Ainda acredito na humanidade, e num futuro digno para todos!
Ainda acredito na humanidade
Nota pessoal · Francisco Gonçalves
Acredito na humanidade. Mas, ao chegar ao fim de uma vida longa, começo por vezes a detestar os humanos.
Talvez eu não esteja verdadeiramente a começar a detestar os seres humanos, mas aquilo em que tantos escolhem transformar-se quando lhes dão poder, dinheiro ou impunidade.
Ao longo de uma vida, a esperança deixa de ser ingénua.
Vemos a mentira recompensada, a mediocridade promovida, a crueldade normalizada e a decência tratada como fraqueza. Vemos homens sem mérito ocuparem os lugares de quem trabalhou, estudou e criou. Vemos a justiça hesitar perante os poderosos e correr apressada atrás dos frágeis.
É cansativo.
A humanidade é uma ideia magnífica. Os humanos, infelizmente, insistem em administrá-la.
Mas não quero entregar a espécie inteira aos seus piores exemplares.
Também conheci pessoas boas. Pessoas que criaram, ensinaram, cuidaram, protegeram, recusaram a corrupção e atravessaram a vida sem vender a consciência. Pessoas que ajudaram sem exigir testemunhas, que deram sem anunciar e que permaneceram dignas mesmo quando ninguém as recompensou.
Eu próprio procurei viver assim.
Trabalhei, criei, ensinei, cuidei da minha família, recusei compromissos que me envergonhariam e continuei a procurar conhecimento quando teria sido mais fácil acomodar-me. Continuei a indignar-me perante a injustiça, porque quem perdeu verdadeiramente a humanidade já nem sequer se indigna.
Talvez aquilo que sinto não seja ódio.
Talvez seja cansaço.
Talvez seja desilusão.
Talvez seja o luto pela humanidade que poderia existir e teima em não nascer.
Sofremos não apenas pelo mal que os humanos fazem, mas por sabermos aquilo que seriam capazes de fazer se escolhessem a inteligência em vez da ganância, a solidariedade em vez do egoísmo e a verdade em vez da conveniência.
É essa distância entre o que somos e o que poderíamos ser que mais dói.
Os anos não destruíram a minha esperança. Retiraram-lhe apenas a inocência.
Já não acredito que o progresso moral seja inevitável. Sei que a civilização é uma camada fina, que a democracia pode adoecer, que a justiça pode ser capturada e que a bondade precisa de ser defendida todos os dias.
Mas continuo a acreditar.
Não numa humanidade abstrata, perfeita e inexistente.
Acredito naquela que surge em pequenos gestos: numa mão estendida, numa palavra honesta, numa ideia partilhada, numa criança que ainda olha o mundo sem cinismo, num homem que recusa vender-se, numa mulher que cuida de alguém quando todos os outros partiram.
É pouco, talvez.
Mas é tudo o que alguma vez impediu o mundo de se tornar completamente desumano.
A minha revolta não nasce do desprezo pela vida humana. Nasce de ter esperado mais dela.
E talvez seja essa a última forma de esperança: continuar desiludido, continuar indignado e, apesar de tudo, recusar abandonar a humanidade aos humanos que menos a merecem.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos · Nota pessoal


