Montenegro no País das Maravilhas
Montenegro no País das Maravilhas
Quando o PIB sorri, os indicadores dançam e os portugueses insistem em estragar a festa com a realidade.
Nota de abertura: Esta crónica é uma sátira política. Os diálogos e as situações narradas são ficcionais, não transcrições de declarações reais.
Há políticos que governam países. Outros governam expectativas. E depois há Luís Montenegro, que, na sua comunicação ao país de 3 de Novembro, pareceu descobrir uma terceira possibilidade: governar um país que só existe quando se fecham os olhos.
Foi uma comunicação extraordinária. Não propriamente pelo conteúdo, mas pela revelação de que Portugal possui, afinal, duas realidades paralelas.
A primeira é habitada por cerca de dez milhões de portugueses, com salários, rendas, impostos, hospitais, transportes públicos e contas para pagar.
A segunda é habitada pelo primeiro-ministro.
E, nessa segunda realidade, tudo corre maravilhosamente.
A economia cresce, o emprego floresce, o turismo prospera e Portugal transforma-se num destino de excelência internacional.
Faltou apenas anunciar que os rios correm leite e mel, que as árvores produzem notas de cinquenta euros e que os jovens portugueses já não precisam de emigrar porque descobriram petróleo debaixo dos colchões.
Bem-vindos ao País das Maravilhas de São Bento.
Capítulo I — Alice atravessa o espelho do PIB
Tudo começou quando Alice, uma jovem portuguesa de 29 anos, licenciada, empregada e ainda a viver em casa dos pais, decidiu assistir à comunicação do primeiro-ministro.
Mal Montenegro começou a falar do crescimento económico, o televisor transformou-se num espelho luminoso.
Alice atravessou-o.
Do outro lado encontrou um país extraordinário.
As estradas estavam pavimentadas com gráficos ascendentes. As árvores davam indicadores macroeconómicos. Os pássaros cantavam previsões optimistas da Comissão Europeia.
À entrada, uma placa anunciava:
«PORTUGAL — DESTINO DE EXCELÊNCIA. REALIDADE SUJEITA A DISPONIBILIDADE ESTATÍSTICA.»
Alice aproximou-se de um funcionário.
— Desculpe, onde posso encontrar uma casa para arrendar?
— Aqui não trabalhamos com casas, menina. Trabalhamos com crescimento económico.
— Mas eu preciso de um sítio para viver.
— Que falta de ambição! Com um PIB destes, ainda se preocupa com necessidades básicas?
Alice percebeu imediatamente que tinha entrado num país muito desenvolvido.
Pelo menos, nos discursos.
Capítulo II — O Chapeleiro Maluco e o pleno emprego
Continuando a sua viagem, Alice encontrou uma mesa gigantesca onde se celebrava o pleno emprego.
À cabeceira estava o Chapeleiro Maluco, rodeado de ministros, assessores e especialistas em optimismo institucional.
— Bem-vinda, Alice! Temos pleno emprego!
— Que maravilha! Então os trabalhadores conseguem viver dos seus salários?
Fez-se um silêncio embaraçoso.
O Chapeleiro pousou a chávena.
— Minha querida, ninguém falou em pleno salário!
— Mas se as pessoas trabalham e não conseguem pagar uma casa…
— Isso é um problema de interpretação estatística.
— E os jovens que continuam a emigrar?
— Internacionalização do talento português!
— E os trabalhadores que acumulam dois empregos?
— Empreendedorismo laboral!
— E os reformados que contam os euros no supermercado?
— Educação financeira sénior!
Alice ficou maravilhada.
Naquele país, os problemas não eram resolvidos.
Eram reclassificados.
Era uma inovação administrativa tão extraordinária que merecia uma candidatura a património imaterial da humanidade.
Capítulo III — O Gato de Cheshire e os salários invisíveis
Sentado num ramo de sobreiro, Alice encontrou o Gato de Cheshire.
O animal sorria de orelha a orelha.
— Porque estás tão contente? — perguntou Alice.
— Porque os salários estão a aumentar!
— A sério? E o poder de compra?
O gato começou a desaparecer.
Primeiro as patas. Depois o corpo. Finalmente a cabeça.
Ficou apenas o sorriso.
— Onde está o resto? — perguntou Alice.
Uma voz distante respondeu:
— Foi absorvido pelo custo de vida!
Alice contemplou aquele sorriso suspenso no ar.
Era uma representação perfeita de certas notícias económicas: o aumento aparecia no título, mas desaparecia quando chegava à carteira.
O gato reapareceu por instantes.
— Aqui, Alice, o importante não é quanto dinheiro tens no fim do mês.
— Então o que é?
— É saber que a economia está a crescer enquanto ficas sem ele.
E desapareceu novamente.
Desta vez, até o sorriso parecia sujeito a retenção na fonte.
Capítulo IV — Portugal, o resort de luxo onde vivem portugueses por engano
Alice chegou então à costa portuguesa.
Era magnífica.
Hotéis de cinco estrelas, restaurantes sofisticados, piscinas infinitas, praias deslumbrantes e turistas encantados com a hospitalidade nacional.
Um cartaz gigantesco anunciava:
«PORTUGAL — O PARAÍSO QUE TODOS PODEM VISITAR, MAS NEM TODOS PODEM HABITAR.»
Alice aproximou-se de um empregado de hotel.
— Deve ser maravilhoso trabalhar num lugar destes!
— É, menina. Ontem servi um jantar que custou mais do que ganho em vários dias.
— E vives aqui perto?
— Não. Vivo a cinquenta quilómetros.
— Porquê?
— Porque o turismo valorizou tanto a região que já não tenho dinheiro para viver nela.
— Mas isso não é uma contradição?
— Não, menina. É competitividade internacional.
Alice começou a compreender o segredo económico daquele país.
Os turistas vinham desfrutar de Portugal.
Os portugueses trabalhavam para garantir que os turistas continuavam a desfrutar de Portugal.
E, se tudo corresse bem, os portugueses poderiam um dia juntar dinheiro suficiente para passar um fim-de-semana no país onde já viviam.
Uma espécie de turismo doméstico de sobrevivência.
Capítulo V — A Rainha de Copas e os manifestantes inconvenientes
Mais adiante, Alice encontrou uma multidão.
Eram cidadãos que pediam habitação acessível, melhores condições de vida e respostas do Governo.
A Rainha de Copas observava-os de uma varanda.
— Que fazem aquelas pessoas? — perguntou Alice.
— Estão a perturbar a narrativa!
— A narrativa?
— Sim! Estamos a anunciar um país maravilhoso e eles insistem em falar de rendas, salários e dificuldades!
— Talvez tenham problemas reais.
A Rainha pareceu horrorizada.
— Problemas reais? Que expressão desagradável!
Um assessor aproximou-se.
— Majestade, há jornalistas que querem fazer perguntas sobre as intervenções policiais.
— Perguntas? Durante uma celebração do crescimento económico?
— Sim, Majestade.
— Mas não percebem que estamos a governar?
Alice interveio:
— Não deveriam responder?
A Rainha ergueu-se indignada.
— Minha querida, neste país respeitamos profundamente a liberdade de expressão!
— Ainda bem.
— Desde que não interrompa a nossa.
Um guarda apresentou uma solução administrativa:
— Podemos criar uma comissão para estudar a possibilidade de ouvir os cidadãos depois de terminarem as manifestações.
A Rainha sorriu.
Era uma proposta brilhante.
Finalmente alguém tinha descoberto como praticar o diálogo sem correr o risco de ouvir ninguém.
Capítulo VI — O primeiro-ministro e a arte de responder sem responder
Alice chegou finalmente ao Palácio de São Bento.
Montenegro encontrava-se diante de um enorme mapa de Portugal.
O mapa era extraordinário.
Não mostrava cidades, estradas, hospitais ou bairros.
Mostrava apenas setas verdes apontadas para cima.
— Senhor primeiro-ministro, venho do país real e tenho algumas perguntas.
— Excelente, Alice! Portugal está a crescer!
— Mas eu queria perguntar sobre a habitação.
— Temos indicadores económicos muito positivos!
— E sobre os salários?
— O emprego apresenta resultados extraordinários!
— E sobre os manifestantes?
— Portugal é um destino de excelência!
— E sobre as cargas policiais?
— Estamos a trabalhar para o futuro!
Alice ficou impressionada.
Nunca tinha conhecido alguém capaz de responder a cinco perguntas diferentes com a mesma resposta.
Era uma competência notável.
Um verdadeiro sistema de inteligência artificial política, embora com uma particularidade técnica: o modelo parecia treinado exclusivamente com comunicados do Governo e não aceitava perguntas fora do conjunto de dados.
Alice, que tinha alguma curiosidade por informática, tentou reiniciar a conversa.
— Senhor primeiro-ministro, pode responder apenas com SIM ou NÃO?
— O crescimento económico demonstra a confiança dos mercados na nossa estratégia!
Alice desistiu.
Até um chatbot dos anos noventa teria pedido desculpa pela falta de compreensão.
Capítulo VII — O Ministério da Felicidade Estatística
Antes de regressar a casa, Alice visitou a mais importante instituição daquele país: o Ministério da Felicidade Estatística.
À entrada, um funcionário explicou-lhe as regras.
— Aqui não avaliamos a felicidade das pessoas. Avaliamos a felicidade dos indicadores.
— Mas os indicadores não são pessoas!
— Precisamente. Por isso são muito mais fáceis de governar.
Alice encontrou vários departamentos.
No Departamento da Habitação, transformavam-se preços elevados em oportunidades de investimento.
No Departamento dos Salários, convertiam-se aumentos nominais em manchetes optimistas.
No Departamento da Saúde, os tempos de espera eram apresentados como oportunidades de reflexão pessoal.
No Departamento da Emigração, cada jovem que partia era contabilizado como um embaixador internacional do talento português.
E no Departamento da Comunicação Governamental existia uma máquina extraordinária.
Chamava-se Transformador Universal de Realidade.
Alice observou o seu funcionamento.
Introduziu-se uma notícia sobre dificuldades económicas.
A máquina produziu um comunicado sobre resiliência nacional.
Introduziu-se uma notícia sobre rendas incomportáveis.
Saiu um discurso sobre atractividade imobiliária.
Introduziu-se uma pergunta sobre manifestações e actuação policial.
A máquina ficou momentaneamente bloqueada.
Depois imprimiu:
«O Governo está concentrado em governar.»
Alice percebeu que não se tratava de um defeito.
Era uma funcionalidade.
Capítulo VIII — O regresso ao país que não aparece nos gráficos
Alice acordou no sofá.
A televisão continuava ligada.
O primeiro-ministro terminava a comunicação.
Portugal continuava a crescer.
O emprego continuava a apresentar bons indicadores.
O turismo continuava a prosperar.
Alice levantou-se e abriu o computador.
Consultou os anúncios de arrendamento.
Depois olhou para o seu salário.
Fez algumas contas.
Voltou a fazê-las, convencida de que tinha cometido um erro.
Mas não.
A matemática continuava a funcionar, mesmo quando a comunicação política parecia dispensá-la.
Alice compreendeu então uma coisa fundamental.
Os indicadores económicos não eram necessariamente falsos.
O crescimento podia ser real. A melhoria do emprego também. O sucesso turístico igualmente.
O que era fantasioso era apresentar esses resultados como prova de que todos os portugueses viviam no mesmo país maravilhoso.
Porque uma economia não é apenas um conjunto de gráficos.
É também a vida das pessoas que nela trabalham.
É a possibilidade de pagar uma casa, constituir família, ter acesso a cuidados de saúde, envelhecer com dignidade e viver sem a permanente angústia de chegar ao fim do mês.
Alice desligou a televisão.
E concluiu que talvez o problema não fosse o primeiro-ministro viver no País das Maravilhas.
O problema era querer convencer os portugueses de que também lá viviam.
Epílogo — A última pergunta de Alice
Antes de adormecer, Alice imaginou que voltava a encontrar Montenegro.
Desta vez fez-lhe apenas uma pergunta:
— Senhor primeiro-ministro, se Portugal está tão bem como diz, porque é que tantos portugueses continuam a viver tão mal?
Montenegro sorriu.
Endireitou a gravata.
Olhou para a câmara.
E respondeu:
— Alice, permita-me começar por destacar os excelentes indicadores da nossa economia…
Foi nesse instante que Alice compreendeu a verdadeira diferença entre o País das Maravilhas de Lewis Carroll e o de São Bento.
No primeiro, as personagens absurdas sabiam que viviam num mundo de fantasia.
No segundo, pretendiam que os cidadãos pagassem impostos como se a fantasia fosse realidade.
E assim terminou mais uma comunicação ao país.
O PIB continuou a crescer.
Os gráficos continuaram a sorrir.
E os portugueses continuaram a fazer contas.
Porque, infelizmente, a renda da casa ainda não pode ser paga com optimismo governamental.
Nota Editorial
Esta crónica é uma obra de sátira política. As personagens, os diálogos e as situações fantásticas são construções humorísticas inspiradas na comunicação de Luís Montenegro de 3 de Novembro de 2026 e no debate público sobre a situação económica, social e habitacional portuguesa.
Os diálogos atribuídos ao primeiro-ministro são fictícios e não constituem transcrições das suas declarações.
O artigo não nega a existência de indicadores económicos positivos. Questiona a utilização selectiva desses indicadores para construir uma narrativa de prosperidade que pode não corresponder à experiência quotidiana de uma parte significativa da população.
A sátira dirige-se ao discurso político e à distância entre os resultados macroeconómicos e as condições materiais de vida dos cidadãos.
Fragmentos do Caos — Porque a realidade tem o desagradável hábito de não obedecer aos discursos oficiais.
Referências credíveis
- Eurostat — Estatísticas de emprego e desemprego
- Eurostat — Estatísticas sobre habitação
- OCDE — Portugal: estudos económicos
- Comissão Europeia — Previsões económicas
- Lewis Carroll — Alice’s Adventures in Wonderland (Project Gutenberg)
Augustus Veritas
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


