Portuguese public administration simplification programme
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Banco Mundial — Portugal: Regulatory Efficiency
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Comissão Europeia — Portugal 2025 Digital Decade Country Report
-
Comissão Europeia — eGovernment Benchmark 2025
-
Comissão Europeia — Simpler rules for a stronger economy
-
Comissão Europeia — State of interoperability in the Union
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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