Economia,  Tecnologia

Portugal, República dos Pitchs — dez anos a semear startups e à espera das empresas

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Portugal, República dos Pitchs

Dez anos a semear startups e à espera das empresas

Nota de abertura:
Portugal aprendeu a criar startups, incubadoras, aceleradoras e palcos. O teste económico começa depois do pitch: quantas empresas conseguem escalar, manter centros de decisão no país e elevar de forma persistente a produtividade?

Durante anos venderam-nos uma história extraordinariamente sedutora.

Portugal ia transformar-se numa espécie de Califórnia atlântica. Lisboa seria uma capital tecnológica europeia. Jovens empreendedores, investidores, programadores e nómadas digitais haveriam de convergir sobre este pequeno rectângulo europeu, historicamente pouco dado à inovação empresarial, e produzir uma nova economia.

Vieram as incubadoras. Vieram as aceleradoras. Vieram os concursos. Vieram os pitchs. Vieram os business angels, os fundos de venture capital, os hubs, os labs, os innovation centers, os demo days e uma quantidade apreciável de vocabulário inglês capaz de convencer qualquer distraído de que Silicon Valley tinha finalmente aberto uma sucursal junto ao Tejo.

E, naturalmente, veio a Web Summit.

Portugal passou a celebrar o empreendedorismo quase como quem celebra um campeonato europeu de futebol.

O problema é que, uma década depois, convém desligar por alguns minutos os projectores do palco e ligar a calculadora.

Segundo o Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report 2025, da Startup Portugal, existiam 5.091 startups activas, responsáveis por aproximadamente €2,856 mil milhões de volume de negócios e cerca de 28 mil empregos. O relatório estima a contribuição directa destas empresas em aproximadamente 1% do PIB português.

Não significa que as startups sejam inúteis. Muito pelo contrário. Criam emprego qualificado, introduzem tecnologia, experimentam modelos de negócio, exportam conhecimento e algumas conseguem resultados extraordinários. O mesmo relatório atribui-lhes €1,571 mil milhões de exportações e uma remuneração média mensal de cerca de €2.200.

O problema não está nas startups. Está na diferença entre criar startups e transformar uma economia.

A economia do palco

Portugal tornou-se bastante competente numa fase específica do processo: ajudar empresas a nascer.

Temos incubadoras, universidades, concursos, programas públicos, fundos comunitários e estruturas de apoio capazes de transformar uma ideia num protótipo e um protótipo numa pequena empresa.

Depois aparece o precipício.

Uma startup com cinco pessoas pode tornar-se uma empresa com vinte. Mas quantas chegam aos 200? Quantas chegam aos 2.000? Quantas desenvolvem propriedade intelectual relevante em Portugal? Quantas constroem centros de investigação, engenharia e produção? Quantas mantêm no país os centros de decisão quando atingem dimensão internacional?

É precisamente aqui que a narrativa começa a perder brilho.

O Country Report Portugal 2026 da Comissão Europeia descreve uma economia empresarial dinâmica mas dominada por micro e pequenas empresas, com baixa propensão para scale-up. Regista ainda produtividade portuguesa em 68,2% da média da União Europeia em 2024 e um mercado de venture capital/private equity equivalente a 0,19% do PIB, contra 0,55% na UE.

A OCDE, em 2026, reforça a importância económica desta passagem de startup para escala: a capacidade de empresas inovadoras crescerem está associada à produtividade, financiamento tardio, comercialização da inovação, talento de gestão e capacidade de expansão.

Ou seja: conseguimos construir a maternidade. Continuamos com dificuldades em garantir a idade adulta empresarial.

O dinheiro público também entra nesta história

Existe outra pergunta que raramente aparece nas fotografias das conferências: quanto custou construir todo este ecossistema e que retorno estrutural produziu?

A resposta não cabe numa soma simplista. O financiamento está disperso por instrumentos nacionais e europeus e inclui capital reembolsável, coinvestimento com privados, incentivos, fundos comunitários, vouchers, incubadoras e programas de investigação e inovação.

Mas a escala da intervenção é documentalmente visível. Em 2017 foi criado o Fundo de Coinvestimento 200M, com um montante global de €200 milhões para operações de capital e quase-capital em PME. Em 2022, o Governo anunciou €90 milhões em vouchers para apoiar 3.000 startups no âmbito do PRR. Em 2024, anunciou €60,6 milhões de financiamento público para o programa Deep2Start, destinado a projectos deep tech.

Estes números não devem ser adicionados mecanicamente como se fossem todos despesa pública perdida: representam instrumentos e modelos financeiros diferentes. Mas demonstram uma coisa sem ambiguidade: Portugal realizou uma intervenção pública relevante e prolongada na construção do ecossistema empreendedor.

Investimento público em inovação não constitui, por si mesmo, desperdício. Economias tecnologicamente avançadas investem grandes quantidades em investigação, inovação e criação empresarial.

A pergunta correcta é outra: qual foi o retorno estrutural desse investimento para Portugal?

Não basta contar startups apoiadas. Não basta contar candidaturas aprovadas. Não basta contar participantes em conferências. Não basta anunciar milhões de euros de investimento captado.

É preciso perguntar quantas empresas chegaram à maturidade, quanto valor acrescentado ficou no país, quanta propriedade intelectual foi criada, quantos centros tecnológicos cresceram e quanto aumentou efectivamente a produtividade nacional.

Porque existe uma diferença gigantesca entre financiar actividade e produzir transformação económica.

A obsessão pelas startups pode esconder o verdadeiro problema

Talvez tenhamos cometido um erro conceptual.

Uma economia desenvolvida não vive de startups. Vive de empresas produtivas.

Algumas nasceram ontem. Outras têm cinquenta anos.

O objectivo de uma política económica não deveria ser maximizar o número de startups, mas criar condições para que empresas inovadoras consigam nascer, sobreviver, crescer, exportar e transformar-se em organizações de elevada produtividade.

Uma startup não é um destino económico. É uma fase da vida de uma empresa.

Contudo, em matéria empresarial, aproximámo-nos perigosamente dessa lógica.

Celebramos a fundação. Celebramos a primeira ronda. Celebramos a segunda ronda. Celebramos o pitch. Celebramos a avaliação.

E quando a empresa cresce suficientemente para necessitar de mercados de capitais profundos, gestores especializados, financiamento de centenas de milhões, enquadramento previsível e condições competitivas internacionais, descobrimos que a festa acabou.

A fábrica portuguesa de PowerPoints

Criou-se também uma indústria paralela: a indústria da inovação sobre a inovação.

Consultores de inovação. Gestores de inovação. Programas de inovação. Observatórios de inovação. Conferências sobre inovação. Prémios de inovação. Estratégias nacionais de inovação. Relatórios sobre estratégias nacionais de inovação.

E, inevitavelmente, conferências onde se apresentam relatórios sobre estratégias nacionais de inovação.

Mas a produtividade portuguesa continua muito abaixo da média europeia. E esse é talvez o indicador mais incómodo de todos.

Porque uma verdadeira revolução tecnológica deveria, ao fim de algum tempo, começar a aparecer precisamente aí: mais valor produzido por trabalhador, empresas tecnologicamente mais sofisticadas, maior intensidade de capital, melhores salários e produtos portugueses capazes de competir internacionalmente.

Não apenas mais empresas classificadas administrativamente como startups.

A Web Summit como metáfora

A Web Summit tornou-se uma excelente metáfora desta política.

Desde 2016, Lisboa recebe um dos grandes encontros tecnológicos internacionais. Em 2018 foi celebrado um acordo de permanência até 2028 que previa um compromisso anual de até €11 milhões, financiado pela taxa turística. O evento trouxe exposição internacional, visitantes, investidores e actividade económica local — efeitos que não devem ser apagados por uma crítica séria.

Mas durante alguns dias Lisboa enche-se também de luzes, palcos, ministros, fundadores, jornalistas e palavras como disruption, ecosystem, AI, scale, future e innovation suficientes para abastecer vários anos de comunicados.

Depois desmontam-se os palcos. Os aviões partem.

E Portugal continua a enfrentar problemas muito menos fotogénicos: empresas pequenas, capitalização reduzida, produtividade insuficiente, burocracia e dificuldade de crescimento empresarial.

A tecnologia real é muito menos glamorosa. Constrói-se durante anos. Exige engenheiros, cientistas, programadores, gestores, capital paciente, investigação, propriedade intelectual, mercados externos e tolerância ao fracasso.

Não cabe facilmente num pitch de três minutos.

Startup → scale-up → empresa

Talvez esteja aqui a mudança que Portugal necessita.

Deixar de perguntar: «Quantas startups criámos?»

E começar a perguntar: «Quantas empresas fizemos crescer?»

Se o processo parar sistematicamente nas primeiras duas etapas, não temos um ecossistema empresarial completo.

Temos uma maternidade empresarial.

E uma maternidade pode apresentar estatísticas magníficas sobre nascimentos enquanto o país continua sem adultos.

Portugal precisa naturalmente de startups. Mas precisa ainda mais que algumas delas deixem de o ser.

Precisa de empresas tecnológicas portuguesas com milhares de trabalhadores. Precisa de investigação empresarial. Precisa de propriedade intelectual. Precisa de capital capaz de acompanhar empresas durante décadas. Precisa de empresas capazes de comprar outras empresas em vez de serem permanentemente compradas. Precisa de centros de decisão que permaneçam no país.

E precisa, sobretudo, de avaliar políticas públicas pelos resultados económicos produzidos, e não pelo número de fotografias tiradas durante a inauguração.

Depois da festa

Depois de tantos anos de Web Summits, incubadoras, aceleradoras, fundos, pitchs, concursos e investimento público, talvez tenha chegado o momento de fazer uma coisa profundamente revolucionária.

Contas.

Quanto investimos? Quantas empresas criámos? Quantas sobreviveram dez anos? Quantas cresceram? Quantas foram vendidas? Quantas transferiram a sede? Quantas patentes produziram? Quanto valor acrescentado ficou em Portugal? Quantos milhões de investimento público regressaram à sociedade através de salários, impostos, exportações e propriedade intelectual?

E, sobretudo: quanto aumentou a produtividade portuguesa como consequência de tudo isto?

Essas perguntas são menos excitantes do que um palco cheio de LEDs.

Mas são precisamente as perguntas que distinguem uma política de desenvolvimento económico de uma campanha permanente de relações públicas.

Portugal já demonstrou que consegue organizar conferências sobre o futuro.

Agora falta uma tarefa um pouco mais difícil: construí-lo.

DADOS ESSENCIAIS

  • 5.091 startups activas em Portugal em 2025.
  • €2,856 mil milhões de volume de negócios e cerca de 28 mil trabalhadores.
  • Contributo estimado das startups: aproximadamente 1% do PIB.
  • Produtividade portuguesa: 68,2% da média da UE em 2024, segundo a Comissão Europeia.
  • Mercado português de VC/PE: 0,19% do PIB em 2024, contra 0,55% na UE.

Nota Editorial

Esta crónica constitui uma análise crítica de política económica. Não atribui inutilidade ao empreendedorismo nem considera automaticamente desperdício todo o financiamento público dirigido a startups. Distingue dotações, coinvestimento, incentivos e financiamento público, instrumentos que não são contabilisticamente equivalentes.

O argumento central é outro: depois de uma década de forte promoção institucional do ecossistema, a avaliação deve deslocar-se do número de startups, eventos e pitchs para métricas de escala, produtividade, valor acrescentado, propriedade intelectual, exportações, retenção de centros de decisão e retorno económico de longo prazo.

Os dados da Startup Portugal apontam para 5.091 startups activas em 2025, €2,856 mil milhões de volume de negócios, cerca de 28 mil empregos e aproximadamente 1% do PIB. A Comissão Europeia identifica simultaneamente baixa propensão das empresas portuguesas para scale-up, produtividade em 68,2% da média da UE em 2024 e um mercado de VC/PE menos profundo. É nesta tensão entre dinamismo de criação e dificuldade de escala que assenta a crítica editorial.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Com a colaboração, co-autoria editorial e investigação de Augustus Veritas — AI Assistant
Fragmentos do Caos
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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